O HOMEM DO DEVER OBEDECE MESMO DIANTE DO DIABO (DIETRICH BONHOEFFER)
O
homem do dever obedece mesmo diante do diabo. Dietrich Bonhoeffer e a questão do
tiranicídio
Ao longo do seu trajecto (pensamento-acção), principiaria por não ser propriamente insensível ao nacionalismo e ao conceito de "guerra justa". Converter-se-ia, mais tarde, ao pacifismo. Mas, finalmente, deste arrancaria, de novo, para a determinação em combater e aniquilar o tirano (Hitler).
Em 1931 é ordenado pastor, em Berlim, na Igreja de São Mateus. Será nomeado Docente de Teologia da Universidade de Humboldt, a mesma de seu pai. Começa com 15 estudantes, mas a sua convicção, capacidade inspiradora, energia e qualidade de ensino depressa lhe granjeiam centenas de ouvintes (alunos). Em 1932, viaja por vários países. Fixar-se-á, posteriormente, e a partir do momento em que torna clara a sua clara oposição à ala da Igreja luterana que sustentava um compromisso com o regime nazi (entretanto emergente), durante um ano, em Londres. Entre 1935-1939, estabelecer-se-á na Alemanha, já com os nazis no poder. Dará seminários de modo clandestino, com vista à formação de uma resistência espiritual ao nazismo. Em 1934, ali surgira a Igreja confessante, em oposição à Igreja do regime, e Bonhoeffer foi chamado a formar os pastores dessa Igreja. Com a Gestapo (polícia secreta oficial da Alemanha nazi) a controlar o país ao milímetro, alguns dos seus formandos serão enviados para a linha da frente. Ele que tinha tido um irmão morto em guerra aos 19 anos, afastar-se-á, então, para os EUA; porém, os remorsos por não estar ao lado do seu povo, no momento da maior dificuldade possível, levá-lo-ão, apesar de todos os perigos - e quando a licença para dar aulas, no país natal, já lhe tinha sido retirada, sendo expulso oficialmente da Universidade em 1936 -, a embarcar de novo para a terra pátria. Aí, através de ligações familiares, irá ser colocado nos serviços secretos do Exército, o que lhe permitirá não ser mobilizado e, ao mesmo tempo, mover-se por todo a parte com à vontade. Entre 1940-1943, Bonhoeffer viaja várias vezes por Noruega, Itália, Suíça e escreverá “Ética”, durante a sua residência num mosteiro da Baviera. Participará, com outros membros do Exército, de uma rede que, no limite, efetuará tentativa de tiranicídio (mal-sucedida). Seria detido a 5 de abril de 1943 (com sua irmã e cunhado), resistindo aos interrogatórios para revelar os intentos em marcha para depor Hitler (o atentado contra Hitler, conhecido por “Operação Valquíria”, liderado por Claus von Stauffenberg, ocorreria mais de um ano depois, a 20 de julho de 1944, com o tirano a conseguir sair ileso do mesmo, por fortuna; entre outros, publicado entre nós, isoladamente, uma parte da biografia de Hitler, assinada por Ian Kershaw, dedicada a este episódio, em volume intitulado “Sorte do diabo”, D.Quixote, reeditado em 2020; em 2008, Bryan Singer realizava “Valquíria”, adaptando ao cinema aquele momento histórico), e deportado para o campo de concentração de Buchenwald (estando preso em volta deste). Seria executado em Flossenburg. Nas palavras de Bruno Maggioni (“Prefácio”, a Giorgio Cavalleri, “Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo”, Paulinas, 2019, pp.9-10), “diz-se de Bonhoeffer que, após a leitura da condenação por parte do tribunal, antes de envergar o traje de prisioneiro, estava ajoelhado, na presença íntima do seu Deus. O médico que o assistiu até ao fim disse que em toda a sua vida nunca tinha visto um homem tão abandonado a Deus. O abandono e a certeza de que a sua oração seria atendida, naquele homem extraordinariamente simpático, impressionou-o profundamente. Junto ao lugar da execução, viu o pastor luterano elevar uma breve oração e depois subir, com coragem e dignidade, a escada que conduzia ao patíbulo”.
