O POGROM DE 7 DE OUTUBRO E UMA CARNIFICINA SEM FIM

 

O pogrom de 7 de Outubro e uma carnificina sem fim

1.Passa, hoje, precisamente, um ano do pogrom cometido pelo Hamas, no qual foram massacrados, violados e mutilados 1140 israelitas, mulheres e homens, bebés e idosos. Dali à catástrofe em Gaza, onde apenas durante os primeiros cem dias da ofensiva israelita morreram 25 mil palestinianos, muitos dos quais crianças, foi um instante de uma carnificina (aparentemente) irrefreável – e em um conflito que se prolonga, em rigor, desde há mais de sete décadas. Gilles Kepel (Holocaustos, D. Quixote, 2024), até há pouco Professor na École Normal Supérieure, em França, arabista com vasta obra publicada sobre o Médio Oriente, cuja lição aqui seguiremos, chama-lhe, no plural, holocaustosà letra, “sacrifícios de vítimas em massa” (no caso em apreço, [que] “os palestinianos muçulmanos e os judeus israelitas infligiram uns aos outros durante um processo particular que teve lugar no Outono de 2023”).

2.Uma das trágicas ironias da selvajaria perpetrada a 7 de Outubro de 2023 é que ela atingiu, intensamente, os kibutz – comunidades onde as pessoas vivem, trabalham e produzem em conjunto – habitados não apenas por pacifistas, como por fortes opositores ao governo liderado por Benjamin Netanyahu (Governo «Netanyahu VI») e, em especial, à sua proposta de reforma judicial que pretendia, por um lado, um controlo mais apertado da nomeação de juízes para o Supremo Tribunal de Justiça (disputando a primazia deste e, bem assim, obnubilando a separação de poderes) e, por outro, acabar com o direito de veto do Supremo a decisões (do Executivo) tomadas por motivos entendidos como “irracionais” pelos juízes (ex: o Supremo Tribunal de Justiça vetou, em anteriores legislaturas, pelo “irracional” da motivação, a indicação de um cidadão condenado por corrupção para ministro). Se Netanyahu, em uma expressão mais egotista, pretendia limitar as consequências dos processos judiciais em que se encontra envolvido (nomeadamente, aqueles em que tem que responder por corrupção, fraude e favorecimento), os seus aliados de extrema-direita queriam fazer valer as regras provenientes do direito judaico (a halakha) acerca da legislação democrática e, outrossim, colocar em marcha o supremacismo, avançando, simultaneamente, contra os árabes israelitas e os palestinianos. Foram, pois, cidadãos – envolvidos, é certo, evidentemente, em uma mais ampla coligação de forças vivas da sociedade israelita - que se empenhavam, fortemente, em evitar que tal sucedesse – e note-se que a 1 de Janeiro de 2024, o Supremo Tribunal invalidou, mesmo, o projecto de lei que incluía tais normas – atingidos, barbaramente, pelo Hamas. O festival de música “Tribo Nova”, durante o qual irrompeu a inaudita violência do 7 de Outubro ao alvorecer do feriado que dava início à festa judaica de Simchat Torá [A alegria da Torá: nesta festa, encerra-se o ciclo anual de leitura da Torá [Bíblia Hebraica] e inicia-se um novo ciclo; há canto, dança e, para as crianças, doces; expressa a alegria dos judeus pela posse e observância da Torá, a ‘lei’ (ensinamento, instrução) divina], celebrava, por seu turno, “a ecologia, a música psicadélica e o amor livre – as utopias do futuro” (Kepel, 2024, p.75). No kibutz Be’eri, o mais atingido pelo massacre, “os rendimentos eram colocados à disposição comum, sendo redistribuídos segundo o modelo igualitário do socialismo de outrora”.
