ANALFABETOS DOS SENTIDOS (JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA)

 

Para mim, foi uma estreia - a presença, durante a tarde de hoje, nas Correntes d'escritas, na Póvoa do Varzim. Cheguei a tempo da conferência inaugural, de José Tolentino de Mendonça, passei pela mini-feira dos livros acantonada à beira do Cine-Teatro Almeida Garrett onde decorrem os trabalhos, escutei um pouco a apresentação de livros numa sala contígua ao palco principal, regressei ao anfiteatro para o debate das 17h30, com Hélia CorreiaManuel Alegre António Torres - ficando a faltar Eduardo Lourenço que, por doença (não grave) não veio. A conferência inaugural teve por título O silêncio dos livros. O debate até ao fim da tarde fez-se em torno de literatura e catarse. Sempre com a moderação (espirituosa não raro) de José Carlos Vasconcelos. Lugares completamente esgotados na sala (o que inclui os mais recônditos pousios, das escadas, aos camarotes sobrelotados e com bancos desconfortáveis, ou ao plano inclinadíssimo na zona cimeira da sala de espectáculos).

José Tolentino de Mendonça foi apresentado por José Carlos Vasconcelos como sendo "uma das vozes mais singulares e significativas da poesia portuguesa actual", gerando, não raramente, com as suas palavras, uma "grande perplexidade, até pelos lugares que ocupa". De resto, "a sua poesia é de uma grande riqueza e diversidade" alcançando no leitor "o maravilhamento da coisa de existir". Paradoxalmente, disse Vasconcelos, "a sua poesia recorda a de Alberto Caeiro".

Tolentino de Mendonça deixou, a principiar, uma senha, chave-de-leitura para o que se seguiria: a obra "A estética do silêncio", de Susan Sontag.
Principiou esta verdadeira oração de sapiência pela evocação de escritores que, a dado momento, abandonam a actividade literáriaRimbaud, eis o primeiro dos exemplos mencionados: de escritor passa a comerciante/traficante (na África do Norte). Mas pensemos, ainda, em Wittegenstein - o filósofo que abandona a actividade (filosófica) até aí prosseguida e passa a enfermeiro que presta auxílio aos militares. Tais abandonos, sublinha Tolentino, obrigam-nos a olhar "para o interior da escrita". De que material é feita?
Anna Akhmatova, que viu a sua vida (e dos seus mais próximos) torturada pelo jugo estalinista, deu conta de como a procura por um filho preso pelo regime do terror pode ser o lugar do indizível (de cadeia, em cadeia, sempre sem saber a sorte, nem se quer o local que lhe calhava, como que perdia a capacidade de expressar por palavras o que sentia). Portanto, há dimensões do humano que não são passíveis de serem ditas, escritas, traduzidas por palavras. Mas as palavras, no seu silêncio, podem manter vivas as perguntas.

O mote para a alocução seria o diagnóstico do filósofo Byung Chul-Han (em particular, pôde perceber-se, em A sociedade do cansaço) sobre a sociedade contemporânea no que esta tem de viragem do paradigma do imunológico para o de uma fadiga radicada no excesso de emoções, no acervo incontrolável de informação, na insaciável teimosia em nunca desligarmos (ou, com Pessoa, "de que estou cansado não sei e de nada me serviria saber, porque o cansaço ficaria na mesma"). Em este contexto, o do excesso de estimulação sensorial, cumpre, com efeito, "combater a atrofia dos sentidos" e retomar o caminho da sensibilidade. "Ah, se eu pudesse sentir!..." - eis o desespero contemporâneo.

Mas indaguemos, melhor, do que falamos quando falamos em atrofia.

a) A FORMA COMO LIDAMOS COM O SOFRIMENTO: há um "mito" que paira sob as nossas existências. O de que temos o "controlo da vida". Ora, pura e simplesmente, trata-se da "negação do princípio da realidade"Com tal pressuposto falacioso, a consequência é a de não estarmos preparados (equipados) para acolher "a irupção do inesperado". A dor, em esta cosmovisão que nos atravessa, é sempre vista como "tempestade estranha, tirânica". Somos completamente "capturados por ela". Há uma "combustão fechada" que se forma, "um incêndio íntimo que cresce" (aqui Marguerite Duras, em A dor, é agora a autora convocada). Ignoramos o que fazer. Precisamos de outros recursos para lidarmos com a dor. Ignoramos a melodia das coisas.

b) A ROTINA: a rotina começa por ser um "esforço de regulação", um positivo/favorável esforço de regulação. A vida seria impossível sem ela (o caos emergente). Só que esta virtude, esconde, contudo, um grave perigo: por vezes, "a rotina substitui-se à vida". Deixa de haver "lugar para a surpresa". A nossa vida passa para "piloto automático". Bem podem os dias ser novos (que adianta?). Sejamos claros: "a rotina não basta ao coração do homem". Intuímos, no fundo, que a nossa divisa deveria ser: "em cada dia, olhar tudo pela primeira vez", "cada instante como porta por onde entra a alegria".