Pouco antes de ser colocado na prisão da Gestapo, em outubro de 1944, estabelecera, aos 37 anos, uma relação amorosa muito firme com uma jovem de 19 anos, com quem fará uma troca epistolar considerável.
Esta marca decisiva do pensamento de Dietrich Bonhoeffer é muito interessante, porque re-conforma a permanente tensão entre o mundo temporal e espiritual (tensão, portanto, a ser superada em uma única realidade não cindível; “o cristão já não é o homem do eterno conflito”), para, deste modo, sobretudo, pôr em cheque “um homo religiosus retirado, intimista, alheado do exterior, imerso em actos de devoção, escrupuloso executor de ritos sem tradução prática”, afirmando, ao invés, o homem “acolhedor do mundo na sua integralidade”, do “«homem-para-os-outros»”, porque “ser Igreja não consiste em pertencer a uma associação piedosa, mas em prestar «testemunho perante o mundo»” (como refere A.Mourão na introdução à edição portuguesa de “Ética”). Se, pois, “a nossa relação com Deus é uma vida nova no “ser-para-os-outros” na comunhão da vida de Jesus, então existe sempre uma repercussão política da fé, um carácter público do testemunho, uma consequência prática do ser-cristão, a necessidade de confessar Cristo aqui e agora, na profundeza e obscuridade do quotidiano”. É verdade que, segundo o autor de “Ética”, a Igreja não tem o direito de se apropriar do poder estatal, mas não pode, igualmente, ensimesmar-se e isolar-se da política, quando o Estado lesa os direitos humanos fundamentais. Mais, quando tais direitos são postergados, Bonhoeffer propõe um critério de acção eclesial bem claro e concreto:
“Primeiro, requestar directamente ao Estado o carácter politicamente legítimo do seu agir, isto é, a responsabilização estatal. Em segundo lugar, estar ao serviço das vítimas da conduta estatal. A Igreja tem uma obrigação incondicional de prestar ajuda às vítimas de cada ordenamento social, mesmo se elas não fazem parte da comunidade cristã. A terceira possibilidade consiste não só em unir as vítimas sob a roda, mas também em inutilizar a roda nos seus raios (…)”.
Giorgio Cavalleri, escritor e historiador italiano que assina uma biografia de Bonhoeffer (“Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo”, Paulinas, 2019), sistematiza o pensamento (e a postura) de Bonhoeffer sobre as questões da guerra e da paz em três etapas bem distintas (pp.37-38): a) até 1929, até ao seu embarque para Nova Iorque como bolseiro, nele se pode detectar uma teologia nacionalista relativamente clássica; b) de 1930 a 1939, propõe uma forma radical de pacifismo (influenciado por Jean Lasserre, o francês de quem se tornaria muito amigo, e que morreria apenas em 1983 e que nunca chegou a sancionar o tiranicídio); c) a partir de 1940, na sequência do seu regresso à Alemanha, Bonhoeffer elabora uma ética que tenta avaliar as acções mais adequadas em cada contexto específico, em vez de seguir princípio absolutos preestabelecidos.
Se, como vimos de indicar, Jean Lasserre – pastor da Igreja reformada de França, teólogo da paz – nunca chega a sancionar o tiranicídio, em nossos dias, questionado, pelo intelectual francês Dominique Wolton, expressamente, sobre o tema da (possibilidade de) “guerra justa”, observa o Papa Francisco: “nos tempos que correm, devemos reflectir bem sobre o conceito de «guerra justa». Aprendemos, em filosofia política, que, para nos defendermos, podemos fazer uma guerra e considerá-la justa. Mas será que se pode dizer uma «guerra justa»? Ou antes uma «guerra de defesa»? Porque a única coisa justa é a paz” (“Um futuro de fé”, Planeta, 2018, p.47). Se a mais densa qualificação de “justa” só poderá atribuir-se à paz, haverá, por certo, momentos de defesa perante uma guerra de agressão. E, sobretudo, existirá uma necessária solidariedade com as vítimas. Wolton: onde estava Deus em Auschwitz? “Deus estava nos cristos que foram mortos e feridos. Deus manifesta-se sempre na carne (…) Em Auschwitz, vi como era o homem sem Deus. Quando falei em Jerusalém, no monumento de comemoração da Shoah, parti da palavra do Génesis, quando, após o pecado, Deus procura Adão. Na verdade, a pergunta «Adão, onde estás?» é mais «Onde está o homem?». O homem capaz de fazer como Adão, como Caim. «Não és o homem que criei, estás demasiado afastado e és um monstro». Um homem sem Deus é capaz de o fazer. Inverto a pergunta. Para compreender melhor o que penso, talvez pudesse ler o que disse em Jerusalém no monumento da Shoah. E em Auschwitz, simplesmente. Quem fez aquilo? Um homem que se esqueceu de que foi feito à imagem de Deus” (Papa Francisco, “Um futuro de fé”, Planeta, pp.276 e 217).
