A TROIKA, 10 ANOS DEPOIS - E OS CURRICULA DE ECONOMIA
A troika,
10 anos depois – e os curricula de
Economia
1.Poucos debates marcaram tanto a última década e meia, a Ocidente, quanto os atinentes aos curricula que os cursos de Economia acolhem (ou acolheram). No auge da Grande Recessão (anos 2008 e seguintes), no entender dos críticos do que seria o status quo neste domínio, tais currículos estariam muito adstritos a modelos matemáticos não suficientemente integradores dos contributos de outros ramos do conhecimento, nomeadamente os das ciências sociais e humanas, âmbito no qual a Economia, aliás, se situa (faltaria um maior aprofundamento do conhecimento histórico e filosófico – a que alguns faziam acrescer a dimensão literária-artística - para uma não alienação do social, alienação, esta, que se considerava em curso[1]). Ao fim e ao cabo, as exigências críticas não andavam longe do ideal propugnado por um dos mais lídimos cultores da disciplina, John Maynard Keynes, quando, no obituário que escreveu acerca do seu mestre Alfred Marshall, estabeleceu que “o grande economista deve possuir uma rara combinação de dotes (…) Deve ser matemático, historiador, estadista e filósofo (em certo grau). Deve compreender os símbolos e falar com palavras correntes. Deve contemplar o particular em termos do global, e tocar o abstracto e o concreto com o mesmo voo de pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado e com vistas para o futuro. Nenhuma parte da natureza do Homem ou das suas instituições deve ficar completamente fora da sua consideração. Deve ser simultaneamente desinteressado e utilitário: tão fora da realidade e tão incorruptível como um artista e, sem embargo, em algumas ocasiões tão perto da terra como o político” (apud. Joaquin Estefania, “Liberal que inspirou ideias social-democratas, Keynes volta a estar em voga 75 anos após a sua morte”, ElPaís, 21-07-2021). Adam Smith e Amartya Sen são dois exemplos reconhecidos de economistas-filósofos.
2.A questão, pois, de saber se os curricula de Economia, de algum modo, por acção ou omissão, haviam contribuído para a - tipo de/paradigma de - economia em prática e, bem assim, para a crise que irrompia, avassaladora, e, se, portanto, deviam os currículos desta área disciplinar integrar, ainda, uma maior plêiade de perspectivas e autores (do/no campo do pensamento da Economia), fez parte das importantes interrogações cívicas que, no caso concreto português, perpassaram os anos 2010-2015. Ora, meia década decorrida sobre tais controvertidas questões, o Jornal de Negócios situava, do seguinte modo, o estado da arte (cf. Jornal de Negócios, 06-02-2015): em não chegando a acordo, os académicos da área económica, sobre algumas das causas da (grande) crise (financeira e, imediatamente, económico-social) e, mais ainda, das terapias, e resultados das mesmas, entretanto adoptados, dificilmente se poriam de acordo quanto à economia a dever prosperar, às ideias económicas que a ela subjazem e, portanto, aos currículos aquela atinentes. Do texto do Negócios parecia ser possível concluir que algumas, mas não demasiadas, mudanças teriam sido introduzidas nalguns currículos - com novas disciplinas e autores naqueles presentes -, mas, em todo o caso, insusceptíveis de satisfazerem os críticos heterodoxos. Ficámos, ainda, a saber, lendo a peça da gazeta especializada no económico, que em França o grupo de cidadãos que pretendeu tornar obrigatórias estas mudanças curriculares não obteve vencimento junto do Governo gaulês.
