O HOMEM DO DEVER OBEDECE MESMO DIANTE DO DIABO (DIETRICH BONHOEFFER)

 

O homem do dever obedece mesmo diante do diabo. Dietrich Bonhoeffer e a questão do tiranicídio

Pode um cristão participar na morte de um tirano? Ainda que com a consciência dilacerada, e após ter passado por diferentes fases do seu pensamento e postura face aos problemas da guerra e da paz (enquanto cristão), o pastor luterano, e um dos mais relevantes teólogos do século XX, Dietrich Bonhoeffer, assumiu que a voz da consciência prevalece sobre quaisquer considerações morais e, em nome da responsabilidade pelos outros, arriscou, com o propósito de evitar muitos outros homicídios, participar de uma rede que se uniu com vista a realizar um atentado que procurou pôr fim à vida de Adolf Hitler.

1.Nascido, em 1906, em Breslau (Breslávia), numa família de traços aristocratas, com uma mãe, Paula von Hase, que foi das primeiras mulheres a licenciar-se e um pai, Karl Bonhoeffer, que era Professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Berlim, Dietrich Bonhoeffer seria membro de uma família extensa, tendo sete irmãos (uma irmã gémea). A sua vocação religiosa/espiritual cedo ficaria estabelecida, sucedendo, assim, ao avô materno, também ele pastor luterano e capelão do Imperador (o pai de Dietrich, todavia, nunca se assumiu como cristão, crescendo o filho em um ambiente de laicidade e de grande abertura na sua busca intelectual/espiritual). Desde muito novo, receberia lições de piano e a música desempenharia um importante papel na sua vida. Concluiu a licenciatura em Teologia (em Berlim, 1923-1927, sob a égide dos maiores teólogos protestantes da época como Adolf von Harnak, completando os seus estudos no «Union Theological Seminary» de Nova Iorque, ele que se matriculara aos 17 anos na Universidade de Tubingen, defenderia a sua tese de doutoramento, “Communio Sanctorum”, aos 21 anos), especializando-se nos temas de Eclesiologia e Ecumenismo (teria, com efeito, na sua formação, particular cuidado e atenção à dimensão pastoral). Vigário na paróquia alemã de Barcelona, nos anos de 1928-1929, foi um homem muito viajado, tentando sempre não apenas alargar os seus conhecimentos e cultura, como contribuir para, em tempos em que via assomar o belicismo, formar uma rede de cristãos - independentemente da Igreja a que pertencessem - que envidasse todos os esforços para impedir o alastrar do conflito.
Ao longo do seu trajecto (pensamento-acção), principiaria por não ser propriamente insensível ao nacionalismo e ao conceito de "guerra justa". Converter-se-ia, mais tarde, ao pacifismo. Mas, finalmente, deste arrancaria, de novo, para a determinação em combater e aniquilar o tirano (Hitler).
Em 1931 é ordenado pastor, em Berlim, na Igreja de São Mateus. Será nomeado Docente de Teologia da Universidade de Humboldt, a mesma de seu pai. Começa com 15 estudantes, mas a sua convicção, capacidade inspiradora, energia e qualidade de ensino depressa lhe granjeiam centenas de ouvintes (alunos). Em 1932, viaja por vários países. Fixar-se-á, posteriormente, e a partir do momento em que torna clara a sua clara oposição à ala da Igreja luterana que sustentava um compromisso com o regime nazi (entretanto emergente), durante um ano, em Londres. Entre 1935-1939, estabelecer-se-á na Alemanha, já com os nazis no poder. Dará seminários de modo clandestino, com vista à formação de uma resistência espiritual ao nazismo. Em 1934, ali surgira a Igreja confessante, em oposição à Igreja do regime, e Bonhoeffer foi chamado a formar os pastores dessa Igreja. Com a Gestapo (polícia secreta oficial da Alemanha nazi) a controlar o país ao milímetro, alguns dos seus formandos serão enviados para a linha da frente. Ele que tinha tido um irmão morto em guerra aos 19 anos, afastar-se-á, então, para os EUA; porém, os remorsos por não estar ao lado do seu povo, no momento da maior dificuldade possível, levá-lo-ão, apesar de todos os perigos - e quando a licença para dar aulas, no país natal, já lhe tinha sido retirada, sendo expulso oficialmente da Universidade em 1936 -, a embarcar de novo para a terra pátria. Aí, através de ligações familiares, irá ser colocado nos serviços secretos do Exército, o que