TERTÚLIA, NA 'GOMES', EM VILA REAL, COM MANUEL PIZARRO E GONÇALO LOBO XAVIER: PORTUGAL E A EUROPA (E O 25 DE ABRIL NISSO)

 

NO ‘DIA DA EUROPA’, NOITE DE TERTÚLIA, NA ‘GOMES’, SOBRE A RELAÇÃO PORTUGAL-EUROPA E O 25 ABRIL NISSO, PROMOVIDA PELA CCDR NORTE, COM MANUEL PIZARRO E GONÇALO LOBO XAVIER, MODERADOS POR LUÍSA PINTO

- Um cidadão presente nesta sessão, economista de formação, tendo trabalhado na 'Comissão Europeia', afiançou que, nos debates públicos portugueses acerca da nossa relação com a Europa “concentramo-nos demasiado nos fundos estruturais, quando [por exemplo] há decisões comerciais a nível internacional que são muito mais importantes [impactantes economicamente no nosso país do que aqueles fundos]. Os fundos estruturais são importantes, mas, em termos macroeconómicos, não são nada do outro mundo”, sentenciou, dando um exemplo gráfico que marcou de modo impressivo: o envelope financeiro que Portugal solicitou, de empréstimo, à 'troika' foi o equivalente ao que Portugal recebera, até então (2011), desde 1986, dos fundos estruturais europeus. Grave, para o nosso país, após a ratificação da presença da China na OMC, foi a chegada de calças de ganga, do têxtil chinês, a 1 euro a vários portos europeus (o que nem milhões de euros em fundos compensa);

- Manuel Pizarro, dando nota da sua perplexidade com a importância das “percepções” em política e na sensibilidade (eleitoral recente) dos cidadãos (portugueses), considerou que o país é incomparavelmente melhor do que aquele que existia até Abril de 1974 (e, portanto, tudo medido por factos objectivos, não entende o “antes, era melhor”), mas que o descuido com a habitação será o elemento que observa mais palpável como motivo de queixa dos cidadãos. Como eurodeputado entre 2019 e 2022, Pizarro “pagava menos pelo T1 no centro de Bruxelasdo que aquele que veio a ter de arrendar, em Alvalade, quando foi para Lisboa, por ocasião da sua ida para ministro da Saúde. Face à argumentação de muitos eurodeputados alemães de que o incremento das relações comerciais com a Rússia – isto nos idos anteriores a Fevereiro de 2022, naturalmente – seria um factor adicional para a paz (mais comércio igual a mais paz, ou menor probabilidade de guerra), Pizarro reconhece que, erradamente, aderiu ao argumento, para desespero, então, dos colegas bálticos – Estónia, Letónia, Lituânia – que “duvidavam, mesmo, que os russos fossem humanos” (e que nunca ratificaram o pressuposto vindo de enunciar). Existindo, no Parlamento Europeu, 7 grandes grupos parlamentares, eles encerram, no seu interior, cerca de 200 partidos. Em algumas questões, porque o factor nacional e não apenas o ideológico conta, Pizarro sentia-se mais próximo dos colegas do PSD do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), enquanto noutros ratificava, convictamente, as propostas do Grupo Social-Democrata (centro-esquerda, ao qual pertencia). O que lhe custa a aceitar é que se elejam dezenas de Eurodeputados que visam a destruição da União Europeia. Ao grupo de 30 'brexiteers' do senhor Farage – que viravam as costas quando a sinfonia de Beethoven, feita hino da UE tocava, numa cena impressionante no Parlamento Europeu -, as sondagens atuais tendem a apontar para mais 70/80 deputados do grupo mais extremista e outros tantos, ainda, de deputados que não se configuram dentro de postulados ao centro político. Sem as ajudas europeias, não haveria renovação do mercado do Bolhão (continuaria a cair aos pedaços), mas também de várias escolas e outras infra-estruturas que tais (como estar contra a Europa que ajuda à qualidade de vida?, interrogaram-se os dois oradores convidados, colocando em causa a tese de Nuno Palma, de que os dinheiros europeus são prejudiciais à economia portuguesa);

