PARTITURA SOBRE A SAÚDE MENTAL NA ESCOLA

 

Partitura sobre a saúde mental na escola


1.O homem que mordeu o homem. Corre de cadeira em cadeira, grita, agita a mesa, rebola, vai ao chão, vai a todas, chisca este, belisca aquela, traz o brinquedo que a psicóloga receitou com ritalina - até mais dizer não. O telemóvel antes dos 10 torna-se hábito – e a sala inabitável. Campaínha toca, do lado de fora espera o objecto-adição. Que não, fecha-se-lhe em definitivo a porta, a hora é de almoço, o flagrante fica para a professora-titular. Enquanto se puxa a maçaneta, inconsolável e descontrolado, morde a mão que firma o não. O gelo percorre, então, o cérebro e o corpo, impassivos, até um almoço, de uma tristeza muda e maciça, por deglutir, (h)à falta de vontade. Supostamente solidário, solidário de facto, convenhamos, mas solidário de uma maneira tradicional e ilegal, sem a leitura do Pais [professores, adultos, educadores] à maneira dinamarquesa nem dos acórdãos do Tribunal da Relação, o telefonema, daí a nada: professor, devia ter-lhe dado uma bofetada! Nunca dei uma bofetada a ninguém.

2.As periferias: exigência ética e contradição. O GNR vai à escola, há uma lição de civismo a passar naquele dia. Chama-lhe “gordo”, ela, com a insolência com que, diariamente, por entre um vernáculo soez, e que, sobretudo, soa pornográfico naquela idade, onde esta miúda aprendeu esta linguagem?!..., está na escola.
Final de ano, as boas das docentes quiseram missa de consagração, tudo e todos são, agora, “finalistas”, “históricos”, “festivos”, o tempo está assim. Na Igreja, o padre não aguenta, da próxima vez chamem-me à escola, fazemos uma bênção, mas, aqui, não, vocês não se sabem comportar, isto não são maneiras de se estar numa Igreja. A auxiliar da acção educativa conhece-os melhor do que qualquer outra pessoa: sabe, professor, aquele rapaz veio da APAV, ele e a mãe foram vítimas de violência doméstica do pai, tiveram que sair de casa.
Vi-os saltar, alarmado, as janelas a meio da aula, numa correria louca, era pontapé e corrida, mandei tirar aquecedores (no pico do Inverno), cada 50 minutos um exercício de sobrevivência. Lembrei-me do colega de Geografia, época letiva anterior, contando outros lugares, histórias e navalhas (no recreio): durante um ano não dei uma aula, não era possível, ia para lá e conversava com eles – mais nada.
Mas regressemos à escola original. A diretora do Agrupamento: filho meu nunca para ali iria! Saio, com medo do pastor alemão sempre em cima do portão – pergunto a uma aluna do nono ano: eras capaz de dar a vida pela tua melhor amiga, com quem estás aí ao lado todos os dias? Resposta, condescendente: acha, professor?!...A meio da mesma aula, sendo o tema a eutanásia, e dando-me ao trabalho de trazer os projectos de lei e de criticar, alínea a alínea, os mesmos, uma pergunta lá do fundo do desinteresse pelo “conteúdo programático” em causa, mas repleto de boa vontade para comigo, certamente bom rapaz: “professor: o professor dava a vida pelo seu animal favorito, não dava?!” Resposta: ”não!, sou especista” -, saio com a dor na consciência de os saber os mais necessitados dos miúdos - de um curso de artes marciais que permita aos professores querer ali estar no ano seguinte – quando concluir este foi, já, um imenso respirar fundo - e todos pedem, a sete pés, transferência para outro lado.
 
