JOSÉ FÉLIX RIBEIRO E A ESTRATÉGIA PARA O FUTURO DOS TERRITÓRIOS
JOSÉ FÉLIX RIBEIRO E A ESTRATÉGIA PARA O FUTURO DOS TERRITÓRIOS
Durante a década anterior, uma das vozes que interveio, com contributo positivo e procura de aportar à comunidade, na esfera pública portuguesa foi José Félix Ribeiro, ainda em tempo de rescaldo da saída da troika do país e de imaginar novos futuros para o mesmo e sua economia. A sua intervenção, em um primeiro e mais marcante momento, fez-se com a publicação de "A economia de uma nação rebelde" (Guerra e Paz, 2014), de que partilho, a seguir, o apontamento. Vendo como excelente a iniciativa da próxima terça-feira, na UTAD.
1.Portugal será tanto mais forte e importante na Europa quanto mais conseguir sê-lo fora dela. Quer dizer, quanto mais pontes/relações (privilegiadas) permitir, através de si, à Europa estabelecer (com outras partes do mundo). Como a Portugal, a Europa é essencial, não pode, pois, paradoxalmente, descurar alianças fora dela. Diferenciador específico português na Europa, a história de relações muito boas com o mundo asiático - Japão, Malásia, Índia, China em particular. Um regressar a esses portos faria, hoje, todo o sentido. E que tal conseguir um novo investimento no sector automóvel, para além do da Volkswagen, precisamente advindo do mundo asiático? O que não podemos permitir, na defesa da nossa soberania, e em visão estratégica, é que Espanha usurpe, conscientemente ou não, o lugar nosso por excelência no relacionamento (histórico, linguístico, etc.) com a América do Sul e o Brasil em especial. Avisos e propostas de um economista que é, também, um estratega, José Manuel Félix Ribeiro, em “A economia de uma nação rebelde” (Guerra e Paz, 2014).
2. Com ele, podemos, ademais, tomar nota de que apesar dos importantes investimentos de empresas portuguesas ao nível internacional, em países como Espanha, Brasil, Marrocos, Angola, Polónia, Moçambique, distinguimo-nos das economias europeias mais avançadas por não possuímos uma grande concentração de investimento nos EUA e, ainda, nas economias emergentes do Extremo-Oriente, América Latina, Leste europeu (p.58). Realidade que urge modificar.
3. Intensidade da utilização, custos de manutenção, limitado grau de retorno económico – eis três factores que não foram tidos em conta [trata-se, justamente, de ponderação] na multiplicação de equipamentos, disponibilizados pelas autarquias (cada uma delas), um pouco por todo o país. Uma das escolhas que fizemos nas últimas décadas que também contribuíram para o nosso estado de coisas, como assinala Félix Ribeiro. De entre o conjunto de lições que, de modo consensual, se deviam registar da leitura das nossas opções, ao longo das últimas décadas, esta, com honestidade intelectual, também devia constar. Quando se propõe a articulação de políticas em rede, entre diferentes municípios, para que um mesmo equipamento sirva várias localidades/populações/municípios, dá-se nota de uma adequada interpretação da realidade, dos erros cometidos, dos tempos exigentes.
4.Em um ensaio no qual situa a origem da globalização contemporânea em 1979/80, com “a decisão dos EUA, Reino Unido e Japão de optarem pela liberdade de circulação de capitais, num contexto monetário de padrão-dólar e com uma relação estreita entre dólar e preços do petróleo que já vinha de meados da década de 1970. Coincidindo no tempo com o início da integração da China na economia mundial e do seu espectacular crescimento, assente nas exportações e no investimento no sector exportador” (p.143), José Manuel Félix Ribeiro, em “A economia de uma nação rebelde”, observa o modelo económico alemão, durante a década 1999-2008, e regista, nele, “uma taxa de câmbio real negativa graças à contenção nos salários em paralelo com ganhos de produtividade (devidos à inovação e a melhorias na organização interna das empresas), e à inexistência de bolhas imobiliárias que levassem aumentos substanciais da «renda da terra»; reforçando a sua posição como líder exportador na Europa", mas também os seus enlaces e/ou efeitos/consequências do seu modelo (para) com a Europa do Sul: “a globalização havia tornado possível uma intensificação das relações comerciais e de investimento entre a Alemanha e a China - ambas exportadoras industriais - em que a Alemanha exportava e investia na China, respondendo à procura gerada pelas dinâmicas da industrialização, urbanização e motorização da economia chinesa e a China tinha assegurada a abertura do mercado da União Europeia para os bens de consumo ou intermédios em que se havia especializado. Ou seja, competindo cada vez mais com a Europa do Sul em muitos dos produtos em que esta também se havia especializado nas suas relações comerciais intraeuropeias" (p.169). Mais, é claro para o especialista em estratégia que i) as elites alemãs de modo algum pretenderão deixar cair o euro, ii) não existirão incentivos e estímulos orçamentais que venham repor os desequilíbrios comerciais existentes no seio da UE favoráveis à Alemanha: “é muito claro que as correntes maioritárias na elite política e empresarial da Alemanha querem conservar o euro e não têm a intenção de regressar ao marco. Com efeito, a Alemanha quer conservar o euro porque, num contexto de globalização, um espaço monetário muito mais vasto do que seria o do marco é fundamental para reduzir o impacto dos