"A FÁBRICA DE NADA", DE PEDRO PINHO

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Há algum tempo que não regressava à sala de cinema do Teatro de Vila Real, mas em boa hora o fiz para ver aquele que muitos consideram o melhor filme sobre a crise - realizado por Pedro Pinho (a partir de uma ideia original de Jorge Silva Melo e baseado na peça de teatro de Judith Herzog, construído com João Matos, Leonor Noivo, Luísa Homem e Tiago Hespanha). Centrado num caso de auto-gestão - na realidade da Otis 1975-2016 - numa fábrica situada na Póvoa de Santa Iria,  mescla realidade e ficção, tem operários por actores, coloca os vários dilemas com que se deparam os que vêem a deslocalização dos seus postos de trabalho (em muitos casos em idade em que a requalificação e o emprego futuro não se vislumbram), são confrontados com os sorrisos amarelos dos "reajustamentos" e os "amanhãs que cantam" das Administrações, que se transformam em propostas de rescisão por mútuo consentimento - procurando, de uma vez, juntar cenoura com pau: "agora ainda há dinheiro, daqui a uns meses...não sei" -, os valores propostos a dividir para reinar, e depois as respostas diversas, cada caso é um caso, que trabalhadores dão ao que se lhes remete, entre a esperança e uma vida à beira do abismo, avançar (ou fuga para a frente, há escapatória?) como única alternativa para quem não concebe, não tem os instrumentos, não sabe fazer mais nada, e os dez mil euros que dão para alimentar os filhos, a escola, ao fim de um ano não se sabe mas não ficam sem comida na mesa até lá. Será isso deslealdade ao combate e ao espírito de grupo?, mas que importa quando as crianças estão nas nossas mãos?, e, todavia, que estratégia, afinal, há, para casa e para o emprego, como defender ambos de modo mais adequado? Sem recuos, avançam mesmo, um grupo de operários - a quem "roubaram" um conjunto de maquinaria, deixando-os na fábrica a ocupar os postos de trabalho, mas sem labor acometido, numa lógica de desgaste emocional-psicológico - para a ocupação da fábrica e mandam-se os gestores e gestoras geniais, cheios daqueles chavões tão típicos - nos intervalos da manicure - para lá de Braga. O filme, por um lado, propõe uma leitura crítica do capitalismo nas palavras - e, por vezes, na voz - de Anselm Jappe (em Portugal, publicado pela Antígona), da perspectiva sobre o significado do trabalho (apenas o que implica a mercadoria?) à questão da competição e ("vou matar o meu vizinho, ou construir uma horta comunitária?"), mas desconstrói, em simultâneo, o ideólogo puro, sem interesse pela realidade, sem interesse pelas pessoas, que vem da Argentina, como uma espécie de antropólogo ou biólogo a ver o que dá, com ratinhos que quer manipular, a experiência de auto-gestão em Portugal, no que pode ser "uma lição para a esquerda de toda a Europa". E as pessoas não querem ser "a lição para a esquerda de toda a Europa", mas dar de comer aos filhos e pagar-lhes os estudos, como desmonta o mais jovem dos operários. Uma surpresa, atira-lhe, ainda este: sair do sistema significaria não propriamente ser de esquerda, mas nada mais do que abdicar do conforto, das mercadorias, da vida de que ninguém quer abdicar. As contradições, as hesitações, o esboço de alternativas, os limites das mesmas, o tipo que aceita a indemnização para viajar, ir de férias, e seja o que Deus quiser, ou que abandona o país para encontrar um emprego lá fora, as personalidades mais conservadoras ou mais ousadas que são os operários que decidirão se mobilizar talento - quem organize as contas na empresa - implica salários desiguais, ou se isso feriria o projecto igualitário que querem promover, a linguagem cerradamente ideológica, a importância das palavras e o que elas indicam sobre as lentes com que apreendemos o mundo e o que nele mais nos motiva ou importa. Não há solução, mas tentativas de caminho, precário, entre as críticas a um modelo, as dúvidas cidadãs e pessoais, uma sociologia que conta histórias parecidas, verdadeiras, de quem desde menino teve que trabalhar e sabe fazer tudo à mão, mais as curiosidades e o auto-didactismo de quem foi coleccionando nomes de países, capitais, dirigentes políticos. Assomos de fúria, resistência, desespero, dúvida, centralidade do trabalho na vida das pessoas, resiliência, lealdade, hesitação, vontade de mudar, famílias a cargo, precariedade existencial, idealismo, ousadia e temeridade, um mundo em ruínas, a família da empresa, a possibilidade de trair mesmo elementos dessa família, a igualdade e o poder, o deprimido e o falador, a mãe ou o quase reformado, as histórias do quotidiano que são as de décadas de dias de labuta, o abandono por parte de todos os poderes, uma miséria ao fim de tanto ano na fábrica, o mercedes do empresário quando se diz que não há hipóteses de evitar entrar em insolvência, a opacidade de quem não dá a cara, a deslocalização para ganhar mais e desligada do tecido social local, os rostos dos verdugos, a vida em apuros, o mundo tão complicado como ele é.

Pedro Miranda


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