ANTÓNIO VICTORINO D'ALMEIDA NA 'CONVERSA DE BASTIDORES', ONTEM, NO TEATRO DE VILA REAL

 

A ‘Conversa de Bastidores’, integrada, desta feita, no Ponto de Guitarra, ao fim da tarde de ontem no Teatro de Vila Real, foi com o Maestro António Victorino d’Almeida que, moderado por Jorge Castro Ribeiro (musicólogo), deixou ideias, escolhas, histórias como as que se seguem:

- De todas as artes, a música será “a mais abrangente” (ou das mais abrangentes), na medida em que, por exemplo por referência à literatura (mediada por diferentes línguas/culturas), não necessita de tradução e chega a todas as pessoas (e estas, de uma forma ou outra, entendê-la-ão);

- Em todos os géneros musicais se faz, e pode fazer, música de qualidade, e em todos os estilos de música há, igualmente, peças de grande, mas também de fraca, qualidade. Para António Vitorino d’Almeida, um exemplo, de elevada qualidade, inserido em músicas criadas para terem dois/três/quatro minutos – e, portanto, não peças propriamente para 50 minutos, como outro estilo musical reclama –, é o da canção, interpretada por Elis Regina e composta por Tom Jobim, “Águas de Março” (https://www.youtube.com/watch?v=aKvwnHiJSdk);

- Não tendo, propriamente, uma canção, uma peça musical, um autor fetiches, o Maestro Vitorino d’Almeida vai preferindo peças de diferentes compositores em função, ainda, do seu estado de espírito. Em todo o caso, Ravel cai bem em qualquer estação (existencial): “Ravel é sempre extraordinário”. Se, como compositor, Pierre Boulez é muito aborrecido, enquanto a reger é excepcional e muito inteligente;  

- Mais do que pianista, António Vitorino d’Almeida considera-se um compositor. Embora, juntamente com um músico búlgaro de jazz e Erika Pluhar (não teria uma grande voz, embora “uma grande musicalidade”), tenha feito mais de 700 concertos (https://www.youtube.com/watch?v=GoeLyJZIKME). Este trio – com canções da composição do maestro português, do músico búlgaro, de José Afonso ou de José de Niza – foi visto como tendo recuperado o melhor da Wiener Lieder (Lieder - género mais elevado do que a canção, mas, ainda assim, a esta aparentada). “Vidas…” (tinha 3 filhas, contas para pagar…), eis a palavra-desabafo com que explicou o ter colocado entre parênteses o piano (“nunca deixei de tocar”, e em dois meses em que nada tinha marcado profissionalmente, dedica-se a estudar, na íntegra, as valsas de Chopin; autor, este, polaco e francês, sendo esta última nacionalidade originária da parte do pai e conseguindo Fréderic Chopin dar uma imagem, uma “perfeita tradução” sonora de Paris);

- O músico – que aceita o termo “maestro” dado que é termo anteposto a todos aqueles que são músicos em Itália -, aos 84 anos, vivíssimo e bem-humorado como sempre o víramos, recordou, ao início da noite vilarealense deste Sábado, a sua composição “Gaudeamus” (“Alegria pela Europa”), constituída por 30 canções em todas as línguas dos países da União Europeia sobre a temática da “Alegria”, com recurso a poemas de alguns dos mais prestigiados poetas desses países;

- António Victorino de Almeida – cujo estudo sistemático das suas obras se encontra por fazer e é uma exigência face a uma figura indiscutível da cultura portuguesa a quem ainda não se fez a devida justiça, no dizer de Jorge Castro Ribeiro -, três anos a ensinar na Universidade, a quem é prazenteiro lecionar “História da Música” – mesmo fora dos estritos muros académicos e para o grande público -, o que realiza, em termos mediáticos, desde antes do 25 de Abril, compôs ópera, por encomenda da RTP, antes de 1974, “O Canto da Ocidental Praia", inspirada na vida de Luís Vaz de Camões. Teve uma única apresentação, no São Carlos, mas, dada a precariedade das condições em que decorreu – depois de mil promessas em contrário -, o compositor não permitiu que tal execução prosseguisse. De resto, tal posta em cena mereceu, há pouco mais de 50 anos, a crítica contundente do crítico Mário Vieira de Carvalho (musicólogo) que, sem embargo, há dias foi ouvir a única gravação que existe daquela estreia operática e telefonou a Vitorino d’Almeida a pedir desculpa, considerando, agora, que, então, “só tinha escrito asneiras”. O maestro espera concluir, até ao final de 2024, a sua terceira ópera.

 






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