- Da sua experiência como Vice-presidente do Grupo do Semestre Europeu e, bem assim, membro do Comité Europeu Económico e Social, Gonçalo Lobo Xavier, que representa a CIP neste último fórum, reteve o quanto “a falta de vergonha” levava os políticos alemães, ao longo dos anos, a defender a sua indústria automóvel de modo intensíssimo, os holandeses a moverem-se para salvaguardar a “Phillips” e os finlandeses a tratarem dos interesses da “Nokia” – e tudo isto sob o 'chapéu de chuva' de um (suposto) “bem comum” europeu. O empresário e gestor que se afirma como “lobista transparente” considera que a Portugal faltou, mais vezes, “perder a vergonha” (na promoção dos seus interesses), recordando como, no seu último ano, à frente da Comissão Europeia, Romano Prodi preencheu as Direcções-Gerais europeias de italianos (ao passo que Durão Barroso não teria feito o mesmo com portugueses). Nas suas permanentes viagens ao exterior, Gonçalo Lobo Xavier, às quintas-feiras, regressa a casa, em aviões repletos de compatriotas: “a sede da NATO está a ser feita por portugueses” (a periférica de Antuérpia também, acrescenta Pizarro) e operários qualificados, e com muito mais qualidade de vida que os seus antecessores emigrantes (cujo papel na melhoria das cidades e vilas foi enaltecido pelo professor Hilário, presente neste encontro), têm, agora, elevados índices de mobilidade;

- António Cunha, da CCDR, salientou como há 35 anos Portugal apresentava melhores índices, em todas as áreas, do que a Galiza – de quem é muito próximo geográfico e culturalmente – e hoje é o inverso, o que atribui aos modelos de desenvolvimento regionais. A propósito de um concurso internacional para 'Cidade Verde', em que uma cidade portuguesa do Norte do país participou e no qual ficou em segundo lugar, António Cunha ficou impressionado com a fluência linguística internacional de alunas portuguesas, fluência a qual “há trinta anos, nos Liceus, não se via; era impensável!”. Tendo uma dessas alunas, na noite véspera das apresentações e actuações dos representantes das cidades, adoecido, em um país báltico, deslocou-se a um hospital (de uma das cidades de um dos tais países "que se diz terem ultrapassado Portugal ao nível do desenvolvimento"). Resposta: espera de 8 horas. Só os esforços diplomáticos, e muitos telefonemas pelo meio, evitaram que tal viesse a verificar-se (isto é, que a espera fosse de 8 horas). Os constrangimentos com a Saúde estariam, lição implícita, longe de sem um exclusivo nacional (ou os países bálticos não estão assim tão adiantados ao nível dos registos de desenvolvimento – ou ambas as coisas, como a leitura comparada parece, de resto, revelar);
- D.António Augusto, Bispo de Vila Real, evocou “A ideia de Europa”, de George Steiner e, nela, os cafés como traço distintivo e identitário europeu. E, de facto, o café repleto, a 'Gomes' lotada, a presença dos nossos representantes, mas também dos representados/sociedade civil, a emergência da polis quando impera a solidão, o homem privado, a ausência de comunidade – e quando, no quotidiano, aliás, às 9h da noite, não por acaso, a pastelaria anfitriã da tertúlia se encontra, habitualmente, fechada – fizeram deste um acontecimento simbolicamente forte. Steiner, nesse livro em que distinguia os cafés continentais dos pubs irlandeses (ou, historicamente, da ausência de cafés na Moscovo junto à Ásia e nos EUA), lembrava como aqueles eram locais de leitura de jornais, de jogos de xadrez, de estudo, de debate político e literário/artístico, de conversa apaixonada, de conspirações e arrebatamentos amorosos, desportivos, filosóficos. O café e a civilização calha bem ao pedido do Bispo de Vila Real para que haja mais foco na alma europeia e não apenas nos números, bebendo-se dos ensinamentos dos fundadores do projecto europeu, vários deles cristãos, e tendo entre alguns dos textos mais profundos do e sobre o 'Velho Continente' aqueles elaborados pelos Sumos Pontífices, ao longo das décadas.


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