Ao alvorecer do Shabbat, naquelas localidades fronteiriças à Faixa de Gaza, onde dois milhões de palestinianos, a maior parte descendentes daqueles outros expulsos de suas casas, em centenas de milhares de casos, devido à criação do Estado de Israel (“essa criação estatal realizou-se às custas dos palestinianos – que não tiveram nenhuma responsabilidade no genocídio nazi, apesar da simpatia do mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Husayni (1895-1974), por Hitler”, p.78), os drones não eram alucinações de jovens que haviam partilhado substâncias psicotrópicas, mas o início de um pesadelo que remeteu Israel ao trauma da ressonância que nele ecoava da Shoá (alguns dos assassinos, gritavam “Esta é a nossa terra!” enquanto cometiam as atrocidades que atingiram, também, trabalhadores agrícolas tailandeses e africanos).
 
3.Não foi um acaso as câmaras corporais GoPro utilizadas pelos homicidas e violadores para exibirem em direto os seus “feitos”, nem se limitaram, com estas e com seus actos, a exortar correligionários e simpatizantes pelo mundo. Os dirigentes do Hamas [palavra que significa Zelo] intitularam o ataque de “o dilúvio de al-Aqsa” [dilúvio: toufan, ou tufão], procurando, com tal expressão, situar o mesmo no âmbito religioso/corânico: “esta expressão evoca desde logo o dilúvio que, enviado por Alá, afogou todos os infiéis que rejeitaram a sua revelação. O Corão, na sura Hude, a décima primeira, que é consagrada aos castigos divinos, retoma parcialmente e reescreve com essa finalidade a história bíblica da Arca de Noé. A menção à inundação divina foi acompanhada pela referência à mesquita de al-Aqsa em Jerusalém, que se tornou – na narrativa árabe muçulmana predominante dos nossos dias – no símbolo da usurpação sacrílega da Palestina por Israel e da profanação dos lugares santos muçulmanos pela ímpia «entidade sionista». A denominação escolhida exacerba a islamização da causa palestiniana e a sua identificação à jihad, inscrevendo-se na continuidade da «Intifada de al-Aqsa» (ou «segunda Intifada», de 28 de Setembro de 2000 a 8 de Fevereiro de 2005)” (Kepel, pp.22-23). Mais, “o nome [da operação] destacava de modo mais concreto e preciso um grande feito do profeta do Islão, que possui um grande valor edificante para os fiéis: o ataque (ghazua) que Maomé realizou contra os judeus que viviam no oásis de Khaybar (150 quilómetros ao norte de Medina), datado do ano de 7 da Hégira (ano 628). Durante esse acontecimento de uma crueldade explicitamente assumida, porque se tratou de um castigo exemplar dos inimigos de Deus, os homens foram torturados e mortos pela espada, as mulheres foram capturadas e repartidas pelos haréns dos vencedores e as crianças destinadas à escravatura (…) O ataque de 7 de Outubro pretendeu imitar esse feito da história santa muçulmana com o massacre implacável dos judeus, o rapto das mulheres e das crianças nos kibutz fronteiriços” (p.24). É certo que a 21 de Janeiro de 2024, o Hamas, e por outro lado, veio, mesmo contra todas as evidências, garantir que “se fez o possível para evitar atingir os civis, as crianças e as pessoas idosas”, na medida em que tal é uma “obrigação religiosa e moral dos combatentes das brigadas Ezzedin al-Qassam [braço armado do Hamas]” (p.181), mas tal deriveraria mais de uma divergência entre o braço armado, baseado em Gaza, e do secretariado político, situado no Catar, e de um sinal para negociações de paz do que qualquer outra coisa. O Professor Gilles Kepel critica, contundentemente, a investigação académica e respectivo conhecimento sobre o Médio Oriente haurido (e financiado) pela União Europeia, que considera não a prover de instrumentos (cognitivos) bastantes, densos e capazes de retratar e compreender aquela realidade, nomeadamente, e entre outros considerandos, quando o European Research Council “favorece equipas de investigação” que negam a “importância e o significado do islamismo político” (p.191). 