Em qualquer caso, se, potencialmente, de regra - o que não sucede em exemplos, singulares, dados de concretização, de imaginação, de apropriação de um dado modo de compreender a fé e suas consequências e declinações práticas, mas sem se prescrever uma norma universal; também de um caso verdadeiramente singular, extraordinário se passa em Bonhoeffer – se tratasse, a ausência de cristãos entre exércitos (ou, pelo menos, nestes, de funções que contendessem com a possibilidade vinda de assinalar; ainda que os exemplos supra-citados tenham redundado num puro e simples abandono do exército tout-court, embora, evidentemente, dada a época histórica a que nos reportamos, muito longe de possuir a dimensão burocrática e, portanto, funções bastantes que não impliquem a linha da frente, o que porventura então não sucederia), melhor salvaguardada ficaria uma sociedade (antes de se atingir uma tão desejada quanto, pese o paradoxo, precária “paz perpétua”)? Se, em anos recentes de Yuval Harari a Hans Rosling, inúmeros autores e best sellers ocidentais, com recurso, nomeadamente, a um enorme aparato estatístico, quiseram provar e convencer-nos de que, para o dizer numa frase, nunca estivemos tão bem (ao longo da história), neste exacto instante do nosso devir em que a ideia de que superáramos a peste, a fome e a guerra (e nos basta(va) lutar contra os efeitos das coca-colas e embarcar no pós-humano), em escritos já elaborados, de resto, em época de desconsolidação democrática e da pandemia das “democracias iliberais” (ou autocracias), em que advieram a Covid19, (entre outras) a guerra de agressão da Rússia de Putin à Ucrânia (e com ela a noção de precariedade alimentar potencial em algumas zonas do globo, a prazo), afora problemas como o das alterações climáticas ou os diagnosticados na ansiedade como “doença do nosso tempo” – as estatísticas nunca captarão aquilo que Fátima Passos (“Hino da Alegria”, Paulinas, 2021) observava quando dizia que a esperança média de vida diminuiu imenso nas últimas décadas, dado que hoje nos ficamos pelos 80 anos, enquanto tempos e séculos houve em que tínhamos, por exemplo, 50 anos mais a vida eterna –, abordagens, essas, que surgem como não apenas cândidas, mas, sobretudo, insensatas e imprudentes (numa espécie de mea culpa, dizia Harari, nas últimas semanas, em entrevista: “apontar o declínio da guerra não tinha como objectivo tornar-nos complacentes, mas antes responsáveis”; este autor, ainda antes da guerra de agressão à Ucrânia ter principiado escreveu um ensaio na “The Economist”, segundo o qual estaríamos em uma hora determinante da humanidade, para saber se ela estaria a salvo de cair frequentemente na guerra de todos contra todos, como se Hobbes pudesse ter sido, pura e simplesmente, eliminado da bibliografia básica da humanidade), autores como António Damásio não estranhariam, por certo, que a guerra não seja um estádio ultrapassado. Em “A estranha ordem das coisas” (Temas e Debates, 2017, pp.298-314), o neurocientista explicara, sem necessidade de recurso a nenhum determinismo absoluto e sem largar uma esperança audaz porque realista, certas recaídas: “porque será que os seres humanos eliminam periodicamente, pelo menos em parte, os ganhos que fizeram culturalmente? (...) Segundo a perspectiva biológica que delineei, os repetidos fracassos dos esforços culturais não deveriam surpreender. Eis porquê. A base fisiológica e o principal interesse da homeostasia [tendência para o equilíbrio e a conservação de elementos fisiológicos e do metabolismo, através de elementos de regulação] básica é a vida de um organismo individual dentro das suas fronteiras (…) A única solução razoável e, assim esperamos, viável para o problema consiste em enormes esforços civilizacionais através dos quais, graças à educação, as sociedades consigam cooperar no desenvolvimento de requisitos fundamentais para a governação (…) Freud viu a bestialidade do nazismo como uma confirmação de que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. (...). Em 