QUEM NÓS SOMOS

 

1.A minha família veio do sul de Itália, sou natural de Mendonza e, lá, na Argentina, fazia a sesta com a minha avó. Certo dia, estava a fazer a sesta, começo ouvir muitos sons no quarto ao lado. Levanto-me para ir ver. Espreito, e era a minha avó, debaixo dos lençóis, a rir, rir, rir. Mais tarde, perguntei à minha avó: avó, porque é que te rias tanto, à tarde, debaixo dos cobertores? Resposta: é que estava muito triste e, quando assim é, forço-me a rir, rir, rir, até que o riso se torna natural – e assim rio em vez de chorar.

[Caroline Dominguez partilha, entre mais de 30 migrantes radicados, por ora, em Vila Real, esta história - e o espesso silêncio que cai, no Grande Auditório do Teatro de Vila Real, também ele muito preenchido por migrantes que aportaram à Bila ao longo dos anos, na noite de 30 de Novembro, durante uns segundos, após a sua narração, parece traduzir a irmandade nesse ‘fazer das tripas coração’, ‘fazer boa cara à dureza’ de atravessar mares encrespados que atravessa a condição de migrante]

2.Se, como cremos, uma abordagem assistencialista não basta para respeitar a dignidade de cada pessoa, nada melhor do que (literalmente) lhe dar palco, acreditar que os talentos de que se nutre podem enriquecer a comunidade, de que há um singular contributo que a todos nos pode acrescentar, do que criar, em suma, um espectáculo multidisciplinar em que cada um daqueles que, vindo de quatro continentes, pôde e quis ser actor, músico, dançarino, artista plástico, contador de histórias, pelo menos por uma noite, tenha lugar. Valorização do diálogo entre pessoas originárias em diferentes culturas, da amizade, da diversidade, da inclusão. Empoderamento, desde logo, no atender, em cada um, do thymos (como diria Fukuyama acerca do que, em faltando, em nosso tempo, tem auxiliado um ressentimento larvar; empoderamento que, note-se, com outros ‘actores’ locais, teve, igualmente, um extraordinário momento com a criação da ópera ‘Mátria’, com composição de Fernando Lapa e libreto de Eduarda Freitas), o humano desejo de reconhecimento (de vários dos presentes e, neles, o desejo de o estender a todos) dos que passaram a habitar este território (os que foram a palco como que ‘representantes’, também, quase poderia dizer-se - até observando na plateia as reacções de muitos dos ‘representados’ -, de todos os que neste espectáculo Vila Real abraça - abraçando-se, em simultâneo, porque permeado, o concelho, neste instante do seu devir, por um conjunto de rostos que, não tendo aqui nascido, vieram juntar-se e, seguramente, somar a esta comunidade – o espectáculo integrou também, e bem, vilarealenses aqui nascidos). Neste sentido, não podia ter sido mais feliz a iniciativa/produção do Teatro de Vila Real, com “Piano-Mar” (direcção artística e encenação de Ángel Fragua, direcção e composição musical de Vítor Hugo Ribeiro).

3.Vieram de Andorra, Angola, Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, Guiné-Bissau, Irão, Moçambique, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Ucrânia, Uruguai. São estudantes de uma licenciatura na UTAD, trabalhadores na restauração, consultores imobiliários, técnicos de farmácia, mecânicos de manutenção de Usinas Hidroeléctricas, treinadores de futsal, desempregados, doutorandos, terapeutas, jornalistas, trabalhadores de Marketing Digital e Social Media, Professores na UTAD, profissionais de hotelaria, funcionários da Câmara Municipal de Vila Real…Por vezes, passaram por outros países, da Europa à América do Sul, e por outras cidades portuguesas antes de se encontrarem na capital transmontana. Estão, respectivamente, em Vila Real há meses, um ano, dois, cinco, seis, sete anos, há décadas... Apesar da heterogeneidade (enraizamento no território, condição sócio-económica, capital social…), valorizam, na cidade, o ambiente, a paisagem natural, a tranquilidade e o sossego, a segurança, o acolhimento. Vieram trazer o seu tango, a capoeira, o rap, o piano clássico; a par da música, dança e até desenho, as suas histórias e a idiossincrasia da sua gastronomia. Olhei, alguns dos que vira em palco, mais de meia hora após este espectáculo-encontro, de rosto repleto de felicidade a entrarem em suas casas.

Participaram neste espectáculo: Alexandre Silva, Brígida Chimuco, Carlos Ortega, Carmen Lemos, Caroline Dominguez, Cecília Peirone, Conceição Alfredo, Dárcio Ribeiro, Domingos Lopes Semedo, Dorothy Enweren, Ernandes Tavares, Fernanda Santos, Fernando Medeiros de Lemos, Helder Baptista, Iraída Vasconcelos, Jeniffer Rodrigues, Jesus Bandi, Josué e Branca Fernandes, Maribela Barbeiro, Olena Khamilivska e Roman Khamilivskyi, Pérola Vital, Quintino Antero Sá, Marcelo Maldonado de Souza, Miguel e Melissa Moreira, Sofia Mateos, Suzana André, Vania Holanda, Firoozeh Soltan Zadeh

Pedro Miranda



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