Os holandeses (e os portugueses) de
Rentes de Carvalho
1.Se
a verdade é o último tabu (que resta), a dor de ser português, manifestada, sem
pompa nem farfalhos, por José Rentes de Carvalho, em recente “Primeira Pessoa”
(RTP1, 20 de Junho, em programa da autoria de Fátima Campos Ferreira), foi um
desses testemunhos pungentes que fixamos e que permanecem connosco, quase como
assombração, dias a fio: os caminhos, inteiros, de lama e palha estragada, para
onde se lançam, das janelas, os dejectos de casa; os milhões de moscas que, de
imediato, se precipitam sobre o local; as carradas de morcegos que, finalmente,
pousam sobre a combustão. Estevais, a Mogadouro, interior norte, anos 30, de Vossa Excelência, Senhora Professora, como
passou? Tenha um bom dia!, antes do braço estendido à saudação fascista,
não fosse o Inspector cirandar por ali e tirar a matrícula. Estevais que, um
dia, terá sido povoação de 700 habitantes, hoje, no máximo, reunirá sete, oito
dezenas de cidadãos que, “chegada a sua hora”, irão à terra no mais despojado,
no mais pobre dos cemitérios, sem cruzes nem nomes a identificar quem foi a
sepultar: “foram gerações e gerações a pão, água, cebola e couves. Mais nada!”.
De aí, ficou uma “gente dura”, com certeza capaz de carinho, mas também de
todas as formas de violência (que não se concluam em homicídio); gente obrigada
a passar fome, mas nunca atreita a revelá-lo e, muito menos, a pedir (“aqui,
não se pede nada a ninguém”). Do Porto, ali ao lado de Gaia onde nascera o
rapaz, e se regalara com o verdadeiro cinema dos barcos a atracar ao Douro, e
de toda a fauna que dali emergia na sua meninice, ao mais remoto interior
nordeste, eram 12 horas de comboio; mas até isso, nas últimas décadas, foi
tirado aos que vivem rodeados de penedos e de estradas que não levam a lado
nenhum (isto é, que a esmagadora maioria dos habitantes locais não podem
aproveitar); removidos, por fim, desses trens, bem comum, sem apelo nem agravo,
sem sensibilidade nem empatia, os carris (“isto não interessa a Lisboa e
também, talvez, ao Porto”). À chegada desse pouca-terra-pouca-terra,
era uma alegria, uma festa (seja como for, eis a casa – mais composta e cheia
de alma de novo); sendo o percurso inverso gerador de emoções igualmente
exacerbadas: a avó a chorar e a gritar ao ver o comboio não apenas partir, mas
ao avistá-lo, ainda, durante uma intensíssima meia hora, num adeus contínuo aos
montes, para angústia do passageiro (que perante tal suspiro, desgraçada
miséria e atual desertificação e abandono dos poderes públicos, “temos o sol!
Eu não posso contrariar o Senhor Presidente [da República]! Temos o sol!...”,
diz, derradeiro soco no estômago, ter salvo a descendência de ser portuguesa).
2.Em
terra de uma pobreza ultrajante e de um regime opressivo, gerara-se a vontade e
o delineado plano de partir. Houve Paris, Brasis, mas foi Amesterdão o lugar de
poiso. Nascido em 1930, José Rentes de Carvalho estabelece-se em Amesterdão desde
1956. Ao fim de décadas de convívio com os holandeses, mesmo recorrendo –
recusando, pois, uma injusta generalização a todos (os concretos rostos
neerlandeses) - a uma entidade abstracta, “o povo holandês”, contando com uma
“impressão” mesmo que reiterada, dia a dia, em exemplos ilustrativos,
afirmando, acima de tudo, a boa fé do empreendimento, e a consideração e
gratidão pela terra de acolhimento feita sua (também), o escritor, professor
universitário, funcionário da embaixada do Brasil, colunista em jornais,
participante em programas de televisão, dá-nos o seu retrato dos holandeses. Um
retrato que, de modo explícito, inúmeras vezes, implícito, noutras, sempre traz
a inevitável comparação, e ponto de partida, com a lente lusa da qual parte –
afinal, os holandeses podem ser “frios” ou “organizados”, a partir,
inevitavelmente, de certa noção (pátria) de “calor” ou de certa “balda” que se
tem como pressuposto ou a priori,
surpresa e pasmo a partir, pois, do diferente (evidentemente, não há um lugar
asséptico, neutro, sem temperatura, a
partir do qual se produza qualquer juízo de tipo “científico”). Há um conjunto
de elementos tomados ao papel que se referem ainda ao início dos anos 70, mas
balanceados e ponderados, em especial nos derradeiros capítulos, com as
possíveis mudanças ou transformações de anos recentes.
