ENTREVISTA DE VIDA. HOMENAGEM À PROFESSORA ELSA REBELO

 

Numa entrevista de vida, em que passou em revista 43 anos de carreira como professora, Elsa Rebelo evocou a sua chegada a Vila Real, no final dos anos 80, e as mutações desde então ocorridas:

 

“VI PINGOS DE CERA NOS CADERNOS DIÁRIOS DOS ALUNOS POR FALTA DE ENERGIA ELÉCTRICA EM CASA”

 

Portuense de gema, originária de uma família remediada com casa em Paranhos, Elsa Rebelo, frequentou, no Secundário, ao tempo do Estado Novo, o austero e rigoroso Carolina Michaelis. Só para meninas. Dali, seguiu, com (apenas) cerca de duas dezenas de colegas, uma verdadeira família, para o recentemente estreado curso de Geografia, na Invicta, dividida entre a Faculdade de Letras (do ICBAS ao Campo Alegre) e a de Ciências. Ainda foi aluna, por uma aula, de Orlando Ribeiro. Aos 20 anos, chegara a vez de ser monitora universitária. Para ser assistente de Geografia Física, como foi durante um Semestre, teve de ser emancipada pela mão paterna, aliás de orgulho incontido. Podia ter prosseguido carreira académica, mas questiúnculas internas à faculdade fizeram-na tomar outro caminho. Cursou durante os agitados anos de mudança de regime político em Portugal, nos idos de 70, com passagens administrativas e julgamentos de professores em RGA’S. Não foi em “meeting’s”, como então se dizia, embora tenha escutado Zeca Afonso em casa de uma colega comunista. E, já em ano de estágio, escolheria “The Wall”, dos Pink Floyd, tomado de empréstimo à rádio-escola, com o seu “Hey teachers, leave those kids alone” como lema. Chegaria a Vila Real em 1989, cidade ainda sem transportes públicos e, sobretudo, com meninos com cera derramada nos cadernos diários devido à falta de energia eléctrica em casa – poderosa imagem. Nunca mais esquecerá a aluna perdida (por um dia) em Amesterdão numa visita de estudo – momento terrível de uma carreira -, nem, muito menos, a turma C – em triénio, abarcando todo o terceiro ciclo, na primeira década deste século, na Escola de S. Pedro -, capaz de segurar o David que ingressou no IPO, mãos dadas com uma Diretora de Turma que nunca mais os largou – e a quem devolveram, em bata típica, as palmas das mãos que acompanham, ainda agora, a Elsa em momentos mais dados à melancolia.

Professora de afectos, genuína, autêntica, extrovertida, rigorosa e optimista passou do analógico ao digital, observou, ao longo das décadas, em sala de aula, um humano complexo, mas predominantemente bom, apanhou-lhe, com graça, os sotaques, e só se viu assoberbada por uma torrente imparável de informação que, actualmente, como que tudo sufoca. Defensora da escola pública que a todos acolhe, garante que a grande maioria dos professores dedica ao ensino muito mais do que o horário semanal que lhe é atribuído. E explica os exercícios de pausa que foi encontrando para as aulas de 90 minutos ganharem novo oxigénio.

Foram 43 intensos e vívidos anos devotados à escola. Uma memória e uma experiência para gravar em mármore.

 

1.Elsa, valeu a pena? Valeram a pena as décadas dedicadas ao ensino, à escola?

Valeu…valeu muito, muito, muito!...

2.Que ideia formou do humano a partir deste laboratório/microcosmos muito especial que é a escola?

[O ser humano é] Muito complexo, muito diversificado…surpreende-nos, não é? Às vezes pela positiva, outras pela negativa…Não consigo definir. Pela experiência destes anos todos, acho que o Homem é predominantemente bom.

3.Vamos agora à biografia, ao início dessa verdadeira opção existencial que foi o Ensino. A Elsa nasce no Porto, creio que numa família de classe média. No final do Secundário, como surge a opção pelo professorado e porquê a Geografia?

Isso é que eu não consigo explicar, assim a esta distância. Foi sempre uma disciplina que me fascinou. Não propriamente pela professora, um pouco antiquada, mas gostava dos temas [do currículo de Geografia]. Estive quase a não entrar para Geografia, porque o curso só abriu no Porto em 1972-1973. Na altura em que fui para o Secundário, o curso ainda não existia no Porto; [em casa] só o meu pai é que trabalhava, a minha mãe era doméstica. Como as disciplinas eram as mesmas [para entrar no curso, caso este não tivesse, entretanto, surgido no Porto] eu teria ido para Economia, porque não havia condições monetárias para ir estudar para Coimbra ou Lisboa [onde, de há muito, existia o curso de Geografia].

