O pogrom
de 7 de Outubro e uma carnificina sem fim
1.Passa, hoje, precisamente, um ano do pogrom cometido pelo Hamas,
no qual foram massacrados, violados e mutilados 1140 israelitas, mulheres e
homens, bebés e idosos. Dali à catástrofe em Gaza, onde apenas durante os
primeiros cem dias da ofensiva israelita morreram 25 mil palestinianos, muitos
dos quais crianças, foi um instante de uma carnificina (aparentemente)
irrefreável – e em um conflito que se prolonga, em rigor, desde há mais de sete
décadas. Gilles Kepel (Holocaustos,
D. Quixote, 2024), até há pouco Professor na École Normal Supérieure, em França, arabista com vasta obra
publicada sobre o Médio Oriente, cuja lição aqui seguiremos, chama-lhe, no
plural, holocaustos – à letra, “sacrifícios de vítimas em
massa” (no caso em apreço, [que] “os palestinianos muçulmanos e os judeus
israelitas infligiram uns aos outros durante um processo particular que teve
lugar no Outono de 2023”).
2.Uma das trágicas ironias da selvajaria
perpetrada a 7 de Outubro de 2023 é que ela atingiu, intensamente, os kibutz – comunidades onde as pessoas
vivem, trabalham e produzem em conjunto – habitados não apenas por pacifistas, como por fortes opositores ao
governo liderado por Benjamin Netanyahu (Governo «Netanyahu VI») e, em
especial, à sua proposta de reforma judicial que pretendia, por um lado, um
controlo mais apertado da nomeação de juízes para o Supremo Tribunal de Justiça (disputando a primazia deste e, bem assim, obnubilando a separação de poderes) e, por outro, acabar com o direito de veto do Supremo a decisões (do Executivo)
tomadas por motivos entendidos como “irracionais” pelos juízes (ex: o Supremo Tribunal de Justiça vetou, em
anteriores legislaturas, pelo “irracional” da motivação, a indicação de um
cidadão condenado por corrupção para ministro). Se Netanyahu, em uma expressão
mais egotista, pretendia limitar as consequências dos processos judiciais em
que se encontra envolvido (nomeadamente, aqueles em que tem que responder por corrupção, fraude e favorecimento),
os seus aliados de extrema-direita
queriam fazer valer as regras provenientes do direito judaico (a halakha) acerca da legislação
democrática e, outrossim, colocar em marcha o supremacismo, avançando, simultaneamente, contra os árabes
israelitas e os palestinianos. Foram, pois, cidadãos – envolvidos, é certo,
evidentemente, em uma mais ampla coligação de forças vivas da sociedade israelita - que se empenhavam,
fortemente, em evitar que tal sucedesse – e note-se que a 1 de Janeiro de 2024,
o Supremo Tribunal invalidou, mesmo,
o projecto de lei que incluía tais
normas – atingidos, barbaramente, pelo Hamas.
O festival de música “Tribo Nova”, durante o qual irrompeu a inaudita violência
do 7 de Outubro ao alvorecer do feriado que dava início à festa judaica de Simchat Torá [A alegria da Torá: nesta festa, encerra-se o ciclo anual de leitura
da Torá [Bíblia Hebraica] e inicia-se
um novo ciclo; há canto, dança e, para as crianças, doces; expressa a alegria
dos judeus pela posse e observância da Torá,
a ‘lei’ (ensinamento, instrução) divina], celebrava, por seu
turno, “a ecologia, a música psicadélica e o amor livre – as utopias do futuro”
(Kepel, 2024, p.75). No kibutz Be’eri, o mais atingido pelo massacre,
“os rendimentos eram colocados à disposição comum, sendo redistribuídos segundo
o modelo igualitário do socialismo de outrora”.