lhe permitirá não ser mobilizado e, ao mesmo tempo, mover-se por todo a parte com à vontade. Entre 1940-1943, Bonhoeffer viaja várias vezes por Noruega, Itália, Suíça e escreverá “Ética”, durante a sua residência num mosteiro da Baviera. Participará, com outros membros do Exército, de uma rede que, no limite, efetuará tentativa de tiranicídio (mal-sucedida). Seria detido a 5 de abril de 1943 (com sua irmã e cunhado), resistindo aos interrogatórios para revelar os intentos em marcha para depor Hitler (o atentado contra Hitler, conhecido por “Operação Valquíria”, liderado por Claus von Stauffenberg, ocorreria mais de um ano depois, a 20 de julho de 1944, com o tirano a conseguir sair ileso do mesmo, por fortuna; entre outros, publicado entre nós, isoladamente, uma parte da biografia de Hitler, assinada por Ian Kershaw, dedicada a este episódio, em volume intitulado “Sorte do diabo”, D.Quixote, reeditado em 2020; em 2008, Bryan Singer realizava “Valquíria”, adaptando ao cinema aquele momento histórico), e deportado para o campo de concentração de Buchenwald (estando preso em volta deste). Seria executado em Flossenburg. Nas palavras de Bruno Maggioni (“Prefácio”, a Giorgio Cavalleri, “Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo”, Paulinas, 2019, pp.9-10), “diz-se de Bonhoeffer que, após a leitura da condenação por parte do tribunal, antes de envergar o traje de prisioneiro, estava ajoelhado, na presença íntima do seu Deus.  O médico que o assistiu até ao fim disse que em toda a sua vida nunca tinha visto um homem tão abandonado a Deus. O abandono e a certeza de que a sua oração seria atendida, naquele homem extraordinariamente simpático, impressionou-o profundamente.  Junto ao lugar da execução, viu o pastor luterano elevar uma breve oração e depois subir, com coragem e dignidade, a escada que conduzia ao patíbulo”.
Pouco antes de ser colocado na prisão da Gestapo, em outubro de 1944, estabelecera, aos 37 anos, uma relação amorosa muito firme com uma jovem de 19 anos, com quem fará uma troca epistolar considerável.
 
2.Em “Ética” (Assírio e Alvim, 2007), um livro motivado por uma questão que um detido italiano fez ao teólogo (porque deveria um cristão participar na resistência a Hitler? Não estaria a sujar as suas mãos?), Dietrich Bonhoeffer evidencia com clareza não pretender uma cidade de Deus, povoada de figuras angelicais, oposta a uma cidade dos homens, naturalmente corrupta e corrompida por seres pecadores. Ninguém deve afastar-se dos homens para abeirar-se dos Céus: “enquanto Cristo e o mundo forem pensados como dois espaços em colisão e mutuamente repulsivos, ao homem restam as seguintes possibilidades: após a renúncia ao todo da realidade, ele instala-se num dos dois, ou em Cristo sem mundo, ou no mundo sem Cristo; em ambos os casos, porém, se engana a si próprio” (p.31). Na verdade, bem lido o Novo Testamento, afirma o teólogo protestante alemão, desaparecem os dois âmbitos: não há duas esferas, apenas uma realidade (“e esta é a realidade de Deus na realidade do mundo tornada manifesta em Cristo”). A realidade do mundo e a realidade de Cristo estão unidas; são uma só realidade. “Deus reivindica em Jesus Cristo um espaço no mundo” (pp.31-32). Ora, assim sendo, “pretender ser cristão sem ser «mundano», ou querer ser mundano sem ver e conhecer o mundo em Cristo, é renegar a revelação de Deus em Jesus Cristo” (p.36). Todavia que injunção é esta, a de ser mundano? Isto é, que pretende, com este termo, afirmar-se, que mundano deve ser, aquele que acolha a proposta (teológica/cristológica) de Bonhoeffer? Que amor ao mundo importa referenciar? Evocados são, de imediato, os perigos de um amor ao mundo pelo mundo. Amor puramente materialista. Dito de outra forma, de um amor ao mundo sem Deus: “há um amor ao mundo que é ódio a Deus (Tg 4,4; Jo 2,15), porque brota da essência do mundo em si e não do amor de Deus pelo mundo”. Ou seja, “imagem oposta ao homem assumido na figura de Jesus Cristo é o homem criador de si, seu próprio juiz e renovador, o homem que vive falhando a sua própria humanidade e que, portanto, antes ou depois, a si mesmo destrói”. Por referência ao amor filiado em Deus amo o mundo, dessa forma amando Deus.