3.E como são, afinal, os holandeses? Podemos,
num repente, defini-los pela tríade das suas paixões: “a religião, a política e
o dinheiro são a trindade das suas paixões”, p.86); ou optar, diversamente, por
partir de instantâneos do quotidiano, para revelar os habitantes dos Países Baixos – como o daquele episódio
em que um holandês leva, em viagem de mais de 100 quilómetros, o nosso escritor
até à cidade na qual este vive, mas apenas até à zona de transportes públicos,
porque isso de ir deixar a pessoa à porta de casa é demasiado custoso, não se
justifica, e uma amabilidade excessiva é coisa que gera desconfiança. E esta
postura, atitude, mundividência, aliás, é passada de geração em geração, de
pais para filhos, com os primeiros a reconhecerem como os segundos foram bons
discípulos de excelentes mestres quando aportam, agora, os progenitores ao
eléctrico ou comboio, em vez da gasolina e o carros gastos em curvas e
deambulações que reclamariam os papás à porta de casa – como são industriosos e
poupados os nossos meninos!...
Rentes de Carvalho levara de Portugal a
incrustada memória de uma mãe e de um pai autoritários, o incomum sentimento de
ser, também e por sua vez, pai deles (a dado momento), mas, igualmente,
registos caseiros e comunitários de partilha e cuidados. Nesse sentido, a
Holanda foi um choque: entre pais e filhos, reina o “egoísmo” (p.49): um
egoísmo nas relações dos progenitores entre si; dos pais para com os filhos;
dos filhos para com os pais; dos filhos – dos irmãos – entre eles. O
investigador, aqui com certa carga de antropólogo, observa, nas famílias
holandesas, em permanência, “brusquidão de maneiras”, “falta de carinho e
ternura”, um “laissez-aller”, uma indiferença entre todos. Talvez por isso, “as
crianças são de uma agressividade, falta de educação, de normas e valores que
surpreende” (p.51).
Na Holanda, o Estado Social que José
Rentes de Carvalho vai encontrar cobre todos os problemas e dificuldades por
que um cidadão pode passar: um Estado rico e generoso. Organizado. Mas mais, em
não sendo o Estado, restam, ainda, todo o tipo de associações, religiosas ou
laicas, sempre prontas a resolver qualquer entrave ou obstáculo que se coloque
ao holandês. Na Holanda, a bem dizer, a dizer com aquele conhecimento de uma
experiência de uma miséria que não conseguia esconder chagas e frios, não há
pobres: “onde estão os pobres? (…). Pobres como nós em Portugal temos, com
fome, com frio, em andrajos, mostrando as chagas para que lhes dêem pão, não
há” (p.44).
Este conforto holandês, na
interpretação de Rentes de Carvalho, é, curiosamente - dada uma certa reputação
histórica contrária ao que agora se narra -, avesso ao risco, remete e
contribui para o cidadão cheio de prudência, sem sentido de aventura ou ousadia
(quanto ao suposto maior individualismo holandês, neste âmbito, é idêntico ao
de outros povos; o mesmo se diga, quanto à corrupção, garante Rentes de
Carvalho). Quem se pretende contravencional, nas artes ou em qualquer outra
dimensão da vida, exige, primeiro, o pequeno almoço subsidiado.