 
4.A 7 de Outubro de 2023, e em outro prisma, Israel deixou desguarnecido o flanco junto à Faixa de Gaza, em falha inconcebível, porque, para além do erro de cálculo de que o Hamas nunca atacaria Israel no atual quadro - por aquilo que, com isso, teria a perder (e quando Netanyahu deixara passar o financiamento, provindo do Qatar, daquela organização, enfraquecendo, por consequência, a Autoridade Palestiniana, como pretendia a liderança israelita), pela correlação de forças no interior do Governo israelita, estribado, ainda, e em última instância, também, num integrismo religioso (onde a compassividade nunca parece ter lugar). “Com efeito, não existiam tropas estacionadas na fronteira de Gaza, porque tinham sido mobilizadas para a Cisjordânia. A expansão violenta das colónias judaicas de povoamento, instigada pelos aliados de extrema-direita do primeiro ministro (…) foi acompanhada de exações e de assassinatos de habitantes palestinianos, que suscitaram ainda mais violência. Existiam nessa área mais de cem mil colonos por altura da assinatura dos acordos de paz de Oslo, em 1993. No final de 2023, são quase meio milhão. Desde o começo desse ano, tinha deixado de existir todo e qualquer obstáculo legal ao seu desenvolvimento. Em 2023, foram registados pela ONG israelita Yesh Din e pela ONU 1225 ataques de colonos contra oito cidades ou aldeias árabes. Esta situação de máxima tensão exigia assim a presença do exército para manter a ordem, sendo uma condição exigida (…) pelos deputados dos partidos «Força Judaica» e Mafdal – Sionismo Religioso (…) Sendo [os líderes destes partidos] supremacistas judeus, lutam para que Israel se torne um Estado teocrático, regido em exclusivo pela lei bíblica e pela anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, mesmo que isso implique a expulsão dos palestinianos” (pp.71-72). Uma vez mais, os extremismos tocam-se e o fundamentalismo, incapaz de alcançar compreensão e de se alçar à verdadeira religação que não pode deixar de fundar-se/ancorar-se no amor (presente no rosto do outro, cuja dignidade não se toca), vence: “à semelhança dos jiadistas, que fazem uma leitura literal e descontextualizada dos textos sagrados do Islão, ilustrada pelo ataque de 7 de Outubro, batizado «dilúvio de al-Aqsa», os zelotas do judaísmo contemporâneo encontram nas Escrituras bíblicas (…) muita matéria para o terror sagrado contra os goyim (os «gentios»). Assim, Javé diz a Moisés no livro do Êxodo (23, 27): «Espalharei o pânico e o terror em todos os povos que encontrares à tua frente, e obrigarei os teus inimigos a fugirem diante de ti». Depois de ter especificado: «A Tua mão direita, Javé, é forte e poderosa, a tua direita faz o inimigo em pedaços» (Êxodo 15, 6). Em Jericó, após o episódio das trompetas que fazem ruir as muralhas, Josué massacra «tudo o que lá existia». São estes os atores israelitas do drama de Gaza, após o pogrom de 7 de Outubro de 2023, que se tornaram ministros-chave que controlam a agenda e a sobrevivência política de Netanyahu” (p.94).
 
5.Um dos elementos nada negligenciáveis que polarizou a opinião pública mundial durante o último ano, a propósito deste conflito no Médio Oriente, passou pela controvertida qualificação de “genocídio” - que, no entender de uma parte dessa opinião pública, e de um conjunto de Estados - a ofensiva israelita, manifestamente desproporcional e causando um desastre humanitário (em Janeiro de 2024, as vítimas palestinianas da resposta israelita superavam 20 vezes as vítimas do 7 de Outubro, com dois milhões de deslocados a viverem sob condições indignas, insegurança alimentar e no limite da fome, com elementos, como os verificados em Rafah, na fronteira com o Egipto, de 1 chuveiro para 4500 pessoas ou uma instalação sanitária para 220 pessoas e, nestes nossos dias de Outubro de 2024, essa desproporção já ultrapassou as 40 vezes), relativamente aos palestinianos (tomados como “danos colaterais” de um ataque que se esperava dirigido o mais cirurgicamente ao Hamas).
