DO ESPÍRITO DE BENEVOLÊNCIA FACE ÀS RAZÕES DO OUTRO
Do 'espírito de benevolência' face às razões do outro
1.Uma senhora ucraniana que passava muitas vezes aqui pela rua, junto á casa, há mais de uma década, comentava connosco: “vós, portugueses, sóis muito engraçados: quando passais por alguém, dizeis, ‘então, como está?’ e prosseguis marcha sem ouvir, sequer, a resposta da pessoa”. O querer saber do outro, na maioria dos casos, parecia-lhe uma figura de estilo, uma convenção dessubstancializada, inoperativa. Atualmente, um dos tópicos, qual flor à lapela, para contar o tempo presente passa por dizer, repetindo à exaustão, que as pessoas se encontram fechadas em bolhas, só escolhem redes (de contactos) que reforcem os seus pontos de vista (e preconceitos), não conhecendo, nem o pretendendo fazer, as razões, os argumentos, as perspectivas diversas das suas (de partida) – e isto, apesar de existirem, também, estudos que não corroboram, face à presença humana no digital nomeadamente, esta certeza absoluta. Sucede que, ao publicista a quem toca lembrar o refrão, raramente lhe encontramos, na exposição com que nos brinda de seguida, aquele espírito de benevolência para com a mundividência diferente da sua com que os ouvintes ou leitores mais incautos poderiam julgar, de imediato, vir a deparar-se (em virtude da jeremiada acabada de escutar). E é justamente por isso que, hoje, gostaria, neste espaço, de elogiar duas posturas, presentes em pronunciamentos públicos neste Verão, de perfis ideológicos que se diriam nos antípodas, nos quais foi possível detectar uma capacidade de empatia – mesmo que discordante – da posição do outro.
2.Em entrevista para o podcast de Miguel Nabinho (“Que país é este?”, cf.: https://www.youtube.com/watch?v=XQK4rJwfl5k
), o deputado (e antigo líder) do partido 'Iniciativa Liberal', Carlos Guimarães Pinto, foi chamado a pronunciar-se sobre a questão do aborto. Atendendo à matriz de tipo libertário, tanto no plano da economia, como no dos valores/costumes não raro adstrita a tal formação política, o ouvinte adivinharia em Guimarães Pinto uma posição favorável à liberalização do aborto. A resposta, contudo, foi mais complexa do que isso: tendo militado pelo “sim”, no referendo de 2007, Carlos Guimarães Pinto, na sua vida pessoal, teve que se haver, posteriormente, com o luto causado pela perda humana (do filho que a mulher carregava no ventre): “nunca disse isto publicamente. Sofri, como casal, de perda gestacional (…) e senti uma dor grande por isso, pá…aquele embrião que…senti. Naquele período, até por questões emocionais, senti que aquilo [sic] era uma vida…Sentia, sentia aquele pesar de ter perdido aquela vida. E durante ali um período ponderei…sobre a minha posição em relação ao aborto” (no vídeo, no minuto 41.20-42.21 da entrevista). Guimarães Pinto continua a sustentar o bem fundado do seu voto no referendo de há 16 anos, mas teve dúvidas depois daquele marco (se a via que subscrevera, a este propósito, era a mais correcta), e entende como perfeitamente legítimo que, na ponderação entre valores (vida intra-uterina e decisão materna até às 10 semanas de gestação), haja, hoje, militantes do 'Iniciativa Liberal' que procedam a uma apreciação diversa da sua (acerca desta questão funda). Quando se silenciam, em uma sociedade, os debates éticos (e não apenas os bioéticos, note-se), a cidade fica entregue a tecnocratas e uma desertificação ulterior da mesma ocorre (Michael Sandel). Ora, a adjetivação abundante derramada sobre o outro com posição diferente da minha, quase inevitavelmente pejorativa, com vista, no limite, a silenciá-lo, bem com às suas razões, não pode vir, como tantas vezes acontece, acompanhada de um lamento – que em rigor não pode, pois, ser verdadeiro – pela inexistência de audição inter-partes (diferentes; o moralismo [excessivo] muitas vezes não vem acompanhado da moral). Ao confessar a sua dúvida, ao relatar a possibilidade de mudar de posicionamento, em elemento vital tão sensível – e quando dúvidas parecem nunca existir, nem mudanças de perspectiva acerca do que quer que seja, em termos políticos, no nosso espaço público -, ao admitir como perfeitamente natural e legítimo que seus correligionários façam um juízo político sobre esta matéria que não aquele que subscreve, Carlos Guimarães Pinto elevou a maturidade de consideração inter-cidadã nos debates na polis.
