DO CUIDADO COM A ‘CASA COMUM’ - UM GRITO QUE PERMANECE VIVO (LAUDATE DEUM)

 

DO CUIDADO COM A ‘CASA COMUM’ - UM GRITO QUE PERMANECE VIVO

 

Um século tão avançado que teve a sorte de ser o último” (Soloviev)

 

Oito anos depois da publicação da encíclica “Laudato Si”, sobre a nossa Casa Comum, e verificando que, enquanto humanidade, “não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura”, o Papa Francisco, tendo, ainda, a COP 28 (Conferência das Partes, que decorre no Dubai, Emirados Árabes Unidos) como horizonte de urgente acordo a firmar quanto a mecanismos efectivos de protecção e cuidado com a Terra enquanto lugar ainda habitável por humanos, e coligindo o conhecimento mais apurado obtido ao longo desta quase década que passou desde o escrito original arreigado no cântico das criaturas de São Francisco de Assis, fez publicar, em Outubro último, a Exortação Apostólica Laudate Deum.

Principiando por recordar como as alterações climáticas afectam a vida das pessoas e famílias – “em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas” -, em especial, as mais vulneráveis, subscreve a declaração dos bispos africanos –, sublinhando que “a origem humana da mudança climática já não se pode pôr em dúvida” - que enquadram tais mudanças climáticas (com dedo humano) como “exemplo chocante de pecado estrutural”. Um aumento de 0,5 graus centígrados implica “a intensidade e a frequência de fortes chuvadas e inundações nalgumas áreas, graves secas noutras, de calor extremo nalgumas regiões e fortes nevões ainda noutras” e, em realidade, “estamos perto” de o aumento chegar a 1,5 graus. Com um acréscimo de 2 graus nas temperaturas, “as calotes glaciares da Gronelândia e de grande parte da Antártida derreter-se-ão completamente”.

Quando se olha para a origem das emissões poluentes, regista-se que “uma reduzida percentagem mais rica do Planeta polui mais do que os 50% mais pobres de toda a população mundial e que a emissão pro capite dos países mais ricos é muitas vezes superior à dos mais pobres. Como esquecer que a África, que alberga mais de metade das pessoas mais pobres do mundo, é responsável apenas por uma mínima parte das emissões no passado?”.

Encontramo-nos em um estádio tal que se visa agora nada mais – mas também nada menos – do que uma necessária contenção de danos (“já não podemos deter os danos enormes que causámos. Estamos a tempo apenas de evitar danos ainda mais dramáticos”), uma consciencialização actuante da herança que deixaremos e a compreensão, sublimada, entretanto, pela Covid19, de que tudo se encontra «interligado» (o que se passa num recanto do planeta tem consequências sobre a restante Terra) e que «ninguém se salva sozinho» (os esforços, conjuntos, de investigação para a criação de antídotos bastantes, a par com a “paragem” para evitar irradiar mais o vírus, no caso da pandemia, foram decisivos para salvar vidas). De um ponto de vista ético, nuclear é perceber que nem tudo o que pode ser feito deve ser feito, pois “nem todo o aumento de poder é um progresso para a Humanidade” (nº24), bastando pensar em como novas tecnologias permitiram lançar bombas atómicas (“a admiração pelo progresso não nos permitiu ver o horror dos seus efeitos”). Um elemento igualmente primordial na compreensão (a contrario) que subjaz a muito do que se fez e faz que degradou a Casa Comum – e, portanto, entendimento a reverter para poder corrigir caminho - e que o Papa Francisco repete nesta Exortação passa pelo entendimento – a promover – de que a natureza não é coisa outra, moldura onde nos desenvolvemos: “o mundo que nos rodeia não é um objecto de exploração, utilização desenfreada, ambição sem limites. Nem sequer podemos considerar a natureza como uma mera «moldura» onde desenvolvemos a nossa vida e os nossos projectos, porque «estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos», de tal modo que se contempla «o mundo, não como alguém que está de fora dele, mas dentro»” (nº25).

Iludem-se com promessas (políticas e/ou empresariais) as pessoas onde o impacto ambiental vai ocorrer, para obter daquelas um consentimento ou legitimação, não raro muito longe de poder compensar a degradação ambiental (nº29); “a lógica do lucro ao menor custo leva ao descalabro da Terra”; nos últimos anos, muitos caíram no conto de quem, pretensamente falando em nome dos descamisados, mais não fez do que prosseguir e incrementar um modelo que em nada visou protegê-los (também na protecção da Terra). Aqui, a referência implícita aos mais conhecidos homens-fortes, populistas do nosso tempo é manifesta: “os próprios pobres, confundidos e encantados perante promessas de tantos falsos profetas, caem no engano dum mundo que não é construído para eles” (nº31).

Depois de expectativas muito elevadas por alguns quanto a humanidade melhorada no pós-crises financeira e, depois, pandémica, a conclusão do Papa Francisco é a de que não melhoramos após superarmos tais tormentas. Ora, o apelo é que não apenas dos intercâmbios resultantes da globalização se ouça as vozes “a partir de baixo” (das bases), mas que estas mesmas vozes se façam ouvir (se imponham), que se impliquem na polis e concretizem a soberania popular (pelo menos, na necessária accountability, responsabilização da atividade política): “por isso, reafirmo que «se os cidadãos não controlam o poder político – nacional, regional e municipal -, também não é possível combater os danos ambientais” (nº38). O multilateralismo e não o isolacionismo será, sempre, a melhor resposta em um mundo interconectado: “o próprio facto de as respostas aos problemas poderem vir de qualquer país, por mais pequeno que seja, leva a reconhecer o multilateralismo como um caminho inevitável”.

A falta de mecanismos de controlo, revisão e sanções para violações dos acordos não tornaram eficazes protocolos, convenções realizadas, neste âmbito, nos anos mais recentes; ademais, os combustíveis fósseis fornecem, ainda, 80% da energia mundial e a sua utilização continua a aumentar. Reconheceu-se a necessidade de compensar os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os países pobres.

Um ponto em debate, no espaço público, nos últimos 8 anos: até que ponto a técnica, as diferentes tecnologias a advir, pode solucionar o problema das alterações climáticas? O Papa Francisco já na encíclica “Laudato Si” se mostrara contrário a tal abordagem (proposta por alguns cientistas e filósofos), mas agora reforça o ponto de vista, da seguinte forma: “é verdade que são necessários esforços de adaptação, perante males irreversíveis a curto prazo e são positivas algumas intervenções e progressos tecnológicos para absorver ou capturar os gases emitidos, mas corremos o risco de ficar bloqueados na lógica do consertar, remendar, retocar a situação, enquanto, no fundo, avança um processo de deterioração, que continuamos a alimentar. Supor que qualquer problema futuro se pode resolver com novas intervenções técnicas é um pragmatismo fatal, destinado a promover uma bola de neve”.

Dito isto a todos os homens de boa vontade, o Papa Francisco volta a anotar razões que, a partir do específico mundo da fé (cristã), se somam enquanto obrigações específicas de quem a professa para auxiliar o Cuidado com a Casa Comum (e em baixo, regresso a 11 pontos que, neste âmbito, tomei a quando da publicação da encíclica “Laudato Si”.


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