Ao alvorecer do Shabbat, naquelas localidades fronteiriças à Faixa de Gaza, onde
dois milhões de palestinianos, a maior parte descendentes daqueles outros
expulsos de suas casas, em centenas de milhares de casos, devido à criação do
Estado de Israel (“essa criação estatal realizou-se às custas dos palestinianos
– que não tiveram nenhuma responsabilidade no genocídio nazi, apesar da
simpatia do mufti de Jerusalém, Hajj
Amin al-Husayni (1895-1974), por Hitler”, p.78), os drones não eram alucinações de jovens que haviam partilhado
substâncias psicotrópicas, mas o início de um pesadelo que remeteu Israel ao
trauma da ressonância que nele ecoava da Shoá
(alguns dos assassinos, gritavam “Esta é a nossa terra!” enquanto cometiam as
atrocidades que atingiram, também, trabalhadores agrícolas tailandeses e
africanos).
3.Não foi um acaso as câmaras corporais GoPro utilizadas pelos homicidas e
violadores para exibirem em direto os seus “feitos”, nem se limitaram, com
estas e com seus actos, a exortar correligionários e simpatizantes pelo mundo.
Os dirigentes do Hamas [palavra que
significa Zelo] intitularam o ataque
de “o dilúvio de al-Aqsa” [dilúvio: toufan, ou tufão], procurando, com tal
expressão, situar o mesmo no âmbito religioso/corânico: “esta expressão evoca
desde logo o dilúvio que, enviado por Alá, afogou todos os infiéis que
rejeitaram a sua revelação. O Corão, na sura Hude, a décima primeira, que é
consagrada aos castigos divinos, retoma parcialmente e reescreve com essa
finalidade a história bíblica da Arca de Noé. A menção à inundação divina foi
acompanhada pela referência à mesquita de al-Aqsa em Jerusalém, que se tornou –
na narrativa árabe muçulmana predominante dos nossos dias – no símbolo da
usurpação sacrílega da Palestina por Israel e da profanação dos lugares santos
muçulmanos pela ímpia «entidade sionista». A denominação escolhida exacerba a
islamização da causa palestiniana e a sua identificação à jihad, inscrevendo-se na continuidade da «Intifada de al-Aqsa» (ou
«segunda Intifada», de 28 de Setembro de 2000 a 8 de Fevereiro de 2005)” (Kepel,
pp.22-23). Mais, “o nome [da operação]
destacava de modo mais concreto e preciso um grande feito do profeta do Islão,
que possui um grande valor edificante para os fiéis: o ataque (ghazua) que Maomé realizou contra os
judeus que viviam no oásis de Khaybar (150 quilómetros ao norte de Medina),
datado do ano de 7 da Hégira (ano 628). Durante esse acontecimento de uma
crueldade explicitamente assumida, porque se tratou de um castigo exemplar dos
inimigos de Deus, os homens foram torturados e mortos pela espada, as mulheres
foram capturadas e repartidas pelos haréns dos vencedores e as crianças
destinadas à escravatura (…) O ataque de 7 de Outubro pretendeu imitar esse
feito da história santa muçulmana com o massacre implacável dos judeus, o rapto
das mulheres e das crianças nos kibutz
fronteiriços” (p.24). É certo que a 21 de Janeiro de 2024, o Hamas, e por outro lado, veio, mesmo
contra todas as evidências, garantir que “se fez o possível para evitar atingir
os civis, as crianças e as pessoas idosas”, na medida em que tal é uma
“obrigação religiosa e moral dos combatentes das brigadas Ezzedin al-Qassam [braço armado do Hamas]” (p.181), mas tal deriveraria mais de uma divergência entre
o braço armado, baseado em Gaza, e do
secretariado político, situado no
Catar, e de um sinal para negociações de paz do que qualquer outra coisa. O
Professor Gilles Kepel critica, contundentemente, a investigação académica e
respectivo conhecimento sobre o Médio Oriente haurido (e financiado) pela União
Europeia, que considera não a prover de instrumentos (cognitivos) bastantes,
densos e capazes de retratar e compreender aquela realidade, nomeadamente, e
entre outros considerandos, quando o European
Research Council “favorece equipas de investigação” que negam a
“importância e o significado do islamismo político” (p.191).