c) EXCESSO DE COMUNICAÇÃO: segundo o maior estudioso das coisas da comunicação, McLuhancom o excesso de comunicação, "o indivíduo passa a ser uma presa". Em especial, "um dos efeitos da TV é retirar a identidade pessoal". Passamos a ser, apenas, um "grupo colectivo de iguais". Perde-se a singularidade pessoal. No tempo em que vivemos, somos, pois, remetidos para uma "hipertrofia dos olhos e dos ouvidos" ("viste aquilo? Ouviste a última?"; de entre os sentidos são estes que mais, ou quase exclusivamente, são agora reclamados). Sentidos à distância (contrariamente a sentidos de proximidade, como o tacto ou o paladar (e nos nossos supermercados, o olfacto perde, tudo tende a tornar-se asséptico). Tenhamos consciência de que "não é assim em todas as culturas". A nossa "distância da natureza tornou-se tão grande" que, por exemplo, "deixamos de saber andar descalços", ou "acariciar vidas desprotegidas". Em suma, "tornamo-nos nos analfabetos emocionais que somos" - Ingmar Bergman.

O silêncio é a experiência humana mais profunda. Silêncio que os livros geram. Permite-nos reaprender a arte de ser, quer dizer, a arte de saborear, escutar, ver, olfactar. 

Em "Contra a Interpretação", Susan Sontag diz-nos que vivemos na "sociedade do comentário" (sendo que na sociedade portuguesa, da política ao futebol, passando pelo social, esta evidência atinge o paroxismo). Bem ao invés, os livros, no seu silêncio, carregam a vida nua, a possibilidade de experiência, a alfabetização dos sentidos. Numa palavra, "a literatura é uma máquina de gerar vida; de gerar presença e presente".

Em definitivo, concentremo-nos nos sentidos:

TACTO: desde a Antiguidade Clássica que se pensou ser o tacto o primeiro dos sentidos (apesar de, em Aristóteles, aparecer em terceiro lugar). E o livro, justamente, TOCA-NOS. Porque, na ordem da criação, em primeiro lugar, somos criaturas tácteisO desenvolvimento dos sentidos terá começado no tacto (no feto). O tacto vem descrito como "o nosso primeiro olho"Ele permite que haja encontros: um tocar e um ser tocado. E olhemos as mãos com Rainer Maria Rilke: "as mãos são um organismo complexo, um delta onde desagua um rio que vem de muito longe". As mãos "têm direito próprio à sua beleza". E podem dizer uma biografia: "da forma como fomos tocados". O tacto "é um dicionário, um léxico".

O pintor catalão Miró teve um Mestre, Francisco Gali, que (em termos pedagógicos) arriscava por caminhos inesperados. Assim, colocava, nos discípulos, uma venda, para que estes tocassem o objecto (a desenhar) com os dedos (desenho a realizar, pois, não só com os olhos). O pintor, de outra forma, acreditava Gali, não conseguiria chegar à representação do mundo.

[verificámos, já, com o que vem dito, que sempre se procurou produzir uma hierarquia dos sentidos]

PALADAR: para S.Tomás de Aquinoo paladar era o mais perfeito dos sentidos. Para o autor, o tacto, o olfacto e o paladar são os sentidos inferiores - e, destes, o paladar é o mais limitado. Possui, muito escassamente, cinco categorias elementares. Já para Rousseau, "há milhentas coisas indiferentes ao paladar, ao olfacto, ao tacto, mas não ao gosto". Feuerbach questiona a divisão tradicional: também o paladar é elevado a acto científico e espiritual.
Em realidade, não são, hoje, raros "os primatólogos que atribuem ao paladar um papel-pivot no desenvolvimento humano". O desenvolvimento da cozinha terá permitido a expansão do cérebro ( e de aí, a composição das grandes sinfonias, ou as gravuras das cavernas).

VIVEMOS UMA MUDANÇA EPOCAL: COMPREENDEMOS QUE CARECEMOS DE UMA SABEDORIA MAIS INTEGRADORA. NÃO APENAS A MENTE (CONTA). Contamos o TODO QUE SOMOS. Há, pois, uma "maior consciência de nós próprios". Sabemos que sabor e saber - desde logo na sua origem latina - adquirem uma ressonância de grande proximidade. Segundo Ruben Alves, alunos e professores, por consequência, deviam passar, antes das aulas, por uma cozinha para tentar perceber a ligação saber-sabor (desejo).

