BECKER E WIMBLEDON
AGORA QUE WIMBLEDON ESTÁ A COMEÇAR
Boris Becker foi o primeiro tenista que admirei e redescubro, agora, o amplo contexto em que se inscreveu, os êxitos e os fantasmas que atrevessaram uma vida.
1.‘Estamos sempre a ser massacrados [leia-se: a Alemanha continua a carregar a culpa e a expiar os crimes nazis] e este é o primeiro herói depois do nazismo’, observa, na televisão, final dos anos 80, sobre Boris Becker, um psiquiatra chamado a explicar o enorme fenómeno da adesão popular ao tenista, o mais precoce campeão de Wimbledon, aos 17 anos.
2.Algum tempo após ter terminado a carreira, Boris Becker pergunta a André Agassi, relativamente a um desafio em particular em que Becker fora completamente batido por aquele, como adivinhara para onde iria bater a bola no seu serviço (um dos elementos mais fortes do jogo do alemão). O (emocional e tecnicamente dotado) norte-americano confessa ter-se concentrado e estudado o movimento que Becker fazia, habitualmente, nos jogos que disputava, com a língua no momento de ‘servir’: consoante o local para onde a virava, assim era possível determinar, com certeza, o destino da bola. “Nunca me falaste disso”, nota, agora, o treinador de Agassi. “Não ias acreditar”. A tática, o tipo de jogo, as movimentações, o convencional e muito treinado iriam prevalecer – se tivesse contado o segredo ao seu técnico - sobre o que pareceria descabido, absurdo, infantil talvez (o movimento de língua de Becker) – mas Agassi descobriu a chave para combater o serviço poderoso do alemão e responder sem hipóteses de defesa.
3.O mais importante, e interessante, não está no resultado, nos pontos, mas como se chega até eles, o que passa nas cabeças das pessoas-jogadores para decidir qual o momento certo para arriscar, ou o momento para ser – para praticar um ténis - mais defensivo e seguro. Trata-se, no fim de contas, de um duelo de vontades.
Becker, ao longo da carreira, precisou, não raramente, de se colocar contra a parede, de ir ao limite de um passo em falso e perder a partida, necessitava de se encontrar em zona de pressão para chegar à adrenalina que (aí, sim) o fazia vencer. Um 6-2, a seu favor, poderia desconectá-lo, desconcentrá-lo, desmotiva-lo mesmo (para o set seguinte). Daí que, não raro, se colocava, a si mesmo, em zona de desconforto.
Já de há muito retirado dos courts de ténis, Becker passa a treinador/mentor de Djokovic: este não vencia, porque punia-se a si mesmo, no seu jogo, pelo que fizera fora de campo. A mente inclinava-o à derrota. A segurança (emocional, o caça fantasmas que se reconhece, agora, no discípulo) proporcionada por Boris Becker decisiva na primeira final ganha em Wimbledon, face a Federer.
Mas regressando ao Becker jogador – um tipo conhecido por se lançar ao solo, em busca do ponto, fosse em que superfície fosse - e a um duelo com Agassi, no principal torneio em relva no mundo: estando o jogo a correr francamente mal ao alemão, juntamente com o seu treinador (que fora de Agassi e o qual Becker ‘roubara’ ao norte-americano) decidem engendrar estratagema para procurar desestabilizar o adversário: em campo, Becker visa a namorada de Agassi, estabelecendo com aquela (sentada na bancada) não só contacto visual, mas ainda um jogo de palavras e de sedução que desestabilizam Agassi. A vantagem, deste, era enorme, naquela partida, mas viria a perder o encontro (os dois tenistas dar-se-iam sempre mal).
Michael Stich (pelas imagens de jogos decisivos dos grandes torneios mundiais passam Edberg, Lendl, Chang, Rafter, McEnroe, Agassi, Sampras, muitos daqueles que fizeram parte do olimpo tenista mundial nos idos de 90), alemão que chegou a bater Becker numa final de Wimbledon, aponta à tosse forçada do seu compatriota para perturbar os adversários e conta com, assim, chegou a perder com ele, ou quando este decidiu interromper o jogo, alegando lesão, e a quando do regresso ao campo tudo se tinha alterado emocionalmente. Por sua vez, John McEnroe partilha como fez bullying sobre Becker e este não se deixou impressionar: um duro, o alemão.