A questão do “genocídio”, neste contexto, foi, a 29 de Dezembro de 2023, pela África do Sul, levada ao Tribunal Internacional de Justiça – instância suprema da ONU, que nomeia os seus 15 juízes, eleitos para um mandato de 9 anos pela Assembleia-Geral e pelo Conselho de Segurança. Instituído em 1945, “tem como objetivo a regularização pacífica dos diferendos entre os Estados, e só estes se podem a ele dirigir. Não possui capacidade penal nem força coerciva de execução, mas tem uma força que é sobretudo moral, ao editar uma qualificação legal – cujas consequências políticas podem ser extremamente importantes” (p.152). África do Sul, importa aqui contextualizar, que integra os BRIC+ - acrónimo que designa um grupo constituído originalmente pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, sendo que a ele se juntaram, em 2024, a Arábia Saudita, o Egipto, os Emirados Árabes Unidos, a Etiópia e o Irão. BRIC+ que se apresentam agora, em face das mudanças demográficas e económicas a nível internacional, como disputando, como “sul global”, a hegemonia do “Norte”, nomeadamente na presença (decisória e decisiva) em múltiplas instituições de regulação internacional, como que substituindo o velho antagonismo Ocidente/Leste na competição pelo que antes se designava por ‘Terceiro Mundo’ (e muitos países do antes denominado Terceiro Mundo, atente-se na tessitura das redes de aproximações que se formam neste tempo, ainda hoje não condenaram a agressão da Rússia de Putin à Ucrânia). África do Sul, ainda, que não fez caso da intimação do Tribunal Penal Internacional – organismo criado pela ONU em 1998 e que se dedica a processar indivíduos, tais como os criminosos de guerra da antiga Jugoslávia ou do Ruanda, e que dispõe de uma força coerciva executória (ao contrário do TIJ) – para prender e extraditar, em 2017, o presidente sudanês Omar al-Bashir (que os responsáveis sul africanos fizeram sair discretamente do país), responsável por um genocídio no Darfur que causara mais de 300 mil mortos. África do Sul e BRIC+ para os quais não há, também, solidariedade para com a Ucrânia, por mais massacrada que seja, pois que é “europeia”, senão, mesmo, “nazi”. Neste quadro, Gilles Kepel questiona “os messianismos libertadores do planeta, arvorados por países que, na sua maioria, são dirigidos por regimes autoritários, contra um «Norte» que é estigmatizado como sendo colonialista, imperialista, racista, «islamofóbico», etc., mas que funciona segundo as regras do Estado de direito e dos princípios democráticos” e em que milhões de habitantes do «Sul global» procuram o “Norte tantas vezes vilipendiado – em busca de um bem-estar e de uma atmosfera de justiça, que lhes são negados pela maior parte dos poderes iliberais que reinam no «Sul global»” (pp.13) e em que as sociedades de destino se encontram divididas, nos que a ela aportam, entre a adesão aos valores cívicos dos países de acolhimento e uma “ética de rutura em relação ao abominado Norte” no interior da qual se prega “um separatismo efetivo e normativo e a divisão dos territórios em enclaves como um prelúdio da subversão identitária” (p.14). A Europa, muito em particular, pode/deve desempenhar, neste âmbito e momento, um papel-charneira na superação da dicotomia Norte-Sul não sucumbindo às trompetas do clamor da “grande substituição”, nem, tão pouco, favorecendo “enclaves comunitaristas com regras à parte dos Estados”: “a Europa constitui um excepcional laboratório de fusão, para além das origens raciais e das filiações religiosas. O seu dilema consiste numa batalha cultural entre aqueles que desejam fundir-se aos valores democráticos do Velho Continente, e aqueles que desejam aí criar enclaves separatistas a fim de subverter o Estado de direito. Este debate, mal conduzido pelas elites políticas que fazem prevalecer o clientelismo em detrimento do conhecimento, encontra-se actualmente preso entre uma extrema-direita que grita contra a «grande substituição» e que cresce eleitoralmente, escrutínio após escrutínio, e uma esquerda radical que bajula o comunitarismo para obter votos nos bairros populares com uma forte componente migratória. Tudo isto enquanto a Europa teria vocação para demonstrar, pela sua capacidade integradora, a inanidade da divisão existencial entre «Sul global» - do qual muitos habitantes aspiram a juntar-se a ela de qualquer forma – e o «Norte» ocidental, e para fazer ouvir uma voz poderosa, que se tornou quase inaudível” (pp.193-194).