4.Faz o curso na Faculdade de Letras do Porto. Como viram os pais a escolha da Elsa?

Entro no curso em 1973-74, o curso era lecionado na Faculdade de Letras, mas tinha algumas cadeiras na Faculdade de Ciências. Eu sabia que enveredando por este curso, era a via Ensino que me esperava. No 7º ano [actual 12º ano], tínhamos de fazer exames e dispensávamos com 14. Só a Matemática é que não dispensei…No máximo, entrámos 20 alunos. Sentia-me parte de uma família. Rosa Fernanda Moreira da Silva era uma professora do Ensino Secundário que o Professor Orlando Ribeiro foi buscar para abrir o curso de Geografia no Porto. Como éramos poucos, fazíamos de tudo, catalogávamos mapas…Éramos uma família. O Professor Orlando Ribeiro deu-me uma aula. O curso começou por funcionar onde agora é o ICBAS e, entretanto, mudámos para o Campo Alegre. No fim do curso, fomos numa viagem à Madeira. Nós éramos “cubanos”(risos), estávamos numa campanha de alfabetização…Nessa altura, o curso demorava 5 anos. Eu podia começar a trabalhar logo que terminasse o Bacharelato. Em 76-77, sou assistente em Geografia Física, dou aulas práticas de Geografia Física na Faculdade. Podia ter feito carreira universitária, mas no fim da licenciatura vim-me embora. Houve uma pessoa que me fez a vida negra e, quando acabei a licenciatura, como estava farta de a aturar, disse à Professora Rosa Fernanda que ia para o Secundário - e nunca mais voltei. Em 1978-79 vou dar aulas para Gondomar. Na Faculdade. ainda fui Professora da nossa colega [de Escola de S.Pedro] Conceição Silva.

5-Desse período tão importante da história do nosso país que memórias guarda? Mudança de regime político, PREC, tensões partidárias…envolveu-se politicamente, ou nem por isso, nessa época?

1974, depois do 25 de Abril, não é? Olhe, tinha o primeiro semestre feito, todas as cadeiras; o segundo, foi completamente ao ar…eram só RGA’S! Assisti ao julgamento em RGA do Professor que chegou a Reitor da Universidade do Porto, da área da História…agora não me recordo do nome...eu assisti à RGA, achei aquilo de mais! O homem foi crucificado!...O diretor da Faculdade de Letras era o Óscar Lopes…Foi o cabo dos trabalhos. Depois, aquilo era uma espécie de passagem administrativa, fiquei com as notas do primeiro semestre. Foram tempos de muita instabilidade. Em termos políticos, vou confessar-lhe: tive medo. Eu andei no [colégio] Carolina Michaelis, aquilo ali havia muita disciplina, mas éramos muito unidas…Uma altura, convidaram-me para ir a um “meeting” – como na altura se dizia – nos Leões, mas não fui, com medo, e o certo é que foi tudo preso…Tive uma colega do Partido Comunista, fui a casa dela ouvir Zeca Afonso, mas tudo muito low profile…Sabia das histórias de “O Piolho”…ia tudo preso, tínhamos um funcionário na faculdade que sabíamos que trabalhava para a PIDE.

[Quanto à reacção dos pais à ida para Geografia] O meu pai ficou muito feliz!...O meu pai era uma figura muito especial. Chegou a dizer-me: “Ó Elsa, ainda bem que foste para Geografia. Se fosses para Medicina estavas sempre metida no hospital, assim passas o tempo todo nas visitas de estudo, ao ar livre…”. Ele tinha a ideia de que o grande investimento era a educação. Eu sou professora de Geografia, a minha irmã professora de Matemática.

6.Licencia-se muito novinha, num tempo em que os pais ainda tinham que emancipar os filhos, não era assim? Creio que ficou muito feliz por ir fazer serviço público…

Eu, ao ser monitora na faculdade, o meu pai teve que me emancipar. Aos 20 anos. O meu pai todo inchado…e eu também!

7.Como foi o estágio profissional? Em que escola começou a dar aulas?

