"COLO", DE TERESA VILAVVERDE
1.Chama-se Colo, o mais recente filme de Teresa Villaverde, mas podia surgir com
vírgula ou parêntesis acoplado, falta de. Porque é da queda num abismo
completamente desamparado, de uma profunda falta de afecto, de uma enorme
carência de embalo (de cada uma das personagens que o povoam) que o filme
trata.
2.Talvez
porque tenha estado, no mesmo dia, a ouvir a entrevista que Augusto Santos Silva deu a Maria João Avillez (para o Observador) - uma das coisas, um
elemento-chave que ligava profundamente o cristianismo ao socialismo, regista o
sociólogo e ideólogo, era a dignidade do trabalho, melhor a dignificação que o
trabalho conferiria à pessoa o que, com a automação, e com a destruição do
emprego, fica em cheque; e daí ainda não se terem recomposto, assinala,
social-democracia e democracia-cristã, as duas grandes famílias políticas desde
o pós-Guerra, na Europa - uma das frases que trouxe comigo do filme foi: "Se o pai nunca mais arranjar trabalho, não
quero ficar com ele".
A frase de Marta (Alice Borges), a filha, é muito interpelante, por vários motivos: i) se realmente se acredita que a pessoa tem uma dignidade intrínseca e incondicional, e que, portanto, esta lhe sobrevém independentemente das capacidades e do estado económico-social em que se encontre, de modo algum se poderia sugerir que alguém não tem valor por, a dado momento, ou durante largo tempo mesmo, não encontra lugar no mercado de trabalho; ii) coisa diversa é dizermos que a dignificação social de cada pessoa exige da comunidade (de nós), e das decisões individuais, que se procure (promover) que cada um tenha acesso a meios de, por si próprio, encontrar meios de sustento (o assistencialismo não favorece a pessoa); iii) o perigo de não reclamar o "pleno emprego" a um conjunto de instituições que nos governam, e a toda a sociedade, é o de deixar cair esse objectivo e de não estimular políticas que o visem alcançar; iv) o risco da automação, por mais políticas de estímulo ao emprego que se criem, é tornar, em números significativos, o desemprego estrutural faz com que se tenha que repensar o que é trabalho, ou, por outro prisma, em outras políticas de rendimentos para as pessoas; v) a frase de Marta pode ser interpretada com um carácter utilitarista (e, porque não?, cruel): "não quero estar ao lado de um desempregado", "não quero estar ao lado de alguém que não me vai dar nada [materialmente], que não me vai ser útil" (e, muito possivelmente, alguém sem rendimentos, ou parcos rendimentos); vi) trata-se, ainda, de uma frase que dá bem nota do carácter de pária de um desempregado (e não é por acaso que muitos dos que se encontram nesta condição fogem ao contacto social, sentindo-se vexados e culpam-se pela sua situação). A voz de Marta pode, ainda, ser lida, como uma voz de um "coro" (social) que culpa e estigmatiza o desempregado pelo facto de este o ser. Toda a atitude, toda a (in)expressividade do pai (João Pedro Vaz) vai de encontro a esse registo; vii) tal evidencia, outrossim, a centralidade que, nas nossas sociedades, o emprego adquire na identidade de cada um (a pessoa define-se, não raramente, em função da sua ocupação profissional) e o tempo em que estamos interroga-nos, precisamente, se esse é o melhor caminho, mais, se esse caminho é possível com a revolução da automação; viii) curioso verificar que tendo o trabalho tal centralidade e, aparentemente, precisando a pessoa de trabalhar não apenas para o seu sustento mas para se sentir útil na sociedade em que se inscreve, sempre que se faz alguma proposta (política) co-relacionada (com este tópico da vinculação rendimentos-trabalho) se afaste esta noção da pessoa pretender sentir-se útil à sociedade (e se afirme o contrário: que a pessoa o que quer é nada fazer).
