CONCHAS E CONQUILHAS

 

CONCHAS E CONQUILHAS

1.“Quando me falam de cultura, puxo logo da pistola”. Pode ter sido uma entrevista a António Lobo Antunes, atribuindo a frase a um general franquista, talvez um artigo de Miguel Sousa Tavares que a adjudicava a um oficial da ditadura militar brasileira, referências múltiplas que a radicavam em Goebbels ou Goring. Ao longo dos anos, vi, pois, a frase (em epígrafe) ser atribuída a autores diversos. Estando, agora, a ler “Cultura de Direita” (edições 70, 2023), de Furio Jesi, noto que em se citando um livro de Saint Loup (pseudónimo de Marc Augier), de 1933 (“Os voluntários europeus das Waffen SS”), o autor menciona uma frase que atribui a Hanns Jost: “há muito tempo que também eu, quando me falam de cultura, puxo da pistola”. Não se aclara, nesse passo, o exato contexto em que o instrutor das SS, presidente da associação de escritores do Reich e da Academia Alemã de Poesia, faz tal declaração.
Em ulterior pesquisa, encontro, porém, nos arquivos da New York Review of Books, uma carta de leitora, da autoria de Susan Sontag, datada de 1981, na qual a escritora corrige uma peça da edição anterior (da publicação a que se dirige) que endossava erradamente aquela sentença (sobre a qual nos debruçamos): em realidade, o original encontrar-se-á numa peça de teatro, de 1933, “Schlageter”, de Hanns Jost: “Wenn ich ‘Kultur’ hore, entsichere ich meinen Browning” (quando me falam de cultura, destravo a minha Browning; ficando-me a derradeira curiosidade de saber se no livro de Saint Loup a frase vem, ainda, com a referência à marca do revólver, ou já na declinação pela qual se tornou conhecida entre nós – se essa nuance será posterior, ou se houve, agora, pela tradução do livro de Furio Jesi, a decisão de António Guerreiro de a verter assim para português).
2. “Quem só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”. Esta frase, tantas vezes repetida para as mais variadas áreas disciplinares (“quem só sabe de mecânica…”), é atribuída sempre, ou quase sempre, ao Professor Abel Salazar, de tal modo que damos por adquirido que aquele seja o seu autor. E, no entanto, num artigo do filósofo Daniel Innerarity, no ElPaís (“A histeria digital”), a 6 de Agosto, podemos encontrar o seguinte trecho: “parafraseando o que Lichtenberg dizia da química, poderíamos afirmar que quem só sabe de tecnologia, nem de tecnologia sabe”. Ora, Lichtenberg foi um físico alemão que viveu entre 1742 e 1799. Portanto, um século antes de Abel Salazar (1889-1946). Se o médico português pôde adaptar o aforismo ao seu ofício, a ideia e sua formulação encontram-se, já, no século XVIII, em Lichtenberg (o primeiro a introduzi-lo na cultura europeia? Aparentemente, confiando no apontamento de um académico da talha de Innerarity, sim).
3.O concerto de Jorge Palma, em S. Martinho de Anta, no Espaço Miguel Torga, na noite de 12 de Agosto. De modo que, desenterrando de Agosto estas pequenas conchas como quando selecionávamos as mais especiosas (de todas) para da praia trazer, como presente, ó da casa que ficara pela aldeia, nos saiu esta conquilha: no interior do Espaço Miguel Torga, mas ao ar livre, ladeados de vinha e a uma temperatura magnífica, um primor de Jorge Palma, concentradíssimo como, aliás, o (seu) devotado público, alternando os clássicos dos CD’s - dos melancólicos fins de tarde domingueiros quando nos preparávamos para mais uma semana fora dos olhares das serras – com as melodias do novíssimo álbum, “Vida”. E ainda a confissão de que demorara 20 anos a escrever e compor uma canção dedicada a Carlos do Carmo – canção que ali, de resto, interpretou de alma cheia -, “mas felizmente, ele [Carlos do Carmo] ainda a ouviu”. Outra sua, “Passos em volta”, implicou, no cartão da “Assírio e Alvim”, um desculpe usar, a Herberto Hélder. Que, na volta do correio, lhe remete “Photomaton e Vox”, rabiscando “Ó Jorge Palma, não ligues a essas merdas”.
No dia em que Miguel Torga faria 116 anos, Palma escolheu dizer “livre não sou, nem a própria vida mo consente, mas a minha aguerrida teimosia é quebrar dia a dia um grilhão da corrente”.
Boa semana.
[hoje, no regresso do "reparo do dia", na universidadefm, para a temporada 23/24]

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