Em 78-79, estava em Gondomar e, nesse ano, fui para Santarém, com mais duas colegas. Faço estágio numa escola fantástica, com professores de todo o país também a fazerem estágio. Faço estágio em 79-80, numa escola que tinha rádio escola. Fomos buscar à rádio escola o disco dos Pink Floyd, The Wall. Fizemos a tradução da letra “Hey, teachers leave those kids alone”, que foi o lema do nosso estágio (risos).

8.Lembra-se do seu primeiro dia como professora? O estado do tempo, como preparou a roupa, se dormiu bem na véspera? O sentimento, nesse dia, era pacificado, ou havia algum receio? Ainda se recorda de algum ou alguns alunos dessa escola?

Não me lembro disso, essa memória não a tenho já. Só me lembro de um pormenor: recebíamos o ordenado num envelope, íamos à secretaria buscá-lo. Foi assim em Gondomar. As escolas estavam a rebentar pelas costuras. Eu tinha aulas Sábado à tarde. Íamos a um lugar em Sto. Tirso, onde me fartei de dançar. Recordo-me de ter muitos alunos com prevalência de epilepsia.

9.Em que ano se dá a chegada da Elsa a Vila Real? Para que escola foi dar aulas, então?

Chego a Vila Real, em 1989. Para a Escola de S.Pedro! O meu marido acabara de ser colocado no Tribunal de Trabalho em Vila Real. Eu estava na escola Emídio Navarro, em Viseu, que era uma escola parecida com a S. Pedro e adorei estar na S. Pedro. Depois, como morava nas torres do Miracorgo, e estava farta de andar para cima e para baixo, concorri para a Camilo [Escola Camilo Castelo Branco]. Em 90-91, estou na Camilo.

10.Que cidade encontrou? Sentiu uma grande diferença para o Porto? De que sentiu mais falta, por cá? Na altura, as viagens para o Porto eram um pouco mais demoradas…Sentiu-se imediatamente confortável em Vila Real?

Eu gostava de morar numa cidade pequena. Em Viseu, sentia falta do mar, cheguei a ter miragens. Na altura, a crítica que me fizeram foi: “Elsa, vais para Vila Real? Uma cidade que não tem transportes públicos?”. Mas Vila Real tinha Universidade, o que Viseu não tinha (tinha um Politécnico). Agora, de vez em quando eu ia ao Porto recarregar baterias, ia ver o mar.

11.E que diferença da Vila Real de então - ao nível das atitudes, mentalidades, valores, comportamentos - para aquela que hoje encontra?

Dada a profissão do meu marido, não tínhamos vida social. Convivia com os colegas da escola, mas mais nada. Não convivia com muita gente de Vila Real, não fiz amizades (fora da escola), pelo que não posso falar muito desses aspectos.

12.Sentiu-se sempre bem tratada pelos colegas, alunos, auxiliares, as direcções das escolas pelas quais passou?

Na Diogo Cão, devido a eu fazer parte de uma lista contra quem estava no poder, a professora Virgínia Coutinho, fui ostracizada, foi horroroso. Em 2000/2001, regressei à S.Pedro e, sim, fiquei ali até me jubilar. Aliás, neste regresso eu disse logo: “vou morrer aqui. Já não saio daqui para lado nenhum”.  Naquela altura, foi preciso fazer eleições e o professor Coutinho foi o mais votado e convidou-me para fazer parte da equipa dele. E, assim, estive no Conselho Executivo até 2004-2005. Nunca devia ter saído da S.Pedro!

13.Como eram os alunos com que se deparou em Vila Real face aos que conhecia da experiência que tivera no Porto? Acredita que, nessa época, existia uma grande diferença de bagagem cultural, de mundo, ou nem por isso?

Sim, sim, existia, muito. Nessa altura, 89-90, tinha alunos que não tinham energia eléctrica em casa. Porque eu vi os pingos de cera no caderno diário deles! Fiquei horrizada. Tive alunos filhos de pais a trabalharem nas minas de Jales. Alguns diziam-me que o pai trabalhava a 600 metros de profundidade.

[Nessa altura] O professor tinha muita autoridade e o professor não tinha muitos problemas. O abandono escolar é que era muito elevado.

