A NORTE DO NORTE (GEORGE DUSSAUD)
A
Norte do Norte
Até
16 de Setembro, no Centro Português de Fotografia (CPF), na Cadeia da Relação,
no Porto, ficamos, transmontanos por nascimento e gosto, presos à memória que
trazemos connosco: a da jorna dura, rude, campos férteis às mãos da labuta humana
sintonizada com o projecto da Criação, egrégios avós que nos legaram identidade
granítica, das casas onde viveram ou pelas quais passaram, prados calcorreados,
corridos na pastagem das cabras e ovelhas, no leite chupado, sorridente, e
sorridentemente, na teta da vaca. Castos namoros, em cantigas de amigo. Uma ida
à fonte mais demorada, a traço de lírica imemorial, com os irmãos, muitos, a
cobrir as costas. Quando cobriam e não eram malvados.
A preto e branco, escolha subjectiva, o(s) retrato(s) de George Dussaud poderia(m) traduzir nessa fotografia a duas cores – sim, há, também, resíduos de cinza sobre o papel – uma dupla ideia que me ocorre enquanto percorro a exposição: a de que se o Norte do Norte de Portugal, 1980-1995, faz lembrar, verdade, “certas comunidades primitivas”, ele lança, simultaneamente, um forte apelo, interpela-nos instintivamente como espaço primordial.
Há alegria, por entre o frio que desenha caras, rugas rogadas dos céus, mas não corações, esses viçosos e flamejantes corações, há alegria por certo. Uma fotografia, Dussaud, percebemo-lo, colocado em plano sobranceiro ao restante grupo tira espontânea, espontâneo: há última ceia (!), vê, então, como um achado divino, como quem vê do alto. Doze pratos, em desfolhada feliz, debruada a feno, cadeira desnecessária e, logo, inexistente, posta em comunidade na simplicidade, ia a dizer solenidade, do linho sobre a mesa. Simplicidade na conversa cantiga à desgarrada, galarós a disputar poleiro, solenidade na reunião de quem partilha o pão e o vinho. Eis a fotografia que mais me encanta. Que mais me prende.
Fito, depois, a cara dos meninos-homens, sempre mais homens do que meninos apesar de serem meninos, mas são já meninos de canivete na mão, paradoxo, contradição ou circunstância (?) e parecem-me sempre tímidos, acanhados, desconfiados, talvez, do mundo lá fora, onde aqueles seres “simples e verdadeiros” não querem ser corrompidos.
Todos, no entanto, são bem-vindos ao reino maravilhoso. E bem tratados. Todos poderão partilhar da côdea que sustenta o porco acabado de matar. Telúrico retrato, onde o fogo não falta. E até, sofisticação literária em forma e força de imagem, Alice com textura de Lewis Carrol, onde o bocejo canino é, fortuitamente, adequado ao quadro artisticamente desejado.
Xailes pretos de luto? Sim, cemitérios católicos, mulheres peregrinas. Mas não serão, também, xailes pretos das Martas-anjos caídos de que fala Pires Cabral, na consabida arte transmontana do conto, em Vilar Frio (conto introdutório a Portugal Terra Fria, de George Dussaud)? Daquelas Martas que viram os maridos saltar fronteira em busca de um mundo melhor, que foram para a França e para a Suiça, para a Alemanha e os Brasis, e assim enviuvaram, fazendo promessas mil de que Ninguém, mais cedo do que tarde, desconfiara…acabaram, quase em definitivo, os fornos comunitários? Foi-se, maioritariamente, o espírito de entreajuda, de solidariedade, de caridade? Perdeu-se, de vez, a agricultura? Já ninguém, praticamente, faz pão em casa? Já ninguém faz troca-a-troca, em economia rudimentar? Foi-se o mundo onde “o valor de um homem mede-se pela sua coragem no trabalho e a dureza da vida não impede a alegria” (Dussaud)? Foi abalada a fortaleza-mor, no Norte do Norte?
Foram-se, cada vez mais, de um país que não lhes liga, que não os quis. Essa saída agora, já com a CEE e tudo, foi mais frustrante. Os doutores não aproveitaram a Europa. Frustrante de mais para quem, assim, ama e é ensinado a amar a terra. Emigração levou miúdos, já não ensimesmados, já não analfabetos, talvez já não tão mal vestidos e ranhosos, mas com eles a escola, os correios, a polícia, o médico, a televisão e o instituto de meteorologia. Levou quase tudo o Paço, e tornou o prenúncio de morte, lá dos lados de onde eu venho, um ruidoso sinal ao qual os tímpanos fogem, medrosos. Não é Soutelinho que se vai, na serra do Larouco; não estão em causa Pitões das Júnias, o Barroso, o Gerês e a serra da Nogueira, eternizados por Dussaud, mas, sobretudo, pelas gerações que no-los legaram: é o país, é Portugal que está pior.