3.Teste de Físico-Química e colapso: entre um calor, da tradição e de um peso comunitário profundo, que dá sustento existencial, mas se liga a um coletivo afastado da maquilhagem do hiperindividualista mundo moderno – o mundo que ela vê, que ela acha ser tal como ele é; cruel, impiedoso, se não tens 18, 19 ou 20 valores numa disciplina ninguém te liga – e este último, com seus ritmos consumistas e a competição pura e dura, ela escolhe, seja como for, entrar nos ritmos mais ao dia. Nota-se uma alegria, uma saudade, um encantamento por esse lugar abandonado a duras penas, mas, chegada à cidade – espantosa diferença de ambiente num espaço de 20 quilómetros, quem diria tanto? -, não tem/quer recuo. Chorou o que tinha a chorar, está adaptada, mantém que é duro e não devia assim ser, mas é o que há. Pinta-se, sai à noite, há lugar para o cuidado com o corpo, deixa de ser o bicho do mato que não se tinha apercebido que era, que fora durante 15, lindos, anos - a preeminência dos pais, da família, do professor, da escola, da aldeia, da casa, da Igreja, de Deus. O relato, ao citadino, soa cândido e ancestral – aqui, respondem aos professores! Aqui, não acatam, pura e simplesmente, a autoridade (do professor). Aqui, fumam. Quando não fazem coisas piores. E cada um tem que se desenrascar por si. Noutro estabelecimento de ensino, ao teste, pois claro, de Físico-Química, o primeiro do Secundário, alunos fugiram, entraram em colapso emocional, prometeram mudar de escola. Alguns, mudaram mesmo. O resultado (deles), nos testes (seguintes), porém, idêntico. O Paulo pergunta à Francisca pela nota que acabara de obter; ela diz, apertadinha apertadinha apertadinha, que não pode dizer. Só os vencedores podem dizer alto e bom som os 19 valores da praxe. Aos 10, 11, 12 valores não se lhes dá direito de cidade. Sentem-se asfixiados, desprezados.
Aos 30 anos, pareces uma esponja, absorves tudo como se fosse contigo, atira-me, em casa, a Bárbara. O Goleman – e os tipos que te conhecem, e trataste nas palmas da mão até Junho, de quem gostas tanto, e que em Setembro te viram a cara, nunca te viram mais magro, há tantos génios aos 16 e aos 17 anos, meu Deus, e quem os precedeu tão seguramente destituído…dizem os seus olhos e gestos -, sim, empatia, sintonizar com a pele do outro, mas sintonizar enquanto sendo a pele do outro. De outra forma, não podes curar, porque o sentes em demasia.
A Susana desmaia-me na aula, a ansiedade vence-a antes de um teste de, já se vê, Físico-Química: os moralistas dirão que é falta de saber lidar com a frustração e com momentos de angústia por que todos passámos (porque “eles agora, estão habituados a só facilidades, nós também tivemos testes e aguentávamos!”); os progressistas sublinharão que os testes criam demasiada pressão e stress nos meninos – e, porventura, devia-se acabar, em definitivo, com essas coisas (ou, pelo menos, mitigar “o seu peso”); eu, contudo, sem hipóteses de pensar em teorias ou fazer conjecturas, só tive tempo para correr escadas acima, lá até ao primeiro andar, antes que alguém me ajudasse a repor os níveis de batimento cardíaco da Susana – no que a Fernanda, competente, solícita e a ver-me fora dos meus preparos – “o gordo vai à baliza!” -, imediatamente, anuiu. A ambulância ficou para mais tarde, e o teste foi adiado.
 
