GORBATCHOV, UMA FIGURA ÍMPAR

 
Na semana em que se cumpriram os 90 anos de Mikhail Gorbatchev, o «reparo do dia» de hoje é dedicado a conhecermos um pouco melhor uma das personalidades marcantes do século XX

1.Figura determinante para o fim da guerra fria, impulsionador de um conjunto de reformas de abertura da antiga URSS, Mikhail Gorbatchev nasceu a 2 de Março de 1931, na aldeia de Privolnoye, no Cáucaso do Norte, localidade sem electricidade, telefone ou rádio (com excepção de uma coluna). Filho de pais camponeses, o progenitor com 4 anos de instrução formal, a mãe analfabeta. Baptizado secretamente com o nome Mikhail - que continha ressonâncias bíblicas -, era tratado por Viktor pelos pais (talvez, à cautela, como sinal de vitória pelo primeiro plano quinquenal previsto por Estaline). Amaria profundamente o pai, de quem se tornaria muito próximo (mesmo que pai e filho não verbalizassem um ao outro os sentimentos que nutriam entre si); a mãe teria um registo de maior severidade e dureza, com um forte lado punitivo. Durante alguns anos, viveu com os avós maternos – e aí, um avô ternurento o que não era habitual naquele ambiente cultural - e não com os pais.

2.A infância e adolescência de Gorbatchev é atravessada por uma especial rudeza: além da pobreza do meio em que nasce, a colectivização das terras - gerando não apenas enormes injustiças, milhões de mortos, deportados, mas ainda uma divisão/fractura no interior das próprias famílias -, obrigá-lo-á a um trabalho pesado desde muito novo, a que se somará a guerra que levará o pai para a frente de batalha - tendo a família chegado a receber notícia falsa do seu falecimento, chorando três dias por algo que não sucedera -, como a própria aldeia, tinha Mikhail 10 anos, será alvo do saque e violência nazis. Os tempos de indigência são de tal ordem que se comem sementes que eram para plantar, cozem-se e comem-se rãs, a mãe sai durante 15 dias para trocar roupa por trigo - durante duas semanas, Gorbatchev está completamente entregue a si próprio, como que passando diretamente da infância para a maioridade. Muitas vezes se questionará se o horror à violência que demonstrará quando podendo usar da força em favor da democracia, deixa que os seus adversários o vençam com recurso aos piores instrumentos, nos idos de 90, não radicará nesta sua experiência.
Mesmo no fim da guerra, quando regressar à escola, Gorbatchev terá as margens do manual de trator em que o seu pai trabalhava como caderno - e a própria tinta teriam de ser os alunos a produzi-la. Quando o ano era mau de colheitas, e como os impostos e demais injunções que impendiam sobre as famílias se faziam sobre o número de árvores que cada um tinha a seu cargo (e mesmo que estas nada dessem), a sobrevivência física era o limite. Em ano de boas colheitas, as famílias desunhavam-se para mostrar os melhores padrões de produtividade socialista, em favor da comunidade e o pai Sergei e o filho Mikhail serão premiados pelo que conseguem arrecadar com o seu labor. A ética de trabalho (duro) é um dos traços mais marcados/marcantes dos anos mais tenros da vida de Gorbatchev, um rapaz de temperamento alegre e optimista, o primogénito de uma família com dois filhos.
O homem que nascera com um sinal na cabeça que seria uma das suas imagens mais conhecidas, sinal, esse, que, para o folclore russo, remetia para o demo, muito admirado a Ocidente, seria, contudo, em inúmeras ocasiões, vítima de desprezo na sua pátria.
Aluno e cidadão exemplar, um dos melhores alunos da instituição de ensino que frequentava, Gorbatchev seria o primeiro rapaz da sua aldeia a frequentar a Universidade de Moscovo - que era uma espécie de Harvard, ainda que sem a existência da Ivy League.
 