14.A Elsa apanha muito bem os sotaques e imita com muita graça. Suponho que de imediato, quando veio para Vila Real, lhe tivesse ficado colado ao ouvido o sotaque transmontano. Serve este pequeno inciso para lhe pedir que nos conte, assim de memória, como só a Elsa sabe contar, três histórias extraordinárias que lhe tenham ficado de todos estes anos dedicados ao ensino?

Primeira, vou-lhe contar: foi em Santarém, no ano de estágio, primeira aula. Uma turma do 8º ano. Digo “bom dia, sou a Professora Elsa, ta ta ta…”. E vejo que a turma estava toda a rir-se. E percebi porque se estavam a rir [por causa da pronúncia]. “Eu posso carregar demais nas nasais. Mas vocês nem as pronunciam!”. Ficamos quites. Em Vila Real, era o “finalmainte”. E eu dizia [aos alunos] que se quisessem também falava à Porto. Era também uma forma de os ter na mão…

Estou na Camilo Castelo Branco, ano 91-92. Eu perdi uma aluna em Amesterdão. Foi uma história que me marcou. A Escola é contactada para se fazer um intercâmbio com Osnabruck. Um grupo de 20 alunos. Quem fez a ligação foi o professor Pires Cabral. Voluntariei-me, e também participaram as professoras Graça Pinto e Paula Seixas. Um grupo de alunos que ia para o 12ºano. Estivemos 3 semanas em Osnabruck. Foi uma maravilha. Assisti a aulas de Inglês. Os nossos alunos de Artes fizeram trabalhos que depois foram expostos, lá. Foi extraordinário. Num Sábado, vamos a Amesterdão, fazemos uma viagem de barco para conhecermos os canais da cidade. Umas alunas combinaram estar às 6h da tarde no parque de estacionamento (duas portuguesas e duas alemãs). A Raquel Estrócio, uma dessas alunas, disse-me: “a Ana Rita, perdeu-se”. Foi uma chatice muito grande. A noite caiu, não havia telemóveis, telefonou-se para uma esquadra da polícia para declarar o desaparecimento da aluna. O polícia perguntou a idade – “18 anos” – e diz: “nunca mais a vê!”. Entretanto, a aluna contacta a família de intercâmbio alemã e soubemos pela professora alemã. Foi um susto muito grande! Mas, claro, quando a vi fiquei muito contente. Foi talvez a pior situação da minha vida, dos 43 anos desta profissão. Foi um trauma muito grande, Amesterdão.

Na S. Pedro, em 2008-09, no Natal de 2008, a um dos gémeos da minha direcção de turma foi-lhe diagnosticado um linfoma de Burkitt. Foi internado no IPO do Porto. Eu nunca tinha tido um aluno assim. Para mim, foi uma coisa…indescritível. A turma, apesar de ser do 8ºano, foi muito especial, [eram] muito unidos. Todos os dias, na última aula da tarde, um quarto de hora antes de acabar, toda a gente escrevia um bilhetinho a contar qualquer coisa ao David – o que se tinha passado naquele dia. O irmão recolhia os papéis todos, entregava ao pai e o pai levava para o Porto. A primeira vez que ele [David] recebeu os papéis, ficou todo contente, andou por lá a contar a toda a gente que era a turma dele…Depois, ele teve alta, por altura da Páscoa, e passou todo o terceiro período em casa. E nós, os professores da S. Pedro, íamos lá, a casa dele, dar aulas.

A minha mãe morava em Paranhos. Sempre que ia vê-la, ia ver também o David. Eu ia sempre cheia de força…o problema não era o David, eram as outras crianças [o estádio da doença em que se encontravam]…

Fiz a última reunião de turma aqui na aldeia. Convidei os pais, os filhos, eu queria comemorar a alta do David…No final do 9ºano, [os alunos da turma C] ofereceram-me uma bata, com as mãos deles pintadas…Agora, quando me sentia mais em baixo, agarrava-me aquela bata. Eu nunca tive uma turma assim! Também tinham uns pais especiais: nós dizíamos “mata!”, os pais diziam “esfola!”.

 

[Outro momento invulgar] Março de 2008: dois últimos dias do 2ºPeríodo, feira medieval, foi muito giro. Foi uma ideia da professora Carmen. Fez-se uma ceia medieval, fez-se um porco a assar um dia inteiro, houve um poço, veio para aí um cavalo…foi uma coisa extraordinária. Foi uma coisa que ficou na memória de toda a gente.

 

15.Como se chamam os 3 alunos ou alunas que mais a marcaram ao longo da carreira como professora? Continuou a acompanhar o percurso deles?