4.Oh, a escola, a outra escola que há na escola. Ainda não tinha tido a minha primeira queda no mundo naquela escola, e já a Patrícia me arranjara todas as boleias, combinara e cruzara os horários, falara com colegas que eu ainda nem sequer conhecia, se oferecera como as mãos e a voz que salvam - e que, felizmente, também, diga-se, há em todas as escolas (embora, suspeito, nenhuma como a Patrícia).
A Lara perguntou-me se fazia parte do programa da disciplina dar aquela matéria que, por sua vez, na sua área disciplinar, iria ser lecionada, e que melhor seria ser complementada com uma contextualização que me caberia preferencialmente. Raramente, alguém chega e considera que o ângulo, visto da tua cadeira, pode ter certo interesse. Mergulho em mais um período de investigação, vem a calhar a actualização e a releitura, é algo que faço com(o) gosto e obrigação, saio mais conhecedor - para melhor poder servir. É muito bom quando a vibração pelo conhecimento, pelo contentamento intelectual nos junta, vários e várias das mais diversas proveniências, em empreendimentos em comum, a escola viciada em reuniões, reuniões, reuniões, papéis, burocracia, poder(es) não creio que seja a exata mola propulsora que galvanize multidões.
Parabenizo a Isabel, na última turma os alunos estão animados porque ela contara como ficara, nos idos da sua juventude, a ver o Jordan até às 6h da manhã, em finais inesquecíveis da NBA, que se jogava, à época, com magia, sonho e fantasia, e isso tornou-a próxima (a professora de ciências até alta matina a ver o basket, bué), a matéria é dada com leveza e pela mão emocional que atrai os alunos. Obrigado por dizeres parabéns, é raro alguém dizer, devolve-me.
4b) O professor e as crianças: sensibilidade à flor da pele. Maltrapilho, despenteado, sem ar de mestre-escola, diziam-no a bagaço antes de entrar quatro paredes. Fora a festa de Natal. Há, agora, avaliação dos pequenos contributos disciplinares, o conto, a poesia, o pequenino teatro, o canto, o presépio, as prendas. Não podia dizer-se que a afinação da rapaziada tivesse sido brilhante, que os meninos tocassem especialmente bem naquele evento de final de período, que o momento musical se tivesse eternizado. “Cantaram tão bem!...”, diz o velho professor, por entre uma lágrima que lhe contorna o rosto, com um amor tão sentido, tão profundo, tão convicto – com uma expressão tão pura, com tão inesperada candura - que lhe vem, mesmo, lá do fundo da alma e torna o que podia ser tomado com(o) graça num momento desarmante, solene, repleto de um respeito cumprido, nunca melhor dito, religiosamente.