1932, Einstein escreveu a Freud, pedindo conselhos sobre como prevenir a conflagração mortífera que ele via aproximar-se (...). Na sua resposta, Freud descreveu a condição humana com uma clareza impiedosa e lamentou-se a Einstein dizendo-lhe que, tendo em conta as forças que estavam em jogo, não tinha quaisquer conselhos a dar, não tinha como ajudar, não tinha qualquer solução, tinha pena e não mais. Note-se que o principal motivo para o seu pessimismo era a condição internamente imperfeita do ser humano. Não atribuía culpas às culturas, nem a grupos específicos. Apenas culpava os seres humanos. Ainda hoje, aquilo a que Freud chamou de «desejo de morte» continua a ser um factor importante por trás dos fracassos sociais humanos, embora eu o descrevesse com termos menos misteriosos e poéticos. Segundo penso, esse factor é um componente estrutural da mente cultural humana. Em termos neurobiológicos contemporâneos, o «desejo de morte» de Freud corresponde à activação desregrada de um conjunto específico de emoções negativas, a subsequente perturbação da homeostasia e o caos avassalador que isso provoca nos comportamentos humanos individuais e colectivos. (...) O equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende, em grande medida, da contenção civilizacional e da governação justa e democrática, capaz de representar aqueles que estão a ser governados. Por sua vez, a contenção civilizacional depende do conhecimento, do discernimento e, pelo menos, de um pouco de bom senso e sagacidade que advém da educação, do progresso científico e técnico, e dos bons efeitos das tradições humanistas, tanto religiosas como laicas (…) As estratégias que os seres humanos se sentiram motivados a desenvolver para garantir uma boa vida - preceitos morais, religiões, modos de governação, economia, ciência e tecnologia, sistemas filosóficos, e as artes - levaram a ganhos inquestionáveis no bem-estar. Contudo, essas mesmas estratégias também levaram a graus impensáveis de sofrimento, destruição e morte. Pouco admira que, tantas vezes, os seres humanos tenham concluído imprudentemente que tinham chegado a uma era de estabilidade e de razão, em que a injustiça e a violência seriam para sempre banidas. Mas têm acabado sempre por descobrir que os horrores da profunda iniquidade ou da guerra regressam e recrudescem.” O cientista não ignora o que em latência sempre se encontra fervilhando, embora não explodindo necessariamente, disso dependendo o sucesso, prima facie, de uma educação (de cada pessoa) capaz de compreender “como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial”, e da articulação óptima dos factores (na conjugação entre diferentes actores, representantes estatais, povos, políticas…) já mencionados – da governação à economia, passando pela ciência e tecnologia.
Para recentrar, e face ao nazismo, em uma escolha repleta de escolhos e espinhos sem dúvida, talvez se pudesse observar que quem entende(u), ultima ratio, a opção pelo tiranicídio (professando, em simultâneo, uma fé cristã, levada a sério), desde logo, e a oposição militar ao regime de Hitler (de um modo global, por outros actores à escala internacional), tenha entendido, e entre outras, que em nome de um valor cristão – a paz, a não violência –, se instalaria de Berlim a Moscovo, de São Petersburgo ao continente Americano, um regime, um inteiro modo de vida não apenas não cristão, mas marcadamente anti-cristão (o “reich dos mil anos” imporia a “raça” como deus, o ódio ao outro como “obrigação”, a violência e ausência de paz como “necessidade” até uma putativa eliminação completa dos “degenerados”, em última instância todos os que não se revissem no regime). De aí, respectivamente, as posições tiranicida (face a Hitler) e de oposição pela força militar de combate à Alemanha nazi (dado que o regime nazi mostrara, sem lugar à mais pequena dúvida, que recusava qualquer diálogo digno desse nome, antes instrumentalizando qualquer simulacro de conversação para os seus fins de alargamento da sua concepção “imperial”).
