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A mostrar mensagens de maio, 2025

POR QUE REDUNDOU EM DEMOCRACIA A REVOLUÇÃO PORTUGUESA DE 1974?

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  1 .Percurso transcorrido, democracia como acquis  (sempre precário, sempre precário…), há interrogações que deixamos, inopinada e inconscientemente, cair, delas não nos abeiramos; ignoramos, porventura, mesmo, que existam. A própria academia , no que a revoluções  concerne, mais se detém nas causas do que em demanda vai das consequências  daquelas (o pós-revolução ). Digamo-lo, então, em definitivo, com todas as letras: historicamente, a maioria das revoluções  não deu origem a democracias ; “ a literatura [de ciência   política ] tem sobretudo destacado a variedade de regimes não democráticos que emergem após uma crise revolucionária: ditaduras militares mobilizadoras e expansionistas (designadamente, o sistema napoleónico), regimes de partido único ou regimes que restauram a ordem política anterior, ou seja, contrarrevolucionários ” ( Tiago Fernandes , “Portugal 1974-1975. Revolução, Contrarrevolução e Democracia”, FFMS , 2024 p.22). Insistindo, e em sí...

O REGRESSO DE PEDRO BURMESTER ÀS 'VARIAÇÕES GOLDBERG', DE BACH

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  Pedro Burmester não escutou a primeira gravação que fez das Variações Goldberg , em 1989, antes de, agora, proceder a nova revisitação daquele Bach . Só após esta se encontrar concluída, regressou ao seu registo primeiro, ainda muito marcado pela interpretação e a figura tutelar de Glenn Gould . O que mais temia, neste instante, não era que pudesse vir a achar(-se) que a interpretação agora concluída fosse pior do que a original – evidentemente, o mesmo quanto a poder considerar-se melhor o novo registo do que o anterior. O que lhe causaria dano, sim, seria deparar-se com uma, mesmo que inconsciente, repetição . Por vezes, tem saudades da inocência com que se confrontou, pela primeira vez, com as Variações Goldberg ; considera, contudo, que a nova interpretação que delas fez é muito mais íntima , pessoal , madura , singular , sem a presença, maciça, pois, nela, do pianista canadiano que reverenciava aos vinte e seis anos. Fátima Pombo , Professora da Universidade de Avei...

COMÉRCIO-LIVRE E AS POSIÇÕES TRADICIONAIS DE DIREITA E ESQUERDA. DIÁLOGOS NO INTERIOR DE CORRENTES SOCIAL-DEMOCRATAS

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    1 .De acordo com Gideon Rachman , em A era do homem-forte ( Vogais , 2023), um estudo profundo sobre as eleições presidenciais norte-americanas de 2016, das quais Donald Trump sairia vencedor, intitulado ‘ Identity Crisis ’, da autoria de John Sides , Michael Tesler e Lyyn Vavreck demonstra que o melhor preditor de voto em Trump passou pelas atitudes (dos eleitores) em relação à raça e à etnicidade . Isto é, “ Trump tornou-se um defensor dos eleitores caucasianos que se sentiam económica e socialmente inseguros e que, o que é fundamental, culpavam as minorias étnicas pela sua situação ” (p.158). 2 .Por sua vez, A crise do capitalismo Democrático ( Gradiva , 2023), Martin Wolf entre causas de natureza económica e origens de índole cultural para explicar o que vivemos, politicamente, há mais de uma década, responderá pela mobilização de atitudes culturais   - de desprezo pelo estrangeiro , de racismo , de recusa do liberalismo político [nomeadamente, no que es...

VISITA À CASA-MUSEU ARISTIDES SOUSA MENDES

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  1. Na célebre ‘ Circular 14 ’, as indicações aos cônsules eram claras: não passar vistos a pessoas de “ nacionalidade indefinida ”, a “ apátridas ”, a “ judeus ”, a “ russos ”… 2. Em  se colocando sobre o dramático da situação concreta – desde logo, advertido pelo irmão gémeo (nascido, curiosamente, no dia anterior ao de Aristides), igualmente diplomata, vendo, em Varsóvia , onde se encontrava colocado em 1940, o agir nazi; sensibilizado, ainda, por um rabino a quem salvaria a vida, juntamente com a da sua família -, Aristides Sousa Mendes principia por escrever aquilo a que a guia que hoje nos levou pela Casa-Museu adentro chamaria “a carta da razão”, na qual se compromete a cumprir as ordens do Governo do Estado Novo…imediatamente antes de três dias em que entra em colapso nervoso a que sucede uma “carta do coração” em que assume, no que concretizaria, ir salvar a vida de milhares de pessoas – sobretudo, judeus, mas não apenas: também os que se opunham politicamente ao ...

K., N'O PROCESSO, DE KAFKA, ESTAVA INOCENTE?

  K., n'O Processo, de Kafka, estava inocente? Lendo a biografia de Kafka, de Max Brod : "A afirmação, repetida em tantos comentários (também aparece na malograda dramatização de Gide ), de que K ., n' O Processo , estava inocente é errada. Kafka aborda, nas suas nuances mais delicadas, o facto de K. não amar, nunca ter amado, nem a menina B, nem a sua mãe, de não estar ligado à sua profissão por outro motivo que não fosse a rotina e a correcção . Esta é a sua culpa, da qual ele não tem consciência absoluta e que, apesar disso, o tortura. Uma culpa comum a toda a humanidade e é por causa dela que a sua consciência o julga " ( Relógio D'Água , 2024, p.171)