«COM TODA A SEGURANÇA», "E SE O IMPOSSÍVEL É CERTO?"

 

O Vaticano convidou um dos mais prestigiados escritores espanhóis na atualidade, Javier Cercas, para acompanhar o Papa Francisco em visita à Patagónia. O intelectual ateu e anticlerical acabou por aceitar para poder levar à mãe, católica de toda uma vida, a resposta, pelo próprio Sumo Pontífice, acerca da ressurreição e da verdade do encontro da progenitora com o seu marido pós-mortem. No regresso a Barcelona, junto à sua esposa e a uma mãe já debilitada pelo progresso que a doença de Alzheimer induz no cérebro daquela, Javier Cercas projecta o vídeo do momento da viagem de avião em que confronta Francisco com a questão/fé da sua mãe. Em “El louco de Dios en el fin del mundo”, que acaba de sair, Javier Cercas narra da seguinte forma o sucedido:

 

“«Santidade», falei então. «Já lho disse antes: a minha mãe acredita na ressurreição da carne e na vida eterna; acredita que, depois de morta, voltará a ver o meu pai. A Igreja prometeu-lho». «E a mim também», acrescentou Bergoglio. «Prometeu-nos a todos». (…) É a promessa do Senhor: que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo…(…) A História passa momentos obscuros, passa momentos felizes, mas o Senhor sempre está (…) «Santidade – volto a falar - essa promessa, a de que Deus sempre estará presente junto aos homens, é extraordinária…(…) «Sim, essa promessa é extraordinária. E, ao mesmo tempo, é ordinária, porque se cumpre a cada minuto de cada dia. É quotidiana» (…) «A prova da nossa ressurreição é que Cristo ressuscitou» (…) «Santidade, se esse é o núcleo da mensagem da Igreja, porque é que a Igreja fala tão pouco dele?» «Tão pouco? Não sei, eu creio que não falamos de outra coisa» (…) «Então, posso dizer à minha mãe que quando morrer, vai ver o meu pai». A reacção do Papa é fulminante: não duvida nem um segundo, nem uma décima de segundo, nem um milésimo de milésimo de segundo; fecha os olhos enquanto a sua cara se contrai numa expressão que parece de dor e não o é e, quando os volta a abrir, diz: - «Com toda a segurança». Ouço-me repetir: «Com toda a segurança?». - «Com toda a segurança» - O sorriso de Bergoglio transforma a sua falsa expressão de dor numa expressão autêntica de alegria. «Com toda a segurança». (…) Observando-nos alternativamente ao Papa e a mim, a minha mãe repete: «Com toda a segurança». «Isso o disse: com toda a segurança». «Com toda a segurança…Que coisa, não é verdade?» (…) O pasmo autêntico senti-o no voo para a Mongólia. Não esperava a resposta do Papa. Melhor dito: não esperava essa resposta. Não esperava que Bergoglio respondesse de semelhante maneira a uma semelhante pergunta formulada por um maldito intelectual ateu. Não sei o que esperava, honestamente; ou sim, sei-o: talvez uma evasiva, uma metáfora, um circunlóquio, uma passagem evangélica, a glosa de uma passagem bíblica; tudo, menos uma resposta tão ingénua e tão contundente; tão cristalina: essas três palavras elementares, sem volta atrás: «Com toda a segurança». Nem um resquício para a menor incerteza, ou vacilação, ou reserva; nem para as angústias eruditas do cardeal Ravasi, nem para o pragmatismo humano, demasiado humano do Grande Inquisidor, de Bergoglio, nem, muito menos, para as noites escuras da alma de São Manuel Bom, mártir. «Com toda a segurança»: a fé campesina dos paroquianos de Valverde de Lucena, a fé missionária do padre Ernesto e seus companheiros da Mongólia, a fé imemorial da minha mãe e do meu pai, a fé herdada dos meus 9 ou 10 anos, a fé proverbial do carvoeiro. Essa é a fé irrevogável de Bergoglio (…) essa é a fé sem claros-escuros de Bergoglio (…) a fé que o converte num cristão sentado na cadeira de São Pedro. (…) [Digo a Bergoglio] «É extraordinário. É um escândalo». «É um escândalo – admite ele. De imediato, com o fatalismo de um velho cura de aldeia, acrescenta: Mas é assim: a promessa do Senhor é essa. Vai levar-nos a todos ali. Com Ele. A todos. A sua mãe, o seu pai…A você também, ainda que não acredite. Isso a Ele dá-lhe igual…[Encolhe os ombros] O que é que vamos fazer? São as coisas de Deus. (…)

E se é verdade?, pergunto-me. Terá razão Hannah Arendt quando diz que os ateus são néscios que pretendem saber o que nenhum ser humano pode saber? E se for Francisco quem tem razão? E se têm razão minha mãe, meu pai e don Florian e o padre Ernesto e os demais soldados de Bergoglio? (…) E se Nietzsche se equivocava e o cristianismo não é uma negação da vida, mas uma rebelião contra a morte e, por isso, a ressurreição da carne e a vida eterna estão no seu centro (…), porque representa a afirmação da vida além da vida, além da morte? E se o cristão de verdade não é aquele que crê na ressurreição da carne e na vida eterna para consolar-se da [emergência] da morte ou por medo à aniquilação, mas porque rejeita a morte e se rebela contra a aniquilação e rotundamente se nega a morrer e exige viver mais, mais tempo e mais a fundo, ao fundo do fundo do tempo? (…) E se o impossível é certo?

Javier Cercas, “El loco de Dios en el fin del mundo”, Random House, 2025, pp.473-479.

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