Tara
Westover. Uma educação americana
Uma
auto-biografia em carne viva de Tara Westover que se lê, não sem susto, como um
romance em que o fantástico e o grotesco convivem sem fronteiras. Uma história
de uma Doutorada improvável em Cambridge, forçada arruaceira das montanhas da
sucata do Idaho que teve que optar entre a pertença familiar no enclave de um
mundo de paranoia e recusa de qualquer modernidade e a ilustração de uma
pluralidade de um universo bem mais amplo e rico - com um perverso sentimento
de traição e culpa à mistura, numa crosta profundíssima
1.Tara
Westover nasceu, em 1986, nos EUA, nas montanhas do Idaho. Uma terra de
cascavéis, cavalos selvagens, penhascos, rios e montanha (p.24), orografia que
transmite a ideia de soberania, privacidade, isolamento, domínio (p.44), campo
“onde as casas são poucas e os candeeiros da iluminação pública ainda mais
escassos, onde a luz das estrelas reina sem rival” (p.170).
2.O Estado norte-americano não sabe da
existência de Tara. Aliás, quatro dos sete irmãos da família de que faz parte
não têm certidão de nascimento. Será, já, com 9 anos de idade que Tara verá
requisitada, para si, uma certidão de
nascimento atrasada – e, quando a certidão chegou a sua casa, pelo correio,
sentiu-se, mesmo, expropriada (p.37). Não tem registos clínicos. Não vai a um
hospital. Já adolescente, nunca fora vacinada. Não vai à escola. Na habitação
familiar, não há televisão nem rádio (p.27). Tal como, durante anos, não
existiu telefone. O automóvel dos Westover não tinha seguro e, no seu interior,
não se usava cinto de segurança. O desejo de seu pai era o de serem uma família
auto-suficiente: “não havia nada que [o pai] mais odiasse do que o facto de
sermos dependentes do Governo” (p.31). Viver à margem do sistema, um objectivo a
que se consagraria devotadamente.
3.Filho de um homem violento e de
feitio explosivo (p.43), o pai de Tara era um homem profundamente severo, mórmon
literalista, um “poço de carisma” (p.36), orgulhoso, forte, atlético, duro, um
homem a quem não interessava o que os outros tinham a dizer. Quando não estava
a falar, exigia silêncio; eram sempre os filhos que o ouviam, nunca o inverso
(p.257). Defensor da supremacia branca, integrando, no seu discurso, múltiplos
elementos de paranoia, delírios, mania (p.243), era dono de uma sucata, na qual
os vários filhos foram trabalhando, desde idades muito precoces, árdua e
doridamente. Reclamava o lar como o lugar da mulher (p.150). Membro vitalício
da NRA (National Rifle Association),
a associação que visa a promoção dos direitos dos proprietários a armas de
fogo, protecção da caça e da auto-defesa nos EUA.
A mãe de Tara, por sua vez, era
herdeira e tornou-se parteira (sem licença nem certificados, ou seja, podendo,
em as coisas correndo mal [num parto], vir a ser acusada de homicídio), a par
do desenvolvimento de ervas medicinais. Viu os pais oporem-se ao seu casamento,
mas nele permaneceu, quase sempre (em posição) submissa. Com uma única
excepção, no relato de Tara, cedeu invariavelmente ao marido, incluindo as
vezes em que teve de optar entre este e algum dos filhos. Vítima e cúmplice de
uma violência larvar em família, incluindo a do filho Shawn sobre seus irmãos.
Procurando conciliar o inconciliável, sem nunca chegar a erigir qualquer linha
vermelha que travasse uma casa muitas vezes caótica e sem harmonia física ou
psicológica.
4.Quando crescesse, Tara sabia bem o
que lhe estava destinado: aos 18 ou 19 anos “casava-me”; “o pai dava-me uma
quinta” e “o marido fazia ali a casa”; a “mãe” ensinar-lhe-ia a ser parteira e “a
usar ervas medicinais” (p.147), ofícios com que se ocuparia até mais não poder.
Talvez os CD de Mozart e Chopin de um
irmão mais sensível tenham feito uma diferença decisiva para uma curiosidade
que a levará a universos nos antípodas daqueles em que cresceu. Ouviu-os vezes
sem conta. A música e a dança marcarão aquela adolescência – ainda que, mesmo
aí, com mil cuidados, como aquele de não mostrar a roupa, um tudo nada mais
colada ao corpo (o fato de dança), ao pai (que considerava os top’s usados por
mulheres como algo próprio de “gentias”). Os filamentos da doutrina mórmon –
onde só muito mais tarde questionaria a poligamia ali exaltada – são também
objecto do seu interesse e estudo. Na primeira vez que usou batom, o irmão
Shawn chamou-lhe galdéria – ela que, aos 15 anos, nada sabia sobre concepção,
nem nunca beijara um homem, mas chegara a julgar pode estar grávida. Tyler, o
irmão que gostava, também, de aprender com os livros e se fechava no quarto a
estudar contra a vontade paterna – “um homem não pode ganhar a vida com livros
e folhas de papel” (p.61); “os doutorados eram Filhos da perdição. O ensino
doméstico era um mandamento do Senhor” (p.184) – surge, em toda a descrição
auto-biográfica de Tara, como (seu) verdadeiro anjo da guarda.