Esta marca decisiva do pensamento de Dietrich Bonhoeffer é muito interessante, porque re-conforma a permanente tensão entre o mundo temporal e espiritual (tensão, portanto, a ser superada em uma única realidade não cindível; “o cristão já não é o homem do eterno conflito”), para, deste modo, sobretudo, pôr em cheque “um homo religiosus retirado, intimista, alheado do exterior, imerso em actos de devoção, escrupuloso executor de ritos sem tradução prática”, afirmando, ao invés, o homem “acolhedor do mundo na sua integralidade”, do “«homem-para-os-outros»”, porque “ser Igreja não consiste em pertencer a uma associação piedosa, mas em prestar «testemunho perante o mundo»” (como refere A.Mourão na introdução à edição portuguesa de “Ética”). Se, pois, “a nossa relação com Deus é uma vida nova no “ser-para-os-outros” na comunhão da vida de Jesus, então existe sempre uma repercussão política da fé, um carácter público do testemunho, uma consequência prática do ser-cristão, a necessidade de confessar Cristo aqui e agora, na profundeza e obscuridade do quotidiano”. É verdade que, segundo o autor de “Ética”, a Igreja não tem o direito de se apropriar do poder estatal, mas não pode, igualmente, ensimesmar-se e isolar-se da política, quando o Estado lesa os direitos humanos fundamentais. Mais, quando tais direitos são postergados, Bonhoeffer propõe um critério de acção eclesial bem claro e concreto:
“Primeiro, requestar directamente ao Estado o carácter politicamente legítimo do seu agir, isto é, a responsabilização estatal. Em segundo lugar, estar ao serviço das vítimas da conduta estatal. A Igreja tem uma obrigação incondicional de prestar ajuda às vítimas de cada ordenamento social, mesmo se elas não fazem parte da comunidade cristã. A terceira possibilidade consiste não só em unir as vítimas sob a roda, mas também em inutilizar a roda nos seus raios (…)”.
 
3.Em artigo assinado na revista “Brotéria” (“Pode uma guerra ser justa? Notas a propósito do 4º centenário da morte do P. Francisco Suárez”, Sj, Brotéria, Volume 185, dezembro de 2017, pp.979-990”), o jesuíta Francisco Sassetti da Mota revisitava, em anos recentes, a longa, rica e complexa tradição do pensamento cristão sobre a (possibilidade de) “guerra justa” – que remontará a Santo Agostinho (354-430) -, privilegiando o pensamento de Tomás de Aquino (1225-1274) e Francisco Suárez (1548-1617). Assim, assinala, na “Summa Theologiae” de Tomás de Aquino o título da questão atinente a este problema é o seguinte: "‘Se guerrear será sempre pecado’ (...) Há uma timidez evidente no tratamento da questão (...) O que esta formulação revela é que para São Tomás conduzir uma guerra será, na melhor das situações, pecaminosa só algumas vezes. O que é preciso saber é se em algumas outras vezes não será pecaminosa - e se sim, em que condições. Ou seja: a questão de S.Tomás deixa ver que, (1) embora possa haver casos em que as guerras sejam justificadas (= guerrear não é sempre pecado), (2) no entanto, o habitual é que seja o pecado a motivá-las (= guerrear é pecado, amiúde). A questão de São Tomás reflecte a complexidade do problema e a necessidade de uma resposta matizada. Evitam-se, com isso, afirmações precipitadas e absolutas. (...) O ponto de partida é o que aqui mais importa: pelo menos algumas guerras serão pecaminosas - e para que outras o não sejam, têm que demonstrar porque é que não o são. Não se encontra aqui, atenção, uma presunção geral contra a guerra. O que se encontra é uma presunção geral para a presença de pecado na guerra - precisamente por causa do tipo de força e dos seus efeitos que estão presentes em qualquer guerra. (...). Finalmente, a terceira nota: afinal, que condições devem estar reunidas para que uma guerra possa ser justa? Neste ponto, São Tomás segue fielmente a tradição recebida de Santo Agostinho. Para que uma guerra seja justa, são necessários três elementos: em primeiro lugar, a causa que dá origem à guerra tem que ser justa; em segundo lugar, a intenção de quem a leva adiante tem que ser reta; e, em terceiro lugar, a autoridade que a decreta tem que ser legítima. (...)”.  Quanto a Francisco Suárez, o cerne do seu “pensamento sobre a guerra parte deste princípio: de acordo com a razão natural, é justa toda a guerra que se destine a repor "uma injustiça grave que não possa ser reparada de nenhuma outra forma". O critério é bastante lato, como se vê. Por injustiça grave, Suárez pensa de forma especial na injustiça de ver a sua propriedade, ou o seu território, ilegitimamente apreendido. Não só não partilha da timidez [de Tomás de Aquino], como vê a guerra como algo moralmente obrigatório num conjunto vasto de situações. A evolução da doutrina é aqui perfeitamente evidente. (…) Este é [por outro lado] o mais antigo caso que conheço de definição de algum tipo de ius post bellum. Precisamente porque a devastação provocada pela guerra é tão vasta, para que uma guerra seja justa também o seu processo tem que ser justo; e para que uma guerra seja justa, também as suas consequências têm que ser justas (os exemplos de Suárez são geralmente ligados à injustiça da destruição dos meios de sustento de uma nação - dos seus campos de colheita, ou da sua infraestrutura). Este é um dos pontos mais comentados na academia contemporânea quando se pensa a justiça da guerra. A preocupação de Suárez é verdadeiramente notável. (...)”. Assim, e de uma forma muito sintética, se procura assinalar alguns dos pontos cardeais destas importantes personalidades da história e do pensamento cristãos e, com eles, sublinhar como se ofereceu (e oferece) a guerra como motivo do qual não puderam (podem) escapar de ponderar, ao longo do devir histórico, muitos dos que quiseram (querem), genuinamente, professar aquele credo.
