PORQUE DESAPARECEU O SUPEREGO?
"A vitória de Donald Trump é algo mais profundo do que a vitória eleitoral de um candidato, de uma opção política, ou de uma proposta programática. Ganhou uma maneira de entender a vida na qual os adversários são inimigos; a realidade é uma crença; o estado é um fardo; a vida, uma competição desencarnada e sem contrapesos, na qual o mérito não define o êxito. Ganhou um estilo, um modo de ser e de viver. Uma identidade. (…). Ganhou uma maneira (…) [na qual] o insulto grosseiro ou o apelido ofensivo substituem argumentos e razões. Ganha o medo e a raiva, perde a confiança coletiva e o ‘nós’ (…). Ganha a ‘minha’ verdade e perde a verdade.
Em definitivo, ganha o nosso outro eu interior: aquele que se controlava e aceitava as normas e os códigos – começando pelos pilares democráticos – que limitam o nosso olhar visceral e quase primitivo para o mundo que nos rodeia [perdeu-se] (…). Ganham as nossas tripas, os nossos cortes de manga, o nosso lado soez e rude. Ganha a besta que todos levamos dentro de nós. Ganha Trump, porque foi capaz de conectar com esse eu interior que queremos conter (…). Ganhou Trump, porque conseguiu representar essa turba interior tão partilhada, esse arrebatamento depreciativo e essa vingança larvar à cultura e ao pensamento científico que não nos deixa arrastar pelos nossos instintos como desejaríamos. Ganhou Trump, porque conseguiu identificar essas baixas paixões, representá-las na sua própria pessoa, alimentar a sua sede de vingança e gerar a mais poderosa máquina de crenças, boatos e sentimentos na forma de mobilização eleitoral sem precedentes. (…) Ganha, porque converteu esse ‘eu’ embaraçante num poderoso ‘nós’ redentor e supremacista (…). Hoje, o que importa é que a ira e a sede de vingança bebem do cálice da democracia. Essa é a grande vitória, e a que mudará a mentalidade da nossa cultura política, porque a mentalidade da época é muito mais importante do que a opinião pública."
Antoni
Gutiérrez-Rubí, “Ganha
o nosso outro eu”, ElPaís,
06-11-2024.
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