OLFACTO: actua em nós como contacto fusional com o mundo. Há dimensões que se captam apenas pelo odor. Algo que é muito diferente da imagem. Cura-se, no olfacto, de "impregnação pura". Enquanto que na visão o objecto está fora de nós, no olfacto, exemplifique-se, quando sinaliza o perfume este já caiu sobre nós. Mais: na primeira semana de vida fora do ventre materno, o bebé já reconhece o cheiro da mãe. E é pelo olfacto que chegamos "à casa da nossa infância", "ao brinquedo" de outrora. "No reconhecimento de um odor, esperamos mais do que em qualquer outra representação" (Walter Benjamim). O cérebro reconhece 10 mil odores e este, o odor, "desperta sensações que nem sempre a linguagem reconhece".

AUDIÇÃO: o mundo que nos rodeia é completamente sonoro e, ainda assim, dele só captamos uma pequena parte. Pensemos, ilustrando, na capacidade auditiva dos animais: o elefante, até com as patas, capta som. Nossa limitação: 2 mil Hz. É a frequência mais aguda a que chegamos. Ora, a baleia azul emite sinais sonoros capazes de serem colhidos a centenas de quilómetros.
Escuta desinteressada do outro: não há, apenas, escuta com os ouvidos, mas também com o coração. E na escuta, escutar o quê, afinal: "Ouve, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo. Capta outra coisa que eu própria não consigo dizer" (Clarice Lispector). 

VISÃO: a luz viaja a 200 mil/km por segundo. A visão é a síntese de todos os outros sentidos: cores, profundidade, distância são-nos dados por esta. Segundo o poeta Tonino Guerra, tal como os crentes, os agnósticos também têm dúvidas. E, para este agnóstico em particular, nada o faz mais entrar em dúvida do que "o milagre absoluto que um olho é". O olhar remete para a reflexividade e, logo, para o binómio vidente/visível. O olho é fundamental, também, para o encontro com os outros e connosco mesmos. Essencial para nos lançarmos no mundo. Niculau de Cusa dedicou, num certo sentido, à visão um tratado, De visione Deio ângulo dos teus olhos à luz de Deus é infinito. As criaturas existem pela Tua visão. O ser das criaturas é o Teu ver e ser visto.

A literatura é uma "lente para nos olharmos melhor" (Marcel Proust). Leitura: com ela, fazemos uma experiência de vida que de outro modo não faríamos. Inscreve em nós uma brecha. Consegue introduzir lentidão (em nossas existências). Silêncio: escola de solidão. "Estamos sempre sozinhos com aquilo que amamos" (Truman Capote). A solidão fala, é polifónica.

A literatura de um país é o silêncio (chão) comum. O que foram as grandes paixões, silêncios, emoções que aquela comunidade viveu. A literatura é iniciação à vida. Na nossa cultura, perdemos os rituais de iniciação. Somos uma sociedade (secularizada) muito cinzenta. A literatura pode potenciar um encontro de homens e mulheres livres.

Porque é que se escreve? Acho que pelo mesmo motivo porque se lê. Se eu não escrever, morro - literalmente, os verdadeiros leitores, os leitores fanáticos sentem que definham se não lerem; a leitura afigura-se-lhes, pois, como "tábua de salvação", "arte de resistência", até "face à própria morte".
Precisamos de valorizar o silêncio como linguagem. Face a um conflito, dizemos: "a falar é que a gente se entende". Sim, é verdade. Mas também o silêncio "constrói pontes de entendimento que faltam, às vezes, às palavras". Silêncio: escola de paz e de reconfiguração. "Gostaria de ver o silêncio declarado património imaterial da humanidade" (risos na plateia). O silêncio é forma de comunicação extraordinária; comunhão, proximidade que nenhuma palavra do mundo é capaz de dizer.
Muitos dos grandes poetas chineses escreveram um único poema, um verso sobre uma rocha, ou numa árvore. O escritor é um bicho silencioso. "É da ruminação do silêncio que o encontro profundo com a palavra pode fazer-se".

Não iludamos: "o silêncio é a grande tentação do escritor". Do poeta. "É o demónio necessário da criação".

Nesse "evangelho muito amado que é o de S.João", encontramos a afirmação de que "no princípio era a Palavra" (não o silêncio). Alguns traduzem por "no princípio era a Relação", ou "no princípio, era o desejo de Palavra". Na verdade, "o silêncio é apofático: não dizendo, diz; não revelando, manifesta". Há no silêncio uma tensão utópica imensa: coloca-se no campo do não feito. "O poeta é alguém que se expõe ao silêncio, por vezes tem que se tornar um foragido, um indigente, um pária, tem de ganir como um cão". Um poeta é uma consequência do silêncio.


[a partir do caderno de apontamentos que tomei para a conferência inaugural das Correntes d'Escritas 2016. Qualquer erro e/ou limitação face à exposição de Tolentino de Mendonça é, pois, da minha inteira responsabilidade]

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