UMA EDUCAÇÃO DE VISTAS LARGAS (GEORGE STEINER)
UMA EDUCAÇÃO DE VISTAS LARGAS
Reparem na autobiografia de George Steiner. Detenham-se na
infância. Vejam como, todos os Sábados, o pai o levava pela mão aos museus de
Paris, primeiro, e Nova Iorque, mais tarde, de acordo com o local onde foram
morando – gerúndio propositado para explicar o nomadismo e diáspora judias, dos
quais faziam parte, na primeira parte do século XX.
Reparem, reparem no
pormenor: a senhora, pequenina, escocesa, que vinha ensinar e ler Shakespeare, com o jovem Steiner.
Aproximem a lupa: o menino a ler Homero
no original. Educação trilingue: francês, inglês e alemão. E, logo-logo, o
grego. Decorado. Um saber de cor é,
também, um saber de coração –
ensinara-nos o Professor de Oxford.
Errata
– revisões de uma vida perpassa os temas recorrentes no
pensamento, na obra, na vida de Steiner, mas é sobretudo esta infância – esta
infância de letras, de memorização, de línguas mortas, de museus, de desafio
intelectual permanente – que me interessa.
E interessa-me, porque
parecem-me memórias de um tempo em que havia tempo. Porque parecem-me memórias
que muito do espírito de hoje afastaria, entre o desdém e a indiferença. Porque
(lhes) falta pragmatismo, porque não caiu na barbárie do especialismo – para citar Ortega y Gasset -,
porque apela ao pensamento abstracto e não se concentra na acção. Porque é
teórico – com o exacto significado que aqueles que amam uma tonta prática
desprezam. Porque se dispersa. Porque não tem por função a utilidade.
Interessa-me muito esta
auto-biografia, porque ela se coloca do lado do miúdo que aprende, fascinado, Aquiles: ‘aceitei, com inquestionável entusiasmo, as ideias de que o estudo e a
fome de conhecimento eram os ideais mais naturais, mais determinantes’.
A obra recorda o pai – um
pai dedicado, um judeu compenetrado e rigoroso, oriundo de boas famílias, inteligente
e admirado – e, nele, não se vê um conformista, um resignado, um homem para
quem já nada há a aprender ou inventar: ‘consciente
ou inconscientemente, o ironista céptico concebera para o seu filho um Talmude secular. Eu devia aprender a
ler, interiorizar a palavra e o comentário, na esperança, conquanto fortuita,
de que um dia pudesse acrescentar a esse comentário, à sobrevivência do texto,
mais uma nesga de luz’.
Não apenas a cultura não era
um aborrecimento; não apenas o aparente diletantismo desaguou numa das mais
brilhantes cabeças do nosso tempo; não apenas o poliglota se sentiu mais à
vontade em dominar novos autores, outras ideias e cosmovisões diversas; não
apenas se afirmou, a partir de tal educação, um intelectual de primeira linha a
nível mundial, como, mais importante, o seu dia-a-dia, foi permanentemente
auto-evocado como (sendo) de alegria, de entusiasmo juvenil, em diálogo e
revisão, em interpretação e reinterpretação das/com as obras que o marcaram e
fizeram, e com as sucessivas gerações que por elas passaram e que sempre o
ouviram e respeitaram com atenção, nas suas próprias palavras.
É, ainda, uma auto-biografia
que me interessa, porque os momentos de prazer e descoberta que me
proporcionou, nos últimos anos, quando mergulhei nos seus escritos, implicam,
também, olhar como essa verdadeira magia – pôr-nos em conversação com ele e os
seus livros – se fez e foi construída desde o berço.
Quer pela defesa que fazemos
de uma dada visão para a educação pública, quer por aquilo que, em casa, em
cada dia, se pratica (como educação privada), estamos, sem cessar, consciente
ou inconscientemente, a projectar um dado ideal
de Homem (o nosso (ideal do humano).
A (auto)biografia de Steiner
é, pois, para mim, referência de uma educação de vistas largas. E de, adicionalmente, por assim dizer, ter a noção
da relatividade das coisas e da humildade que a sabedoria aduz: ‘quando me fez decifrar, quando me obrigou a
soletrar e a decorar a afirmação de Aquiles de que os homens (e as mulheres)
muito mais talentosos e necessários do que nós têm também de morrer (por vezes,
muito jovens, e na miséria ou em situações injustas); quando me fez atentar no
axioma de Aquiles de que a nossa morte tem a sua manhã, tarde ou noite
aprazada, o meu pai quis poupar-me a certas estultices’.
Pedro Miranda
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