Dito o que, e ao mesmo tempo, caso o Ocidente continue sem conseguir travar a desmesura e destruição massiva de vidas e cidades por parte de Israel – prosseguindo, este, uma doutrina de atuação desproporcionada e em que, nas suas opiniões públicas, seriamente se questiona alvos civis atingidos, equipamentos civis atingidos, como hospitais, e justificações apresentadas para tal suceder, e direitos humanos postos em causa -, seja complacente face à catástrofe humanitária em que sobrevivem milhões de palestinianos – desde há muito, cidadãos de terceira, vítimas de sistemáticos abusos, insensibilidade e crueldades quotidianas, mesmo no mais chão e fundamental da existência, naqueles territórios, como, de modo impressivo, no-lo dá a ver e sentir Nathan Thrall, em Um dia na vida de Abed Salama (Zigurate, 2023) -, se não se cumprir a justa exigência de dois estados naquela zona do globo (“se os Estados Unidos e o Ocidente não conseguirem os meios para instaurar um Estado palestiniano, sofrerão, a prazo, uma derrota estratégica perante o eixo iliberal e antiocidental sino-russo que é agora simbolizado pelos BRICS+”, p.184), então, a par das aspirações que partes do mundo que foram negligenciadas, esquecidas ou ignoradas e que pretendem que a sua voz seja justamente escutada, teremos um Ocidente claramente (ainda mais) mirrado na sua força política e moral, com todas as consequências no concerto das nações e na regulação das relações internacionais (a qual surge, já, evidentemente, em função daquilo a que assistimos, especialmente, nos anos mais próximos, extremamente frágil). Numa palavra, achamo-nos em “um mundo em que a «aceleração da História» também participa numa regressão inacreditável em direção às tragédias de um passado que os autores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e da Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio, em Dezembro de 1948, há setenta e cinco anos, esperariam ter desaparecido” (p.165).
O que se jogava, radicalmente, regressemos ao ponto, no processo intentado pela África do Sul era, então, a própria legitimidade da existência de Israel e do magistério político ocidental, ancorados, estes, respectiva e historicamente, na necessidade de um Estado para proteger territorialmente o povo vítima da Shoah e na vitória frente ao nazismo - e, posteriormente, na queda do muro de Berlim e desaparecimento da URSS. Se em Gaza se pudesse concluir pela existência de genocídio, “uma tal contradição entre a causa [da criação/existência do Estado de Israel] e os efeitos seria [como] atribuir uma espécie de ilegitimidade retrospectiva a essa criação (…) Uma incriminação pelo Tribunal Internacional de Justiça abriria caminho para que a Shoah fosse substituída por outros paradigmas do genocídio, como os massacres cometidos pela colonização europeia em todas as suas formas – e dos quais a hecatombe de Gaza seria o último exemplo.  (…) A vítima do nazismo de ontem tornar-se-ia assim o carrasco dos palestinianos, arrastando consigo para o opróbrio defendido pelo «Sul global» - do qual os BRICS+, sob a batuta da Rússia e da China, pretendem ser os campeões – o Ocidente” (pp.152-153).