4.Quem vinha da ardósia, sala de aula
mal equipada e pequena, reguadas a esmo, orelhas a arder, cana da Índia como
mal menor – “uma sala escura com duas janelas que davam para um pátio sombrio e
sujo (…) quando nela entrávamos às nove da manhã, com a sacola onde
carregávamos a lousa, o caderno e o livro do abecedário, sentávamo-nos no chão
à espera da professora (…) de costas contra a parede e o sentimento de animais
acuados numa jaula. Ela chegava apoiada ao símbolo da autoridade, uma cana
negra de mais de dois metros, com que mais tarde nos zurziria as orelhas sem
precisar de se levantar da única cadeira que, atrás da única mesa, constituía o
mobiliário. Rezado um padre-nosso pelos nossos pecados e pedido perdão a Deus
pelos maus pensamentos que tínhamos tido – sim, sim aos quatro anos –
entrávamos sem demora na tabuada e nas primeiras letras, sentados orientalmente
à maneira de alfaiates, as pernas cruzadas, as costas doridas, a lousa sobre o
apoio instável dos joelhos. Três horas cada manhã, três horas cada tarde,
recreio nenhum, e a cana que nos malhava a cabeça ou nos despegava as orelhas,
só porque mexíamos ou porque, fartos, dávamos uma cotovelada no vizinho. O dia
terminava com outro padre-nosso, e se o Paraíso realmente existe, as almas
quando lá entram devem sentir uma alegria igual à que sentíamos quando se nos
abria a porta da rua. A escola primária não foi melhor e a professora, que
também o tinha sido de meu pai, de quem guardava más recordações, porque ele um
dia lhe tinha atirado um tinteiro à cabeça, vingava-se em mim. Por um nada eram
lapadas, orelhas de burro espetadas na cabeça, por um ou outro erro de
ortografia pancadas de palmatória que faziam inchar as mãos, deixando-as roxas
e inutilizáveis durante dias. A cana-da-índia, que ela também usava, parecia-me
um castigo aceitável e benigno” (pp.137-138) -, oh, como estranhou a escola holandesa
(à qual confiou as filhas): munida de jogos, brincadeiras, onde a criança era
acarinhada, castigos nenhuns ou sem significado, lugar tão aprazível que até
quando o bom do pai sugeria à descendência uma constipação ou gripe manhosa
para ficar a sós com esta, a escola vem já a seguir, tal malandragem era desdenhada
pela criançada que desejava o prazer escolar.
À chegada, e ao longo dos anos, Rentes
de Carvalho sentiu muito o apontar do dedo aos estrangeiros, por parte dos
holandeses, uma xenofobia latente, mais ou menos mascarada (os sindicatos fogem
de aceitar trabalhadores estrangeiros; o emigrante, com a cumplicidade de todas
as instituições, confina-se “quieto, agachado e com medo”, p.47; o estrangeiro
que se queixe do patrão é demitido no mesmo minuto, entregue à polícia,
remetido de volta). E os últimos anos, de resto, não trouxeram progresso moral
neste domínio: o racismo parece, agora, ser exibido, até, com maior à vontade.
Os latinos são a “raça branca suja” (ainda deste jeito identificados nos manuais
de geografia holandeses nos anos 60 os habitantes a orla do Mediterrâneo,
incluindo Portugal, p.31), de gostos baixos – comida e sexo [esta mentalidade
lembra-nos alguma fala de um dirigente holandês, na última década, durante e
após o período da troika em Portugal, sobre os usos e costumes do Sul europeu?]