Giorgio Cavalleri, escritor e historiador italiano que assina uma biografia de Bonhoeffer (“Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo”, Paulinas, 2019), sistematiza o pensamento (e a postura) de Bonhoeffer sobre as questões da guerra e da paz em três etapas bem distintas (pp.37-38): a) até 1929, até ao seu embarque para Nova Iorque como bolseiro, nele se pode detectar uma teologia nacionalista relativamente clássica; b) de 1930 a 1939, propõe uma forma radical de pacifismo (influenciado por Jean Lasserre, o francês de quem se tornaria muito amigo, e que morreria apenas em 1983 e que nunca chegou a sancionar o tiranicídio); c) a partir de 1940, na sequência do seu regresso à Alemanha, Bonhoeffer elabora uma ética que tenta avaliar as acções mais adequadas em cada contexto específico, em vez de seguir princípio absolutos preestabelecidos.
Se, como vimos de indicar, Jean Lasserre – pastor da Igreja reformada de França, teólogo da paz – nunca chega a sancionar o tiranicídio, em nossos dias, questionado, pelo intelectual francês Dominique Wolton, expressamente, sobre o tema da (possibilidade de) “guerra justa”, observa o Papa Francisco: “nos tempos que correm, devemos reflectir bem sobre o conceito de «guerra justa». Aprendemos, em filosofia política, que, para nos defendermos, podemos fazer uma guerra e considerá-la justa. Mas será que se pode dizer uma «guerra justa»? Ou antes uma «guerra de defesa»? Porque a única coisa justa é a paz” (“Um futuro de fé”, Planeta, 2018, p.47). Se a mais densa qualificação de “justa” só poderá atribuir-se à paz, haverá, por certo, momentos de defesa perante uma guerra de agressão. E, sobretudo, existirá uma necessária solidariedade com as vítimas. Wolton: onde estava Deus em Auschwitz? “Deus estava nos cristos que foram mortos e feridos. Deus manifesta-se sempre na carne (…) Em Auschwitz, vi como era o homem sem Deus. Quando falei em Jerusalém, no monumento de comemoração da Shoah, parti da palavra do Génesis, quando, após o pecado, Deus procura Adão. Na verdade, a pergunta «Adão, onde estás?» é mais «Onde está o homem?». O homem capaz de fazer como Adão, como Caim. «Não és o homem que criei, estás demasiado afastado e és um monstro». Um homem sem Deus é capaz de o fazer. Inverto a pergunta. Para compreender melhor o que penso, talvez pudesse ler o que disse em Jerusalém no monumento da Shoah. E em Auschwitz, simplesmente. Quem fez aquilo? Um homem que se esqueceu de que foi feito à imagem de Deus” (Papa Francisco, “Um futuro de fé”, Planeta, pp.276 e 217).
Louvando-se no ensaio de Timothy Radcliffe (frade dominicano, foi Mestre-geral da Obra dos Pregadores), “A arte de viver em Deus” (Paulinas, 2021), Frei Bento Domingues, em texto recente no “Público”, alertava para a urgência de um (cristão) imaginário de não violência ser contributo a insuflar na(s) sociedade(s) do nosso tempo, recordando, até, o vigor, a frescura, a originalidade de testemunhos dos primeiros séculos (da nossa era), em que convertidos ao cristianismo abandonavam exércitos e armas em função do que viam (nessa pertença/condição) como contradição da sua fé, sendo, de resto, a própria indagação acerca do que poderia ser uma «guerra justa», a partir de Agostinho, um estádio menos «radical» - de ir à raiz na mais ousada interpretação da relação com “os inimigos” – do que aquele que ocorreu nas três centúrias iniciais (d.C.). E, em rigor, nunca, por certo, essa tensão de consciência desaparecerá de quem, seguindo aqui o exemplo da participação (de cristãos) em exércitos, entre outras tarefas e missões, possa ser confrontado com uma ordem (da hierarquia) para colocar termo a outras vidas humanas. Note-se, em este contexto que, mesmo em termos puramente seculares, a desobediência, ao nível militar, é um dever jurídico excepcional, isto é “o subordinado será sempre responsável pelo cometimento de um crime em obediência ao seu superior legítimo, sempre que estiverem em causa a prática de actos de genocídio e crimes contra a humanidade, porque é o próprio princípio da legalidade que faz cessar o seu dever hierárquico de obediência”. Ainda no que contende com os subordinados em âmbito militar, note-se, ademais, que em 2005, na jurisprudência do caso Sefer Halilovic, o “International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia (ICTY) estabeleceu claramente que «[...] o comandante é responsável pela sua falha em agir conforme o que é exigido pelo direito internacional. Esta omissão é censurável porque o direito internacional impõe um dever afirmativo aos superiores no sentido de impedirem e punirem os crimes cometidos pelos seus subordinados. Assim, relativamente aos actos dos seus subordinados [...] o comandante em princípio não partilha da mesma responsabilidade relativa aos crimes cometidos [...] mas apenas é responsável pela sua falha de acção [...]»”