O termo “genocídio” foi cunhado, em 1943, por Raphael Lemkin (1900-1959), jurista judeu polaco, procurador na Polónia, impressionado pelo extermínio de mais de um milhão de arménios cristãos, em 1915, definindo o conceito como “a intenção, seguida da sua concretização, de fazer desaparecer, por intermédio da matança (…) um genos [raça, nascimento]. A sua destruição não passa somente pelo assassinato dos seus membros, mas igualmente pela vontade dos exterminadores em liquidar a identidade sociocultural do «grupo» em causa, a sua língua, a sua religião, e de o erradicar do seu território ancestral” (p.156).
Igualmente jurista judeu formado em Lemberg, actual Lviv (na Ucrânia), Hersh Lauterpacht (1897-1960), que viria a adquirir cidadania britânica, um dos primeiros juízes do Tribunal Internacional de Justiça, pensou, diversamente do seu par, na noção de “crime contra a Humanidade”, posição que obteve vencimento na aplicação dos julgamentos de Nuremberga – em detrimento de “genocídio”. De acordo com Lauterpacht, “o ser humano, o indivíduo, é a derradeira fonte do Direito”, e a noção de genocídio, baseada numa definição aleatória de «grupo», tem «muitas lacunas, artifícios e potenciais perigos», que provocam debates intermináveis sobre a intencionalidade dos criminosos e farão com que o direito se perca por meandros de onde não conseguirá sair” (p.157).
O Tribunal Internacional de Justiça não se pronunciou sobre o mérito da utilização explícita de “genocídio” aplicada às acções de Israel em Gaza, após o 7 de Outubro – “deixando esse ponto para um veredito para o qual seriam necessários vários anos de instrução processual” (p.187); porém, instou Israel a “impedir a realização de qualquer ato que entrasse nos campos de aplicação” da Convenção de 1948 sobre o genocídio”, fazendo impender a suspeita de que tal pudesse (estar a, ou viesse a) ocorrer, elevada falha moral de Israel, sublinhada, ainda, na obrigação, ali cominada (também ao nível moral), de “permitir o fornecimento de serviços de base e de ajuda alimentar, de que os palestinianos têm uma necessidade urgente para enfrentarem as condições de vida desfavoráveis com as quais se defrontam”. Aquela falha, naturalmente, diminuiu ou mitigou o apoio da União Europeia, cuja solidariedade completa com Israel a 7 de Outubro, em breve ficaria prejudicada pela resposta brutal que aquele estado conduziu (uma consciência ocidental atormentada ou dilacerada pela incapacidade própria de travar Netanyahu, complacência com o dizimar de dezenas de milhares de pessoas, na sua “guerra infinita” manifestar-se-ia de múltiplos modos, também nem todos isentos de controversão e reparos ou severas críticas na medida em que cotejavam expressões de diminuição de todo um povo, ou religião, da sociedade civil, aos campi universitários, às tentativas de travar ou conter aquela avalanche belicista, por banda de alguns dirigentes políticos, até à mais recente solicitação do embargo do fornecimento de armas a Israel pelo Presidente francês).
 
6.Ainda que “nada prove que Teerão tenha favorecido a decisão de atacar naquela manhã fatídica de 7 de Outubro, os Guardas da Revolução garantiram o treino, as infraestruturas e o financiamento, sem os quais nada teria sido possível” (p.168). O estreitamento da relação do Irão com a China – estado chinês, este, que nunca classificou o Hamas como organização terrorista, nem condenou o ataque de 7 de Outubro -, permitiu o contorno do embargo norte-americano (ex: a China compra 90% do petróleo exportado pelo Irão) e manter-se à tona como líder do (auto) denominado “eixo da resistência” a Israel (sendo que diversos observadores e especialistas nesta matéria, sublinham a atual fragilidade iraniana por comparação com os meios de que dispõe Israel como ingrediente que motivará ou será tentação para este último estado avançar, a breve prazo, sobre instalações nucleares iranianas, podendo desencadear-se, então, por consequência, uma ainda mais aguda fase de estertor nos domínios da guerra e da paz no mundo): dirigido por Teerão, inclui a Síria de Assad, o Hezbollah [à letra, Partido de Deus, radicado no Líbano], o Hamas e os hutis do Iémen. Os hutis – habitantes das montanhas desfavorecidas do norte do Iémen, que pertencem à seita heterodoxa dos zaiditas, uma das três correntes principais do xiismo – tomaram o poder na capital do país, Saná, em 2014, em consequência da guerra civil desencadeada nos idos da “Primavera Árabe” que depôs o então presidente iemenita. Embora o nome pelo qual são conhecidos seja “hutis”, este grupo tem por nome oficial “Ansar Allah” (“os seguidores de Alá”). São “o único movimento islamita com alguma dimensão que anuncia nos seus símbolos o ódio pelos judeus e pelo estado hebraico” (p.43). Foi dele que veio a principal manifestação de apoio ao Hamas, na sequência do 7 de Outubro.
