MEDICINA E LITERATURA - REVISÕES DE UMA RELAÇÃO (NO FESTIVAL LITERÁRIO DOURO 2024)

 

LITERATURA E MEDICINA (NO FESTIVAL LITERÁRIO DOURO 2024)

Depois de Clara Rocha ter, de modo muito sistemático, contextualizando na literatura portuguesa, desde as Cantigas de Escárnio e Maldizer até João Luís Barreto Guimarães, três modos essenciais de problematizar e situar a relação entre Medicina e Literatura (nomeadamente, nos grandes Textos da Literatura Portuguesa) i) quais e quem foram os médicos escritores portugueses, ao longo dos séculos; ii) os médicos enquanto objecto da nossa literatura, tomados, pois, na perspectiva de personagens literários (que também se tornaram); iii) o tratamento que a doença mereceu, nas letras portugueses, até aos nossos dias,

de modo bem humorado – portanto, não melancólico [humor negro] – Manuel Sobrinho Simões assinalou que a expressão badameco se forjou a partir da glosa dos estudantes de medicina que sempre traziam consigo o vade-mécum. Sempre entre sorrisos e boa disposição, Sobrinho Simões assinalou que a aspiração mais portuguesa é “a de acordar à noite para pôr uns pingos”: “nós adoramos estar doentes!”. Se assumirmos a dicotomia entre iv) doenças orgânicas graves e v) doenças da alma, veremos que em duas/três décadas conseguiremos, em absoluto, gerir as primeiras e, cada vez mais, teremos problemas com as segundas. Entre genes e cultura, aquilo que somos “antes de mais nada, somos educação”. E, com a evolução, “ao longo da história, [grosso modo] foram-se eliminando os tipos diferentes” (diferentes para melhor e diferentes para pior) pelo que somos todos muito semelhantes.

Júlio Machado Vaz, por seu turno, fez notar que “em teoria, a relação entre médico e paciente deveria ser, sempre, um encontro entre dois contadores de histórias”, sendo trágicos os estudos que evidenciam que o médico aos 16 segundos da consulta realiza, já, a sua primeira intervenção (verbal)/interrupção. A história clínica (do paciente) é, apenas, a história das doenças do doente, mas não é a história do doente. O “doente com maior capacidade de manejar a linguagem” apresentará, por certo, “uma história riquíssima” (e permitirá, porventura, um diagnóstico e procura de uma capacidade de resposta ao mesmo mais eficaz). Para Júlio Machado Vaz, um dos grandes problemas hodiernos e algo que vai mal quando se assinala o cinquentenário do 25 de Abril, é ao médico, a muitos médicos, ser concedido, apenas, 10/12 minutos para ou por consultae, ainda assim, com uma fila de gente à espera desde as 5h da manhã. Ou seja, “o médico, mesmo que queira, não se pode dar ao luxo”, em 10/12 minutos, de ser o interlocutor ideal desta interlocução entre dois narradores (ideais). Outro elemento que contribuiu para a desnarrativização deste encontro foi o que passou pela dicotomia Humanidades/Ciências, emergente desde a Revolução Científica – “um divórcio catastrófico”.

O médico, reforce-se, “também devia contar uma história”: de uma certa perspectiva imponderada, “toda a pessoa que tivesse a mesma doença seria tratada da mesma forma. Nada mais falso”. E, aqui, um médico familiar, um clínico de Medicina Interna pode perceber que a D. Joanina, quando, todos os Agostos, a filha regressa a casa, após mais um ano de trabalhos em França, encontra-se bem; mas, passados aqueles 15 dias, sempre advém, de novo, um conjunto de queixas que, bem compreendidas por quem conhece, há muito, aquela senhora, pode entender (melhor) a origem (e a relativa/sazonal intensidade) das maleitas. O “médico prescreve-se”, pois, “a si mesmo”: a) na qualidade da relação médico-doente; b) naquilo que diz ao paciente, na medida em que, em rigor, “aquilo que o médico diz não fica a dever nada em eficácia às pastilhas”.  É que a pessoa quando “sente que não é julgada, que é compreendida e que é aceite” começa, muitas vezes, logo ali, a melhorar. E é neste âmbito que em Portugal surge, igualmente, a ideia concretizada de uma Cadeira, como a lecionada por Barreto Guimarães, aos alunos do 2º Ano de Medicina, de Poesia, centrada nas diferentes doenças – e convívio humano com estas -, para uma melhor compreensão, por parte de cada futuro médico, de si e dos outros.

Atente-se nos casos, já hoje em Portugal desenvolvidos, de “prescrição social”: tira-se parte da medicação que o doente está a tomar e este passa, por exemplo, a frequentar um grupo de bordados (o “social” como contendo uma dimensão terapêutica).

Por sua vez, o mais recente editorial da Lancet chama a atenção para a relação entre as condições de Habitação das pessoas e as suas doenças. Se uma habitação não possui condições de salubridade, bem pode o médico “encharcar o paciente de antibióticos que não adianta nada”.

[adenda de Sobrinho Simões: Ribeiro Sanches (1699-1783) chegou a ser o mais importante contribuidor para a saúde pública no mundo, estudando prisões e navios e relação destes com as doenças]

Olivier Sacks: examinando a doença, o médico pode aumentar em sabedoria em domínios como a anatomia ou a biologia; examinando a pessoa, melhorará a sua (nossa) compreensão da vida.

Em moderação exemplar desta mesa dedicada, no FLID, à relação Literatura-Medicina, Luís Caetano recordou, entre outros, os escritores e médicos Miguel Torga – “a caneta que escreve é a mesma que prescreve” – e Tchékhov (1860-1904) – “a medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas a minha amante”.


[sessão realizada na tarde de Sábado, no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, com a presença de mais de 200 pessoas na assistência]


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