MEMÓRIA DE UM FIM DE SEMANA DE ALEGRIA: O 'ÁTRIO DOS GENTIOS', BRAGA-GUIMARÃES, 2012
*Foi Ana Luísa Amaral - uma "não-crente" à procura de Deus, cujo enigma em que se encontra faz 'inveja' ao crente Tolentino de Mendonça, no testemunho do próprio, pois que a fé pode instalar/confortar e Deus ser um ídolo, quando a fé, justamente, deve ser "uma máquina de produzir inquietação", um estado de espírito que quem está em demanda torna vigília constante que, às vezes, ao crente, apropriador do inapropriável, falta - quem o disse, no diálogo moderado por Anabela Mota Ribeiro, e que a meu ver resulta bem como síntese destes dois magníficos dias do Minho, de Guimarães e de Braga, dias do Átrio, do mundo: o tempo presente reclama, paradoxalmente, a cada um, uma exigência de uma "ética de alegria" que seja resistência ao opróbrio da banalização quotidiana. Uma alegria que não seja oca, tonta, bacoca, dá, certamente, muito trabalho e é a ele que nos temos de abalar.
Narrar a vida torna-a mais preciosa? Este o ponto de partida para o debate, ao qual Tolentino veio dizer, claramente, sim: "uma vida não narrada não existe", citou Virgínia Woolf. O ocaso dos grandes narradores, que tornem significante e dêem significado aos actos, aos gestos, aos pensamentos que nos enquadram, ocaso que hoje parece palpável, uma perda irreparável. Ramos Rosa também veio juntar-se à tarde do salão medieval da Universidade do Minho: "como poderei adiar o coração para o futuro século?" foi santo e senha de uma troca de perspectivas que convocou à inteireza do humano - no sentido de "inteiro" inscrito na gramática de Sophia, na justiça que se faça a si e ao próximo, de viver, plenamente, em todas as dimensões, intelectivas-afectivas - e na qual os escritores, os poetas, surgiram descritos como "motor", ou (possuidores da) "arte", "da resistência", num tempo desumanizador. Nada há de mais útil do que a inutilidade da poesia (da filosofia, da literatura de um modo geral). A poesia, as palavras salvam tanto universalmente, como pessoalmente: não se trata de grandiloquência para impressionar uma mesa redonda quanto, conta Ana Luísa Amaral falando de experiência feita, elas urgem em momentos em que se toca o extremo, o limiar de uma sobrevivência que encontra na escrita o seu derradeiro refúgio.
*Aldina Duarte foi a Braga falar, surpreendentemente, da "privatização do público" e da "publicização do privado" que têm ocupado Daniel Innerarity: detida sobre a "vida colectiva" - o painel tinha por tema Vida pessoal e vida colectiva na identidade cultural - rejeitou que o espaço que devia estar ocupado com doutrinas, ideologias e ideias fosse sitiado por aspectos laterais, atinentes a características pessoais dos comunicadores/políticos que estão na polis - a tal "privatização do público" - e que as relações pessoais, as particularidades de cada um assumissem destaque público - a tal "publicização do privado". Coisas que a afligem num mundo que, tendo tudo para dar certo, transformamos, diz, em um "mundo foleiro". Mais do que de filosofia política - como a referência a Innerarity poderia sugerir, foi, de facto, de testemunho muito pessoal que se tratou, na abordagem de Aldina Duarte. O fado - a pergunta do moderador José Paulo Abreu era de que forma/se o fado reflecte a (nossa) identidade nacional - foi (até) um hábil instrumento para darmos conta das nossas zangas, da nossa dor, do nosso sofrimento quotidiano. Não vejo isso da 'canção dos desgraçadinhos' - como, não raramente, de modo pejorativo, se pretende catalogar o fado, como algo de negativo, bem pelo contrário, referiu a fadista, assegurando que o seu sentido existencial está, também, muito ligado (não apenas profissionalmente, já que a audição da canção propriamente portuguesa, património imaterial da humanidade, se lhe apresenta, igualmente, como essencial) a esta canção.
Vasco Graça Moura, com um encantatório poder de erudição, síntese, fino humor, falou desse caso único, o de Luís Vaz de Camões, em sua epopeia e em seu dimensão lírica, de uma expressão poética que combina identidade pessoal - quando, p.ex., o poeta afirma esperar outro/maior reconhecimento - com identidade colectiva - Os Lusíadas, claro - e, nesta, não apenas nacional, mas, também identidade europeia, na apropriação de Ulisses e da (mítica) figura europeia do navegador.