Regressando a “Ética”, diremos que, sem abordar explicitamente o tiranicídio, Bonhoeffer escreveu de um modo que podemos considerar particularmente relevante para a problemática em presença: "arbitrário é qualquer homicídio consciente de uma vida inocente". Ou seja, regista Cavalleri, "retira, de facto, à proibição [de matar] o seu carácter absoluto. Por outras palavras, se o homicídio só é ilegítimo quando a vítima é inocente, o tiranicídio pode ser classificado como pertencente à categoria dos homicídios autorizados"(pp.47-48). Numa entrada de 16 de outubro de 1942, no “Diário” que mantém, Maria, futura noiva de Bonhoeffer, anota a conversa que tivera com aquele: "diz ele que entre nós é tradição que os rapazes se alistem como voluntários. Em seu entender, porém, também deve haver pessoas que podem combater seguindo apenas as suas próprias convicções pessoais. Se aprovam o motivo da guerra, então está bem. Mas se assim não for, a melhor maneira de servir a pátria é operar na frente interna, talvez até contra o regime. Portanto, a sua missão seria evitar durante o máximo de tempo possível servir a Wehrmacht, e até, em certos casos, recusar-se a cumprir o serviço militar, se não podem conciliar com a sua consciência" (p.48).
As atrocidades nazis são sem fim nem limite, o Führer o alfa e ómega da vida política alemã, a barbaridade sem nome a que dá origem clama aos Céus. Ao mesmo tempo, Bonhoeffer não ignora nem esquece as obrigações máximas para com o próximo (de um cristão apaixonado). Ardem as interrogações que permeiam o teólogo: “Já há tempos que se deu conta da demoníaca capacidade sedutora de Adolf Hitler. Por outras palavras, o chefe do nazismo aproveitou-se da religiosidade alemã, desde o início do seu mandato, para usar Deus para os seus fins, e Bonhoeffer considera que isso não pode continuar a ser tolerado. Parece-lhe necessário intervir inclusive em termos drásticos e dramáticos - como a superação das suas posições pacifistas -, mesmo que estes lhe possam dilacerar a consciência. Será que um cristão pode participar na morte de um tirano? Será possível atentar contra a estrutura estatal do próprio país? Porventura um conspirador, mesmo contra um tirano cruel e sanguinário, poderá continuar a exercer como pastor? De qualquer modo, pelo menos a nível moral, continuará a ser digno de celebrar a Santa Ceia com os fiéis? É assaltado há algum tempo por tais interrogações...Agora, porém, considera que a medida está cheia e que é necessário agir para salvação do povo, remetendo-se ao juízo de Deus e abandonando-se à sua misericórdia e à sua graça. Está cada vez mais convencido de que a Revelação implica mais uma fé do que uma religião e que, seja como for, exige uma responsabilização pessoal por assumir o destino dos outros. Por amor aos outros, mesmo que seja necessário assumir a cruz" (p.36).
Na ponderação e síntese de Giorgio Cavalleri, "em todo o caso, quando a voz da consciência prevalece sobre todas as considerações, inclusive morais, a proibição de matar pode não ser tida em conta, sobretudo se determinado homicídio permite que se evitem outros. Além disso, o tiranicídio não está em contradição total com um certo pacifismo, se estiver associado à objecção de consciência".