5.Para os Westover, a escola é uma
estratégia para afastar as crianças de Deus. Nas escolas e universidades, estão
espiões socialistas e Illuminati a
soldo do diabo. A mãe ensinara os filhos a ler, e o estudo das Escrituras é
feito, complementando catequeses, em família. Certo dia, calhou ao pai ler um
excerto de Isaías: “manteiga e mel comerá até que saiba rejeitar o mal e
escolher o bem” (p.19). Imediatamente o frigorífico é esvaziado de tudo quanto
possui e, durante muito tempo, passa a conter porções abismais de manteiga e
mel. O fundamentalismo espreita em toda a linha: o pai acumula provisões nas
quais gasta tudo o que tem, preparando-se para o último dia (terreno). A
passagem de ano, por consequência, é vivida com consternação, pois que às 0h do
ano 2000 - hora marcada, no coração paterno, para o apocalipse - nada sucede. O
pai fica prostrado, deprimido.
Mesmo quando fizer o improvável
bacharelato, numa universidade que aceita alunos do ensino doméstico, Tara
manterá a forma mentis que foi
adquirindo em casa ao longo dos anos: “era proibido fazer compras no Sabat, eu
nunca comprara nem uma pastilha elástica que fosse ao Domingo (p.183); beber Diet Coke era “uma violação dos
conselhos do Senhor relativos à saúde” (p.183). Ver filmes dominicais era algo
que estava, igualmente, vedado e que era escrupulosamente aceite (p.187). No
seu dizer, cedo percebeu que o pai acreditava em um “Deus diferente”: “tinha a
consciência de que, embora a minha família fosse à mesma igreja onde ia toda a
gente da nossa cidade, a nossa religião era diferente. Eles acreditavam na modéstia, nós
praticávamo-la. Eles acreditavam no
poder curativo de Deus, nós deixávamos os nossos ferimentos nas mãos Dele. Eles
acreditavam que deviam preparar-se
para a Segunda Vinda, nós estávamos efectivamente preparados” (p.187). Ainda
assim, sendo certo que bastante tempo após a leitura de Isaías, o pai esquece-se da manteiga e mel, e o frigorífico volta a
diversificar os produtos que acolhe – tal como aceitará que a mulher trabalhe
fora de casa, com a explicação de que esse parêntesis às regras que pretendia
ver seguidas servia para não se conformar a dependência alguma do governo. E o
orgulho com a voz da filha, por todos elogiada no culto, coloca uma adversativa
à absoluta humildade. Humanas e compreensíveis contradições.
As ervas medicinais farão um tal
sucesso na comunidade que se transformam numa autêntica indústria (a
multiplicação de dólares não questiona a legitimidade/adequação/eficácia do
produto que coloca à disposição da clientela). Já com alguns filhos, como Tara,
fora de casa, são contratados, pela família, vários empregados – sempre
sujeitos à irascibilidade do patrão -, o lar alarga-se, do ponto de vista
físico, substancialmente. Mas em existindo uma oferta de 3 milhões pelo
negócio, o pai rejeitará, porque o seu objectivo (e serviço) não é o dinheiro,
mas a cura, através de tais ervas.
6.Não é impunemente que se absorve, em
profundidade, toda uma mundividência. Quando Tara choca de frente com novos
mundos que a universidade providenciará, o sentimento pode ser tanto o de
indignação com a educação familiar que recebera – “não percebo porque não me
deixaram ter uma instrução decente” (p.192) – quanto o de culpa por estar a
abandonar o seu mundo “natural”, aquele que lhe cabia “cumprir”: “não sou uma
boa filha. Sou uma traidora, uma loba entre as ovelhas” (p.174).
Esta é a fratura decisiva que subjaz a
todo o livro, uma crosta por sarar, em carne viva, dilacerante, excruciante que
nos chega aos ouvidos gritada, soluçada, magoada: “o presente parecia estar
[permanentemente] à mercê do passado” (p.258). Dividida em duas, a nova
carapaça de quem obtém bolsas e estuda em Cambridge, Harvard, Oxford, Paris – e
que aí se transforma -, e a adolescente de 16 anos que continua a latejar em
si, pertença a dois mundos que conflituam em ringue aberto, geradora de inúmeras
contusões e ferimentos graves, indecisão que a leva a protelar o doutoramento,
com 18 a 20 horas por dia a ver tv, de série em série, a droga, o escape que
adiam a decisão última: preferia a família escolhida á que lhe fora dada
(p.318), sentença derradeira.