movimentos de capitais no processo de valorização das moedas em que sejam transaccionadas as exportações da Alemanha. A Alemanha quer conservar o euro, pois ambiciona caminhar para um sistema monetário internacional multidivisas incluindo o dólar, o euro e possivelmente o yuan chinês, pondo fim ao actual padrão-dólar. A Alemanha, opondo-se em muitos aspectos ao modelo de capitalismo anglo-saxónico, está empenhada em fazer da zona euro uma base de apoio para forçar os EUA a aceitar mudanças nas suas práticas financeiras, que hoje são dominantes; e não o pode fazer sozinha, precisa da França, da Holanda e da zona euro em geral. A Alemanha quer conservar o euro porque considera fundamental para completar a integração da Europa Central na sua esfera de influência (...) A Alemanha é uma grande economia exportadora, mas não é uma inovadora radical; o seu crescimento advém exclusivamente da dinâmica das suas exportações cada vez mais para regiões fora da União Europeia; e a sua competitividade traduz-se na sua capacidade de vender em todo o mundo produtos de gama alta dos sectores em que está especializada há décadas, e controlar de forma rigorosa os custos unitários no trabalho industrial, combinando inovação incremental e regulação salarial corporativa. A Alemanha não tem a dimensão económica nem a disposição para incentivar o conjunto da zona euro com estímulos à sua procura interna que pudessem pôr em causa a competitividade da sua indústria exportadora (e aliás se o fizesse os principais beneficiários seriam as economias do Leste Europeu e as economias emergentes). A Alemanha é uma sociedade envelhecida, com um Estado-Providência abrangente e dispendioso e um Estado que tem de suportar os custos da reunificação e apenas com três Estados federados de dimensão (Baviera, Baden-Wurttemberg e Hesse) a suportar os custos da reunificação e os custos do declínio industrial de Estados da antiga RFA; o que a levou a optar por um rigor orçamental muito exigente e a uma total indisponibilidade para ampliar os seus compromissos financeiros com a União Europeia, tenham eles a forma que tiverem” (p.82).
Sobre o Acordo Transatlântico (em discussão), com proposta de dupla parceria, comercial e de investimento, acompanhado de “garantia de fornecimento energético”, feita pelos EUA à Europa, gerando “uma maior integração financeira, económica e comercial” (p.161), visa evitar uma “deriva euro-asiática dos aliados europeus” (p.185) – isto, quando “a China, num processo de crescente distanciamento e competição com os EUA, está interessada em reduzir a importância mundial do dólar. Para já, tal pode significar ajudar a Alemanha a consolidar a zona euro, aplicando parte mais significativa das suas reservas cambiais (aliás em diminuição) na aquisição de obrigações emitidas pelas agências da União Europeia” (p.185), em uma “reformatação” da qual resultaria, nomeadamente, “uma Europa financeiramente apoiada na China, economicamente dialogante com os EUA” (p.186). Com os EUA a reduzir despesas com a defesa e as suas tropas a saírem do centro da Europa (Alemanha) e sucedendo o mesmo com os militares de Reino Unido e Holanda, “a Alemanha vai ter a sua grande oportunidade de federar parte da Europa propondo uma defesa europeia à França e Polónia. E nesta base propor uma grande negociação em termos de segurança europeia à Rússia” (p.185).
Em uma apreciação ao que este acordo transatlântico poderia significar, o autor escreve que “este conjunto de movimentos poderia fornecer aos Estados-membros das duas parcerias maior influência no desenho do quadro regulamentar do sistema financeiro, uma melhor coordenação de respostas a eventuais crises financeiras e mesmo envolver uma maior coordenação monetária entre o dólar, o euro, a libra e o iene” (p.161).
Em um quadro prospectivo, o economista e Doutor em Relações Internacionais, assinala duas incertezas europeias: ““Primeira incerteza crucial [quanto ao futuro da Europa]: papel das instituições e das políticas europeias e dos mercados. Reforço dos mecanismos de protecção assumidos pelo conjunto da zona euro versus preferência por uma elevada exposição destes Estados aos mercados de capitais e sua opções. “Protecção vs Exposição” Segunda incerteza crucial: preferências organizativas do núcleo central da actual zona euro. Preferência pela uniformidade de estatuto dos Estados que utilizam na União Europeia o Euro versus aceitação de uma diferenciação/segmentação de estatutos. Uniformidade versus diferenciação” (pp.172/173).
Nem moeda única, nem exército europeu. Para Félix Ribeiro, em intervenção posterior a “A economia de uma nação rebelde”, não faz sentido pensar a República Europeia como grande potência. Uma ideia típica do pós-Guerra. O downgrade será inevitável, considera, e o Brexit o tiro de partida. Mas de África virão legiões e é precisa organização e acolhimento comuns.
5.E o sempre evocado sucesso irlandês (1999-2008), a que se deveu, afinal? “Não obstante ter apresentado um forte acréscimo da taxa de câmbio real (...) conseguiu ganhos muito significativos na exportação graças à própria composição do seu novo sector exportador - centrado em produtos com forte procura internacional e mundial (electrónica, software, equipamento biomédico e produtos farmacêuticos)” (p.165).
Pedro Miranda
(publicado na universidadefm)
Comentários
Enviar um comentário