4.A 7 de Outubro de 2023, e em outro
prisma, Israel deixou desguarnecido o flanco junto à Faixa de Gaza, em falha
inconcebível, porque, para além do erro de cálculo de que o Hamas nunca atacaria Israel no atual
quadro - por aquilo que, com isso, teria a perder (e quando Netanyahu deixara
passar o financiamento, provindo do Qatar, daquela organização, enfraquecendo,
por consequência, a Autoridade
Palestiniana, como pretendia a liderança israelita), pela correlação de
forças no interior do Governo israelita, estribado, ainda, e em última
instância, também, num integrismo religioso (onde a compassividade nunca
parece ter lugar). “Com efeito, não existiam tropas estacionadas na fronteira
de Gaza, porque tinham sido mobilizadas para a Cisjordânia. A expansão violenta
das colónias judaicas de povoamento, instigada pelos aliados de extrema-direita
do primeiro ministro (…) foi acompanhada de exações e de assassinatos de
habitantes palestinianos, que suscitaram ainda mais violência. Existiam nessa
área mais de cem mil colonos por altura da assinatura dos acordos de paz de
Oslo, em 1993. No final de 2023, são quase meio milhão. Desde o começo desse
ano, tinha deixado de existir todo e qualquer obstáculo legal ao seu
desenvolvimento. Em 2023, foram registados pela ONG israelita Yesh Din e pela
ONU 1225 ataques de colonos contra oito cidades ou aldeias árabes. Esta
situação de máxima tensão exigia assim a presença do exército para manter a
ordem, sendo uma condição exigida (…) pelos deputados dos partidos «Força
Judaica» e Mafdal – Sionismo Religioso (…) Sendo [os líderes destes partidos]
supremacistas judeus, lutam para que Israel se torne um Estado teocrático,
regido em exclusivo pela lei bíblica e pela anexação da Cisjordânia e da Faixa
de Gaza, mesmo que isso implique a expulsão dos palestinianos” (pp.71-72). Uma
vez mais, os extremismos tocam-se e o fundamentalismo,
incapaz de alcançar compreensão e de se alçar à verdadeira religação que não pode deixar de fundar-se/ancorar-se no amor
(presente no rosto do outro, cuja dignidade não se toca), vence: “à semelhança
dos jiadistas, que fazem uma leitura literal e descontextualizada dos textos
sagrados do Islão, ilustrada pelo ataque de 7 de Outubro, batizado «dilúvio de
al-Aqsa», os zelotas do judaísmo contemporâneo encontram nas Escrituras
bíblicas (…) muita matéria para o terror sagrado contra os goyim (os «gentios»). Assim, Javé diz a Moisés no livro do Êxodo
(23, 27): «Espalharei o pânico e o terror em todos os povos que encontrares à
tua frente, e obrigarei os teus inimigos a fugirem diante de ti». Depois de ter
especificado: «A Tua mão direita, Javé, é forte e poderosa, a tua direita faz o
inimigo em pedaços» (Êxodo 15, 6). Em Jericó, após o episódio das trompetas que
fazem ruir as muralhas, Josué massacra «tudo o que lá existia». São estes os
atores israelitas do drama de Gaza, após o pogrom
de 7 de Outubro de 2023, que se tornaram ministros-chave que controlam a agenda
e a sobrevivência política de Netanyahu” (p.94).
5.Um dos elementos nada negligenciáveis
que polarizou a opinião pública mundial durante o último ano, a propósito deste
conflito no Médio Oriente, passou pela controvertida qualificação de
“genocídio” - que, no entender de uma parte dessa opinião pública, e de um
conjunto de Estados - a ofensiva israelita, manifestamente desproporcional e
causando um desastre humanitário (em Janeiro de 2024, as vítimas palestinianas
da resposta israelita superavam 20 vezes as vítimas do 7 de Outubro, com dois
milhões de deslocados a viverem sob condições indignas, insegurança alimentar e
no limite da fome, com elementos, como os verificados em Rafah, na fronteira
com o Egipto, de 1 chuveiro para 4500 pessoas ou uma instalação sanitária para
220 pessoas e, nestes nossos dias de Outubro de 2024, essa desproporção já
ultrapassou as 40 vezes), relativamente aos palestinianos (tomados como “danos
colaterais” de um ataque que se esperava dirigido o mais cirurgicamente ao Hamas).