3.Entrámos em Agosto com um enorme défice conceptual quanto ao princípio da laicidade – e, porque não dizê-lo?, tantas vezes com um incómodo e uma má-fé em muito mal nutridos motivos expostos para uma oposição à 'Jornada Mundial da Juventude' a realizar em Lisboa. Neste contexto, e sem prejuízo - e até pelo reafirmar - da sua “concepção materialista e dialética da vida”, o PCP terá surpreendido muitos, quando rejeitou posições “pueris” de oposição aquela jornada e interpretações descabidas e desconexas do princípio da laicidade, afirmando (ao invés) : “Portugal é um estado laico (…) Esta separação (…) não exclui que, em função de critérios públicos, haja cooperação de vário tipo na realização de iniciativas, particularmente com a Igreja Católica dada a sua expressão em Portugal (…) ‘Estado laico’ não é sinónimo de hostilização de crentes ou de recusa de relacionamento e cooperação com entidades que representam as várias confissões de fé, designadamente a católica. (…) O PCP (…) recusando divisões artificiais (…) [entende que] o relacionamento e cooperação, a atitude de não confronto com a(s) Igreja(s), que se assume como questão programática, logo duradoura e não conjuntural” [deve sublinhar-se] (Avante, 11-08-2023). Ora, quando, na mesma tomada de posição, o PCP faz questão de nos lembrar que não deixa para trás os seus considerandos do entendimento do religioso enquanto “ópio” – ainda que sob a capa de um certo floreado verbal: “[religião] espaço e suporte de concepções idealistas, difusão de um misticismo desfavorável á apreensão dos fenómenos objectivos, um atentismo susceptível de tolher a acção verdadeiramente transformadora do mundo” -, como se, fixados no “além”, os que aderem ao religioso fossem complacentes com a ordem social injusta não se rebelando contra esta, nem alterando, por consequência, o status quo vigente, nos implica, por um lado, a sermos chamados a discordar – não apenas porque a desvalorização da vida na dimensão terrena tal qual a conhecemos não é uma consequência necessária nem desejável dessa religação (em sentido cristão); porque tal religação é um, melhor, o motivo maior de procura de uma sociedade justa (ou tão justa quanto possível num mundo povoado por seres humanos repletos de imperfeições); porque (o que) é difícil, convenhamos, constatamo-lo empiricamente, em 2023, encontrar (é) quem abdique das (completas) delícias terrenas em função de uma exclusiva consideração desse “além” (no que, aliás, parece concorrer para interpretar as palavras do PCP como mais um cumprimento formal de uma narrativa que inclui este tipo de precipitados [e já agora, o problema da manutenção de um jargão e de uma linguagem que não tende a dizer como devia está longe de ser um problema exclusivo da política, ou de uma dada força partidária, não deixando de atingir, também, o domínio do religioso] do que a exata consideração do “religioso” como travão a uma mudança para uma sociedade mais comprometida com o justo; de resto, quando o PCP valora positivamente diferentes mensagens do Papa Francisco nesta jornada [a defesa da “casa comum”, o reforço da justiça social ou a hospitalidade devida a refugiados e migrantes, por exemplo], e deixa em aberto a possibilidade de “operatividade”, pelos “crentes” [embora não apenas estes, evidentemente], desse mundo desejado por aquelas palavras, não deixa de haver esse reconhecimento de uma possível transformação impulsionada também por estes); por outro, precisamente pelo reconhecimento das diferenças de partida, a maturidade de compreensão e interpretação do princípio da laicidade, não esgrimido como arma de arremesso (de resto, contraproducente ao país), fez desta leitura um tributo ao equilíbrio e a uma não criação de fracturas sociais sem qualquer sentido.
Boa semana.
[hoje, no 'reparo do dia', na universidadefm]
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