O QUE É O POPULISMO (?) (II) JAN-WERNER MULLER

 

Em O que é o populismoJan-Werner Muller não distingue, como fazem Cas Mude e Kasswalter, entre democracia e democracia liberal: para este investigador o pluralismo é intrínseco à democracia, pelo que o populismo é adversário da democracia - ponto. Todavia, há muitos pontos de contacto entre a teorização deste investigador e a daqueles vindos de mencionar, sendo que Muller, por vezes, concretiza/explicita algumas consequências dos mesmos pressupostos: por exemplo, a ideia de que o populista encarna o "verdadeiro povo" tem, de facto, como consequência, que este não tem de prestar contas perante ninguém, não assume responsabilidade política perante outros órgãos do poder político (ou de outros poderes): só responde perante o povo (sendo que este, por sua vez, é desenhado pelo populista; "nós somos o povo e vós quem sois?", pergunta Erdogan aos seus compatriotas). Sendo o populista (e/ou o movimento social, partido a que pertence) a encarnação do povo, então quem contra ele estiver, está contra o povo - assim se deslegitima a oposição (por natureza não devia existir, está a usurpar do que são os "reais interesses do povo").
Muller diz que não há receitas absolutas para lidar com os populistas, mas considera que se deve falar com estes, mas não como estes (nem na forma, nem seguindo a sua agenda). O académico sugere, outrossim, que não se centre a abordagem na luta política com o eleitor(ado) populista em arrazoados de tipo psicologista: é que a descrição de tal eleitorado como eivado de "raiva", "fúria", "cólera", "ódio", "ressentimento" será e soará como paternalista - característica que os críticos das elites costumam apontar a estas. A exclusão dos populistas do debate apenas reforçaria a razão de queixa destes - que se querem e pretendem "excluídos" (seria, pois, beneficiar o infractor). 
É verdade que a maioria dos eleitores de partidos populistas é, claramente, masculino. É igualmente certo que, nos EUA, eleitores populistas pertencem, de modo maioritário, a grupos menos escolarizados e com rendimentos mais baixos. Mas não é possível estabelecer um padrão classista da filiação do eleitorado em movimentos/partidos populistas: "como mostrou a cientista social alemã Karin Priesteros cidadãos bem instalados na vida adoptam muitas vezes uma atitude social darwinista e justificam o seu apoio aos partidos de direita [populista] perguntando, no fundo: «Tive êxito; porque não podem tê-lo eles?». Pensem no cartaz do Tea Party a exigir: «Redistribuam a minha ética de trabalho!". Não é menos importante que nalguns países, como a França e a Áustria, os partidos populistas se tenham tornado tão grandes que de facto se assemelham ao que costumava chamar «partidos interclassistas»: atraem um grande número de trabalhadores, mas grande parte dos seus eleitores também vem de muitas outras classes sociais"(p.30).
É, ainda, curioso verificar como a preocupação académico-científica com o populismo tem décadas, mas como este fenómeno se transmuta com o tempo - em finais da década de 60 do séc.XX, a questão do futuro populista estava ligado às questões do comunismo, do maoísmo, da descolonização, o futuro do campesinato ("um espectro paira sobre o mundo: o populismo". Esta frase foi escrita na introdução a uma colectânea sobre o populismo organizada por Ghita Ionescu e Ernest Gellner e publicada em 1969", p.23). 
Se Mude e Kasswalter identificavam Laclau como um nome que fundamental de entre os que consideram o populismo como ideologia emancipadora, Muller deixa-nos Christopher Lasch como outro referente da mesma escola de pensamento. Em todo o caso, assinala, o populismo enquanto progressismo é um modo americano (no sentido de continente, abrangendo o norte e o sul) de tomar tal ideologia (que na Europa se formata também, e muitos casos, à direita). 
Reconhecendo ser o populismo um "conceito político contencioso", o Professor de Política em Princeton recupera Fukuyama: não há, mesmo, adversário sério à democracia e a prova é que os autocratas tendem a pagar boas quantias a especialistas em relações públicas para os apresentarem internacionalmente como grandes democratas (p.22). 
Num certo sentido, adverte o autor, nem é que os populistas sejam rigorosamente anti-elitistas: desde que os representantes (do povo) sejam eles, a liderança não é coisa má (em si mesma). E, entendendo o mandato como imperativo, não esperam uma deliberação continuada popular - e gostam da lógica binária dos referendos. E escolhem uma parte do povo como "o povo". Em termos romanos, defender os interesses da plebe não é ser populista; dizer que só a plebe é o povo, é.

Pedro Miranda

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