. No entanto, os deveres jurídicos não esgotam a problemática da interrogação humana, de cada humano em concreto que se vê perante tais circunstancialismos: “para Kant, o dever jurídico de obediência é importante, mas não é, em circunstância alguma, um dever absoluto, uma vez que requer uma avaliação segundo uma lei moral” (Helena Carreiras e Francisco Leandro, “Obediência militar, liberdade e consciência”, in Maria do Céu Patrão Neves, António Costa Pinto, Luís de Sousa, Ética Aplicada. Política, Edições 70, 2018, pp.335-357). De acordo com Helena Carreiras (Diretora do Instituto de Defesa Nacional, especialista em sociologia militar e Professora associada no ISCTE, foi Presidente do “European Research Group on Military and Society”) e Francisco Leandro (Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa, com diploma em Estudos Avançados em Direito Humanitário e Operações de Paz, foi Observador Militar das Nações Unidas), “a profissão militar refuta, na sua essência, o argumento de (...) Nietzsche de que o altruísmo diminui o ser humano, porque parte do princípio de que os outros são mais importantes do que o próprio indivíduo. Na verdade, a profissão militar valoriza precisamente o serviço aos outros enquanto comunidade e aos outros enquanto membros do mesmo grupo profissional e fá-lo de tal maneira, que considera este dever o mais importante da própria profissão. Neste sentido, o que é valorizado é o altruísmo à custa dos interesses pessoais, o que, no seu extremo, é caracterizado por heroísmo individual. Aqui se situa a desobediência heróica. Em todos os outros casos, a desobediência em função do interesse próprio é, no contexto da profissão militar, altamente censurável. (...) Portanto, a excepcionalidade da desobediência militar apenas fará sentido quando o acto praticado em desobediência tenha por finalidade a produção de resultados na esfera da dignidade individual de outrem, por acção ou sacrifício individual desinteressado, produzindo uma maior «utilidade geral», sem que a coesão e unidade de esforço sejam afectadas. São os casos de aceitação voluntária de um grau de risco individual excessivo, para a legítima protecção de terceiros (plural), em desobediência a uma ordem de não intervenção”.
Em qualquer caso, se, potencialmente, de regra - o que não sucede em exemplos, singulares, dados de concretização, de imaginação, de apropriação de um dado modo de compreender a fé e suas consequências e declinações práticas, mas sem se prescrever uma norma universal; também de um caso verdadeiramente singular, extraordinário se passa em Bonhoeffer – se tratasse, a ausência de cristãos entre exércitos (ou, pelo menos, nestes, de funções que contendessem com a possibilidade vinda de assinalar; ainda que os exemplos supra-citados tenham redundado num puro e simples abandono do exército tout-court, embora, evidentemente, dada a época histórica a que nos reportamos, muito longe de possuir a dimensão burocrática e, portanto, funções bastantes que não impliquem a linha da frente, o que porventura então não sucederia), melhor salvaguardada ficaria uma sociedade (antes de se atingir uma tão desejada quanto, pese o paradoxo, precária “paz perpétua”)? Se, em anos recentes de Yuval Harari a Hans Rosling, inúmeros autores e best sellers ocidentais, com recurso, nomeadamente, a um enorme aparato estatístico, quiseram provar e convencer-nos de que, para o dizer numa frase, nunca estivemos tão bem (ao longo da história), neste exacto instante do nosso devir em que a ideia de que superáramos a peste, a fome e a guerra (e nos basta(va) lutar contra os efeitos das coca-colas e embarcar no pós-humano), em escritos já elaborados, de resto, em época de desconsolidação democrática e da pandemia das “democracias iliberais” (ou autocracias), em que advieram a Covid19, (entre outras) a guerra de agressão da Rússia de Putin à Ucrânia (e com ela a noção de precariedade alimentar potencial em algumas zonas do globo, a prazo), afora problemas como o das alterações climáticas ou os diagnosticados na ansiedade como “doença do nosso tempo” – as estatísticas nunca captarão aquilo que Fátima Passos (“Hino da Alegria”, Paulinas, 2021) observava quando dizia que a esperança média de vida diminuiu imenso nas últimas décadas, dado que hoje nos ficamos pelos 80 anos, enquanto tempos e séculos houve em que tínhamos, por exemplo, 50 anos mais a vida eterna –, abordagens, essas, que surgem