Esta turma que lhe falei, que acompanhei durante 3 anos – 7ºC,8ºC, 9ºC -, continuo a acompanhar os vários alunos e percursos. A Felipa Freitas fez caricaturas de todos os alunos e professores. Guardo isso religiosamente – em suporte de papel e em suporte digital.

16.Como viu a evolução da valorização da profissão de professor ao longo das décadas em que ensinou?

A partir do ano em que a dra. Lurdes Rodrigues foi ministra da Educação fomos “para a lama”. Ela disse que estávamos à lareira a fazer tricot e que faltávamos imenso. Em todas as profissões há bom e mau, não é? Mas a escola pública não deixou ir a coisa ao fundo, ainda agora nesta crise se viu. A maioria dos professores não se limita ao horário que lhe é atribuído. Desde que a dra. Lurdes Rodrigues foi ministra, passei a tomar nota das horas que dava para a escola em casa! Mas vestíamos a camisola e ‘a escola não foi ao charco’ e mesmo entre a nova geração há gente com muita garra que vai defender a escola pública.

17.Sente, desde há vários anos, como muitos professores reclamam, a profissão muito burocratizada, ou teve sempre tempo e espaço para a criatividade? Continuou a estudar Geografia, ao longo dos anos? De que forma?

Eu gosto de papéis, a burocracia não me faz grande confusão, até gosto – ter tudo direitinho. Eu gostava muito de ser Diretora de Turma. Eu queria ter tudo na mão. E tinha. No estudo da Geografia: aquisição de material didático, muitos recortes de jornais, levava para a aula, lia muito, o Expresso era uma boa fonte de informação, mas não só…a própria televisão…Passava muitas horas em consulta na Biblioteca de S. Lázaro. Aquisição de livros. Com a internet, senti uma avalanche de informação que eu não conseguia dominar, abarcar tudo. Senti-me um pouco meia perdida.

Para nós geógrafos, interpretação de um mapa, fotografia, textos [é muito importante]. O gosto do saber. Vi isto, li isto, “ó, professora viu aquele documentário?”…quando havia este feedback, eu ficava encantada.

18.Há quem entenda, como por exemplo o Professor Rui Correia – que recentemente venceu o chamado Nobel da Educação –, no livro que lançou no início deste ano letivo (“Cá dentro”) que temos um ensino demasiado voltado para os exames em detrimento do conhecimento. Concorda com aquele diagnóstico, crê que existe essa dicotomia?

Sim, uma coisa é eu ser professora do Básico, onde não estou tão preocupada em cumprir o programa, em que procuro incutir o gosto pelo saber e pelas ferramentas básicas da Geografia; outra, é ser professora do 10º/11º ano, em que no final eu tenho um Exame Secundário e não me posso desviar muito.

O problema no ensino português é estar tudo dentro do mesmo molde; cada um deveria ser encaminhado de acordo com as suas competências.

19.Um outro ensaísta sobre a escola portuguesa, José Azcue, no livro “A escola onde se aprende”, sublinha que nas escolas se penaliza demasiado o erro. Isto é, há um efeito de coartar as intervenções, o arriscar dos alunos que, deste modo, tenderão a adoptar uma postura muito mais conservadora. Pergunto-lhe: José Azcue tem razão? E já agora: alguma vez a Elsa escreveu um elogio a um aluno na caderneta do estudante?

Sim, escrevi, numa das minhas Direcções de Turma. No final de cada ano letivo, eu escrevia uma mensagem a cada aluno. Valorizava muito as intervenções de cada aluno nas aulas. Incentivava a que se colocassem dúvidas. Nunca dizia: “cala-te, que só dizes disparates!”, nunca. Guardo as fotografias de todos os alunos que tive. E entrego a fotocópia das fotografias de antigos alunos quando estes me encontram e as pedem. E é engraçado ver aquelas carinhas larocas (risos). Tentei sempre criar laços de afectividade com os alunos.

20.Suponho que, ao longo da carreira, sentiu, em algumas ocasiões, como inevitável dar ordem de saída da aula a alunos cujo comportamento estaria a ser muito perturbador. O que sentiu nessas ocasiões? Alguma vez se arrependeu de algum castigo que cominou a um aluno? Entende que este dar ordem de expulsão da aula ainda é uma solução (inevitável)?