3.Durante o período de presença da troika em Portugal e, bem assim, da adopção de medidas de austeridade em vários países europeus, um grupo de economistas académicos espanhóis constituiu um grupo denominado “Economistas frente à crise”, propondo-se, de alguma forma, inscrever-se no que poderíamos chamar tradição social-democrata, contestando o que consideravam o “consenso liberal” (na economia) que, desde então, notam ultrapassado. Este grupo publicou, nos últimos meses, uma obra coletiva intitulada “Economia, Política e Cidadania” e, nela, como não poderia deixar de ser, produzem um balanço que abarca esta determinante do questionamento da disciplina - seu ofício. José Moisés Martín Carretero, Professor Associado de Economia da Universidade Camilo José Cela, diretor da Red2red, Conselheiro do Ministério da Economia, considera que “na actualidade, a Economia, como disciplina, experimentou grandes mudanças. Depois de numerosos anos de modelização matemática altamente abstracta, hoje é uma disciplina muito mais empírica e baseada em dados. O recurso à investigação de campo, as provas de controlo aleatórias, a análise baseada no big data ou a realização de experiências comportamentais fizeram com que na actualidade a economia seja uma disciplina eminentemente experimental. David Colander, numa série de artigos intitulados ‘The making of an economist redux’, publicados em 1987 e em 2005, reflectiu sobre as matérias que os doutorados em Economia nos principais programas de pós-graduação dos EUA consideravam mais relevantes. Assim, em 1987, os doutorados assinalavam maioritariamente que o conhecimento de ferramentas matemáticas era essencial, mas esta consideração caiu na nova vaga de 2005, a favor do conhecimento dos métodos empíricos. Este reconhecimento dos métodos empíricos não mais parou de crescer e agora um economista profissional tem mais ferramentas para analisar dados e evidências empíricas do que nunca. A crítica ao uso impróprio da matemática despertou durante estes anos uma forte poeira pela série de artigos publicados pelo Nobel Paul Romer sobre o abuso dos métodos matemáticos no Departamento de Economia de Chicago, berço da nova macroeconomia clássica” (pp.34-35). A Economia, com o seu prémio mais prestigiado, reconheceu, nos últimos anos, Angrist, Krueger, Duflo, Banerjee ou Kremer pelos seus trabalhos que visaram melhorar “a dimensão empírica da disciplina”, recebendo, igualmente, tal distinção, Richard Thaler, “um dos líderes intelectuais da economia do comportamento, cujo método de estudo é eminentemente empírico. O regresso ao experimental como principal método económico transferiu-se, ainda, à produção científica: a maioria dos artigos científicos publicados nos últimos dez anos corresponde a estudos com carácter empírico, com uma forte queda dos artigos científicos estritamente baseados em modelos teóricos abstractos (Paldam, 2021)” (pp.34-35). Sem querer, todavia, deitar o bebé fora com a água do banho, José Carretero sublinha que “os modelos matemáticos continuam a ser relevantes para muitas aplicações e, especialmente, para compreender adequadamente as relações económicas fundamentais. Sem embargo, em muitas ocasiões os modelos deixaram de lado variáveis essenciais ou foram utilizados para justificar políticas económicas nem sempre consistentes com a realidade. A crítica que se gerou em 2009 quanto ao abuso dos modelos de equilíbrio geral estocástico generalizou-se e hoje estes não ocupam o lugar predominante que ocupavam há apenas uma década” (p.35). Segundo o académico economista, e em síntese, “hoje temos uma disciplina mais próxima da realidade, de alguma forma mais humilde e centrada em evidência”. Numa eventual mudança de paradigma, na economia praticada a nível internacional (mas, ainda, com uma acentuação ocidental e regional europeia em análise), ocorrida nos anos mais recentes, na perspectiva do Professor José Martin Carretero, contam-se uma limitação à globalização, o regresso da política industrial, a busca por um novo pacto social e uma reformulação da política de estabilização macroeconómica. Ignacio Benayas, Economista e perito em futuro do trabalho, democracia na empresa, transições digitais e novos modelos produtivos, sublinharia a importância da incorporação de trabalhadores nos conselhos de administração das empresas em um momento de definição de eixos estratégicos destes, como sucede com os PRR, e, outrossim, uma organização empresarial menos verticalizada, dado que a valorização do conhecimento interno (presente na empresa) ou o aporte crítico (para a inovação) podem ficar (permanecer) sem efetividade com aquela limitação. Cristina Narbona, Doutora em Economia pela Universidade de Roma, ministra do Ambiente entre 2004-2008, por sua vez, regista como os efeitos económicos das alterações climáticas têm tido uma atenção marginal na economia – quando o ativismo das seguradoras já demonstra a sua presença e repercussão no agroalimentar, no turismo ou na Saúde é muito relevante -, mas cita, ainda, o economista Nicholas Stern para destacar que o custo de mitigar o aquecimento global equivale a 1% do PIB Mundial e o custo e não actuar um custo de 20% do PIB Mundial. Se no ano 2000, a China era só a sétima exportadora mundial, em 2020 acedeu ao primeiro lugar (conjuntamente com EUA e Alemanha) com cerca de 15% do total de exportações realizadas a nível global. Onde há prosperidade comercial, tarde ou cedo haverá poder político e, por exemplo, em Espanha, dos 38 mil milhões de investimento estrangeiro em 2022, 10% proveio de países asiáticos (China e Emirados Árabes Unidos à cabeça). Por sua vez, Mazzucato, Aghion, Stiglitz e Greenwald ofereceram, nos últimos anos, numerosos aportes teóricos e empíricos que mostram a necessidade e conveniência de uma maior implicação do sector público na direcção e facilitação da economia da inovação e do conhecimento. O tema das desigualdades sociais, com a investigação de Wilkinson e Pickett ou de Thomas Pikkety, ganhou uma visibilidade, também possibilitada pelos premiados trabalhos de Angus Deaton ou Gabriel Zucman (ou, inclusive, pelos actuais aportes de instituições como o FMI, o Banco Mundial ou OCDE assinalando a desigualdade económica como um travão ao crescimento económico), outrora negada. A suspensão das regras fiscais/orçamentais e a mutualização da dívida na eurozona fez com que esta avançasse para níveis de crescimento idênticos aos do pré-Covid, contrastando com a ‘medicina’ pós-2008 e respectivos resultados (com aquela alcançados). A crer na perspectiva, para a qual carreou um conjunto significativo de elementos (fundamentação), de José Moisés Martín Carretero as críticas, realizadas na última década e meia, aos exageros e abusos na utilização de modelos abstractos matemáticos na Economia tinham razão de ser e a disciplina corrigiu positivamente, tornando-se muito mais empírica e experimental; a necessidade de escuta de uma maior diversidade de vozes no pensamento económico não só era real, como se materializou na atenção a temas e metodologias, que se viram premiadas e consagradas, interpares; a ideia de que não existiria consenso bastante quer quanto às causas, quer quanto às “terapias” relativas a um momento (e a economia nisso) gerador de grande sofrimento para milhões de pessoas (a Ocidente) como o da Grande Recessão aparentemente bastante mitigado quando se impôs uma política europeia de impulso económico em um momento igualmente tão disruptivo como o da Covid-19; na elaboração do economista, em “Uma mudança de paradigma? A política económica nos últimos dez anos” (em “Economia, Política e Cidadania”, Catarata, Madrid, 2023), não entraram, por outro prisma, grandes considerações da relação da Economia com restantes disciplinas das ciências sociais e humanas (com a ênfase no método experimental, a Economia ter-se-á, aliás, aproximado mais de “ciência dura”).