como não apenas cândidas, mas, sobretudo, insensatas e imprudentes (numa espécie de mea culpa, dizia Harari, nas últimas semanas, em entrevista: “apontar o declínio da guerra não tinha como objectivo tornar-nos complacentes, mas antes responsáveis”; este autor, ainda antes da guerra de agressão à Ucrânia ter principiado escreveu um ensaio na “The Economist”, segundo o qual estaríamos em uma hora determinante da humanidade, para saber se ela estaria a salvo de cair frequentemente na guerra de todos contra todos, como se Hobbes pudesse ter sido, pura e simplesmente, eliminado da bibliografia básica da humanidade), autores como António Damásio não estranhariam, por certo, que a guerra não seja um estádio ultrapassado. Em “A estranha ordem das coisas” (Temas e Debates, 2017, pp.298-314), o neurocientista explicara, sem necessidade de recurso a nenhum determinismo absoluto e sem largar uma esperança audaz porque realista, certas recaídas: “porque será que os seres humanos eliminam periodicamente, pelo menos em parte, os ganhos que fizeram culturalmente? (...) Segundo a perspectiva biológica que delineei, os repetidos fracassos dos esforços culturais não deveriam surpreender. Eis porquê. A base fisiológica e o principal interesse da homeostasia [tendência para o equilíbrio e a conservação de elementos fisiológicos e do metabolismo, através de elementos de regulação] básica é a vida de um organismo individual dentro das suas fronteiras (…) A única solução razoável e, assim esperamos, viável para o problema consiste em enormes esforços civilizacionais através dos quais, graças à educação, as sociedades consigam cooperar no desenvolvimento de requisitos fundamentais para a governação (…) Freud viu a bestialidade do nazismo como uma confirmação de que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. (...). Em 1932, Einstein escreveu a Freud, pedindo conselhos sobre como prevenir a conflagração mortífera que ele via aproximar-se (...). Na sua resposta, Freud descreveu a condição humana com uma clareza impiedosa e lamentou-se a Einstein dizendo-lhe que, tendo em conta as forças que estavam em jogo, não tinha quaisquer conselhos a dar, não tinha como ajudar, não tinha qualquer solução, tinha pena e não mais. Note-se que o principal motivo para o seu pessimismo era a condição internamente imperfeita do ser humano. Não atribuía culpas às culturas, nem a grupos específicos. Apenas culpava os seres humanos. Ainda hoje, aquilo a que Freud chamou de «desejo de morte» continua a ser um factor importante por trás dos fracassos sociais humanos, embora eu o descrevesse com termos menos misteriosos e poéticos. Segundo penso, esse factor é um componente estrutural da mente cultural humana. Em termos neurobiológicos contemporâneos, o «desejo de morte» de Freud corresponde à activação desregrada de um conjunto específico de emoções negativas, a subsequente perturbação da homeostasia e o caos avassalador que isso provoca nos comportamentos humanos individuais e colectivos. (...) O equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende, em grande medida, da contenção civilizacional e da governação justa e democrática, capaz de representar aqueles que estão a ser governados. Por sua vez, a contenção civilizacional depende do conhecimento, do discernimento e, pelo menos, de um pouco de bom senso e sagacidade que advém da educação, do progresso científico e técnico, e dos bons efeitos das tradições humanistas, tanto religiosas como laicas (…) As estratégias que os seres humanos se sentiram motivados a desenvolver para garantir uma boa vida - preceitos morais, religiões, modos de governação, economia, ciência e tecnologia, sistemas filosóficos, e as artes - levaram a ganhos inquestionáveis no bem-estar. Contudo, essas mesmas estratégias também levaram a graus impensáveis de sofrimento, destruição e morte. Pouco admira que, tantas vezes, os seres humanos tenham concluído imprudentemente que tinham chegado a uma era de estabilidade e de razão, em que a injustiça e a violência seriam para sempre banidas. Mas têm acabado sempre por descobrir que os horrores da profunda iniquidade ou da guerra regressam e recrudescem.” O cientista não ignora o que em latência sempre se encontra fervilhando, embora não explodindo necessariamente, disso dependendo o sucesso, prima facie, de uma educação (de cada pessoa) capaz de compreender “como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial”, e da articulação óptima dos factores (na conjugação entre diferentes actores, representantes estatais, povos, políticas…) já mencionados – da governação à economia, passando pela ciência e tecnologia.