A questão do “genocídio”, neste
contexto, foi, a 29 de Dezembro de 2023, pela África do Sul, levada ao Tribunal Internacional de Justiça –
instância suprema da ONU, que nomeia os seus 15 juízes, eleitos para um mandato
de 9 anos pela Assembleia-Geral e pelo Conselho de Segurança. Instituído em
1945, “tem como objetivo a regularização pacífica dos diferendos entre os
Estados, e só estes se podem a ele dirigir. Não possui capacidade penal nem
força coerciva de execução, mas tem uma força que é sobretudo moral, ao editar
uma qualificação legal – cujas consequências políticas podem ser extremamente
importantes” (p.152). África do Sul, importa aqui contextualizar, que integra
os BRIC+ - acrónimo que designa um
grupo constituído originalmente pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do
Sul, sendo que a ele se juntaram, em 2024, a Arábia Saudita, o Egipto, os
Emirados Árabes Unidos, a Etiópia e o Irão. BRIC+
que se apresentam agora, em face das mudanças demográficas e económicas a nível
internacional, como disputando, como “sul global”, a hegemonia do “Norte”,
nomeadamente na presença (decisória e decisiva) em múltiplas instituições de
regulação internacional, como que substituindo o velho antagonismo
Ocidente/Leste na competição pelo que antes se designava por ‘Terceiro Mundo’
(e muitos países do antes denominado Terceiro
Mundo, atente-se na tessitura das redes de aproximações que se formam neste
tempo, ainda hoje não condenaram a agressão da Rússia de Putin à Ucrânia). África
do Sul, ainda, que não fez caso da intimação do Tribunal Penal Internacional – organismo criado pela ONU em 1998 e
que se dedica a processar indivíduos, tais como os criminosos de guerra da
antiga Jugoslávia ou do Ruanda, e que dispõe de uma força coerciva executória (ao contrário do TIJ) – para prender e extraditar, em 2017, o presidente sudanês
Omar al-Bashir (que os responsáveis sul africanos fizeram sair discretamente do
país), responsável por um genocídio no Darfur que causara mais de 300 mil mortos.
África do Sul e BRIC+ para os quais
não há, também, solidariedade para com a Ucrânia, por mais massacrada que seja,
pois que é “europeia”, senão, mesmo, “nazi”. Neste quadro, Gilles Kepel
questiona “os messianismos libertadores do planeta, arvorados por países que,
na sua maioria, são dirigidos por regimes autoritários, contra um «Norte» que é
estigmatizado como sendo colonialista, imperialista, racista, «islamofóbico»,
etc., mas que funciona segundo as regras do Estado de direito e dos princípios
democráticos” e em que milhões de habitantes do «Sul global» procuram o “Norte
tantas vezes vilipendiado – em busca de um bem-estar e de uma atmosfera de
justiça, que lhes são negados pela maior parte dos poderes iliberais que reinam
no «Sul global»” (pp.13) e em que as sociedades
de destino se encontram divididas, nos que a ela aportam, entre a adesão
aos valores cívicos dos países de acolhimento e uma “ética de rutura em relação
ao abominado Norte” no interior da qual se prega “um separatismo efetivo e normativo
e a divisão dos territórios em enclaves como um prelúdio da subversão
identitária” (p.14). A Europa, muito em particular, pode/deve desempenhar,
neste âmbito e momento, um papel-charneira
na superação da dicotomia Norte-Sul
não sucumbindo às trompetas do clamor da “grande substituição”, nem, tão pouco,
favorecendo “enclaves comunitaristas com regras à parte dos Estados”: “a Europa
constitui um excepcional laboratório de fusão, para além das origens raciais e
das filiações religiosas. O seu dilema consiste numa batalha cultural entre
aqueles que desejam fundir-se aos valores democráticos do Velho Continente, e aqueles que desejam aí criar enclaves
separatistas a fim de subverter o Estado de direito. Este debate, mal conduzido
pelas elites políticas que fazem prevalecer o clientelismo em detrimento do
conhecimento, encontra-se actualmente preso entre uma extrema-direita que grita contra a «grande substituição» e que
cresce eleitoralmente, escrutínio após escrutínio, e uma esquerda radical que bajula o comunitarismo para obter votos nos
bairros populares com uma forte componente migratória. Tudo isto enquanto a
Europa teria vocação para demonstrar, pela sua capacidade integradora, a
inanidade da divisão existencial entre «Sul global» - do qual muitos habitantes
aspiram a juntar-se a ela de qualquer forma – e o «Norte» ocidental, e para
fazer ouvir uma voz poderosa, que se tornou quase inaudível” (pp.193-194).
