SUBMERSOS
1.Livros que se amontoam em estantes sem fim; filmes, dezenas, devidamente selecionados para momento oportuno; torrente de músicas e canções a conhecer e escutar; ebook com leitura por concluir; séries, devidamente aconselhadas, por experimentar; podcasts, sucessivos, por terminar; artigos de múltiplos jornais vincados, em papel ou no digital, em espera: eis a condição moderna, a de submersos. Bruno Patino (Submersos, Gradiva, 2024) descreve, com grande pertinência e acuidade, a que conduz o verdadeiro dilúvio de oferta que jorra sobre o habitante do mundo hiperconectado em que nos movemos: “o incomensurável paralisa”; perante o infindável de opções, não se escolhe; hesita-se, entre milhares de (boas) possibilidades; o cansaço, então, advém; a deserção ou fuga respostas (práticas) observáveis (em muitos); a frustração pelo não cumprimento da injunção da «liberdade de escolha» elevada ao paroxismo quando, a todo o custo, se quer delegar em uma autoridade - múltiplos senhores, por sua vez, como candidatos ainda - as nossas opções.
2.Mesclando a experiência pessoal – “no meu telemóvel, ao alcance do polegar, tenho 7865 títulos de músicas que selecionei de antemão, 2300 episódios de séries que ainda não vi, 842 filmes que marquei na «minha lista», 14 subscrições de jornais, 529 livros em formato digital que esperam a minha leitura ou releitura ou esquecimento, e 3054 contas que «sigo» no twitter” -, com experiência colectiva – “de facto, não há grande coisa na Netflix: «apenas» 32 000 horas de programas disponíveis em França e 41000 horas na Grã-Bretanha (…) As plataformas musicais? Uma oferta miserável: alojam um título a cada segundo, 100000 novidades por dia, ou seja, mais de 37 milhões de canções por ano, um ritmo cinco vezes maior em 2022 do que em 2018…Existem em média 80 milhões de títulos no Spotify e 100 milhões no Apple Music. Já para não falar no Youtube: o recenseamento de todos os vídeos colocados online pela plataforma é uma tarefa impossível, para lá de dez mil milhões, os números deixam de fazer sentido. Isto porque o Youtube propõe 500 horas de novos vídeos a cada minuto. Uma pessoa precisaria de 30000 anos (trinta mil anos!) para ver a produção de um ano…” –, Patino ilustra, com impressivos registos, o fardo de rastrear mesmo o que se toma nota como do melhor que se publica: “um estudo britânico de 2021 concluiu que passamos em média 100 dias de uma vida a decidir o que vamos ver. Cem dias. Aos quais devemos acrescentar os dias passados a decidir o que vamos ouvir, ler, utilizar, etc. Toda uma vida de indecisão e passividade”.
Por sua vez, e do ponto de vista do político, Warren Susman notou, no clássico Culture as History, como “a passagem progressiva de um sistema baseado na produção industrial para uma cultura assente no desenvolvimento do consumo”, em que a televisão desempenhava um papel de destaque, levou a que os dirigentes (políticos) de “letrados artistas da retórica” se transformassem em “performers mestres do espectáculo” – sendo que, na ulterior era das redes, estes devêm em “mestres do buzz, profetas do exagero”.
4.No específico sector do livro, a noção de que está tudo aqui e o que aqui está é demasiado, a sensação de cansaço e bloqueio, a constatação de que se edita excessivamente e, em assim sendo, o carácter sagrado do livro se esvai é, igualmente, e como vimos de dizer, manifesta: “uma estatística publicada pela editora Penguin Random House conclui que, em metade dos 58 000 títulos publicados na Grã-Bretanha em 2022, venderam-se menos de uma dúzia de exemplares. O objecto livro resiste, mas perde o seu carácter sagrado, totémico, adquirido durante a infância. O fluxo de produção também o ameaça engolir, abortando as memórias antes de estas terem tido tempo de nascer. O ideal do livro como fechado meditativo desfaz-se, desmembrado no estroboscópio universal”.
5.De entre as saídas possíveis para este estado de coisas, questionar o «crash de confiança» na mediação (tal qual hoje o experienciamos) implica “voltar a cuidar” daqueles “cuja função é orientar, hierarquizar, esclarecer, escolher e propor: os professores, os meios de comunicação social, as instituições e organizações podem e devem ser ou voltar a ser terceiros de confiança, cuja tarefa é certificar o real face ao simulacro e procurar a verdade dos factos face às construções pessoais”. Ademais, recusar um mundo programado e regido pela inteligência deve ser outra das posturas a adoptar no readquirir de “livre-arbítrio”: “o futuro, demasiado previsível porque mecanicamente organizado, torna-se inviável”. A abertura ao inesperado é constitutiva da liberdade. A compreensão dos mecanismos da “economia da atenção”, a responsabilidade (responsabilização) algorítmica das plataformas, a regulação destas com especial cuidado com a reserva da vida pessoal, o controlo das ferramentas para preservação dos dados próprios tornar-se-á parte da formação a empreender pelo cidadão. E, sobretudo, não havendo como fugir à rede, “a nossa maneira de embarcar e de navegar contribui para a evolução da rede”: “as tempestades e a submersão ocultam o maravilhoso, sempre possível: acolher o encontro e a partilha, a descoberta e a propagação comum dos conhecimentos, a mobilização social e política, a inteligência colectiva, o universal à distância de um clique, a experiência pessoal curiosa da experiência dos outros. Estas promessas não desapareceram, mas, para as encontrar, temos de nos armar”. Neste contexto, afirma Patino, “esforçámo-nos por formar engenheiros, mas temos de [voltar a] formar filósofos”.
P.S: Escrevi aqui sobre outro livro de Bruno Patino, “A civilização do Peixe Vermelho”: https://desinflacionar.blogspot.com/2022/07/a-civilizacao-do-peixe-vermelho.html
Comentários
Enviar um comentário