O TEMPO DOS BLOGUES E A PRIMEIRA DÉCADA (PORTUGUESA) DOS ANOS 2000 (SÉRGIO BARRETO COSTA)

 

O tempo dos blogues e a primeira década (portuguesa) dos anos 2000

1.Os primeiros blogues em Portugal surgem no final da década de 90, alguns deles ainda no activo, como O macaco sem galhos, de Pedro Couto e Santos.

2.No entanto, se nos ativermos a blogues de debate político, a Coluna Infame, de Pedro Mexia, João Pereira Coutinho e Pedro Lomba, com início a 15 de Outubro de 2002, marca um momento inicial na blogosfera portuguesa. Este conjunto de bloggers, e este concreto blogue, inspiram-se em Andrew Sullivan, um conhecido intelectual público com obra publicada em português, que criara (já) o seu próprio blogue e partilhava com estes autores uma certa mundividência (de direita, liberal, conservadora).

3.Em 2008, havia mais de 200 mil blogues em Portugal.

4.Do ponto de vista da facilidade técnica, o domínio norte-americano "blogspot.com" contribuiu para o boom dos blogs, no início do novo século, em Portugal; a repolitização das sociedades ocidentais, no pós-11 de Setembro, foi outro factor a relevar, de sobremaneira, nesta emergência da blogosfera (fortemente activa; com gente, pois, a passar de consumidora de informação e opinião, a emissora das mesmas, com maior, ou menor, preparação para o efeito, é certo). A possibilidade da hiperligação, interactividade, diálogo entre blogues são faces da sua atractividade.

5.Um dos primeiros textos, na imprensa nacional, acerca da blogosfera foi assinado por José Pacheco Pereira, a 20 de Março de 2003. José Manuel Fernandes, também no Público, diria sobre o encerramento do blog Coluna Infame, no mesmo ano, em Editorial, que "o país ficou mais pobre". Tiago Cavaco, pastor evangélico, blogger, músico e intelectual de direita, com futura coluna na LER, consideraria a Coluna Infame como “um dos acontecimentos culturais mais importantes das últimas décadas”.

6.Os blogues revelavam um conjunto de talentos, para a escrita e opinião, que muitos viam mais marcantes do que algumas assinaturas dos nossos jornais. Por vezes, e por outro lado, na mesma pessoa coincidia um blogger influente e um opinion maker clássico nas tribunas de há décadas. Sérgio Barreto Costa, em A blogosfera portuguesa. Da Coluna Infame ao ocaso de uma era (FFMS, 2021), diz, não sem alguma irritação, que o Abrupto, de Pacheco Pereira - a quem chama "o mais conhecido, o mais duradouro e o mais importante intelectual público da praça" - pretendeu ser a "consciência moral" (atribuindo-lhe um sentido, um tanto pejorativo, de mestre-escola) da blogosfera (portuguesa), ainda que conclua pelo "bom trabalho" do autor (ao mesmo tempo que regista a evolução ideológica, aí tão plasmada, de Pacheco Pereira, desde os primeiros anos do século até à actualidade). Uma obra de Agustina Bessa-Luís chegou, em pré-publicação, primeiro ao Abrupto do que às livrarias.
Prosseguindo a viagem pelos blogues e alguns dos seus autores que viriam a tornar-se vozes muito presentes na vida pública portuguesa, Pedro Adão e Silva, "o maior e mais importante tudólogo do país" assinou, entre outros com Mariana Vieira da Silva, o País Relativo. O papel pioneiro de um blogue partidário institucional coube ao CDS, com José Ribeiro e Castro, em O blog do Caldas. Houve, inclusive, elementos que saltaram dos blogues para a política (deputados, assessores, etc.) expressamente pelo seu desempenho na blogosfera (como João Galamba confessou ter sido o seu próprio caso). No entender de Sérgio Barreto Costa, a blogosfera foi, também, uma importante plataforma de difusão do pensamento liberal (na economia) em Portugal, ainda que se faça notar que no período de auge da mesma (blogosfera), na imprensa surgiria a revista “Atlântico” – que duraria três anos – como farol de tal ideário (e que, no fundo, seria a antecâmara do futuro “Observador”).
 