Dito o que, e ao mesmo tempo, caso o
Ocidente continue sem conseguir travar a desmesura e destruição massiva de
vidas e cidades por parte de Israel – prosseguindo, este, uma doutrina de
atuação desproporcionada e em que, nas suas opiniões públicas, seriamente
se questiona alvos civis atingidos, equipamentos civis atingidos, como
hospitais, e justificações apresentadas para tal suceder, e direitos humanos
postos em causa -, seja complacente face à catástrofe humanitária em que
sobrevivem milhões de palestinianos – desde há muito, cidadãos de terceira, vítimas de sistemáticos abusos,
insensibilidade e crueldades quotidianas, mesmo no mais chão e fundamental da
existência, naqueles territórios, como, de modo impressivo, no-lo dá a ver e
sentir Nathan Thrall, em Um dia na vida
de Abed Salama (Zigurate, 2023) -, se não se cumprir a justa exigência de
dois estados naquela zona do globo (“se os Estados Unidos e o Ocidente não
conseguirem os meios para instaurar um Estado palestiniano, sofrerão, a prazo,
uma derrota estratégica perante o eixo iliberal e antiocidental sino-russo que
é agora simbolizado pelos BRICS+”, p.184), então, a par das aspirações que
partes do mundo que foram negligenciadas, esquecidas ou ignoradas e que
pretendem que a sua voz seja justamente escutada, teremos um Ocidente
claramente (ainda mais) mirrado na sua força política e moral, com todas as
consequências no concerto das nações e na regulação das relações internacionais
(a qual surge, já, evidentemente, em função daquilo a que assistimos,
especialmente, nos anos mais próximos, extremamente frágil). Numa palavra,
achamo-nos em “um mundo em que a «aceleração da História» também participa numa
regressão inacreditável em direção às tragédias de um passado que os autores da
Declaração Universal dos Direitos do
Homem e da Convenção para a prevenção
e repressão do crime de genocídio,
em Dezembro de 1948, há setenta e cinco anos, esperariam ter desaparecido”
(p.165).
O que se jogava, radicalmente,
regressemos ao ponto, no processo intentado pela África do Sul era, então, a
própria legitimidade da existência de Israel e do magistério político
ocidental, ancorados, estes, respectiva e historicamente, na necessidade de um
Estado para proteger territorialmente o povo vítima da Shoah e na vitória frente ao nazismo - e, posteriormente, na queda
do muro de Berlim e desaparecimento da URSS. Se em Gaza se pudesse concluir
pela existência de genocídio, “uma
tal contradição entre a causa [da criação/existência do Estado de Israel] e os
efeitos seria [como] atribuir uma espécie de ilegitimidade retrospectiva a essa
criação (…) Uma incriminação pelo Tribunal
Internacional de Justiça abriria caminho para que a Shoah fosse substituída por outros paradigmas do genocídio, como os massacres cometidos
pela colonização europeia em todas as suas formas – e dos quais a hecatombe de
Gaza seria o último exemplo. (…) A
vítima do nazismo de ontem tornar-se-ia assim o carrasco dos palestinianos,
arrastando consigo para o opróbrio defendido pelo «Sul global» - do qual os
BRICS+, sob a batuta da Rússia e da China, pretendem ser os campeões – o
Ocidente” (pp.152-153).
