O TOTALITARISMO ACEDE MESMO AOS SONHOS. A PRODUÇÃO DO SÚBDITO TOTAL, SEM ZONAS LIVRES, SOB O III REICH

 

1.Uma professora de Matemática, de aproximadamente cinquenta anos, teve o seguinte sonho: «É proibido, sob pena de morte, escrever qualquer coisa que tenha que ver com matemática. Refugio-me num bar (nunca entrei num lugar destes na minha vida). Os bêbados cambaleiam, o conjunto musical berra. Tiro um papel muito fino do meu bolso e escrevo algumas equações com tinta invisível, num pavor de morte».

Que significado tem este sonho, professora? «Aqui proíbe-se algo que é impossível de se proibir». Precisamente: “esta proibição além dos limites do possível, a proibição de anotar «2x2=4» que, na sua simplicidade, expõe todas as proibições que se encontram no limiar do impossível (…) Procura um lugar obscuro, onde ninguém a imaginaria; adopta um método de espiã profissional, escrevendo com tinta química num papel que poderá engolir, para salvar o direito de escrever equações, isto é, para salvar a sua profissão da aniquilação (…) para não permitir que a política a aliene da sua existência”.
 
2.Outono de 1933. Hitler acabara de subir ao poder. Uma jornalista/editora nascida em Forst, na Alemanha, em 1907, Charlotte Beradt tem a seguinte ideia: coligir os sonhos que os alemães estão a ter, debaixo do novo regime político, com o objectivo de, no futuro, esses sonhos, o registo que fará deles, poderem vir a ser uma das provas contra o III Reich – que (ela) crê, de imediato, um dia será julgado. Uma pequena contribuição, ademais, para a história do totalitarismo, à consideração, em especial, de cientistas políticos e psiquiatras. Autoridades, leis, proibições, castigos, gabinetes desencadeiam os mais variados sonhos em ditadura. O totalitarismo impregnará de tal modo a pessoa toda que chegará a um limiar que mesmo alguns dos mais altos dignitários do III Reich, como Hannah Arendt registara em As origens do totalitarismo, julgavam interdito, único plano a que não acederiam (subestimavam-se, afinal, alguns membros da nomenclatura nazi), a única (suposta) zona livre do cidadão derrubado à condição de súbdito total: o onírico (a Inquisição debatera-se com quem proferia heresias em sonhos). Berdadt recolhe, então, entre 1933 e 1939, sonhos, terreno do subterrâneo e do insondável, de mais de 300 alemães. Fá-lo, com todos os cuidados, de forma discreta e dissimulada (há gente com medo de contar os sonhos que tivera, há quem queira esquecer a angústia que lhe sobreveio na vigília), com anotações repletas de códigos para o caso de serem descobertas. Conta, para o efeito, com a ajuda de um médico (que a auxiliará a encontrar pacientes dispostos a partilhar o que haviam sonhado) e de amigos que fizeram entrevistas e tomaram apontamentos. Neste projecto, não lhe interessam os sonhos puramente “privados”, isto é, aqueles atinentes a aspectos muito específicos da vida de cada um (que não as ligasse e implicasse com os demais); motiva-a, diversamente, aqueles que resplandecem do que a vida política neles se grava de modo manifesto ou latente (há quem refira, então, que não sendo “uma pessoa política” [pressupondo que tal exista sem ambiguidades] passou a ter sonhos exclusivamente políticos – acumulação de conhecimentos parciais, boatos, intuições, suposições concorrem para o frenesi nocturno). São sonhos, em síntese, os aqui anotados, advindos de ameaças coletivas e não emanados de uma sensibilidade individual. Há sonhos – dimensão abissal, com material impossível de referendar noutras fontes - registados imediatamente após se terem dado – com a maior fidelidade, por certo, ao rigorosamente sonhado -, há alguns, outros, anotados horas passadas após o despertar – nos quais a memória poderá ter reelaborado um pouco mais (a fisionomia com que se apresentam). Cada sonho – que mostra que as pessoas sabem muito mais do que dizem durante o dia - contará com uma leitura de quem os sonhou acerca do significado que neles descortina do mesmo modo que conterá uma interpretação da própria Beradt (aspecto que escapou à crítica de Reinhart Koselleck). Não importa à autora deste trabalho sonhos da Alemanha favorável ao/que beneficia com o regime nazi (esse confronto de sonhos alemães, o dos afectados pelas leis e práticas nazis, e/vs o dos filiados naquele movimento, não tem, aqui, pois, lugar). Os sonhos de violência física, de suor compulsivo dos constrangidos por pesadelos na noite nazi não constam, igualmente, desta selecção. Os entrevistados, no âmbito deste empreendimento, são médicos, alfaiates, académicos, leiteiros, vizinhos, amigos ou tios da investigadora, operários, gente jovem.
Ainda em plena II Guerra Mundial, em Outubro de 1943, Charlotte Beradt escreve uma súmula destes – enviados, de resto, para diferentes moradas no estrangeiro – numa revista intitulada “Free World”, sob o título “Sonhos sob a ditadura” (Dreams under Dictatorship); a 21 de Março de 1963, Beradt conduz um programa de rádio intitulado “Sonhos de Terror. Coligidos e comentados por Charlotte Beradt”, na Westdeutscher Rundfunk (WDR); em 1966, finalmente, é publicado o seu livro “O Terceiro Reich do Sonho” (Das Dritte Reich Des traums) - que, com tradução de Mário Gomes, foi editado, entre nós, pela V.S. Editor em 2020.
Nas palavras de Charlotte Beradt, em carta enviada a um grande perito em expressionismo, Karl Otten, H. Arendt elogiou “imenso” o livro: “ela acha que o material é fascinante e que aquilo que eu fiz com ele está muito bem feito, que melhor do que isto era impossível”.
 