5.Aos 40. A sorte, aos 40, é que, ao mesmo tempo, podemos ter, como temos, referências extraordinárias, os egrégios avós, dos cabelos brancos do altruísmo, da preeminência do outro, de uma adesão firme, constante e coerente, ao eixo da roda (para citar Adriano Moreira) e, caldeados noutra era mas na beleza da resistência aos mais nefastos espasmos desta e na afirmação do que este tempo possa ter de melhor, os que com quase metade da idade assumem, aqui não cedo à linguagem secular porque incapaz de uma tradução bastante, a sua vocação de santidade. A Inês é pura poesia de curiosidade e delicadeza, só o senhor me conseguiu esclarecer esta dúvida - enquanto bate palmas de contentamento; a Bruna vai, até, ajudar a velhinha a superar a passadeira e pede para ir secar as lágrimas da Joana - e irá, daí a nada, ajudar os últimos pelo mundo, até aos confins da Terra, onde ninguém mais quererá ir, vai tocar a carne com ardor, a sua empatia e dádiva aos outros absolutamente comovente; o João, de um carácter à prova de bala, puro e generoso, saltita de mesa em mesa imitando O clube dos poetas mortos, antes de colocar Paradela do Monte no mapa, assumir, com coragem, o voluntariado com as próprias mãos, logo que a pandemia emerge, faz amigos em todos os lugares, é uma referência na(s) sua(s) comunidade(s) e lidera o movimento associativo; o Eduardo é o mais competente, responsável, maduro, oficial e cavalheiro, delegado de turma que se pode imaginar – e, mesmo nos dias de invernia, leva-nos até à sala de jantar, sem nunca nos deixar sós; a Margarida tem um sorriso jovial, debruça-se, ao início da Primavera, num letargo gostoso, sobre a porta do pavilhão A, a ler um livro ao sol, pernas estendidas, numa promessa de que se cumprirá por inteiro, como o futuro provará que tão bem acontece, com uma amabilidade sem falhas; o Joãozinho diz que a humildade é o valor maior e por ela subirá encostas, cansaços, vencerá turnos, oferecer-se-á à comunidade e liderará o seu núcleo no ensino superior, sempre com uma dignidade e um aprumo impecáveis; o António tem a fome que vai vencer o mundo, bate com a porta à la Mourinho, esta (parca) nota só me dá mais vontade e motivação para o teste seguinte e se puder sair às quatro tudo bem, se não, também não faz mal (e puxo de imediato de “A nobreza do espírito”, do Rob Riemen, acabado de sair, e digo-lhe é assim mesmo), escreve tão bem quanto, agora, estuda os computadores, um emprego com saída; a Inês trabalha tanto e tudo, dedicada, genuína, cheia de garra e inteligência, enquanto o Rui é, à época, o romântico do grupo, se não é aos quinze que as aulas competem com dificuldades com os amores, quando será?, gosta de todos, faz bem aos outros por gostar.
O Francisco é um amigo em quem se junta um invulgar talento analítico, uma capacidade para ver o melhor dos outros, uma curiosidade intelectual que o atira para os horizontes maiores, uma combinação óptima entre a sua propensão para as Humanidades e as Ciências, a certeza do que é capaz e a ausência de qualquer arrogância na mesma pessoa, uma enorme auto-exigência e a garantia, sempre, da fiabilidade e de um trabalho de inquestionável qualidade; a Joana é música clássica, delicadeza, dedicação, interesse pelas artes, pelo conhecimento, pela cultura, pela compreensão do outro – quando estes valores e estas causas parecem tão em perigo; a Constança é o equilíbrio perfeito, é a justa medida, a ponderação, o sopesar, a cortesia elevada a suprema arte, o colocar-se na pele do próximo, a escritora precoce, a voz serena, a juíza como vocação, a leitora informada, a abertura ao inconformismo, o prazer da filosofia e de uma boa conversa, uma cidadã do mundo. A Carolina é acolhimento, fica nem que não haja mais ninguém para ficar, hospitalidade, confiança, dádiva, testemunho, inteligência e oferta, gratuitidade, generosidade, altruísmo, participação, simplicidade, comunidade. O Mestre escrevia, aos 13 (aninhos), mais elaborados ensaios que os colegas de 16, participava em todas as atividades, estava vivo onde tantas vezes há apatia (se ao psiquiatra está acometido um profissional do mesmo ofício para o que der e vier, não precisará o teólogo de um assistente e confessor quando a sala é vazio?), queria fazer coisas, aprender, mudar o mundo (para melhor).
Em tempo de Mundial (futebolístico) nesta selecção cabem (cabiam) tantos mais companheiro@s joviais de anos letivos a quem ficarei sempre agradecido pelo modo como habitam o mundo, como o exemplar Jorge, o íntegro e vivíssimo Domingos, o bom e responsável Edgar, a perfeição do Reis, a sensibilidade, a verdade e pureza do Quaresma, a simpatia e alegria do Tomás, a ternura da Margarida, o abraço do Gabriel, os olhos de espanto, de interesse e empenho do Félix, a ousadia, o golpe de asa, a chama da Ana Magalhães, o companheirismo, o sentido de compromisso e de ultrapassar dificuldades da Tatiana, a enorme capacidade de superação da Beatriz Fonseca, o sorriso meigo e fraterno da Marta, o bom grupo dos Nunos e do Mário, a Mariana de enorme coração, o Vilela a prolongar as aulas anos depois, o João Ferreira que é respeitado aos 16 como se tivesse 50…
Por vezes, é uma frase – “gosto muito de si”, “o senhor ensina muito bem” -, noutras basta olhar nos olhos, um sorriso e um aceno – há vinte e tal anos, do lado de lá do estrado entretanto desaparecido, não sabias que para um professor, esses eram lugares tão importantes (e que quando tomados pela inversa, as frases, os olhares e gestos assassinos, que também os há, dão vontade de fugir).

Pedro Miranda

[publicado no mais recente número da revista "Coisas B(r)oas", da Escola Secundária de São Pedro]


Comentários

Mensagens populares deste blogue

'A DERROTA DO OCIDENTE', SEGUNDO EMMANUEL TODD

A ECONOMIA ALEMÃ E A EUROPA - AS LIÇÕES DE WOLFGANG MUNCHAU

TERRA DE FRONTEIRA