O termo “genocídio” foi cunhado, em
1943, por Raphael Lemkin (1900-1959), jurista judeu polaco, procurador na
Polónia, impressionado pelo extermínio de mais de um milhão de arménios
cristãos, em 1915, definindo o conceito como “a intenção, seguida da sua
concretização, de fazer desaparecer, por intermédio da matança (…) um genos [raça, nascimento]. A sua
destruição não passa somente pelo assassinato dos seus membros, mas igualmente
pela vontade dos exterminadores em liquidar a identidade sociocultural do
«grupo» em causa, a sua língua, a sua religião, e de o erradicar do seu território
ancestral” (p.156).
Igualmente jurista judeu formado em
Lemberg, actual Lviv (na Ucrânia), Hersh Lauterpacht (1897-1960), que viria a
adquirir cidadania britânica, um dos primeiros juízes do Tribunal Internacional de Justiça, pensou, diversamente do seu par,
na noção de “crime contra a Humanidade”, posição que obteve vencimento na
aplicação dos julgamentos de Nuremberga – em detrimento de “genocídio”. De
acordo com Lauterpacht, “o ser humano, o indivíduo, é a derradeira fonte do
Direito”, e a noção de genocídio, baseada numa definição aleatória de «grupo»,
tem «muitas lacunas, artifícios e potenciais perigos», que provocam debates
intermináveis sobre a intencionalidade dos criminosos e farão com que o direito
se perca por meandros de onde não conseguirá sair” (p.157).
O Tribunal
Internacional de Justiça não se
pronunciou sobre o mérito da utilização explícita de “genocídio” aplicada às
acções de Israel em Gaza, após o 7 de Outubro – “deixando esse ponto para um
veredito para o qual seriam necessários vários anos de instrução processual”
(p.187); porém, instou Israel a “impedir a realização de qualquer ato que
entrasse nos campos de aplicação” da Convenção de 1948 sobre o genocídio”,
fazendo impender a suspeita de que tal pudesse (estar a, ou viesse a) ocorrer, elevada
falha moral de Israel, sublinhada, ainda, na obrigação, ali cominada (também ao
nível moral), de “permitir o fornecimento de serviços de base e de ajuda
alimentar, de que os palestinianos têm uma necessidade urgente para enfrentarem
as condições de vida desfavoráveis com as quais se defrontam”. Aquela falha,
naturalmente, diminuiu ou mitigou o apoio da União Europeia, cuja solidariedade
completa com Israel a 7 de Outubro, em breve ficaria prejudicada pela resposta
brutal que aquele estado conduziu (uma consciência ocidental atormentada ou
dilacerada pela incapacidade própria de travar Netanyahu,
complacência com o dizimar de dezenas de milhares de pessoas, na sua “guerra
infinita” manifestar-se-ia de múltiplos modos, também nem todos isentos de
controversão e reparos ou severas críticas na medida em que cotejavam
expressões de diminuição de todo um povo, ou religião, da sociedade civil, aos
campi universitários, às tentativas de travar ou conter aquela avalanche belicista,
por banda de alguns dirigentes políticos, até à mais recente solicitação do
embargo do fornecimento de armas a Israel pelo Presidente francês).
