CONVERSAS AO FIM DA TARDE: LABORINHO LÚCIO, NO ESPAÇO MIGUEL TORGA (2019)

 

A propósito de ideias e modos formatados de as expor, diálogo recente, à Gulbenkian, entre Álvaro Laborinho Lúcio, no papel de conferencista, e a menina que o acolhe, na tarde marcada, naquela instituição:
- É o dr. Laborinho Lúcio?
- Sou.
- Vai fazer a conferência?
- Sim.
- E traz powerpoint?
- Só power

Juntam-se, em São Martinho de Anta, no Espaço Miguel Torga, fim de tarde do segundo Sábado de Setembro (14-09-2019), Fernando Alves e Laborinho Lúcio. Perante mais de três dezenas de ouvintes, prolongam o diálogo por duas horas, na mais longa sessão do género, já sem lugar ou hipótese de participação do público, naquele lugar. Principiam por eloquentes declarações de admiração mútua, com o magistrado jubilado a referenciar o espaço radiofónico do decano da rádio como o momento mais inteligente e estimulante que chega daquelas ondas. 

Como habitualmente, a conversa tem uma forte dimensão biográfica - "nunca as mulheres da Nazaré usaram sete saias, isso é um mito"; o que sucede com o número de saias tem que ver com o estatuto social de cada mulher: "a mulher do bacalhoeiro usava 14 saias" -, no caso concreto surgindo um retrato da Nazaré natal pobre - "a minha mãe alugava escadote de madeira", o jornal vendia-se ao peso - e solidária (o homem com pneumonia que sai da cama para se lançar ao mar, de modo a evitar mortes demasiado frequentes, porque as ondas de McNamara eram também as que não raro levavam pescadores, e hoje falta fazer este continuum, esta ligação presente-passado, para se compreender um contexto social-cultural). A mãe de Laborinho Lúcio era doméstica, o pai funcionário dos CTT. O menino era filho único, neto único, sobrinho único, o que "podia transformar-me em um bocadinho pior do que sou". 
Infância na sequência da II Guerra Mundial, na memória resquícios do racionamento da comida. No talho, humor involuntário, no elencar das rações "Lista de porcos: Dr.Carvacho, Fernando Manuel...".
Marcante, por aquele tempo, o filme "Nazaré", de um claro neo-realismo, onde a imensa pobreza era mostrada, o risco de vida no mar, e isto por clara oposição à Nazaré folclórica do Estado Novo. O filme, no qual participou, por exemplo, um Artur Semedo, não foi propriamente muito bem acolhido, inicialmente, na terra retratada, um lugar onde o Carnaval era data determinante e as pessoas empenhavam tudo o que tinham para nele participarem. Na Nazaré "morrer no Sábado gordo é inconstitucional", gracejou Laborinho Lúcio, recordando o romanesco caso de uma família que guardou na salgadeira a sua defunta, participou nas atividades de Carnaval e, então, sim, na quarta-feira seguinte, enterrou, e chorou a bom chorar, aquela que deixara o mundo dos vivos. 
Laborinho Lúcio recordou, no diálogo fluente, inteligente e espirituoso que prosseguiu, o convite de Jorge Sampaio, à época PR, para Ministro da República nos Açores:
Tem alguma experiência de Regiões Autónomas?
- Então, não tenho? Nasci na Nazaré...
Confessou como teria gostado de ser Provedor de Justiça, entendia que para isso estava fadado, quis sempre ir para Justiça mais do que para Direito, ou este como via daquela, e entendia que podia multiplicar projectos de cidadania - como aliás, mesmo sem tal cargo, implicou nos Açores - tornando o país mais democrático, mais participado
Na qualidade de juiz, quis sempre encontrar um lado bom naquele que tinha cometido crimes e se encontrava à sua frente - não acredita num mal e num bem absolutos personificados nos que se lhe apresentam e crê que a recuperação/reinserção principia ali, quando, apesar do mal, apesar de actos em si mesmo graves, censuráveis, criminosos, encontra boas pessoas. A pessoa, antes e para lá, de actos (momentâneos) que praticou (e pelos quais é responsável). Fica claro, para Laborinho Lúcio, que o juiz é muito mais do que a boca que pronuncia as palavras da lei e que executa um silogismo. De resto, atira: "detesto a objectividade". Só o obejcto é objectivo. É necessário perceber o como, o porquê, a complexidade - a subjectividade - de alguém para conhecer e chegar a uma sentença

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