"AS MIL E UMA NOITES - VOLUME 1 - O INQUIETO"

 

O julgamento do galo, com um juiz que entende a fala dos bichos e um escrivão que acompanha à concertina, pode encerrar o momento mais original, onírico, de As mil e uma noites - volume I: o inquieto, de Miguel Gomes. Ele releva de uma plasticidade, de registos múltiplos, que a película assume (passível de, em essa estética, convocar, também, públicos plurais), pontuando momentos puramente ficcionais, se preferirmos alegóricos porque a história do galo poeta que pressentia no fogo que arde sem se ver as montanhas e serras devastadas pelo fogo real das chamas que assolam, anualmente, Portugal, convocando-nos a histórias de terrível densidade - os registos testemunhais dos que ficaram desempregados depois dos 50, voltaram para casa dos pais de onde haviam saído aos 18 anos, tiveram que devolver a casa ao banco, viram bens e esperança arrestados são tremendas - sem desmobilizar os que não ficariam para o puro documentário (uma das dimensões que a obra congrega, igualmente), dando-nos o sopro de uma vida onde a tragédia se enlaça, não raro, com o sorriso que irrompe inesperado, o burlesco que se impõe perante demasiada realidade. Quando um dos desempregados sem colocação à vista conta, como conta o desempregado que conhecemos da vizinhança, que quando interpelado pela felicidade que agora tem por poder ir constantemente à praia, se dá conta da dissonância cognitiva entre si e o seu interlocutor - "desde que estou desempregado não fui um único dia à praia, porque não há alegria para isso; quando uma pessoa está empregada, aí sim, há vontade e alegria para ir para a praia" – sentimos o seu desespero à flor da pele: “quando a minha mulher começa com muitas perguntas…uma pergunta, duas…à segunda já não consigo açambarcar”. Sorrio, sorrio com o verbo, açambarcar é muito bem apanhado, é muito genuíno, não querer ouvir ninguém, empatizo com aquela raiva, com aquele grito despejado no verbo, açambarcar, saiam da frente, deixem-me, caluda, fico com a cicuta até ao fim. O Portugal com a faca nos dentes, de que falou Nicolau Santos.

Nunca tinha pensado naquele ritual de ano novo, mergulho do mar em manada, pançudos ou trinca espinhas, que entra, inevitavelmente, pelo telejornal à hora de almoço a cada 1 de janeiro, como mais do que uma tradição mais ou menos simplória, fútil, continuação de uma certa embriaguez e maria vai com as outras – que prolonga a noite do concerto pimba do arraial precedente. A frase, contudo, que acompanha, no filme, a descrição do ritual é tão gelada como a ida ao mar em tempo de Inverno: não se pode negar a ninguém aquela oportunidade de pensar que toda a maldade, todos os pesadelos, angústias e tensões serão imolados na leva da água purificadora, torrente que tudo renovará, numa manhã de certo nevoeiro.

E há, neste retrato que fica perenemente de um país em implosão (2011-2015), uma incontornável dimensão política: ele fala de um país com “um governo aparentemente desprovido do sentido de justiça social”. Coloca-nos no cenário das reuniões governamentais com a troika. Aí, por entre muita caricatura, que evita que a obra se transforme ou pudesse ser catalogada de panfleto, surge um Primeiro-Ministro (representado por Rogério Samora) com ares de leviandade que, perante cada medida proposta dos membros da troika, se lamenta aparentemente sem sinceridade (“tem que ser não é?”, encolhendo os ombros), uma ministra das Finanças (representada por Maria Rueff) firme e hirta como uma barra de ferro, aparentemente desprovida de sentimentos, e um sindicalista que diz, constantemente, os mais obscenos impropérios atirados seja aos governantes nacionais, seja ao triunvirato, aparentemente sempre zangado com o mundo e desconhecedor de quaisquer constrangimentos à acção de quem quer que seja. Este último, o triunvirato, se não é completamente silencioso, tem uma expressão de autómato: “Inevitável”, “Inevitável”, “Inevitável”. E que outra palavra nos pretenderam impingir dia a dia, quatro anos consecutivos?

Às tantas, em pano e ruído de fundo, escutamos uma emissão de rádio na qual uma locutora informa da mais recente posição da troika, contraditória com outras posições por si tomadas. No filme de Miguel Gomes, nova metáfora, tal é tributário de uma substância que um mestre vudu forneceu aos membros da reunião (governo-troika), homens de há muito desprovidos de educação sentimental, eunucos cinzentos sem sangue nas veias, momentaneamente, por via do produto ofertado pelo Professor Karamba de ocasião, reconciliados com o prazer. O modo arbitrário – que racionalidade? – como algumas das instituições que integraram a troika foram mudando de posição/política ficava descrito em tons coloridos.

Pedro Miranda

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