3.Uma mulher de cerca de trinta anos, “sem profissão, mimada, liberal, culta”, em 1933 teve o seguinte sonho: “Para substituir as placas das ruas que foram proibidas, colocaram-se quadros nas esquinas, apresentando em letras brancas sobre fundo negro vinte palavras que o povo está proibido de pronunciar. A primeira palavra é “lord” – por precaução sonhei-a em inglês, não em alemão. As seguintes esqueci-as, ou possivelmente nem sequer cheguei a sonhá-las, excepção feita à última: que era ‘Eu’. «A isso», acrescentou ela espontaneamente após a narração do sonho, «antigamente ter-se-ia chamado uma visão»”.
 
Que dizer deste sonho? “Visão significa ver, e o vácuo entre a ausência de Deus e a ausência do eu que os governos totalitários do século XX transformaram no seu campo de força manifesta-se com uma nitidez assombrosa nesta radical lei verbal cujo primeiro mandamento é «Não pronunciarás o nome do Senhor», e cujo último proíbe dizer ‘Eu’. Por trás da parábola, revelam-se questões elementares da dialéctica entre o indivíduo e o Estado coercivo. A isto se somam os detalhes que enriquecem o sonho: o quadro que a sonhadora coloca no lugar das placas das ruas, qual chapéu de Gessler. A remoção das placas para a falta de orientação do ser humano num caminho que o levará a transformar-se de uma pessoa numa função. Além disso, ao substituir «Deus» por uma palavra muito menos familiar, «lord», no quadro das palavras proibidas, ela consegue, ao mesmo tempo, fazer com que tudo aquilo que é distinto, altivo e nobre seja proibido por arrastamento”.
 
4.A origem da ideia de uma colectânea de sonhos dos alemães sob o jugo nazi – sonhos tomados, desta sorte, como “autênticos livros nocturnos”, acontecimentos políticos externos assim plasmados “na intimidade humana de modo minucioso, como um sismógrafo” -  surgiu a Charlotte Beradt quando, três dias após a subida de Hitler ao poder, um dono de uma fábrica lhe contara como acordara sobressaltado após um sonho no qual Goebbels, novo ministro da Propaganda, havia ido até à sua empresa e, depois de o ver durante largos minutos a fazer-lhe a saudação de braço estendido, diz-lhe que não precisava daquela manifestação, virando-lhe, pura e simplesmente, costas, assim o humilhando à frente de todos os seus trabalhadores (como nunca ocorrera em décadas de trabalho). O dono da fábrica não conseguira mexer o braço durante longo, longo tempo – no sonho propriamente dito, e na somatização do mesmo, na própria cama do seu quarto de casa.
O único sonho registado por Beradt no qual existe uma tentativa de tiranicídio foi sonhado por um alemão a viver fora da Alemanha (um jornalista, de 35 anos, a residir em Praga). Aliás, “sonhos de vingança [para com os nazis e seus comandos ou dirigentes] são muito raros, o que mostra a que ponto chegou o medo”. O sonho da professora de Matemática, um dos raros nos quais existe um elemento de resistência às ordens emanadas pelo regime. Apenas uma mulher, nos sonhos obtidos, ousou contrariar Hitler (“quanto maior era a capacidade de resistência moral e política de cada um, assinala Beradt, menos absurdos, mais positivos se tornavam os sonhos”). Em muitos dos sonhos, podemos observar da ambivalência e da porosidade em não integrar o movimento e o quase simultâneo desejo de pertença, numa fronteira/zona cinzenta em que a inevitabilidade do passo é autojustificação para o levar a cabo – sem colaboradores, um regime totalitário não resiste, não sobrevive: “Estou na berma da estrada e vejo a Juventude Hitleriana a marchar. De repente, rodeiam-me e gritam em coro: «Sê o nosso porta-bandeira». O poder é erótico. Há sonhos muito idênticos, sonhados por diferentes alemães, com a acomodação à situação como pólo principal (“não há nada a fazer”, “não vale a pena”, surgem, reiteradamente, como expressões face aos acontecimentos seus contemporâneos, nas mentes alemãs noite dentro).
 