- e “quem é este turco? Fora!”, ouve-se, frequentemente, nas lojas. As
igualdades e fraternidades são apenas anunciadas da boca para fora (os
holandeses têm uma propensão para se julgarem melhores, mais honestos, mais
desinteressados e até mais bem-intencionados do que o seu próximo) e, se puder
ser, o aproveitar-se de alguém que está em uma situação de inferioridade para
obter maior lucro, está na agenda (“há na língua holandesa uma expressão que
constantemente se ouve: de zakelijke
aanpak, a qual tem o significado literal de «à maneira do comércio». Além
de ser corrente e aceitável nas relações entre as pessoas, a frase justifica
também que se tire o máximo proveito de tudo e todos, mesmo, e sobretudo, de
quem não tem força ou ocasião para se defender”). Calculando tudo, os
holandeses tudo apreciam em função do lucro e da utilidade (bebés programados
para nascerem em dezembro para obterem benefício fiscal; a típica conversa de
casal: ganhar, poupar, não gastar). O observador, ainda assim, sopesa: a
Holanda pertence a esse leque de “sociedades ricas” que são “por isso mesmo
impiedosas”, sendo, assim, “preciso cavar ainda com mais dureza e afã” do que
em terras pobres. O holandês, que anota tudo, não se coaduna com fantasias,
descuidos, indolências; bem ao invés, os holandeses são fanáticos do
planeamento, pátria da programação, da precisão e do arrumo (p.40). Berram que
querem ser medianos; discutem calmamente os porquês das coisas; cumprem o que
prometem; são submissos e dobrados à autoridade; sérios, desconhecem a arte da
cavaqueira e, aliás, qualquer conversa assume, neles, um ar sério e pesado;
doutoral, a fala escorrega para o sermão e a pompa. O idioma holandês reflete
pachorra, sendo que os seus falantes tendem a usá-lo de forma rude.
Se há coisa que o holandês não é, é gourmet. A comida é terrível, nela há
uma enorme pobreza cultural que vem a ser a de reduzir a culinária à satisfação
de uma necessidade. Nesta terra, comer não é uma arte nem um prazer. O leite é
omnipresente nas diferentes refeições, ao contrário dos temperos, cuja míngua
impressiona mesmo o mais austero dos provadores. Na Holanda, num restaurante -
nos quais os modos dos empregados remetem, imediatamente, para o despachar sem
cortesias nem amabilidades - não se faz sentir a alegria de viver. Em
realidade, a alegria de viver não é uma marca dos holandeses; neles, não se
deteta tal característica (e, por comparação, diga-se, o holandês “não é mais
feliz, nem mais alegre” do que o português).
O holandês leva a reserva e o
auto-controlo a extremos: a dor é, nele, reprimida, raramente expressa em
lágrimas (p.66). Gosta da imagem pública, correcta e fria, ar fechado. Ser
delicado, uma fraqueza e um risco; ser atencioso é chamar a si a desconfiança.
Nos transportes e noutras aglomerações, utiliza o corpo, em constantes
encontrões e empurrões, para ganhar a vez ou lugar. Fisicamente forte, o
holandês é, porém, de poucas valentias e arrojos. Competente, protegido,
curvado diante do perito, organizado, com governos que ora tendem um bocadinho
para a direita, ora um bocadinho para a esquerda, com infindáveis associações
(“o país é de cima a baixo uma teia superiormente tecida de organizações que
eficientemente se ocupam de tudo”, p.86), o neerlandês é sombrio, carrancudo,
sorrisos poucos gargalhadas nenhumas, ingénuo, ganancioso, manhoso, apaixonado
pela estabilidade, pela posse, pelo lucro. Concebe mal horas inactivas, a perda
de tempo, um pecado; povo de eterna energia. Nas Universidades, a primazia é
dada à Economia, às Finanças e à Gestão – as Letras vêem em último lugar. E,
diga-se, na subjectiva apreciação de Rentes de Carvalho, nem uma obra-prima se encontra
na literatura holandesa das últimas décadas.
Os diálogos, na Holanda, vão,
inevitavelmente, tema maior, dar a Deus (para lá da política, preços das
coisas, férias). O terreno da religião é, ali, “cheio de encalhes e
susceptibilidades”. Sobre a fé, “o holandês não aceita gracejos, ligeirezas,
faltas de respeito”. Numa palavra, nos Países
Baixos Deus e a religião “são pesados, sombrios, despidos de alegria”.