4.Um especial desafio, neste contexto e
âmbito, fora dirigido, por um conjunto significativo de católicos, às Universidades Católicas para que,
nestas, a Economia ensinada contivesse uma especial atenção/enfoque à promoção dos últimos, à integração nuclear da pobreza e desigualdades
sociais como dimensões de que o Económico
não poderia olvidar-se, ao estímulo para que um pensamento integrador, inclusivo, interdisciplinar, permeado pela empatia estivesse presente. Em 2013, em
entrevista à “Família Cristã”, a então Reitora da Universidade Católica Portuguesa, Maria da Glória Garcia, respondia que a Doutrina Social da Igreja é ensinada em todos os Cursos da Católica e que é, aliás, dentro dessa matriz que aqueles ali são estruturados, admitindo, contudo, a
possibilidade de mais ser realizado (com vista aos objectivos vindos de
elencar). Instigada a pronunciar-se, de modo particular, sobre os cursos de Economia e Gestão leccionados naquela
universidade, responderia Maria da Glória Garcia buscando o equilíbrio e compatibilismo que entendia necessários
e possíveis: “nós temos aqui duas linhas de força: a matriz católica e os seus
valores e ética; e a linha da excelência e da competição internacional e ao
nível da globalização. O que está aqui em causa é fazer um bom casamento entre
estas duas linhas”. Ao longo do seu Pontificado,
em diferentes encíclicas (Laudato Si, Fratelli Tutti), exortações apostólicas (Evangelii Gaudium, maxime nºs 53-60, 189, 201-205), discursos, entrevistas o Papa Francisco, evidentemente inscrito num pensamento social vindo de
desenvolver desde a Rerum Novarum de
1891, foi especialmente contundente quanto à necessidade de reforma do sistema
económico. Nos diálogos com Fabio
Marchese Ragona, para a sua biografia (Papa Francisco, “Vida”, Harper Collins, 2024), há escassos meses
publicada, o Sumo Pontífice, de
resto, insiste: “O atual sistema
económico é insustentável. Já afirmei várias vezes que esta economia mata, não podemos perder mais tempo” (p.189). Se
José Carretero é mais optimista quanto aos passos percorridos quanto aos
excessos de um sistema laissez faire
– afirmando, inclusive, que “no âmbito
da economia como disciplina, o neoliberalismo há muito tempo que deixou de ter
sentido” (p.35), algo corroborado pelo economista-filósofo Daniel Chandler, da London School of Economics e também antigo
conselheiro governativo quando afirmou que “o neoliberalismo está obsoleto” (Visão, 20-06-2024) -, para o Papa
Francisco o horizonte de reforma continua a ser uma urgência. A quando da sua
vinda a Portugal, a Universidade Católica
Portuguesa anunciou a criação de uma Cátedra “Economia de Francisco e Clara”
[sobre a “Economia de Francisco”, seu significado e objectivos, leia-se https://economiadefrancisco.org/index.php], “destinadas a promover os princípios
da Economia de Francisco e desenvolver um modelo social dignificador das
pessoas e do ambiente” (Isabel Capeloa
Gil, atual Reitora da UCP).
Boa semana.
Pedro Miranda
[no ‘reparo do dia’, de 16-12-2024, na universidadefm]
[1]
Para dar apenas dois exemplos
de registos mediáticos da discussão tida, vide
E.Salgado, Debate sobre a formação
ideal dos economistas pega fogo, in http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1070/noticias/uma-briga-com-muita-economia, consultada a 9/8/2014, ou Semana
Economica, La enseñanza de la economia en
debate: es hora de un nuevo currículo?, in http://semanaeconomica.com/article/entre-parentesis/146452-la
ensenanza-de-la-economia-en-debate-es-hora-de-un-nuevo-curriculo/, consultado a 21/10/2014.
Comentários
Enviar um comentário