7.Mesmo quando escreve, em fúria, ao
pai, uma carta em que o trata por “facínora, tirano”, entre outros impropérios;
mesmo quando as recordações de uma infância obrigada a trabalhar entre máquinas
que estão à beira de a triturar, sem qualquer amparo paterno (na sucata
familiar); mesmo quando balança entre uma hipotética doença bipolar do pai e o
lado puramente fanático daquele (a “biologização do mal” ressoa por aqui);
mesmo quando em definitivo percebe que a querem destruir, dizendo-a possuída
pelo demónio, negando-lhe as memórias da violência louca de Shawn sobre ela,
levando-a a duvidar de si própria, as sensações de traição e culpa não deixam
de assomar ao espírito. Aliás, ainda que, aparentemente, nesta auto-biografia,
a borboleta, por fim, pareça emancipada – “quis conhecer mais verdades do que
aquelas que o meu pai me dera” -, não se antolha como definitiva uma separação
– “não vejo os meus pais há anos”, constata, em 2018, a fechar o livro intenso
que nos oferece – que ao longo da reflexão da autora parece sempre precária
(como cada ganho, conquistado a duras penas, a um passado/pele que parece
puxá-la para trás).
8.Relato, também, sociológico, o que se
alcança com Tara: o da rapariga que não tem, nem sequer sabe usar roupas
adequadas à vetusta Cambridge. Que quase sempre se sente fora de contexto face
a colegas que são filhos de professores de Oxford ou descendentes de diplomatas
(p.304); onde aqueles se curvam nos telhados do Trinity College e esta se
mantem hirta, sem problemas de equilíbrio corporal, muitos anos de adestramento
selvagem, na mesma circunstância: “o lugar dos outros estudantes era a
biblioteca, o meu era num guindaste” (p.272). Ela sabia que era “arruaceira
como os irmãos” (p.63), baby-sitter
aos 11 anos, empregada de supermercado ou em casa de gente rica, crescendo numa
casa sem fragâncias nem delicadezas. De aí que um grande elogio de um professor
– dou aulas há mais de 30 anos em Cambridge e este é um dos melhores ensaios
que já li [ensaio escrito por Tara], p.274 – lhe cause mais embaraço do que
alegria: “tolerava qualquer forma de crueldade melhor do que a gentileza”
(p.275). Só em Harvard – ela que faz o Bacharelato na Brigham Young University,
em 2008; Mestrado em Filosofia no Trinity College, em Cambridge, em 2009; aluna
visitante em Harvard em 2010 e Doutoramento em História, em Cambridge, em 2014
- se pacifica como a rapariga pobre e ignorante que foi, numa família tão
(ultra) conservadora quanto, paradoxalmente para os que reclamam que tal se
realiza apenas entre os que seguem vanguardas dissolventes, disfuncional, e
assume a história que viveu – até lá, os fantasmas do passado, levam-na a
descarregar emocionalmente no fortuito namorado Charles, com quem, pois, não
ficará muito tempo.
“Nunca te ocorreu que tens tanto
direito a estar aqui como outra pessoa qualquer?” (p.277), perguntara-lhe um
dos académicos que reconhece o seu enorme talento, em Cambridge.
9.A biografia da ainda jovem adulta
Tara Westover lê-se como um romance e cai como um repente cinematográfico de
cortar a respiração: os acidentes na sucata, sempre no fio da navalha entre a
vida e a morte; os despistes de madrugada nas bolinas sobre a neve de um
machismo providencialista ao volante; a recusa de tratamentos, descrença na
medicina moderna, mesmo quando se chega a ferimentos intensos (no núcleo
familiar); os caracteres fortes, excessivos, demenciais, como o de Shawn – o brutal
esfaqueamento do seu pastor alemão, à frente do filho, é cena que não se
esquece, bem como o passar da navalha, ensanguentada por via desta morte, à
irmã Tara, sobre a qual o bafo de confisco pessoal paira em permanência (e Tara
partilha com o leitor o medo de desejar que o irmão morra); a humilhação de chegar
ao fim da adolescência e entrar na universidade com desconhecimento da palavra
“holocausto”, levando um auditório do ensino superior a entender tal
manifestação (o que significa isso?) como uma piada de péssimo gosto; a
ignorância de qualquer símbolo matemático e o percorrer 60 km para adquirir um
manual de álgebra; o desconforto social e as pesadas memórias – e a corrosiva
tentativa de manipulação da memória – do passado; os choques de ódio, em estado
puro, entre diferentes elementos familiares – “é estranho como damos às pessoas
que amamos tanto poder sobre nós” (p.232). Finalmente, a clara separação entre
os irmãos que saíram da montanha e se doutoraram daqueles que ficaram sob o
jugo tirânico de um pai ensandecido. Neste confronto último, montanha-cidade,
baixa escolaridade-elevadas qualificações vai, ainda, um concentrado de uma
fractura que marca, fortemente, uma América – na qual, por vezes, se conjuga um
conservadorismo ultra a uma dimensão libertária não menos radical, mesmo que
para nós tais termos não casem - que é dada a ver em histórias (deveras)
singulares como a da muito talentosa – uma inteligência superlativa com que a
natureza a cumulou - e tenaz – estudou com a intensidade dos loucos, ardeu em
febre antes de exames decisivos - Tara Westover.
Pedro Miranda
(publicado no jornal I)
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