Ano letivo 79-80, Santarém, ano de estágio, estou a ser avaliada. Um aluno boicotou-me a aula. Pensei que tinha estragado o meu estágio. Mas o orientador, no final, disse-me que se eu não o tivesse posto fora da aula, teria sido ele a pôr. Houve mais alguns, mas não foram muitos, eu tentava segurar a situação [sem recorrer a essa medida].

Desde que passamos a ter aulas de 90 minutos e eu a ficar mais velha, sabe o que eu fiz? Tocava aos 45 minutos, fazíamos exercícios de alongamento, respiração, ginástica, esticar as pernas, ir à casa de banho durante 5 minutos. Eu própria, como professora, não estava a aguentar. Precisávamos de descomprimir. Tentar que o ambiente na sala de aula [melhorasse]…

21.Alguns pensadores veem o nosso tempo como muito mais horizontalizado do que há algumas décadas (as relações muito menos verticais, da família à escola). Como evoluiu a relação professor-aluno desde 1990 até agora e que impacto isso teve, também, ao nível da avaliação? Quando terminou a carreira o grau de exigência e rigor eram os mesmos do que no início? Porquê?

Acho que fiquei conotada por ser uma professora muito exigente – fossem testes, fossem trabalhos que tivesse marcado. Mas, depois, compensava na avaliação final, não fazia média aritmética. A minha folha de caderneta entregava-lhes no final do período e não me dei mal com isso. Fazia uma espécie de diário. Nunca tive problemas. Mas, sim, penso que mantive o grau de exigência.

O distanciamento com o aluno esbateu-se, mas, pela minha maneira de ser, nunca tive grande distanciamento com eles. Trazia sempre no bolso lenços de papel, quando eles precisavam, lá estava eu, era um lado maternal. Media-lhes a temperatura. Dava o meu cartão para irem ao bar, quando chegavam sem tomarem o pequeno almoço. Como professora, baixei muitas vezes ao nível deles, nunca estive num pedestal. Nunca os insultei, nunca! Jamais, em tempo algum! Acho que criei sempre boas relações entre eles.

22.O gap entre gerações será hoje menor – os pais mais próximos, tal como os professores, o valor autoridade mais questionado do que outrora -, ou maior – pela décalage tecnológica entre professores e alunos, pelos estímulos constantes que estes têm e parecem reclamar em permanência para disponibilizarem atenção ao professor?

Entre pais e filhos, não há dúvida que o gap é muito menor, até pelo aumento da literacia. O meu pai era aquele chefe de família, nós tínhamos muito respeito, havia um grande distanciamento, embora eu tenha uma grande admiração por ele. Hoje, muitas vezes, o modo de vida é tramado: muitas vezes, as pessoas têm mais do que um emprego para dar o melhor aos filhos. Muitas solicitações, para ter esse poder de compra, os filhos estão um pouco abandonados. O confinamento, de algum modo, veio repor alguma coisa que estava a correr mal.

23.Uma questão que passou a ser polémica desde há alguns anos é a dos TPC – um tópico com bastante visibilidade mediática. Como se posiciona face a estes?

Nem tanto ao mar, nem tempo à terra. É preciso olhar ao horário dos alunos: ninguém vai pedir de um dia para o outro um trabalho de casa. Mas com um fim de semana, ou uma tarde livre, por exemplo, [faz sentido] um TPC para voltarem aos livros e cadernos, para não se esquecerem da disciplina. Nunca fui pessoa de marcar muitos trabalhos, mas em doses razoáveis, acho que sim [que é pertinente marcar algum TPC].

24.A Elsa foi, também, membro de Direcção, na Escola de S. Pedro. Ora, como decorreu esse período e de que forma essa participação altera, ou não, a relação com os colegas?  Uma palavra, também, para as funções que teve como Diretora de Turma, membro do Conselho Pedagógico e do Conselho Geral.

 

Eu nunca me senti no topo, nunca me senti acima dos colegas, por estar na Direcção. Agora, passei a conhecer facetas dos colegas que não conhecia. Eu pedia ajuda. Deu para ter ideia da complexidade de gerir uma escola.

