ONDE ANDAM ELES? O MARCO EM BRADFORD
ONDE ANDAM ELES? A
DIÁSPORA DOS ALUNOS DA ESCOLA DE SÃO PEDRO, CONTADA EM DISCURSO DIRETO
Marco Agarez, 22 anos, a fazer Mestrado em Finanças, em Inglaterra:
“Gosto
de estar fora de casa, sentir-me livre, tomar as minhas próprias decisões,
conhecer novas pessoas, cidades, culturas”
Há quatro anos, Marco Agarez concluía,
na Escola Secundária São Pedro, o ensino Secundário, no curso de Ciências
Socioeconómicas. Prosseguiria os estudos na Universidade de Aveiro, realizando
licenciatura em Finanças, cujos temas e áreas que recobre o foram,
paulatinamente, conquistando. A decisão de aprofundar conhecimentos neste
domínio surgiu, pois, como natural no percurso do Marco: após apelativos
diálogos, com colegas e professores, a opção por continuar vida académica fora
de Portugal ganhou contornos definitivos. Com o Brexit, último ano em que teria financiamento para estudar em
Inglaterra – seleção feita. Hoje, vive em Bradford, na região de West
Yorkshire, a cerca de 50 km de Manchester e a 30 km de Leeds. Duas cartas de
recomendação de dois professores (universitários) diferentes foram tão
necessárias, quanto bastantes, para aceder à instituição de ensino superior
britânico a que se candidatou. O Mestrado tem a duração de um ano. “Estou numa
cidade com uma população muito diversificada. Aqui, há a maior comunidade
paquistanesa em Inglaterra e também muitos indianos. Não me sinto muito em
Inglaterra. Sinto-me num sítio meio misturado. Loja da esquina, café da
esquina, tudo com origens paquistanesas. E manifestam a sua cultura original”,
começa por dizer-nos quando o interpelamos, pelo inevitável zoom, mesmo no ocaso de 2020, regressara
ele à faculdade, após uma semana natalícia em Vila Real. Vive numa residência,
com pessoas de diferentes nacionalidades - polacos, ingleses, indianos,
paquistaneses. “Nos diferentes andares do prédio vivem 4,5,6 pessoas e estas
têm acesso a uma cozinha partilhada. Colegas de quarto? Um paquistanês, os
outros são anti-sociais (risos)”. Vai à
universidade,
almoça em casa, as coisas fecham muito cedo por ali (para o que estamos
habituados em Portugal), com a pandemia chega a sentir-se só. Muito
naturalmente, tem tido maior curiosidade pelo outro não europeu/ocidental,
conversando, sucessivamente, sobre o Paquistão, sua história e costumes: “não
considero os paquistaneses [que conheci até ao momento] antipáticos, mas têm
uma forma de estar e falar com as outras pessoas muito mais fechada do que a
dos europeus que aqui estamos. Têm muito mais dificuldade em interagir com os
outros. Já levei o meu colega de quarto a festas, mas a cultura da noite não a
conhecem. E não sabem, ou não conseguem, interagir com os outros. Podem parecer
mais arrogantes, mas acho que é simplesmente o lugar em que foram criados a
determinar a sua forma de ser. São pessoas mais introvertidas, contudo, quando
ganham confiança com alguém é tudo normal.”.
Pergunto-lhe sobre o interesse dele, e
dos colegas, acerca da polis, da
política (serão, em rigor, cidadãos do mundo, interessados e empenhados pela
comunidade global?); debate, afinal, com o colega polaco, por exemplo, a
emergência de uma “democracia iliberal” naquele país (em pleno seio da UE)?
Preocupa-se ele, e o colega, com a situação? “Há pessoas que se interessam e
outras que não se interessam sobre política. Na verdade, a política não é um
tema muito recorrente entre nós. Mas, de facto, o meu colega polaco fala do caos
que lá [na Polónia] está a acontecer. Um outro casal de duas raparigas polacas,
que conheci, veio para cá [Bradford] para não ser discriminado pelas pessoas e pela
comunicação social polaca - que está a ser controlada pelo governo. Este meu
colega polaco quis vir por causa da decadência que observa no país.”
E quais as principais motivações que nota, em si e nos seus colegas (internacionais), para a ida para Bradford, fazer mestrado em Finanças? Em primeiro lugar, conhecer “novos sítios, novas pessoas, novas culturas”; depois, o facto de a “educação no Reino Unido ser reconhecida internacionalmente”. Na Universidade que frequenta, há clubes de tudo - de leitura, ténis, futebol - e com muitos membros. Quando chegou, em setembro de 2020, havia treinos de futebol, de voléi, mas a covid-19 impôs uma paragem forçada. Espera não perder a ocasião, ainda assim, de ir assistir a um jogo, ao vivo, da Premier League.