4.O tenista que Becker, infante, mais admirara era Bjorn Borg. Este, abandona o ténis de alto nível, aos 25 anos. A pressão, o ter que responder às expectativas, a necessidade de vitórias fazem o sueco abandonar a grande competição – seguem-se 10 anos de casamento infeliz, substâncias tóxicas, acompanhamento mediático constante…Becker parte para mais uma final em Wimbledon e determina que, se vencer, coloca imediatamente fim à sua carreira (cumpriria a promessa, caso tivesse vencido? Perdeu, ao fim e ao cabo, de propósito? A verdade é que quando chega a número um do mundo, seu grande objetivo, Becker…fica sem objectivos a atingir, ou a noção, uma vez mais, que pode ser mais relevante o processo do que o resultado. Ao longo da entrevista para a série documental, de dois episódios, de Gibney, nem sempre o discurso de Becker se apresenta como o mais coerente/consistente). Sai aliviado por perder.
5.Semanas e semanas de jogos competitivos, grand slam, viagens de avião, adrenalina no máximo, muitas vitórias, diferentes continentes, muito dinheiro: a dado momento, Boris já só dorme com recurso a medicação e afirma, agora, não ter tido o controlo sobre o dinheiro que possuía (por isso, quando o filho lhe pergunta o que aprendeu com os processos judiciais em que se viu envolvido: “trata tu das tuas coisas” [não deixes que outros tratem dos teus bens]). Os processos por fraude fiscal remontam ao início dos anos 90 – quando o Bild vendia muito sempre que colocava na capa o tem a “Hitler, a reunificação alemã ou Boris Becker”. Sempre no limite do peso ideal, Becker, a dado momento, quer jogar à sua maneira, dispensa o que fora seu treinador e seleccionador alemão, bem como, anos volvidos, o seu mentor e homem que lhe arranjava contratos (e único, na sua entourage, capaz de lhe dizer não). Este homem, uma espécie de oligarca romeno que adquire empresas estatais a baixíssimo custo, regista que o jogador é sempre o resultado daqueles que o acompanham, é o resultado da sua entourage.
O problema, quanto ao dinheiro, é que gastas tanto como quando recebias as quantias devidas como jogador, mas já não és jogador e não recebes aquelas quantias: há uma décalage entre a adequação das despesas às receitas obtidas.
Becker, carismático e brilhante – um primeiro casamento com Barbara Feltus levá-lo-á, para defender os ferozes ataques racistas contra a sua mulher (nomeadamente, por parte da imprensa tabloide), a fazer um nu com esta para a Stern e daí a nada o espaço público alemão acaba por acolher Barbara - irá contrair dívidas bastantes que o levarão à cadeia, no Reino Unido (os divórcios milionários, os filhos a quem prestar auxílio vão aumentando, incluindo os tidos fora do casamento e depois de uma negação, quanto à paternidade, inicial). Será a escassos 5 km do court central de Wimbledon, que considera a sua casa e o lugar onde foi feliz (tricampeão) e nas cabines do qual se mostrará um exímio comentador [contador de histórias, grande conhecedor do jogo, evidentemente] – que cumprirá pena de prisão efetiva.
6. Boris Becker começa a treinar com uma idade muito precoce, cinco, seis anos de idade. Antes dos 12 é considerado o melhor tenista alemão dentro do seu escalão etário. Temperamental, por várias vezes, no fim de um treino (de três horas) partirá raquete, nalgum momento de frustração ou insatisfação. Como "castigo" (Becker, em realidade, gostava de treinar), ficava mais uma hora a treinar com Steffi Graff. Curiosamente, a distância de morada entre ambos – futuros grandes tenistas alemães; a Alemanha, até Becker, nunca tivera um campeoníssimo na modalidade - era de 16 km. O homem que viria a ser o seu "empresário", quando o viu pela primeira vez a treinar a sério, diz que nunca havia observado alguém com tanta vontade no desporto – embora e, ao mesmo tempo, já no fim do documentário “Boom, boom, Mundo vs Boris Becker” (Apple TV, 2023), de Alex Gibney, diga que Becker ficou bem aquém do tenista que poderia ter chegado a ser, mas que o seu grande adversário foi o próprio - Becker é o mais jovem tenista a vencer Wimbledon, em 1985. Na sua infância, este era, de resto, o único torneio de ténis transmitido pela televisão (na Alemanha ocidental).
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