3.O liceu ficava a 20 km de casa, mais de duas horas a pé; às vezes, tem a ajuda de um carro de bois; Mikhail terá, afinal, que permanecer nesta nova localidade da sua vida para estudar, regressando a casa Sábado à tarde e fazendo caminho inverso Domingo à noite. Gosta especialmente de História e Literatura, sem negligenciar a Física e a Matemática. Receberá uma medalha de prata de mérito escolar. Desde cedo, gosta de liderar e adora representar: fará parte do grupo de teatro da escola e representará várias peças. O cinema é, igualmente, da sua predilecção: vê filmes com os colegas, por esta altura.
É tempo, agora, de se decidir: passará a trabalhar com o pai, ou continuará a estudar? O pai escreve-lhe colocando-lhe esta mesma questão e prometendo ajuda em tudo o que puder, caso a opção seja a segunda.
Entretanto, Mikhail enviará pedido formal de adesão ao Partido Comunista. Pondera, decidido a ir para o Ensino Superior, o curso a seguir. Finalmente, preenche a candidatura assinalando Direito. Trata-se, à época, naquele lugar, de um curso não muito prestigiado, num Estado que…não é de Direito. Receberá, daí a pouco, o telegrama que revela que é aceite. Entra na Universidade sem fazer o exame de admissão - no que a candidatura a membro do Partido Comunista e a medalha de produtividade, a meias com o pai, poderão ter desempenhado um papel com relevo.
Parte para Moscovo, onde está longe de brilhar à primeira: o sotaque camponês, o olhar provinciano não impressionam os colegas citadinos. Andará tempos sem meias, à falta de recursos para as mesmas. Será um aluno muito aplicado, capaz de estudar sistematicamente até às 2/3h da manhã, acordando às 6h. Participará em debates, tertúlias em que algumas opções do sistema com que se vê confrontado - a confissão bastando para a condenação, por exemplo - não o convencerão. Mas, de um modo global, Gorbatchev é um comunista convicto, mesmo que perceba os laivos de propaganda de musicais que colocam camponeses muito felizes a trabalhar - ele, que veio da terra, sabe que aquilo é tudo falso.
 
4.Mikhail Gorbatchov licencia-se em 5 anos, durante os quais assiste à sua primeira ópera e conhece os museus de Moscovo. Ele que, até aos 13 anos, nunca vira, sequer, um comboio, ao fim de cinco anos de licenciatura é outro, está bastante mudado. Não quis saber de álcool, cartas e mulheres durante o período da sua formação académica. Não era, propriamente, o melhor da turma (ainda que sendo bom aluno), e sentava-se discretamente na penúltima fila.

5.Encontrou, num acaso, Raisa, num baile, instigado pelos colegas; para ele, foi amor à primeira vista. Para a rapariga da Faculdade de Filosofia - na altura, com bastante mais prestígio do que o Direito, na Rússia -, nem tanto. Esta, andava com outro caso, cujo fim - dir-se-ia, adoptando o léxico, ditado por questões de "classe"; a mãe do namorado não queria o descendente a fixar-se em alguém que viera de "baixo" - a marcou negativamente. Mas, dali a nada, o novo casal, para a vida, Mikhail e Raisa, de origens muito semelhantes, far-se-ia, e seria ela, de algum modo, a tutora da vida cultural moscovita de Gorbatchev - este, muitas vezes já envolvido na vida do partido, não tinha o mesmo tempo que a namorada possuía para ler. Terão um primeiro filho - por uma falta de cuidado; o objectivo era ter descendência, mas não naquela altura -, mas entre o risco de vida para a mãe e para o bebé, o casal decide-se pelo aborto. Mais tarde, mesmo desaconselhados por médicos, serão progenitores de uma menina, Irina. Os amigos dirão sempre que Gorbatchev, um homem considerado muito auto-confiante, era "dominado" pela mulher.
 