Para recentrar, e face ao nazismo, em uma escolha repleta de escolhos e espinhos sem dúvida, talvez se pudesse observar que quem entende(u), ultima ratio, a opção pelo tiranicídio (professando, em simultâneo, uma fé cristã, levada a sério), desde logo, e a oposição militar ao regime de Hitler (de um modo global, por outros actores à escala internacional), tenha entendido, e entre outras, que em nome de um valor cristão – a paz, a não violência –, se instalaria de Berlim a Moscovo, de São Petersburgo ao continente Americano, um regime, um inteiro modo de vida não apenas não cristão, mas marcadamente anti-cristão (o “reich dos mil anos” imporia a “raça” como deus, o ódio ao outro como “obrigação”, a violência e ausência de paz como “necessidade” até uma putativa eliminação completa dos “degenerados”, em última instância todos os que não se revissem no regime). De aí, respectivamente, as posições tiranicida (face a Hitler) e de oposição pela força militar de combate à Alemanha nazi (dado que o regime nazi mostrara, sem lugar à mais pequena dúvida, que recusava qualquer diálogo digno desse nome, antes instrumentalizando qualquer simulacro de conversação para os seus fins de alargamento da sua concepção “imperial”).
Regressando a “Ética”, diremos que, sem abordar explicitamente o tiranicídio, Bonhoeffer escreveu de um modo que podemos considerar particularmente relevante para a problemática em presença: "arbitrário é qualquer homicídio consciente de uma vida inocente". Ou seja, regista Cavalleri, "retira, de facto, à proibição [de matar] o seu carácter absoluto. Por outras palavras, se o homicídio só é ilegítimo quando a vítima é inocente, o tiranicídio pode ser classificado como pertencente à categoria dos homicídios autorizados"(pp.47-48). Numa entrada de 16 de outubro de 1942, no “Diário” que mantém, Maria, futura noiva de Bonhoeffer, anota a conversa que tivera com aquele: "diz ele que entre nós é tradição que os rapazes se alistem como voluntários. Em seu entender, porém, também deve haver pessoas que podem combater seguindo apenas as suas próprias convicções pessoais. Se aprovam o motivo da guerra, então está bem. Mas se assim não for, a melhor maneira de servir a pátria é operar na frente interna, talvez até contra o regime. Portanto, a sua missão seria evitar durante o máximo de tempo possível servir a Wehrmacht, e até, em certos casos, recusar-se a cumprir o serviço militar, se não podem conciliar com a sua consciência" (p.48).
As atrocidades nazis são sem fim nem limite, o Führer o alfa e ómega da vida política alemã, a barbaridade sem nome a que dá origem clama aos Céus. Ao mesmo tempo, Bonhoeffer não ignora nem esquece as obrigações máximas para com o próximo (de um cristão apaixonado). Ardem as interrogações que permeiam o teólogo: “Já há tempos que se deu conta da demoníaca capacidade sedutora de Adolf Hitler. Por outras palavras, o chefe do nazismo aproveitou-se da religiosidade alemã, desde o início do seu mandato, para usar Deus para os seus fins, e Bonhoeffer considera que isso não pode continuar a ser tolerado. Parece-lhe necessário intervir inclusive em termos drásticos e dramáticos - como a superação das suas posições pacifistas -, mesmo que estes lhe possam dilacerar a consciência. Será que um cristão pode participar na morte de um tirano? Será possível atentar contra a estrutura estatal do próprio país? Porventura um conspirador, mesmo contra um tirano cruel e sanguinário, poderá continuar a exercer como pastor? De qualquer modo, pelo menos a nível moral, continuará a ser digno de celebrar a Santa Ceia com os fiéis? É assaltado há algum tempo por tais interrogações...Agora, porém, considera que a medida está cheia e que é necessário agir para salvação do povo, remetendo-se ao juízo de Deus e abandonando-se à sua misericórdia e à sua graça. Está cada vez mais convencido de que a Revelação implica mais uma fé do que uma religião e que, seja como for, exige uma responsabilização pessoal por assumir o destino dos outros. Por amor aos outros, mesmo que seja necessário assumir a cruz" (p.36).
Na ponderação e síntese de Giorgio Cavalleri, "em todo o caso, quando a voz da consciência prevalece sobre todas as considerações, inclusive morais, a proibição de matar pode não ser tida em conta, sobretudo se determinado homicídio permite que se evitem outros. Além disso, o tiranicídio não está em contradição total com um certo pacifismo, se estiver associado à objecção de consciência".
