'OS CINCO'

 

Os cinco
1
Levam-nos de manhã
para o pátio de pedra
e colocam-nos contra a parede
cinco homens
dois muito jovens
os restantes em idade viril
nada mais
deles se pode dizer
2
quando o pelotão ergue
as armas à altura dos olhos
tudo de súbito pára
à luz berrante
do óbvio
muro amarelo
azul frio
arame preto no muro
ao invés de horizonte
é este o momento
da revolta dos cinco sentidos
que de bom grado fugiriam
que nem ratos do naufrágio
antes que a bala chegue ao destino
o olho divisa a bala em pleno vôo
o ouvido retém o assobio do aço
as narinas enchem-se de um fumo acre
o sangue roça o céu-da-boca
e o tacto contrai-se e relaxa
agora jazem no chão
cobertos de sombra até aos olhos
o pelotão afasta-se
seus alarmes
e elmos de aço
estão mais vivos
do que aqueles que jazem junto ao muro
3
não fiquei a saber disto hoje
também não o soube só ontem
então por que escrevi
poemas sem importância sobre flores
do que falaram os cinco
na noite antes da execução
de sonhos proféticos
de uma aventura num bordel
de peças de automóvel
de viagens marítimas
de não abrir o jogo
quando se tem espadas
de que a vodca é melhor
o vizinho dá dor de cabeça
de raparigas
de frutos
da vida
assim pode-se usar na poesia
nomes de pastores gregos
sentir-se tentado a preservar-se a cor do céu matinal
escrever sobre o amor
e também
mais uma vez
com seriedade mortal
oferecer ao mundo traído
uma rosa
Zbigniew Herbert, 'Poesia quase toda', Cavalo de Ferro, 2024, pp.94-96.

"Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro ('Nach Auschwitz ein Gedicht zu schreiben, ist barbarisch'), escreveu Theodor Adorno em 1949 - e aqui devemos lembrar-nos de que Auschwitz se situa na Silésia polaca. Não havia como negar a força da afirmação de Adorno, mas o que significa ela? Que Auschwitz pusera termo às aspirações éticas da poesia e, em geral, da alta cultura europeia? Que uma arte à altura da missão de falar em nome dos mortos de Auschwitz não era concebível? Herbert (...) respondeu ao repto de Adorno no poema «Os cinco» (...) Tem de haver poesia, mesmo nos tempos mais sombrios, afirma, porque não somos capazes de viver sem ela. De modo algum esta resposta silenciou Adorno (...), ainda assim abria espaço para o poeta poder contestar o veredicto da História."
J.M. Coetzee



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