6.O título da tese (académica) de Gorbatchev será "Participação em Massa na Administração Estatal a Nível Local" e bem cedo, em 1955, está com um tipo de trabalho que corresponde às suas "convicções políticas e morais", a saber, o processo de reabilitação das vítimas inocentes da repressão estalinista. Mas por pouco tempo.
A segunda tentativa, enviado para o gabinete do Procurador, também não corresponde às expectativas do jovem formado na Universidade de Moscovo.
Gorbatchev pede a mudança para a Konsomol, uma estrutura com milhões de membros entre os 14 e os 27 anos de idade, cuja tarefa era mobilizar a juventude soviética de modo a cumprir tarefas impostas pelo partido comunista (p.104).
Mikhail Gorbatchev irá paulatinamente construindo uma carreira sólida no interior das estruturas soviéticas, sendo que o espírito reformista/liberal, a adesão a esta ala e a sua ascensão estão intimamente ligadas ao surpreendente espírito, face ao estalinismo, assumido por Khrushchev: "Para se compreender a ascensão de Gorbatchev em Stavropol é preciso entender a era de Khruschev, cujo espírito reformista incorporou, e os primeiros anos de Breznhev, onde ele também conseguiu encontrar um lugar (...) Enquanto os herdeiros de Estaline debatiam o que dizer acerca do seu antigo mestre, atrás da cortina do Kremlin, Khruschev preparava-se para o condenar, um gesto que se arriscava a minar o regime que haviam herdado.”
 