A preto e branco, escolha subjectiva, o(s) retrato(s) de George Dussaud poderia(m) traduzir nessa fotografia a duas cores – sim, há, também, resíduos de cinza sobre o papel – uma dupla ideia que me ocorre enquanto percorro a exposição: a de que se o Norte do Norte de Portugal, 1980-1995, faz lembrar, verdade, “certas comunidades primitivas”, ele lança, simultaneamente, um forte apelo, interpela-nos instintivamente como espaço primordial.
Há alegria, por entre o frio que desenha caras, rugas rogadas dos céus, mas não corações, esses viçosos e flamejantes corações, há alegria por certo. Uma fotografia, Dussaud, percebemo-lo, colocado em plano sobranceiro ao restante grupo tira espontânea, espontâneo: há última ceia (!), vê, então, como um achado divino, como quem vê do alto. Doze pratos, em desfolhada feliz, debruada a feno, cadeira desnecessária e, logo, inexistente, posta em comunidade na simplicidade, ia a dizer solenidade, do linho sobre a mesa. Simplicidade na conversa cantiga à desgarrada, galarós a disputar poleiro, solenidade na reunião de quem partilha o pão e o vinho. Eis a fotografia que mais me encanta. Que mais me prende.
Fito, depois, a cara dos meninos-homens, sempre mais homens do que meninos apesar de serem meninos, mas são já meninos de canivete na mão, paradoxo, contradição ou circunstância (?) e parecem-me sempre tímidos, acanhados, desconfiados, talvez, do mundo lá fora, onde aqueles seres “simples e verdadeiros” não querem ser corrompidos.
Todos, no entanto, são bem-vindos ao reino maravilhoso. E bem tratados. Todos poderão partilhar da côdea que sustenta o porco acabado de matar. Telúrico retrato, onde o fogo não falta. E até, sofisticação literária em forma e força de imagem, Alice com textura de Lewis Carrol, onde o bocejo canino é, fortuitamente, adequado ao quadro artisticamente desejado.
Xailes pretos de luto? Sim, cemitérios católicos, mulheres peregrinas. Mas não serão, também, xailes pretos das Martas-anjos caídos de que fala Pires Cabral, na consabida arte transmontana do conto, em Vilar Frio (conto introdutório a Portugal Terra Fria, de George Dussaud)? Daquelas Martas que viram os maridos saltar fronteira em busca de um mundo melhor, que foram para a França e para a Suiça, para a Alemanha e os Brasis, e assim enviuvaram, fazendo promessas mil de que Ninguém, mais cedo do que tarde, desconfiara…acabaram, quase em definitivo, os fornos comunitários? Foi-se, maioritariamente, o espírito de entreajuda, de solidariedade, de caridade? Perdeu-se, de vez, a agricultura? Já ninguém, praticamente, faz pão em casa? Já ninguém faz troca-a-troca, em economia rudimentar? Foi-se o mundo onde “o valor de um homem mede-se pela sua coragem no trabalho e a dureza da vida não impede a alegria” (Dussaud)? Foi abalada a fortaleza-mor, no Norte do Norte?
Foram-se, cada vez mais, de um país que não lhes liga, que não os quis. Essa saída agora, já com a CEE e tudo, foi mais frustrante. Os doutores não aproveitaram a Europa. Frustrante de mais para quem, assim, ama e é ensinado a amar a terra. Emigração levou miúdos, já não ensimesmados, já não analfabetos, talvez já não tão mal vestidos e ranhosos, mas com eles a escola, os correios, a polícia, o médico, a televisão e o instituto de meteorologia. Levou quase tudo o Paço, e tornou o prenúncio de morte, lá dos lados de onde eu venho, um ruidoso sinal ao qual os tímpanos fogem, medrosos. Não é Soutelinho que se vai, na serra do Larouco; não estão em causa Pitões das Júnias, o Barroso, o Gerês e a serra da Nogueira, eternizados por Dussaud, mas, sobretudo, pelas gerações que no-los legaram: é o país, é Portugal que está pior.
Pedro
Miranda
(publicado no jornal "Lamego Hoje")
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