Publicadas de modo póstumo, pelo seu amigo Bethge, com o título “Resistência e Submissão” (sigo aqui a edição em castelhano, da Sígueme, 2008), as suas cartas e escritos durante a prisão em Tegel espelham, com meridiana clareza, as dúvidas, a complexidade, a tensão que perpassava o autor – note-se o passo seguinte, a que o título escolhido para o coligir destes textos dá ressonância, com as mais fundas inquietações personificadas nas figuras de Quixote e Sancho Pança: “como se estabelece o limite entre a necessária resistência contra o «destino» e a submissão ao mesmo, que é igualmente necessária? Dom Quixote é o símbolo da obstinação na resistência levada até ao absurdo, inclusivamente até à loucura (…) Sancho Pança seria o representante de um acomodamento, satisfeito e astuto, a uma dada situação. Creio que devemos cometer grandes empresas que nos são próprias, mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de fazer o que é óbvio por natureza e universalmente necessário. Havemos de enfrentar o «destino» - parece-me importante o género neutro que este termo tem em alemão [Schicksal] – do mesmo modo decidido com que logo nos submeteremos a ele em devido tempo. Só podemos falar de ser conduzidos quando já tivermos cumprido este duplo processo (…) Ou, para dizê-lo por outras palavras: como é que o «destino» se converte em «direcção a seguir» [em alemão: Fuhrung]? Por consequência, não é possível fixar de uma vez para sempre o limite entre a resistência e a submissão. A fé exige-nos essa atitude flexível e viva. Só dessa forma conseguiremos suportar e tornar frutíferas quantas situações se nos apresentem” (pp.129-130). De outra banda, tais textos, muito curiosamente, permitem, também, ecoar, de um preso que seria condenado à morte (um “mártir do nazismo” no dizer de Cavalleri) o que uma detida de Auschwitz como Etty escreveu no seu “Diário 1941-1943” – no qual plasmou que “nunca estaremos nas garras deles” [nazis] porque o mais íntimo não poderá nunca ser capturado e por isso, mesmo no mais insano e inumano dos lugares, o lager, ela não podia deixar de considerar que a vida continuava a ter significado (não tenho culpa de continuar a achar a vida cheia de sentido, disse), em um passo desta índole: “em uns tempos como estes, é quando realmente fica patente o que significa possuir um passado e uma herança interior independente da mudança dos tempos e das circunstâncias. A circunstância de estar sustentado em uma tradição espiritual que remonta há vários séculos, dá-nos a sensação de amparo frente a todas as tristezas (…). Creio que quem se sabe possuidor de tais reservas de energia, não deve sentir-se envergonhado de sentir-se embargado por uns sentimentos mais ternos, que, a meu ver, são os mais nobres e melhores do Homem (…). Tais sentimentos não deprimirão quem mantém firmes uns valores que nenhum Homem pode tirar.” (p.67) – e repetirá ipsis verbis, o que é especialmente significativo quanto à consolidação de um modo de olhar as coisas, o que já escrevera em “Ética” e que assim aparece como núcleo decisivo do seu pensamento: “o caminho seguro do dever parece ser o indicado para evadir-se dessa desconcertante profusão de decisões possíveis (…) Mas, limitando-se a cumprir com o dever, nunca se assume o risco da acção realizada em nome da responsabilidade mais pessoal, a única capaz de acertar no coração do mal e de o vencer. O homem do dever terá, finalmente, que cumprir o seu dever inclusivamente ante o próprio diabo” (p.15).
De Dietrich Bonhoeffer, de acordo com Nicoletta Capozza (vide https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/608255-dietrich-bonhoeffer-martir-do-nosso-tempo ), filósofa italiana especialista em Bonhoeffer e professora do Instituto Superior de Ciências Religiosas em Verona ficará um extraordinário exemplo de i) descentramento (que, seguramente, muito dirá a uma época, como a nossa, de enclausuramento identitário) - “Quando renunciamos completamente a fazer algo de nós mesmos – um santo, um pecador arrependido ou um homem da Igreja (uma assim chamada figura sacerdotal), um justo ou um injusto, um doente ou um sadio – (...) então jogamo-nos completamente nos braços de Deus, então não levamos mais a sério os próprios sofrimentos, mas os sofrimentos de Deus no mundo, então vigiamos com Cristo no Getsêmani, e, creio eu, esta é a fé, está a metanoia/μετάνοια, e assim nos tornamos homens, nos tornamos cristãos” -, ii) coragem (face à adequação a um regime, consumista antes de mais, própria dos nossos dias, e em que a obsessão pelo controlo de todas as variáveis, em atitude de defesa, caracterizaria as mensagens aos jovens e a ideia de instrumentos a estes fornecidos pela sociedade em que se encontram) e iii) olhar a partir de baixo – mesmo antes de ser preso, escreveu Bonhoeffer: “Continua sendo uma experiência de valor excepcional o fato de ter aprendido, enfim, a olhar para os grandes eventos da história universal a partir de baixo, da perspectiva dos excluídos, dos suspeitos, dos maltratados , dos impotentes, dos oprimidos e dos ridicularizados, em uma palavra, dos sofredores”.

Pedro Miranda

(publicado no jornal I)


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