Confessa-se o escritor: “tenho uma relação com Deus mais baseada no medo do que
na fé”. E, sobretudo, acrescenta, possui uma imagem de Deus e da religião muito
diferentes da dos holandeses. Nessa descrição da religião de infância, nos anos
30 do século passado, no interior norte português, contam-se páginas de
requintado encanto, ironia, crónica de costumes: “Talvez caiba aqui contar um
pouco como fui criado na fé da Santa Madre Igreja, Católica, Apostólica e
Romana. Acabado de nascer levaram-me ao baptismo, e a primeira lembrança é a
das orações que minha avó me ensinava a recitar, não só padres-nossos,
ave-marias e credos, mas outras mais complicadas, difíceis de aprender de cor,
cheia de invocações a santos que eu não conhecia, carregadas de mistério,
assombreadas ainda mais pela cozinha onde eram rezadas, sobretudo no Inverno,
alumiada pelo azeite dos lampiões e pela enorme fogueira do lar. Em torno do
lume, sentadas nos escanos ou em banquinhos, as mulheres da família e as
vizinhas, quase todas vestidas de luto pela morte de parente, devoção ou
promessa, responsavam desfiando os rosários. E eu, aconchegado no regaço da
avó, sonolento com o calor da lareira, mal lhes notava o rosto, tremia de medo
quando uma ou outra erguendo os olhos para o tecto e de mão postas, invocava a
alma de um falecido ou os favores dum padroeiro. Terrificado, esperava a
aparição de entes sobrenaturais, de figuras barbudas com túnicas coloridas como
eram as imagens da igreja. Mesmo à luz do dia, o tecto alto e escuro sempre me
pareceu encerrar mistérios e vultos capazes de, dum momento para o outro, virem
por ali abaixo aos gritos e com ameaças. Além das orações aos santos
«verdadeiros», havia outras para as quais a mulheres se concertavam com muitos
bichanares e preparos de ervas, azeite virgem, sal do mar e a ajuda do Livro de
São Cipriano. Juntavam-se então na cozinha, as portas cuidadosamente trancadas,
e quebravam o mau-olhado das crianças, sobretudo o meu, porque andava sempre
comido de bruxas e feitiçarias. Tudo isso era feito em segredo e a ocultas do
padre, que nas missas de Domingo trovejava contra as crendices, informado por
uma ou outra comadre, que nos apertos da confissão ou para lhe ganhar as boas
graças e indulgências grátis, punha tudo em pratos limpos. Nas doenças e
aflições ofertavam-se aos santos umas tantas prendas em dinheiro, trigo, velas
de cera, e quando no Verão a falta de chuva e a barbaridade do sol ameaçavam
queimar as colheitas, tirava-se para fora o andor de São Lourenço, que ao ombro
de oito raparigas garantidas virgens era passeado pelos montes com grande
procissão de gente cantando ladainhas e pedindo o favor de mandar água a
cântaros, o que algumas vezes aconteceu. Uma tarde, por ter cometido não sei
que traquinice, fui levado por minha avó preso pelas orelhas diante desse mesmo
São Lourenço, e ali na igreja, para mim enorme, sem outra presença viva que a
nossa e os olhos muito negros das imagens, foi o santo por ela invocado para me
dar emenda e a protecção de que eu - teria então oito anos - tanto carecia. A
mim ordenou que me atirasse de joelhos e esperasse o tempo de dez padre-nossos
e dez ave-marias para que São Lourenço se apiedasse. Assim fiz, de cabeça
baixa, chorando, garantindo que não me meteria noutra, que dali em diante seria
modelo de perfeição. O que não fui, nem aliás parece que o padroeiro tenha
levado a mal o não ter eu cumprido o prometido. A dez de agosto é a festa do
santo. Há romaria, missa cantada, sermão, arraial, uma procissão de arromba, as
ruas atapetadas de ramos verdes e flores, as varandas e janelas enfeitadas com
colchas e panos de seda, todos de cores vivas, a ponto que o colorido e os
dourados dos andores fazem esquecer as paredes sem cal e a miséria e tristeza
que ali se escondem. Vão nela rezando os doentes e os precisados. As viúvas e
os órfãos ajoelham atrás das portas cerradas, para que com as suas aflições não
perturbem as alegrias e esperanças dos outros. Nessa procissão fui algumas
vezes vestido de anjo e mais tarde, quase homem, também tive a honra de pegar
ao pálio, por baixo do qual ia o padre, segundo a misteriosa cruz do altar-mor.