No sistema académico inglês – “temos aulas em salas em formato de anfiteatro, há cadeiras frequentadas por 200 alunos, embora no meu curso, 70 no máximo. Cadeiras com 20, 30 alunos, várias” - Marco Agarez observou – nos domínios da transmissão de conhecimentos e avaliação - um muito maior recurso a trabalhos do que à realização de exames. E tem uma posição muito clara, relativamente à aprendizagem alcançada, quanto a esta opção (no ensino): “Sinto que aprendo bastante com a realização de trabalhos. É uma forma muito mais eficiente de uma pessoa aprender. Um aluno é mais independente desta forma do que quando está a estudar para o teste; tem que pesquisar, aprender por si, ir junto do professor para esclarecer uma dúvida, procurar informação, saber, mesmo, qual a informação verídica…”.
As propinas, durante o ano de mestrado, custam cerca de 10 mil libras, 12/13 mil euros. O estado britânico envia o dinheiro em 3 prestações, diferenciadas no tempo, e, depois, cada aluno paga à universidade. Posteriormente, quando inserido no mercado de trabalho, de acordo com o vencimento, assim a devolução, e ritmo desta, do dinheiro ao Estado Britânico. Sem juros.
Para ajudar a pagar as suas despesas, o Marco arranjou um trabalho: “o processo logístico para começar a trabalhar foi extremamente fácil, mas já mandei montes de currículos e nunca ninguém me respondeu. O norte de Inglaterra, onde me situo, é o sítio do país com maior desemprego. Para a fábrica em que trabalho, foi o colega polaco que arranjou (emprego). O nosso trabalho é muito simples: bolos saem do forno, e temos de tirá-los dos recipientes e colocá-los em caixas. Durante 8 horas. Ninguém tem nenhum problema com isso, qualquer coisa serve para pagar as contas e não atrapalha nos estudos, até porque é apenas duas vezes por semana.”
Na sua geração, Marco só observa “aspirações individuais, não encontro quem tenha aspirações coletivas, ou cívicas. Estudar para ter emprego melhor, receber um pouco mais de dinheiro”, a isso se resume o propósito. Na Europa, acredita, somos muito parecidos na maneira de pensar. E regressa ao Paquistão, para assinalar diferenças: “lá, toda a família vive na mesma casa, famílias numerosas, até os homens encontrarem uma mulher e saírem. Não se deve expressar sentimentos pela mulher (ou homem) de que se gosta na rua. A família, muitas vezes, escolhe a mulher para o filho. São bastante ligados à religião, pelo que me apercebo. As bebidas alcoólicas no Paquistão são ilegais. Os paquistaneses pretendem encontrar uma única mulher para a vida. Para os europeus, ter vários parceiros é mais habitual. Os paquistaneses que conheço são hindus”. De qualquer modo, nem os paquistaneses escapam à globalização cultural: “o meu colega de quarto só me mostrou músicas indianas. Em termos de vídeo, muito semelhantes ao que se encontra nos EUA.”
Aluno do Instituto de Inglês durante vários anos, apenas a comunicação excessivamente rápida durante dois ou três dias, ou termos técnicos em algumas aulas, o incomodaram ligeiramente, mas nada que ao fim de 72 horas não estivesse superado. Enquanto vai aprendendo alguns aperitivos comuns na Polónia e vê uma série em conjunto com o amigo polaco – “os polacos não têm muito o hábito de jantar em si, mas ir comendo ao longo da tarde, pelo que me apercebi” -, enquanto saboreia os petiscos indianos excessivamente condimentados (três copos de água consecutivos ao jantar perante o riso sarcástico do congénere do Paquistão), o Marco, que nota que a comida fast food é, por Bradford, mais barata do que em Portugal, sem direito a saborear um bom de um café pós-refeição – “o café aqui é extremamente mau” - reconhece ainda não ter lido nenhum jornal inglês em formato de papel (desde que se encontra em terras de Sua Majestade), mas procura na internet estar atualizado sobre o mundo e o seu país natal. Incomoda-o o lixo abundante na cidade que o acolheu – “fora o centro, o aspeto da cidade é degradante” -, mas o seu balanço, após o primeiro semestre do Mestrado em Finanças em Inglaterra é muito positivo: “gosto de estar fora de casa, sentir-me livre, tomar as minhas próprias decisões, conhecer novas pessoas, cidades, culturas”.
E quais as principais motivações que nota, em si e nos seus colegas (internacionais), para a ida para Bradford, fazer mestrado em Finanças? Em primeiro lugar, conhecer “novos sítios, novas pessoas, novas culturas”; depois, o facto de a “educação no Reino Unido ser reconhecida internacionalmente”. Na Universidade que frequenta, há clubes de tudo - de leitura, ténis, futebol - e com muitos membros. Quando chegou, em setembro de 2020, havia treinos de futebol, de voléi, mas a covid-19 impôs uma paragem forçada. Espera não perder a ocasião, ainda assim, de ir assistir a um jogo, ao vivo, da Premier League.