Publicadas de modo póstumo, pelo seu amigo Bethge, com o título “Resistência e Submissão” (sigo aqui a edição em castelhano, da Sígueme, 2008), as suas cartas e escritos durante a prisão em Tegel espelham, com meridiana clareza, as dúvidas, a complexidade, a tensão que perpassava o autor – note-se o passo seguinte, a que o título escolhido para o coligir destes textos dá ressonância, com as mais fundas inquietações personificadas nas figuras de Quixote e Sancho Pança: “como se estabelece o limite entre a necessária resistência contra o «destino» e a submissão ao mesmo, que é igualmente necessária? Dom Quixote é o símbolo da obstinação na resistência levada até ao absurdo, inclusivamente até à loucura (…) Sancho Pança seria o representante de um acomodamento, satisfeito e astuto, a uma dada situação. Creio que devemos cometer grandes empresas que nos são próprias, mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de fazer o que é óbvio por natureza e universalmente necessário. Havemos de enfrentar o «destino» - parece-me importante o género neutro que este termo tem em alemão [Schicksal] – do mesmo modo decidido com que logo nos submeteremos a ele em devido tempo. Só podemos falar de ser conduzidos quando já tivermos cumprido este duplo processo (…) Ou, para dizê-lo por outras palavras: como é que o «destino» se converte em «direcção a seguir» [em alemão: Fuhrung]? Por consequência, não é possível fixar de uma vez para sempre o limite entre a resistência e a submissão. A fé exige-nos essa atitude flexível e viva. Só dessa forma conseguiremos suportar e tornar frutíferas quantas situações se nos apresentem” (pp.129-130). De outra banda, tais textos, muito curiosamente, permitem, também, ecoar, de um preso que seria condenado à morte (um “mártir do nazismo” no dizer de Cavalleri) o que uma detida de Auschwitz como Etty escreveu no seu “Diário 1941-1943” – no qual plasmou que “nunca estaremos nas garras deles” [nazis] porque o mais íntimo não poderá nunca ser capturado e por isso, mesmo no mais insano e inumano dos lugares, o lager, ela não podia deixar de considerar que a vida continuava a ter significado (não tenho culpa de continuar a achar a vida cheia de sentido, disse), em um passo desta índole: “em uns tempos como estes, é quando realmente fica patente o que significa possuir um passado e uma herança interior independente da mudança dos tempos e das circunstâncias. A circunstância de estar sustentado em uma tradição espiritual que remonta há vários séculos, dá-nos a sensação de amparo frente a todas as tristezas (…). Creio que quem se sabe possuidor de tais reservas de energia, não deve sentir-se envergonhado de sentir-se embargado por uns sentimentos mais ternos, que, a meu ver, são os mais nobres e melhores do Homem (…). Tais sentimentos não deprimirão quem mantém firmes uns valores que nenhum Homem pode tirar.” (p.67) – e repetirá ipsis verbis, o que é especialmente significativo quanto à consolidação de um modo de olhar as coisas, o que já escrevera em “Ética” e que assim aparece como núcleo decisivo do seu pensamento: “o caminho seguro do dever parece ser o indicado para evadir-se dessa desconcertante profusão de decisões possíveis (…) Mas, limitando-se a cumprir com o dever, nunca se assume o risco da acção realizada em nome da responsabilidade mais pessoal, a única capaz de acertar no coração do mal e de o vencer. O homem do dever terá, finalmente, que cumprir o seu dever inclusivamente ante o próprio diabo” (p.15).
De Dietrich Bonhoeffer, de acordo com Nicoletta Capozza (vide https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/608255-dietrich-bonhoeffer-martir-do-nosso-tempo ), filósofa italiana especialista em Bonhoeffer e professora do Instituto Superior de Ciências Religiosas em Verona ficará um extraordinário exemplo de i) descentramento (que, seguramente, muito dirá a uma época, como a nossa, de enclausuramento identitário) - “Quando renunciamos completamente a fazer algo de nós mesmos – um santo, um pecador arrependido ou um homem da Igreja (uma assim chamada figura sacerdotal), um justo ou um injusto, um doente ou um sadio – (...) então jogamo-nos completamente nos braços de Deus, então não levamos mais a sério os próprios sofrimentos, mas os sofrimentos de Deus no mundo, então vigiamos com Cristo no Getsêmani, e, creio eu, esta é a fé, está a metanoia/μετάνοια, e assim nos tornamos homens, nos tornamos cristãos” -, ii) coragem (face à adequação a um regime, consumista antes de mais, própria dos nossos dias, e em que a obsessão pelo controlo de todas as variáveis, em atitude de defesa, caracterizaria as mensagens aos jovens e a ideia de instrumentos a estes fornecidos pela sociedade em que se encontram) e iii) olhar a partir de baixo – mesmo antes de ser preso, escreveu Bonhoeffer: “Continua sendo uma experiência de valor excepcional o fato de ter aprendido, enfim, a olhar para os grandes eventos da história universal a partir de baixo, da perspectiva dos excluídos, dos suspeitos, dos maltratados , dos impotentes, dos oprimidos e dos ridicularizados, em uma palavra, dos sofredores”.
Pedro
Miranda
(publicado no jornal I)
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