(...) A imagem que em garoto me fiz de Deus é a que ficou, e se por vezes,
raciocinando, a quero afastar, é ela que reaparece nas horas de medo e aflição:
Deus é um sexagenário saudável, de face bondosa e barbuda, bigode, cabelo
castanho que lhe desce em anéis até aos ombros. Veste uma túnica cor de creme
que lhe chega aos pés, cingida por uma corda de seda em volta da cintura. Sobre
essa túnica tem uma outra sem mangas, igualmente comprida e de um vermelho
escuro. As mãos de Deus estão sempre erguidas, como para proteger ou abençoar,
e não me lembro de tê-lo jamais imaginado de costas ou de perfil, nem a andar,
mas sempre de frente e parado. A gente pede e Deus às vezes concede, mas em
certas ocasiões, talvez porque somos tantos a pedir e assim causamos atrasos, a
satisfação só chega quando há muito esquecemos o pedido. Por isso nos
descuidamos de agradecer, o que Ele leva a mal, fazendo desandar a roda da
fortuna. Esse é o meu Deus. Um Todo-Poderoso com variações de bom e mau humor
tal um avô rabugento, capaz de tudo perdoar ou afligir sem razão, e a quem nós
também não levamos a mal a inconsequência e o peso das aflições com que nos
agrava. Por isso falamos d'Ele e o tratamos como pessoa de casa, um familiar
que tem os seus repentes, a quem é preciso tratar com respeito e carinho, a
quem se dão presentes e oferendas. Ora esse Deus, que umas vezes favorece e
outras repreende ou castiga, mas com quem sempre é possível conversar está
habituado às maneiras subtis e tortuosas dos homens, esse Deus é muito, mas
muito, diferente daquele que vive na Holanda (...) Vai-se à missa para orar,
mas igualmente para facilitar o andamento de um requerimento na câmara, um
processo no tribunal, um passaporte no Registo Civil. Porque o padre, bem
falado, adoçado com presentes, é uma excelente e eficiente engrenagem. Mas
longe dele o pretender, em nome de Deus, meter demasiado o nariz naqueles
nossos negócios onde não é chamado, certo de que o risco seria muito e o
resultado nulo. (...). Porque para nós, portugueses, em geral o padre pouco
mais é do que um filho do povo que, com inteligência ou manha, valendo-se das
facilidades educacionais da Igreja, escapou à miséria. Ora atribuir-lhe
demasiada intimidade com Deus seria subestimar este último. O padre que trate
da sua vida, mesmo que seja à custa da nossa. Dele se esperam os sermões bem
pregados, as missas solenes, as procissões de arromba com andores bem
enfeitados, o espectáculo.” (pp.87-92).
Não há muitos países em que a
salvaguarda da liberdade seja tão conseguida como na Holanda, a solidariedade
entre vizinhos, o sentimento de pertença e de viver em conjunto ainda pode ser
apreciado em Amesterdão. Após a publicação de “Com os holandeses” (em Portugal,
pela Quetzal, 2009; reedição em 2017), a Rainha chamou o autor ao almoço no
Palácio real, endereçando os parabéns pela fotografia que da obra emanou do
povo holandês. E só por essa altura terá sido descoberto pelo seu país –
“quando tinha sido descoberto 40 anos antes!” pelos holandeses – o que dói
imenso a quem regressa a Portugal, em primeiro lugar, pela língua – em segundo
lugar, pelas pessoas -, e a esta, à língua portuguesa, sente tudo dever e a ela
tudo devotar.
Pedro Miranda
(publicado no jornal I)
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