O Conselho Pedagógico é um bocadinho stressante. Eram reuniões desgastantes, sim, mas tudo se faz. Há pessoas que gostam de se ouvir, foi um pouco complicado, mas lá se fez. O Conselho Geral, um órgão relativamente recente, é composto por pessoas da escola e maioritariamente por pessoas que não são da escola. As reuniões eram ao fim do dia, depois das aulas, e era muito cansativo. O Coutinho foi um bom diretor, tinha as contas em dias, mas o Conselho Geral tinha pouca margem de manobra. Confiávamos no que o Diretor nos trazia.

 

25.Que tipo de liderança preconiza a Elsa para uma escola, nestes nossos dias de início da terceira década do século XXI? A sociedade é, atualmente, muito exigente com a escola? Não lhe pedirá demasiado?

Uma liderança democrática, saber ouvir as pessoas, ter abertura, escutar quem está ali todos os dias. Ser criativo, envolver-se, ser dinâmico. Estar à frente de uma escola é muito exigente, quase um sacerdócio, é quase 24 horas por dia. Acho que o Estado paga mal a esses gestores; às vezes, não reconhece o esforço e a dedicação que essas pessoas têm por esse país.

26.Relativamente à eleição de cada diretor, nas nossas escolas, o Prof. Rui Correia, a que já aludimos, defende o regresso do sistema um professor, um voto, referindo que quando deixou de assim suceder o estatuto dos professores, no interior das escolas, foi muito diminuído. Concorda com esta visão?

Sim, acho que sim, concordo. A eleição ser feita pelos seus pares, sem dúvida!

27.Alguma vez, numa escola, foi alvo de qualquer tipo de agressão, verbal ou física? Como lidou com os encarregados de educação ao longo dos tempos? Entende que estes cumprem cabalmente o seu papel nas escolas?

Não, nunca tive nenhum tipo de agressão. Ser pai e mãe é muito exigente, estar presente nos bons e maus momentos e os filhos sentirem aquela retaguarda, sentirem que podem contar com eles. Ser pai e mãe desgasta, mas para que as coisas corram bem [aos filhos] têm que estar presentes.  É de uma responsabilidade até morrer. Como dizia a minha mãe, “os filhos doem muito!”. E, por vezes, isso não acontecia [pais que não iam à escola]. Os pais com que lidei eram preocupados.

28.No filme “O Professor Substituto”, de Sebastien Marnier, uma aluna, a passar por grandes dificuldades psicológicas em casa, solicita um abraço ao seu professor. Este, com a porta da sala entreaberta, hesita e não dá o abraço. Dali a momentos, a aluna suicida-se. Vivemos ou não em sociedades que desconfiam do toque e como proceder a um equilíbrio entre a necessidade do abraço – de um aluno – e a prudência no agir - do professor?

É um equilíbrio instável. Primeira aula do segundo período, sabe o que eu fazia? “Então passaram bem?” e cumprimentava-os a todos com um beijinho! E a seguir à Páscoa a mesma coisa. E, se voltava a tê-los como alunos, em Setembro, voltava a fazê-lo (desta vez, acto único durante o ano). Mas tenho a ideia de que há pouco tempo tive um aluno que não quis que eu beijasse e eu, claro, não forcei. Tinha uma aluna que queria sempre falar comigo no final da aula, a vida dela em casa era um inferno. E a miúda era muito carente. E acho que aquela conversa, às vezes de chacha, a consolava.

29.Na obra “Pais à maneira dinamarquesa”, as autoras escrevem que na Dinamarca os professores podem marcar tarefas/atividades extraescolares aos seus alunos e que isso é também objecto de classificação. Entende que devíamos, no nosso sistema de ensino, caminhar nesse sentido, ou é preferível que tal não suceda?

Eu acho que isso só traz vantagens para a formação de um indivíduo. A escola não é nenhum gueto, está inserido numa comunidade, numa cidade e penso que isso só beneficia a pessoa. Fomentar atividades de relacionamento com a comunidade é positivo. Eles [os alunos] não estão ali numa redoma. “Nós estamos aqui entre quatro paredes, e lá fora o mundo pula e avança”, dizia muitas vezes aos alunos. Agora, isso entrar para a avaliação, tenho dúvidas. Eu digo sempre: vocês têm que ter uma outra atividade para além da escola que seja um escape.

30.As humanidades – onde a geografia se inclui – não sentem o seu lugar, se não contestado, erodido, negligenciado, menorizado na sociedade, e logo na escola, em que vivemos?