No sistema académico inglês – “temos aulas em salas em formato de anfiteatro, há cadeiras frequentadas por 200 alunos, embora no meu curso, 70 no máximo. Cadeiras com 20, 30 alunos, várias” - Marco Agarez observou – nos domínios da transmissão de conhecimentos e avaliação - um muito maior recurso a trabalhos do que à realização de exames. E tem uma posição muito clara, relativamente à aprendizagem alcançada, quanto a esta opção (no ensino): “Sinto que aprendo bastante com a realização de trabalhos. É uma forma muito mais eficiente de uma pessoa aprender. Um aluno é mais independente desta forma do que quando está a estudar para o teste; tem que pesquisar, aprender por si, ir junto do professor para esclarecer uma dúvida, procurar informação, saber, mesmo, qual a informação verídica…”.
As propinas, durante o ano de mestrado, custam cerca de 10 mil libras, 12/13 mil euros. O estado britânico envia o dinheiro em 3 prestações, diferenciadas no tempo, e, depois, cada aluno paga à universidade. Posteriormente, quando inserido no mercado de trabalho, de acordo com o vencimento, assim a devolução, e ritmo desta, do dinheiro ao Estado Britânico. Sem juros.
Para ajudar a pagar as suas despesas, o Marco arranjou um trabalho: “o processo logístico para começar a trabalhar foi extremamente fácil, mas já mandei montes de currículos e nunca ninguém me respondeu. O norte de Inglaterra, onde me situo, é o sítio do país com maior desemprego. Para a fábrica em que trabalho, foi o colega polaco que arranjou (emprego). O nosso trabalho é muito simples: bolos saem do forno, e temos de tirá-los dos recipientes e colocá-los em caixas. Durante 8 horas. Ninguém tem nenhum problema com isso, qualquer coisa serve para pagar as contas e não atrapalha nos estudos, até porque é apenas duas vezes por semana.”
Na sua geração, Marco só observa “aspirações individuais, não encontro quem tenha aspirações coletivas, ou cívicas. Estudar para ter emprego melhor, receber um pouco mais de dinheiro”, a isso se resume o propósito. Na Europa, acredita, somos muito parecidos na maneira de pensar. E regressa ao Paquistão, para assinalar diferenças: “lá, toda a família vive na mesma casa, famílias numerosas, até os homens encontrarem uma mulher e saírem. Não se deve expressar sentimentos pela mulher (ou homem) de que se gosta na rua. A família, muitas vezes, escolhe a mulher para o filho. São bastante ligados à religião, pelo que me apercebo. As bebidas alcoólicas no Paquistão são ilegais. Os paquistaneses pretendem encontrar uma única mulher para a vida. Para os europeus, ter vários parceiros é mais habitual. Os paquistaneses que conheço são hindus”. De qualquer modo, nem os paquistaneses escapam à globalização cultural: “o meu colega de quarto só me mostrou músicas indianas. Em termos de vídeo, muito semelhantes ao que se encontra nos EUA.”
Aluno do Instituto de Inglês durante vários anos, apenas a comunicação excessivamente rápida durante dois ou três dias, ou termos técnicos em algumas aulas, o incomodaram ligeiramente, mas nada que ao fim de 72 horas não estivesse superado. Enquanto vai aprendendo alguns aperitivos comuns na Polónia e vê uma série em conjunto com o amigo polaco – “os polacos não têm muito o hábito de jantar em si, mas ir comendo ao longo da tarde, pelo que me apercebi” -, enquanto saboreia os petiscos indianos excessivamente condimentados (três copos de água consecutivos ao jantar perante o riso sarcástico do congénere do Paquistão), o Marco, que nota que a comida fast food é, por Bradford, mais barata do que em Portugal, sem direito a saborear um bom de um café pós-refeição – “o café aqui é extremamente mau” - reconhece ainda não ter lido nenhum jornal inglês em formato de papel (desde que se encontra em terras de Sua Majestade), mas procura na internet estar atualizado sobre o mundo e o seu país natal. Incomoda-o o lixo abundante na cidade que o acolheu – “fora o centro, o aspeto da cidade é degradante” -, mas o seu balanço, após o primeiro semestre do Mestrado em Finanças em Inglaterra é muito positivo: “gosto de estar fora de casa, sentir-me livre, tomar as minhas próprias decisões, conhecer novas pessoas, cidades, culturas”.
Marco
Agarez entrevistado por Pedro Miranda
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