IDENTIFICAÇÃO DE UM PAÍS. JOSÉ MATTOSO
Identificação de um país. José Mattoso
Partindo da constatação de como, de modo praticamente uniforme, desde 1975, Norte e Sul votam de modos opostos, e com Orlando Ribeiro evocado, José Mattoso recua no tempo, no clima, na orografia e busca continuidades que ainda nos expliquem: pensamos no Norte de montanhas íngremes, isolamento imposto ou conquistado durante tempos a fio, liberdade, também, pois claro, concentração populacional, conservadorismo de quem não acolhe, por sinuoso ser, ainda, o caminho, muitos estrangeiros; arcaísmo de cultura, assim perene, valorização, por séculos, da família alargada (a viver na mesma casa), casamento tardio de mulheres, número significativo de celibatários, respeito e valorização dos mortos; a Sul, planícies, mais fácil troca de produtos e gentes, casamento mais precoce entre as mulheres, menos homens dispostos ao celibato, menor concentração de pessoas, número bem menor, ao longo dos séculos, de famílias alargadas (a viver na mesma casa), menor celebração/valorização dos mortos, maior individualismo.
No final do século XIX, maior alfabetização masculina a Norte do que a Sul; e, inversamente, maior alfabetização feminina a Sul do que a Norte. Por vezes, traços nortenhos superam fronteiras nacionais (há outros Nortes europeus que partilham algumas características demográficas com o Norte português, por exemplo, ao nível da existência de famílias alargadas e número substantivo de celibatários).
José Mattoso não propõe uma explicação de tipo causa-efeito entre orografia e carácter de um povo – ou de povos –, mas regista coincidências e continuidades. No início da nacionalidade, havia, desta sorte, diferenças claras - algumas, como sabemos, bem perenes e que devem beber, pois, em explicações muito afastadas no tempo, como vimos de observar -, que havia que harmonizar e suplantar (por vezes, diferenças que se completavam) para podermos falar de Portugal. Assim, e atendendo à efectiva diversidade portuguesa, para que a unidade da nação emergisse houve, segundo o historiador, a concorrência de quatro factores determinantes:
b) o desenvolvimento económico e tecnológico;
c) a criação de uma classe dominante;
d) a organização do Estado.
Entre diversidade e unidade, pluralismo e harmonização, diferença e complementaridade, assim nos fizemos portugueses muito próprios.
Pedro Miranda
(publicado no jornal I)
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