O REGRESSO DE PEDRO BURMESTER ÀS 'VARIAÇÕES GOLDBERG', DE BACH

 

Pedro Burmester não escutou a primeira gravação que fez das Variações Goldberg, em 1989, antes de, agora, proceder a nova revisitação daquele Bach. Só após esta se encontrar concluída, regressou ao seu registo primeiro, ainda muito marcado pela interpretação e a figura tutelar de Glenn Gould. O que mais temia, neste instante, não era que pudesse vir a achar(-se) que a interpretação agora concluída fosse pior do que a original – evidentemente, o mesmo quanto a poder considerar-se melhor o novo registo do que o anterior. O que lhe causaria dano, sim, seria deparar-se com uma, mesmo que inconsciente, repetição. Por vezes, tem saudades da inocência com que se confrontou, pela primeira vez, com as Variações Goldberg; considera, contudo, que a nova interpretação que delas fez é muito mais íntima, pessoal, madura, singular, sem a presença, maciça, pois, nela, do pianista canadiano que reverenciava aos vinte e seis anos.

Fátima Pombo, Professora da Universidade de Aveiro, convocou, com especial cuidado, a Variação 25, “pérola negra”, aquela que Gould dizia ser um verdadeiro “tratado de Psicologia”. Entre os grandes intérpretes, há quem, respectivamente, nela se detenha 3 minutos… ou quase o dobro desse tempo.

Burmester contempla a música de Bach como aquela que “está mais próxima de Deus” e Cioran concebe-a como “a alma da sua alma”. Há uma certa ideia de que se há a música de Bach, Deus deve existir. Será a Beleza a prova da existência de um poder muito superior à matéria? E Bach pode provar isso?

Bach, que viveu 65 anos (1685-1750), e elaborou umas 1000 peças – algumas das quais se perderam -, foi músico da Corte, Professor na Igreja, mestre de Coro. Trabalhou incansavelmente na Igreja de São Tomás, em Leipzig. Luterano devoto, teve grande parte da obra dedicada ao culto religioso. Uma cantata nova todas as semanas. Nas suas partituras podia ler-se “Ajuda Jesus” ou “Soli Deo Gloria”.

Se a palavra Bach significa “Ribeiro”, Beethoven, face à extensão e ao lado extremamente prolixo do autor, diria que melhor fora chamar-se Meer – Mar. Brahms acrescentaria que se a sua própria música desaparecesse ficaria triste; todavia, se tal sucedesse com a música de Bach tornar-se-ia inconsolável.

As Variações Goldberg são exercícios pedagógicos. Nos Livros 1 e 2 com lições para Cravo; no livro 3, com lições para órgão; no 4, de novo, lições para cravo. O nome dado às 30 variações em torno da ária com que principia devem-se a um intérprete, um rapaz de 14 anos, chamado, precisamente, Goldberg. De acordo com o primeiro biógrafo de Bach, Johann Forkel, em uma versão colocada em causa por vários musicólogos, face às suas insónias, o embaixador russo solicitava ao jovem Goldberg a execução de variações suaves e vigorosas pela noite dentro, daí se solicitando a Bach tal empresa. O conde ofereceria, em sinal de agradecimento, cálice de ouro ao compositor.

As interpretações de Keith Jarrett ou Wanda Landowska – grande referência no cravo -, nalguns casos absolutamente limpas, noutras com ornamentação bastante dão conta da imensa repercussão de Bach ao longo dos séculos seguintes à sua passagem terrena. Ele permanece no jazz, no tango, em marcha nupcial, na dança ou no cinema…em “O silêncio dos inocentes”, Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) está a ouvir, apaixonadamente, a ária com que começam as Variações…Em 32 curtas-metragens sobre Glenn Gould somos permanentemente acompanhados justamente pelo som das Variações Goldberg

Em “O louco de Deus”, Javier Cercas recordava uma composição de Bach que quase o levou a um transe místico para concluir, com graça, recorrendo a Cioran, que nem Deus sabe quantos crentes deve a Bach. O Nobel da Literatura Jon Fosse considera que é impossível explicar de onde vem a música de Bach. Pasolini utilizou música de Bach em “A Paixão segundo S.Mateus”. Julius Berger nota que Bach, como Beethoven, Brahms, Mozart ou Beethoven sabia que o Homem só pode chegar até certo patamar; a partir do qual existe algo (Alguém) que o ultrapassa. Esther Bejarano, sobrevivente de Auschwitz e ali membro da orquestra feminina, cantava temas de Bach (Beethoven e Schubert) a prisioneiras mais velhas em troca de comida.

Eduardo Lourenço: “Sexta-feira Santa. Meu irmão ligou para uma emissora americana e da distância chegou até nós a Paixão segundo S. Mateus. Uma expressão tão terrível do meu sentimento fundamental da minha existência que desde a primeira fase toda a minha vida ficou oscilando fora da duração, convertida num insuportável ponto de angústia sem margens. No abismo intemporal onde a música me mergulhou, sumiu-se a luz monótona da lâmpada, a nitidez da hora nocturna, o meu próprio peso terrestre e mortal. «O céu não será o céu se lá não se tocar João Sebastião». Oh, Ana Madalena Bach, os ciúmes de Deus se o teu João Sebastião não fosse ele próprio a encarnação das harmonias esperadas pelo próprio Deus. Nenhuma expressão da humanidade tão próxima do país inominado da divindade, esta tentação que morre quando toca o que alcança mas que ninguém poderá riscar do velho jogo mítico do homem, nem mesmo a evidente evidência da morte. A mim próprio, o dialéctico incurável da conciliação dos contraditórios, o sofista triste da esperança terrestre pregada aos outros, a magia humana de João Sebastião Bach arranca-me por momentos da árida e solitária planície da Insignificação, de que sou caminheiro sem tréguas. As lágrimas correm sem vergonha na minha face de homem rendido e humilde e o cântico imortal rasga a minha carne até lá onde eu gosto de imaginar que está o mais profundo que me sustenta, com o grito inexpiável do chamamento à única presença que desde a infância eu sei que importa à minha vida.”


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