7.Os blogues, ainda durante a primeira década dos anos 2000, saltaram para a televisão: a TVI teve um programa, em 2009, intitulado “Combate de blogues”, com a presença em estúdio, em debate político, de alguns dos mais conhecidos bloggers portugueses.

8.Como o próprio nome do programa, vindo de mencionar, indica, a blogosfera foi vista, ainda, por diferentes sectores da sociedade como a extensão da luta política – ou da conformação ideológico-cultural a imprimir ao país, no desejo dos mais activistas – por outros meios, em que era preciso estar. Para lá, claro, de uma vontade e uma disponibilidade para participar, e uma segurança bastante para, em podendo ser confrontado, apresentar-se no terreno.

9.A não ser, claro, que o autor de um blogue participasse sob a forma de anonimato. Nesse contexto, a discussão na esfera pública manteve-se até aos nossos dias: i) deve “deixar-se tudo como está?” ii) deve legislar-se, proibindo “totalmente a criação de qualquer página ou conta anónima?” iii) deve permitir-se “o uso de pseudónimos desde que seja possível, caso sejam cometidos delitos, identificar posteriormente o autor”?

10.Ao longo de uma década, houve nomes que o país passou a conhecer (melhor) e que chegou a confundir com um blogue: Bruno Senas Martins, no Avatares de um Desejo, António Araújo, no Malomil, Paulo Gorjão, no Bloguítica, Eduardo Pitta, no Da Literatura, João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, Rui Bebiano, em A terceira noite, Pedro Arroja, em Portugal Contemporâneo, João Lopes, em Sound+Vision, Francisco José Viegas, em A origem das espécies, Mesquita Nunes, em A arte da fuga, Rogério Casanova em Pastoral Portuguesa, maradona…Mas também blogues colectivos, claramente demarcados do ponto de vista ideológico e com gosto pela confrontação política: o Blasfémias, o Ladrões de Bicicletas, o Insurgente, o Arrastão, O Cachimbo de Magritte…O De Rerum Natura, com Carlos Fiolhais, Desidério Murcho ou Palmira Silva alcançava a respeitabilidade de uma feliz articulação académica das “duas culturas” (humanidades e ciências). Um dos mais polémicos blogues nacionais, nomeadamente pela quantidade de informação privilegiada recebida durante os governos Sócrates, e pela (questionada) identidade dos seus autores, foi o Câmara Corporativa…E tivemos, em plena campanha pelo referendo ao aborto (2006-2007), os blogues pelo «sim» e pelo «não» que foram centros aglutinadores de ideias…e emoções. E a aparição, tão entusiasticamente recebida, quanto curta, de Vasco Pulido Valente, em Espectro.

11.Muitos dos mais (re)conhecidos bloggers passaram-se, entretanto, para o Twitter e/ou Facebook, nem sempre conservando a possibilidade da pureza doutrinária, em longuíssimos posts, carregados de referências académicas, ou o esmiuçar, em largos milhares de caracteres, de um filme ou de um livro, perdendo-se em criatividade, detalhe, ou estilo o que se “ganha” em informação, dados, imediatismo, repercussão ao segundo. Houve, outrossim, já na blogosfera, quem a abandonasse pela desdita de confrontações políticas excessivamente emocionais/pessoais, confinando-se a uma “postagem” mais lírica.
Memórias de um tempo de explosão do “you” (figura do ano, para a Time, em 2006), de afirmação de novas vozes, de partilha de conhecimento, de humor intempestivo, de renovação das coisas.

Boa semana.

Pedro Miranda

(publicado no "reparo do dia", na universidadefm)

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