Mas, no entender do académico arabista, o papel-chave no âmbito do conflito israelo-palestiniano caberá à Arábia Saudita: “o mais poderoso dos Estados árabes, o reino saudita detém uma das principais «chaves» de resolução do conflito. Com efeito, a sua capacidade de investimento é imensurável e o seu envolvimento numa estratégia que pudesse colocar a Palestina novamente no caminho da viabilidade seria decisivo (…) Em 9 de Janeiro de 2024, o embaixador saudita em Londres (…) anunciou à BBC que o reino saudita tinha estado perto de um acordo antes do 7 de Outubro, e que as negociações tinham sido suspensas desde então, mas que Riade estava disposta a envolver-se numa iniciativa de normalização – reiterando com determinação a condição prévia de que os palestinianos devem obter um Estado próprio [pp.138-140] (…) O reino tem um posicionamento geopolítico singular, porque dispõe de um recurso ímpar: as suas reservas de hidrocarbonetos e a sua capacidade reconfortada de único «produtor elástico» do mundo. Algo que o coloca numa situação de poder manobrar a produção e os preços – e de negociar de igual para igual com os seus parceiros, tendo em vista o exercício da hegemonia sobre o «Sul global», os gigantes chinês, russo e indiano. Os quais dependem da produção e dos preços do petróleo, que Riade controla – ao mesmo tempo que beneficia de armamento ocidental e do apoio militar euroamericano para a sua estabilidade interna (…) É neste contexto planetário que se joga o futuro do Ocidente, passada a euforia da «hiperpotência» norte-americana que se seguiu à queda do muro de Berlim” (pp.184-185).
Amy Ayalon, líder do Shin Bet (“serviços de informação internos”) entre 1995 e 2000, deu, a 10 de Janeiro de 2024, uma entrevista ao jornal israelita Haaretz, defendendo que a resolução do conflito armado pós-7 de Outubro poderia/deveria dar-se através da libertação de todos os reféns por troca com a libertação de prisioneiros palestinianos nas prisões  israelitas, com Marwan Barghouti (considerado a personalidade mais popular da Palestina, antigo dirigente da Fatah e com papel relevante na segunda Intifada) à cabeça. Para Ayalon, não haverá “fotografia da vitória” pelos israelitas, sendo que a principal desorientação do PM, Netanyahu foi fingir que “os palestinianos não são um povo, e que se lhe permitirmos a independência económica, eles abandonarão o seu sonho de independência” (p.179). Gadi Eizenkot, antigo chefe do Estado-Maior e membro do gabinete de guerra, apelou à realização de eleições em Israel, entendendo como pressuposto de paz a libertação dos reféns ainda vivos (sendo que para isso necessário seria estabelecer contactos com o Hamas). No entanto, no dia seguinte as estas declarações, Netanyahu opôs-se a toda a soberania palestiniana de natureza estatal, tanto sobre Gaza como sobre a Cisjordânia, por motivos de controlo da segurança.
 
Boa semana.

Pedro Miranda

 







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