As humanidades são precisas! Essa perspectiva não se pode perder. Não podemos ser só tecnológicos. Isto não pode ser só uma sociedade de engenheiros! Cálculos, só cálculos. Precisamos de diversidade, pessoas que se completem. Acho que a sociedade, o mundo precisa de tudo. Não só os engenheiros, mas os humanistas…porque, se não, isto fica muito árido. Ainda há dias ouvi, na televisão, o António Barreto, sociólogo, uma maravilha…acho que dá outro gosto ouvir esta gente das Humanidades.

31.Embora seja sempre difícil generalizar, pedia-lhe que apontasse 3 virtudes e 3 defeitos que acha que, de alguma forma, são transversais aos nossos professores.

Virtudes: vestir a camisola, o estar sempre presente, o querer fazer o melhor possível, o ajudar os alunos. Em termos de defeitos, estarão relacionados com os tiques, maneiras de fazer enraizadas nos professores e ausência da elasticidade necessária, sobretudo dos professores mais antigos. O falar alto [outro defeito] (risos)…

32.Entende como verdadeira a asserção de que temos hoje a mais preparada geração de sempre, ou, como costuma arguir José Pacheco Pereira em sentido contrário, uma geração que lê muito pouco nunca poderá ser a mais qualificada de sempre?

O alargar a escolaridade obrigatória à generalidade da população portuguesa fez com que o nível de analfabetismo baixasse imenso. Ao nível da literacia, uma população mais qualificada, sem dúvida. Nesta sociedade do imediato, tudo num minuto, o tempo que se gasta a ler, para muitas pessoas tem que ser tudo instantâneo, não têm essa aptidão para a leitura. Não quer dizer que não sejam informados. Lá vamos nós parar aos humanistas. São cada vez menos, não digo que não.

33.Gostaria que algum dos seus filhos tivesse seguido o professorado? Porquê?

Acho que sim. Não é que não seguissem. O mais velho chegou a dar aulas de Contabilidade em Maputo. O mais novo é engenheiro, chegou a dar aulas em Cabo Verde e não gostou. Disse: “Ó mãe, eu quero um emprego das 9h às 17h e não chegar a casa e continuar o trabalho”. Embora, se fossem para professores, eu soubesse bem o que os esperava!...

34.O nome de dois professores que a marcaram pela positiva enquanto aluna.

Lembro-me da professora Fátima Marinho, de Físico-Química. Era uma professora diferente das outras. Foi minha professora no 4º [9ºano] e no 7º[12ºano]. Tivemos uma aula de Físico-Química em que nos preparou para o baile dos finalistas, única altura do ano em que entravam os rapazes, o que no tempo do fascismo…Tratava-nos pelo nosso nome, as outras era pelos números: nº1, nº2, nº3, nº4…(risos) era tipo militares. Era uma professora simpática.

35.Que mensagem e que desejo para a Escola de S. Pedro e o futuro desta?

Espero que a Escola de S. Pedro continue na senda do progresso! O novo edifício está muito bonito. O espírito de inovação, de tentar novas coisas, de experimentar, de se envolver em projectos é isso que deveria permanecer na Escola de S. Pedro. Continuem o bom trabalho. Achei sempre a escola muito organizada. Para mim, os professores são muito bons, são fantásticos, boas pessoas, tenho muitas saudades deles todos. Por isso, espero que continue a boa tradição da Escola de S. Pedro.

36.Cada vez que a Elsa acordava às 7h da manhã para ir dar aulas fazia-o com alegria, ou, ao invés, sentia um peso em cima? A motivação foi constante ao longo do tempo?

Agora para o fim, foi mais complicado; neste último ano letivo, que não completei, já estava a claudicar. Aquele primeiro período nos contentores, foi penoso. Mas chegava à sala de aula e esquecia tudo. Chegava sempre bem-disposta à sala dos professores, sempre a cantar. Mas eu sou assim, acho que vou morrer assim (risos).

37.Elsa, como vai o mundo? Temos motivos de esperança?

Sinto que a humanidade está toda de castigo, com esta história da covid. Tivemos que mudar radicalmente. Estou apreensiva, tenho que confessar. Por outro lado, a necessidade aguça o engenho e o Homem vai arranjar uma solução como sempre arranjou.

Muito obrigado, Elsa, foi uma delícia ouvi-la.

(publicada na revista "Coisas B(r)oas", da Escola Secundária de S.Pedro)

Entrevista para ouvir na íntegra em rádio broas (em www.broas.pt)

Pedro Miranda


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