7. Enquanto os seus colegas de partido corriam atrás de mulheres, bebiam até cair para o lado, participavam em grandes caçadas, Gorbatchev afirma-se por estar acima desse provincianismo. Era, por exemplo, muito respeitador das mulheres, mesmo que a sua atitude não pudesse ser propriamente rotulada de feminista (à maneira ocidental), o que na Rússia, aliás, seria mal visto. Além do mais, os Gorbatchev eram dados a uma intelectualidade que nas províncias não era acompanhada pelos apparatchik. Raisa e Mikhail, por exemplo, prescindiram, deliberadamente, de ter televisão e o futuro homem da Perestroika orgulhava-se de ter uma filha apaixonada pela leitura - já Raisa, "com a ajuda do marido, na década de 1960, conseguiu adquirir exemplares da Bíblia e do Corão, tudo obras difíceis de encontrar num estado ateu". Possuíam um apartamento modesto, quando comparado com quem tinha idênticas funções partidárias na então Checoslováquia - assinala um comunista checo que à época os visita. E será, precisamente, a um checo comunista que lhe havia garantido que aquele país iria a caminho da democracia que Gorbatchev dirá que tal não seria possível de suceder na Rússia.
De Gorbatchov sempre se dirá que se deixava convencer pelos outros, que os ouvia sempre, a sua mão não era de ferro (o que numa cultura autoritária como a soviética não deixará de lhe valer críticas). Depois de ter cursado Direito, Mikhail fará um segundo curso - também motivado por esta sua nova formação poder ser instrumento de ascensão no partido, por correspondência -, no Instituto Agrícola no qual a sua mulher lecciona. Por momentos, hesitará em prosseguir uma vida intelectual/académica em vez da via político-partidária. Contudo, muito novo, será escolhido como chefe regional do partido. E rapidamente ascende a Secretário do Comité Central em Moscovo, fazendo parte do Politburo. Ainda que com reserva mental crescente, em 1968 condenará os reformistas checos e elogiará a intervenção soviética (na repressão da Primavera de Praga). Acima da média, porventura, em vários comportamentos e no desassossego intelectual, mas também, reconhecer-se-á, cumprindo o roteiro que o manteve no topo do partido (o que o levará a dirigente máximo da URSS, que contava com 15 Repúblicas; e só a Rússia tinha 83 regiões).
Tendo, durante anos, entendido que a estratégia para melhorar o sistema, a economia, a produção, a Federação era promover novos quadros, gente mais empreendedora no Partido, Gorbatchev irá notar que tal antídoto não irá ao fundo do problema quer era de raiz estrutural: "o grave excesso de centralização da economia, em que todas as decisões cruciais eram tomadas no topo. Como resultado, ele e outros líderes regionais eram obrigados a fazer «inúmeras viagens à capital», onde tinham de adular os grandes chefes e «suportar linguagem abusiva e má-criação por parte dos oficiais». «A tentativa supercentralizada de controlar cada pormenor da vida de um estado imenso drenava a energia vital da sociedade.» Muito mais tarde, depois de se tornar líder soviético, Gorbatchev iria ainda mais fundo, remontando os problemas que via na sua região à essência mais básica do socialismo estatal soviético, ou seja, o monopólio do poder político e económico pelo partido comunista. Nesse processo seria informado por uma série de livros heréticos de autores ocidentais esquerdistas (como Aragon, Garaudy, Boffa, Togliatti ou Gramsci), traduzidos e publicados em edições extremamente limitadas pela Progress Publishing House de Moscovo. Gorbatchev não fumava e limitava o uso de álcool; essencialmente, alguém que é visto como educado e assisado. Ao contrário da maioria de líderes locais do Partido Comunista, Gorbatchev leu, mesmo, Marx e Lenine. Ironicamente, a URSS dava aos seus melhores quadros a possibilidade de viajar para o Ocidente (ir ao Ocidente era, pois, como que uma prenda para os melhores do partido). Até 1970, as viagens de Gorbatchev haviam-se limitado ao bloco soviético - Alemanha Oriental, Checoslováquia e Bulgária -, mas, entre 1970 e 1977, ele fará 5 visitas à Europa Ocidental.  A primeira viagem ao Ocidente, dos Gorbatchev, foi, em 1971, a Itália ficando impressionado por os italianos falarem a várias vozes, terem opiniões divergentes sobre todos os assuntos e, nomeadamente, a política, em claro contraste com o falar a uma só voz do povo russo - se exceptuarmos o que se sussurrava nas cozinhas. Gorbatchev sentiu-se inesperadamente bem, confortável, no Ocidente, surpreendentemente em casa, apreciando, ainda, de sobremaneira, a cultura e as artes. Em 1972, visitaria, com Raisa, a Bélgica e a Holanda; em 1975, a Alemanha Ocidental e, em 1976, a França. Numa quinta perto de Toulouse aprendeu três lições que lhe pareceram preciosas: "a vantagem, para os camponeses, de participarem em cooperativas que lhes fornecessem tecnologia moderna e conselhos sobre processamento e marketing; como a prática de contrato direto de processadores aumentava o incentivo para um trabalho de qualidade; como o interesse próprio os levava a organizar a criação de gado de modo adequado às condições climatéricas".
As viagens ao Ocidente proporcionaram a Gorbatchev uma informação que era muito escassa na URSS e gerida com pinças pela nomenklatura. Todavia, Gorbatchev 'ocultou' a forma como aquelas viagens «abalaram a sua crença a priori na superioridade da democracia socialista sobre a democracia burguesa». Ele e a esposa concluíram que «as pessoas lá vivem melhor. Porque viverá o nosso povo pior do que os de outros países desenvolvidos? Esta questão sempre me atormentou», dirá.
Os Gorbatchev não colocaram a filha numa escola de elite: Irina, ajudava a engomar as camisas, em casa, local onde discutiam tudo. Pensou ir para a Faculdade de Filosofia de Moscovo, mas, perante a insistência dos pais que a não queriam longe de casa visto ser filha única, acabou por candidatar-se, e ser aprovada, na Faculdade de Medicina de Stavropol - ela que no Secundário tinha nota máxima a tudo, excepto a Desenho. Já no decorrer do curso, o pai nunca quis privilégios e excepções para a filha (como acontecia com descendentes de outras figuras gradas do regime).
Na biografia de Gorbatchev, de William Taubman, que aqui seguimos, as grandes questões sobre o homem, e a relação entre a barbárie e a cultura, à semelhança de totalitarismos de sinal contrário, podem, também, ser colhidas em pequenos passos, como este sobre Yuri Andropov, líder da KGB, um homem que gostou de Gorbatchev e dele deu boas indicações: "que tipo de chefe de polícia secreta cantava músicas de Vysotsky ao mesmo tempo que enviava dissidentes para hospitais psiquiátricos?", questionava-se Gorbatchov.
 

Boa semana.

Pedro Miranda

(no “reparo do dia”, da universidadefm)


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