Identidade que é/pode traduzir-se por um conjunto de traços/referências que permitem, precisamente, uma navegação com rumo. Sempre constante?. questionaria Carlos Amaral Dias, numa comunicação enviada ao Àtrio, lida por Isabel Varanda, em que (um)a personalidade que com as suas nuances se mantém intacta (?) - uma espécie de asserção tida por indisputada - foi postulado seriamente interrogado. Talvez não seja assim, assegura o Professor, assinalando casos-limite de transtornos que nos obrigam a repensar aquela (pretensa) certeza. E dentro das balizas de referência que nos permitem a formação da identidade, sempre espaço haverá para o idiossincrático gozo das mesmas.
*Das plateias lotadas e entusiasmadas surgiram perguntas qualificadas, público muito jovem interveio - será a poesia "uma forma de oração secular", padre Tolentino?; porque não se conhece João Domingos Bomtempo, ou Carlos Seixas, em Portugal, quando, no estrangeiro, temos colectâneas de música portuguesa e esta é valorizada, Vasco Graça Moura?; que importância em vós teve, no vosso sentido de vida, em quem são, os vossos avós? - e de entre todas as respostas guardamos, ainda, essa delícia dos cabelos com que a avó de Graça Moura selava as cartas, em um mosteiro para onde fora enviada, pela família, para se desviar, afinal tão camilianamente, como nota o neto depositário de parte desse autêntico tesouro, do futuro marido que não dispunha das credenciais académicas achadas convenientes, que o então namorado lhe enviava (e que a família ainda conserva).
*A manhã de Sábado do Átrio principiara, para mim, com uma peça, Job ou a tortura pelos amigos, de Fabrice Hadjadj, com encenação de Helena Carneiro. Um texto muito bom e perfeito para o espírito do átrio, expondo, através de diferentes personagens, as principais razões de leituras crente e não crente do mundo. "Como é que o mal nos faria tão mal se antes não tivéssemos tido a promessa de um bem?", perguntava o personagem que sublinhava, evidentemente, as razões de leitura crente do cosmos. Tema este, "o mal", que, sublinhava o Cardeal Ravasi na noite anterior, em Guimarães, caso não nos tocasse (tanto) "não teríamos 80% da literatura existente. Dostoievsky teria que ser deitado todo fora". A referência não se ficou pela literatura, mas abrangeu o cinema, no qual "Bergman levanta as grandes questões", nomeadamente, através da problematização (em suas personagens) do mal. Cineasta classificado por Gianfranco Ravasi como um "ateu teólogo". E é das grandes interrogações que se cura. As perguntas iluminadoras/iluminantes é que são o parto mais genial; dar as respostas é bem mais fácil, sustentaria, com Óscar Wilde, o Presidente do Pontifício Conselho da Cultura.
*Também muito grato o momento musical com o concerto da Orquestra Geração, que vi ao vivo pela primeira vez, que, como se sabe, congrega/estimula/exige/responsabiliza/integra/valoriza gente bem jovem, adolescentes da Amadora e Vialonga, em um projecto entusiamante, construído com base no exemplo de El Sistema, de Gustavo Dudamel e que, em Braga, teve também o toque venezuelano do maestro J. Jimenez. Vibrante, na interpretação de peças adequadas à maturidade dos músicos que proporcionaram um momento de verdadeiro êxtase na plateia, culminando com um bis do hino do Átrio, música de Fernando C. Lapa, cantado pelo Grupo de Jovens Cantores de Guimarães (ver aqui). À saída do auditório Vita, um senhor que não conhecia de parte alguma, dava asas à satisfação com o que presenciara: "Sabe, é isto que muda o mundo!".
*Concluiu-se o Átrio, noite dentro, numa Sé de Braga sem o mais pequeno recanto por ocupar, com centenas de pé, a escutarem a Missa Brevis, de João Gil, com Luís Represas, e o grupo Cantate, a darem razões de uma alegria incontida por um fim-de-semana de estupor que é algo que, para voltar a Ana Luísa Amaral, rareia na banalização a que tantas vezes cedemos.
*D. Carlos Azevedo traduziu então o agradecimento de Gianfranco Ravasi, impressionado pela vivacidade intelectual, pela força, do convívio. Foram, fomos, efectivamente, centenas, centelhas que recusam deixar de perguntar, deixar a vida examinada, e que agradecem este inesquecível - e histórico, para a Igreja portuguesa - encontro, desta vez, helás, num Minho de gente curiosa, que quer viver para contar, e contar para viver. E só se conta lá onde, de uma janela crente, de um alpendre não crente, se busca um sentido, se indaga a vida.
Adenda: “Há duas dimensões que não esperava: por um lado a multiplicidade de intervenções e de temas; por outro, porque esta foi a primeira vez que o átrio se construiu, de forma grandiosa, exclusivamente pela diocese, numa arquitetura autónoma”, disse o cardeal Gianfranco Ravasi, no final do evento, à rádio vaticana.
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