5.Judeu assimilado, completamente adaptado em termos de pensamento, aparência, comportamento quando o nazismo irrompe no poder, na Alemanha. Advogado e notário berlinense, quase 60 anos, sonha o seguinte naqueles cruéis anos 30: “No Tiergarten estão dois bancos, um normal, verde, um amarelo [na altura, os judeus só eram autorizados a sentar-se em bancos pintados de amarelo], e um cesto do lixo entre os dois. Sento-me no cesto do lixo e penduro um cartaz à volta do meu pescoço, parecido àqueles que os mendigos cegos às vezes usam, mas parecido também aos que as autoridades obrigavam os ‘miscigenados’ a usar: “Caso necessário, cedo o meu lugar ao lixo”.
 
Este homem que conseguiria fugir para o estrangeiro, ali morrendo, no qual as questões da despersonalização, da perda de identidade e de continuidade estão intensamente presentes, “muito antes de Beckett, no seu ‘Fim de partida’, ter colocado os personagens em caixotes do lixo (…) no fim de partida da sua existência, toma assento no caixote do lixo e se dispõe a ceder o lugar ao lixo”.
Um dos aspectos mais impressivos da leitura dos sonhos alemães guardados por Charlotte Beradt, colocados sob a respectiva contextualização é que, tidos, em boa parte, antes de 1935, eles conseguem ser francamente premonitórios, antecipar muito do que ainda está a uma distância temporal muito significativa de ocorrer, as leis ainda não obrigam de uma maneira que os sonhos já percebem que virá a verificar-se. No caso de judeus, vemos como, muitos dos escutados para este trabalho, possuem afiadas antenas que perscrutam inequívocos sinais de tragédia, cujo detalhe de crueldade que sobre eles cairá dentro de anos, os sonhos captam com implacável e amarga lucidez.
Muito antes de Orwell escrever o “1984”, há alemães a sonhar que as salamandras que possuem em suas casas os observam e controlam, as almofadas susceptíveis de deporem contra eles, à semelhança da secretária, do espelho e do relógio de mesa; os próprios anjinhos por cima da cama são, agora, suspeitos de acções de tal índole e, depois, na consulta no dentista colocam-se a magicar que alguns daqueles equipamentos, que enchem o consultório, servem para os espiar – a longa mão do grande irmão é mais eficaz quanto mais sugerida, mesmo quando não efetivada (não precisada de efectivar). O que Kafka transmitirá na Colónia Penal podemos, de igual sorte, vislumbrá-lo nestes sonhos (nomeadamente, os de terror burocrático). A hipnopedia, de O admirável mundo novo, de Huxley, ronda os sonhos germânicos dos anos 30. Não por acaso, Charlotte Beradt apõe, em cada um dos onze capítulos do seu livro, duas epígrafes de autores tão diversos e importantes quanto Hannah Arendt, T.S. Eliot, Franz Kafka, George Orwell, Livro de Job, Goethe, Hans Frank, Evangelho de Lucas, Heinrich Heine, Hans Frank, Eugen Kogon, Bertolt Brecht, Robert Ley e Heinrich Himmler.
Um homem sonha que não fala por si mesmo, mas só em coro (a aniquilação da subjectividade, a destruição da pluralidade). A ambivalência da percepção acerca da convicção ideológica do regime presente em sonhos como os da mulher a quem Hitler faz a corte – e, de modo subliminar, parece repetir-se o jogo espelhar de repulsa/sedução: “de repente, surge um alto responsável nazi, geralmente o próprio Hitler. Aperta-lhes a mão e, quando elas dizem que são católicas, judias ou social-democratas, ele diz: «Isso não me importa»”. Um tipo racial único nem precisa de estar na lei para que os sonhos sejam inundados de louros de olhos azuis - e do horror de se afastar desse tipo. Nos sonhos, separações dos mais próximos – o noivo judeu – emergem com intensidade, evidenciando como sob o totalitarismo até amar os mais próximos se torna árdua tarefa. E há quem, por prudência, decida abdicar, se tal é possível, de sonhar com objectos: “Sonho que só já sonho com rectângulos, triângulos, octógonos, que de alguma forma se parecem com biscoitos de Natal, porque afinal de contas é proibido sonhar”. Outros sonharam com a abolição das paredes.

Pedro Miranda





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