'WOLFSBURG'

Agora que nas salas de
cinema está um novo filme de Christian Petzold, Transit, recupero o excepcional Wolfsburg
(2003): nele, o protagonista, um vendedor num stand automóvel, que parece em
permanente estado de ansiedade, stress, perturbado, um daqueles workholic empreendedores, dificilmente
habitando o presente (o olhar nunca parece focado), longínquo e desastrado
(mesmo que ao lado das pessoas), com mais um cliente para atender, esquece-se
do trato devido à namorada (por sinal, irmã do proprietário do stand no qual o
protagonista exerce) e, enquanto pelo telemóvel com ela discute e aparentemente
termina relação, acaba, sem dar por isso num primeiro instante, por atropelar
uma criança. Deixa-a, assim mesmo, quando se apercebe do sucedido pelo vidro
retrovisor, estendida pelo chão, abandonando o local a todo o vapor. Só que a
notícia que lê no jornal (ainda que ignorando-se o autor do atropelamento...),
o sentimento de culpa, obriga-o a agir. Vai até à clínica onde se tenta salvar
a vida da criança. E, posteriormente, fará tudo para a mãe da criança poder
continuar a viver (mesmo após aquela tragédia que se consuma: o menino morre; a
maneira como o protagonista sabe dessa morte é uma das cenas maiores da
película; e a mãe tentará o suicídio), com ela desenvolve, inclusivamente, um
romance. A tensão entre a fuga de si mesmo, a necessidade de redenção, de
perdão, a autoria de um crime que (a pessoa) não pode assumir, mas do qual,
simultaneamente, não pode fugir, tornam a angústia palpável, o desespero na
cara. Extraordinário fácies: de terror, de angústia, de medo, de manipulação,
de urgência, de um grito por dar, um "estou a dizer-te". Há uma
extraordinária comunicação não verbal neste filme. Um pressentimento de
tragédia. O filme é, em boa medida, sobre culpa, procura de redenção, nós que
se agigantam a cada fuga para a frente (para evitar o assumir do acidente,
Phillip Gerber (Benno Furman) paga, com mentiras construídas, omissões por
explicar, contraditório de pretensas "evidências" por realizar, a factura
do "divórcio" e do "desemprego"), o querer assumir uma
responsabilidade pelo que se fez e o não lograr alcançá-lo, a (im)
possibilidade da verdade, cobardia, incapacidade de lidar consigo (mesmo),
manipulação, complexidade (Gerber não é o psicopata que fugiu da criança e
permanece impávido e sereno como se nada tivesse ocorrido; não é o completo
arrependido que se entrega à polícia ou à mãe da criança; não é indiferente à
consequência final do seu acto quer, num momento primeiro, quando julga que
aquela se safou e fica aliviado, quer quando sabe da morte; não é incauto
quanto aos seus interesses e procura esconder indícios de acidente no seu
automóvel, mas também não se refugia nisso para não querer saber da mãe do
menino que viria a falecer). A mãe da criança morta, Nina Hoss (Laura Reiser),
que anos antes a quisera dar para adopção mas se tornara exemplar no cuidado
com o rapaz é, agora, atormentada pelos fantasmas do passado, a sua redenção é
encontrar o culpado do atropelamento, o filme encerra, dentro dele, essa
espécie de policial, thriller, e o sexto sentido somará os factos e apurará a
conclusão (nunca negada por Phillip): desta vez, é ela que espeta a faca e
abandona o local, deixando Gerber esvaído entre sangue, na relva.
Comentários
Enviar um comentário