6.Ainda que “nada prove que Teerão tenha
favorecido a decisão de atacar naquela manhã fatídica de 7 de Outubro, os Guardas da Revolução garantiram o
treino, as infraestruturas e o financiamento, sem os quais nada teria sido
possível” (p.168). O estreitamento da relação do Irão com a China – estado
chinês, este, que nunca classificou o Hamas
como organização terrorista, nem
condenou o ataque de 7 de Outubro -, permitiu o contorno do embargo
norte-americano (ex: a China compra 90% do petróleo exportado pelo Irão) e
manter-se à tona como líder do (auto) denominado “eixo da resistência” a Israel
(sendo que diversos observadores e especialistas nesta matéria, sublinham a atual fragilidade iraniana por
comparação com os meios de que dispõe Israel como ingrediente que motivará ou
será tentação para este último estado avançar, a breve prazo, sobre
instalações nucleares iranianas, podendo desencadear-se, então, por consequência, uma
ainda mais aguda fase de estertor nos domínios da guerra e da paz no mundo): dirigido
por Teerão, inclui a Síria de Assad, o Hezbollah
[à letra, Partido de Deus,
radicado no Líbano], o Hamas e os hutis do Iémen. Os hutis – habitantes das montanhas desfavorecidas do norte do Iémen,
que pertencem à seita heterodoxa dos zaiditas,
uma das três correntes principais do xiismo
– tomaram o poder na capital do país, Saná, em 2014, em consequência da guerra
civil desencadeada nos idos da “Primavera Árabe” que depôs o então presidente
iemenita. Embora o nome pelo qual são conhecidos seja “hutis”, este grupo tem
por nome oficial “Ansar Allah” (“os seguidores de Alá”). São “o único movimento
islamita com alguma dimensão que anuncia nos seus símbolos o ódio pelos judeus
e pelo estado hebraico” (p.43). Foi dele que veio a principal manifestação de
apoio ao Hamas, na sequência do 7 de
Outubro.
Mas, no entender do académico arabista,
o papel-chave no âmbito do conflito israelo-palestiniano caberá à Arábia
Saudita: “o mais poderoso dos Estados árabes, o reino saudita detém uma das
principais «chaves» de resolução do conflito. Com efeito, a sua capacidade de
investimento é imensurável e o seu envolvimento numa estratégia que pudesse
colocar a Palestina novamente no caminho da viabilidade seria decisivo (…) Em 9
de Janeiro de 2024, o embaixador saudita em Londres (…) anunciou à BBC que o
reino saudita tinha estado perto de um acordo antes do 7 de Outubro, e que as
negociações tinham sido suspensas desde então, mas que Riade estava disposta a
envolver-se numa iniciativa de normalização – reiterando com determinação a
condição prévia de que os palestinianos devem obter um Estado próprio
[pp.138-140] (…) O reino tem um posicionamento geopolítico singular, porque
dispõe de um recurso ímpar: as suas reservas de hidrocarbonetos e a sua
capacidade reconfortada de único «produtor elástico» do mundo. Algo que o
coloca numa situação de poder manobrar a produção e os preços – e de negociar de
igual para igual com os seus parceiros, tendo em vista o exercício da hegemonia
sobre o «Sul global», os gigantes chinês, russo e indiano. Os quais dependem da
produção e dos preços do petróleo, que Riade controla – ao mesmo tempo que
beneficia de armamento ocidental e do apoio militar euroamericano para a sua
estabilidade interna (…) É neste contexto planetário que se joga o futuro do
Ocidente, passada a euforia da «hiperpotência» norte-americana que se seguiu à
queda do muro de Berlim” (pp.184-185).
Amy Ayalon, líder do Shin Bet
(“serviços de informação internos”) entre 1995 e 2000, deu, a 10 de Janeiro de
2024, uma entrevista ao jornal israelita Haaretz,
defendendo que a resolução do conflito armado pós-7 de Outubro poderia/deveria
dar-se através da libertação de todos os reféns por troca com a libertação de prisioneiros palestinianos nas prisões israelitas, com Marwan Barghouti
(considerado a personalidade mais popular da Palestina, antigo dirigente da Fatah e com papel relevante na segunda
Intifada) à cabeça. Para Ayalon, não haverá “fotografia da vitória” pelos
israelitas, sendo que a principal desorientação do PM, Netanyahu foi fingir que
“os palestinianos não são um povo, e que se lhe permitirmos a independência
económica, eles abandonarão o seu sonho de independência” (p.179). Gadi
Eizenkot, antigo chefe do Estado-Maior e membro do gabinete de guerra, apelou à
realização de eleições em Israel, entendendo como pressuposto de paz a
libertação dos reféns ainda vivos (sendo que para isso necessário seria
estabelecer contactos com o Hamas).
No entanto, no dia seguinte as estas declarações, Netanyahu opôs-se a toda a
soberania palestiniana de natureza estatal, tanto sobre Gaza como sobre a
Cisjordânia, por motivos de controlo da segurança.
Boa semana.
Pedro Miranda
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