SOB O MANTO DA INDIFERENÇA. MIGUEL OLIVEIRA E SILVA
Sob
o manto da indiferença. Miguel Oliveira e Silva
O
médico e Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Miguel Oliveira e Silva,
ex-Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, acaba de
dar um excelente contributo cívico com a publicação do muito informado e
documentado Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer, editado pela
Caminho. Neste conjunto de fortes dilemas éticos, que de imediato nos surgem
por título desta significativa obra, somos, pois, brindados com uma
problematização que procura ser, também, um grito contra um manto de
indiferença que rodeia estes temas, em muitas latitudes. Assim, tomemos
renovada consciência, com o médico-ensaísta que, hoje, “fabricam-se
crianças [nuns casos sem pai genético conhecido (doação anónima de sémen), sem
progenitora conhecida («barriga de aluguer») ou com duas mães biológicas
(inseminação anónima num par sáfico, em que uma mulher dá o óvulo, outra dá o
útero e amamenta: «maternidade biológica partilhada»]. E, em desigualdade de
direitos, não se lhes reconhece nem a dignidade nem os direitos humanos
fundamentais - direito à identidade e à historicidade pessoal - que se exigem e
atribuem aos adultos”. Em segundo lugar, uma relevante nota de experiência
comparada: o recurso a barrigas de aluguer, em França, em nome da segurança e
estabilidade das crianças perante incertezas suscitadas, voltou a ser rejeitada
em Junho de 2017; um terceiro ponto muito importante: a suspensão do anonimato
na doação de gâmetas não tem merecido qualquer debate, no nosso país. E isto
quando, como assegura o investigador, “é hoje eticamente inaceitável, à luz de
estudos e relatórios entretanto divulgados nos países europeus em que este
fenómeno foi e é estudado e debatido. E é lamentável que, mantendo-se a doação
de gâmetas anónima, e por isso eticamente inaceitável, em Portugal, Espanha,
França, Bélgica, tenha que vir a ser, não a Ética, mas a tecnologia de
identificação de DNA, cada vez mais acessível, menos dispendiosa e, dentro em
breve, prática quase corrente no domicílio e realizada até pelos próprios
adolescentes - com a descoberta que algo «não encaixa» entre pais e filhos...-
a anunciar o fim inelutável de tal anonimato”. Um quarto destaque, neste
contexto, se quisermos mais de ordem filosófica, continuando a escutar o
académico em causa: “A natureza humana não é certamente imutável nem perfeita,
e a humanidade tem o direito e o dever de intervir na correcção das suas
imperfeições. Em que condições, com que limites, e o que são imperfeições? (…)
Talvez já num futuro não distante, a gravidez e o parto poderão vir a decorrer
fora do organismo feminino, em «úteros» artificiais (ectogénese), já hoje
estudados na prevenção do parto pré-termo em ovelhas. A tecnocracia cria a sua
própria normatividade, uma nova heteronomia da vontade, impondo as suas regras
no mercado em novos e velhos costumes. É a tecnociência, subtraída ao controlo
da Ética e da regulação política, a ditar as regras desde o início até ao final
da pessoa humana. Tecnociência que, de algo constitutivo, intrínseco,
libertador do ser humano, se subtrai a qualquer influência externa e passa, ela
mesma, a ser a própria normatividade da acção humana: a técnica a ditar as
normas à Ética (…) Pensar bioeticamente supõe, nas ciências da vida, estar
informado e informar com profundidade, participar, remar contra a apatia e
anestesia geral que recusa ou evita o debate público de cidadãos e aceita um
seu simulacro institucional. É tomar como ponto de partida a capacidade de
espanto, a permanente inquietação e tensão das dissensões na biomedicina e suas
tecnociências, estar atento às consonâncias e dissonâncias entre o tecnicamente
possível, o moralmente desejável e o juridicamente aceitável e praticável - da
lei à prática vai um grande passo -, numa moral que se deixa interrogar, não de
semáforos e interditos, e que recusa a violência mediática e lógica dicotómica,
binária e bivalente do pró e do contra”.
Em
quinto lugar, os extremos a que já se chegou e a necessidade de uma regulação
muito cuidada nas situações de barrigas de aluguer: houve, já, 4 casos de
crianças, nascidas através de barrigas de aluguer, no Canadá, que tiveram de
ser dadas para adopção, já que nem a grávida de substituição, nem o casal
beneficiário as quiseram.
Em
sexto e último lugar, dados os limites de tempo deste reparo do dia: “em
França, o primeiro país europeu com um Conselho Nacional de Bioética, nomeado
por François Mitterrand em 1983, as chamadas leis de Bioética eram inicial e
obrigatoriamente revistas todos os cinco anos e actualmente são-no todos os
sete anos, tal a consciência da respectiva sensibilidade e do efémero que nelas
se pode plasmar - a próxima revisão está prevista para 2018 e qualquer projecto
de reforma é objecto de um debate”.
Estamos
muito a tempo de aprender.
(no "reparo do dia", na universidadefm, 2017)
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