3.A certo momento do filme,
a mãe (Beatriz Batarda) diz à filha
que há momentos de guerra, de doença em que as pessoas, nomeadamente na mesma
família, têm que ajudar-se mutuamente, têm que fazer sacrifícios uns pelos
outros durante uns tempos - e isto para convencer a descendente a sair da casa
onde a família estava (Odivelas), e para a qual já dinheiro não há, e se
transfira para a casa da avó materna (zona rural), com o seu pai (a mãe vai
viver com uma amiga). A filha, apanhada pelo choque, reage em grito: "mas nós não estamos em guerra e ninguém
está doente!". A guerra como metáfora para o período que vivemos
durante o tempo da troika - e que
como sabemos, mesmo dito pelo actual Ministro das Finanças, Mário Centeno, esta semana, ao Finantial Times, estação que não
abandonámos estruturalmente - não deixa de ser uma imagem a ter em conta, mas
mais ainda a resposta que nos remete para o (sem) sentido de muito que foi
feito naquele específico período (quando não havia necessidade de semelhante
ruptura social; vide, também ao Finantial
Times, a entrevista ao ex-Ministro das Finanças alemão durante esses
tempos, Schauble).
4.O filme de Teresa Villaverde, como outros acerca do período da troika em Portugal, confronta-nos com a concretude de quotidianos abalados pela escassez material vivida: aqui, a falta de electricidade, a dificuldade em fazer todas as refeições, o pedido aos vizinhos para carregar os telemóveis (noutros dos filmes, prédios enormes por continuar a construir, deixados a meio, elevadores parados em prédios, ausência de possibilidade de ir a um cabeleireiro por parte das senhoras, o regresso da marmita, as empresas de cobranças difíceis, os suicídios...).
5.Em um tempo em que as
mulheres conseguem melhores resultados académicos do que os homens, adquirindo,
porventura (ainda que com discriminações por resolver), uma cada vez maior
resiliência (para o futuro) ao mercado de trabalho, creio que não é por acaso
que Teresa Villaverde imaginou esta mãe a ter dois empregos, e a ser o pai a
ficar em casa, sem trabalho, e a fazer a sopa e a lida doméstica. Do mesmo
modo, é muito sintomático do tempo em que estamos as lágrimas e o funeral ao
pássaro que Marta tinha em casa e que acabou por morrer. Sintomático da frieza
das relações humanas (da falta de colo), sintomático da importância de que hoje
se investem os animais não humanos (as relações com estes). Também muito
"ao dia" as relações pais-filhos, as liberdades adolescentes, uma
horizontalidade bastante.
6.A mãe não suporta os dois
trabalhos ao dia, e perde um deles - e com a perda do trabalho vai embora a
possibilidade de manter a casa de família; o pai não suporta o estar
desempregado, o não ter dinheiro, e a única pessoa que consegue ter para
desabafar é um ex-colega que ele, sob ameaça de uma navalha, obriga a conduzir
até uma praia. Um pai que quer banhos de imersão, que coloca um balde sobre a
cabeça, que dorme ao relento certo dia. Na família a cair aos pedaços (o
colapso da classe média bem retratado), há dias em que a mãe não sabe do pai,
noutros em que o pai não sabe da mãe, em que os pais não sabem da filha. É como
se cada um estivesse tão mal, e tão metido consigo, que já ninguém conseguisse
ter a energia suficiente para conseguir pedir explicações ao outro. A anomia, a
solidão mesmo no interior da família é-nos dada sob uma forma tremenda.
Marta mutilara-se, a amiga que leva a casa dos pais fora expulsa de casa por ir ter um filho ainda tão nova quase se suicida, o pai de Marta decide adoptar a criança da amiga da filha e leva-a consigo para casa da avó materna de Marta. A avó há anos que não vê a neta (lamiré aos actuais laços avós-netos...), e agora nem dá conta que a adolescente que chega com o genro não é ela. Marta vai pedir emprego em padarias, quer um qualquer lugar onde ficar, ela que se enamorara de um vocalista de banda de garagem (tendo os momentos iniciáticos, precoces, que muitos supõem em boa parte da juventude). A fuga aos estereótipos (geracionais) é muito bem conseguida no diálogo que a amiga de Marta tem com esta sobre a questão do aborto. Mas toda esta sucessão de factos, muitas vezes a raiar o absurdo, cola-se à pela das personagens, como que ultrapassadas pelos acontecimentos (pela tragédia): "o que se está a passar com a nossa vida?", pergunta Marta à mãe e, logo, esta ao pai.
Comentários
Enviar um comentário