VER E REVER: "O AGENTE SECRETO", DE KLEBER MENDONÇA

 

Filme riquíssimo de motivos, “O agente secreto”, de Kléber Mendonça Filho, procurando situar-se no Recife de 1977 (mas não deixando de falar de uma certa mentalidade que chegou até aos nossos dias), em plena ditadura de Geisel (cujo retrato povoa os mais diversos edifícios em que a trama decorre), bebendo o seu nome na película que (neste enredo) passa no cinema em que o sogro do personagem principal, Armando (ou Marcelo) trabalha, “O Magnífico”, na qual Jean-Paul Belmondo é apresentado, no trailer, precisamente como "o Agente Secreto", ao contrário de "Ainda estou aqui", de Walter Salles, bem como diferentemente de muitos filmes argentinos ou chilenos acerca dos regimes autocráticos por que passaram no século XX, não contém imagens de tortura, polícias fardados, militantes esquerdistas a assaltar bancos, ou palavras como ditadura (tal como assinala Kléber Mendonça, esta semana, em entrevista à “Isto é”). Tais realidades surgem aqui/são mostradas/sugeridas de forma indireta – não tanto assim a cena inicial, com um desprezo total das autoridades policiais pela vida humana, cadáver pelo solo há dias junto a uma bomba de gasolina, na qual dois policias param, apenas, para tentar ganhar dinheiro, de forma ilícita, junto de um condutor. Na comparação com “Ainda estou aqui”, dir-se-á, com Peter Bradshaw (The Guardian), que “O agente secreto” é um filme “mais ambicioso, mais complexo e mais enigmático”. Onde aquele trazia ao proscénio uma elite intelectual do Rio, este último deixa ver o Brasil nordestino do Recife repleto de figuras e vidas populares. Se no primeiro dos filmes aqui convocados temos uma recriação biográfica, agora uma fábula procura transmitir, de um modo só assim fidedigno, uma cidade de 1977.

Um filme, “O agente secreto”, pelo qual passa o realismo mágico de uma “perna cabeluda” que iria agredindo casais nocturnos, por entre o intenso erotismo nos jardins da cidade, código, percebido pelos leitores, e por estes glosado, usado pelos jornalistas para falar da violência da polícia [não por acaso, uma das notícias mais comentadas no filme é a de mais de 90 mortes por ocasião de intervenção policial, naquele ano, no Carnaval da região] – e isto após um tubarão ter dado à costa com uma perna humana no seu interior, apaixonando o sensacionalismo da imprensa e da população em geral (“O Tubarão” de Spielberg é, desta sorte, não só homenageado como oferece um pano de fundo de medo que é um ambiente em que decorre a narrativa). Nos últimos 30 anos, aliás, 29 pessoas morreram e mais de 60 foram mutiladas por tubarões no Recife (diz Kléber Mendonça, em entrevista ao Ípsilon).

Um certo “misticismo” que perpassa o filme ergue-se lá desse Brasil no qual existe “um suco de acontecimentos não cartesianos” que conduzem a vida. É importante o Recife - que, mesmo em ditadura, permaneceu bastante à esquerda, rara região com uma aristocracia de esquerda - estar no grande ecrã, porque nem sempre, ou poucas vezes, acontece tal coisa; e, do mesmo modo, os vários sotaques emergem ao longo das mais de duas horas e meia de “O agente secreto”, porque é importante as pessoas reconhecerem-se, na sua pluralidade, no cinema, na televisão (observa, de novo, Kléber Mendonça, na “Isto é”).

Wagner Moura é uma das figuras cimeiras da cultura brasileira dos nossos dias e foi, já, premiado pela actuação neste filme, nomeadamente em Cannes, mas destaca, nele, sobretudo, as pequenas personagens que o povoam. As pequenas grandes personagens. Como Dona Sebastiana (Tânia Maria, de 78 anos, a iniciar carreira como actriz) – a guardiã, “velhinha bondosa”, de um bairro que visa proteger os “fugitivos políticos” (os “refugiados”, palavra maldita, que um tolo pronuncia e é mandado calar). Para receber Armando/Marcelo, Dona Sebastiana, que morara 7 anos em Sassuolo (e também esta tem um sotaque próprio, com o seu quê de “italiano”), num período que abrangeu parte da II Guerra Mundial, manda fazer uma limpeza do apartamento, não apenas da poeira, mas, com sal grosso, uma limpeza espiritual. Personagens como o judeu alemão, carregado de cicatrizes – a obsessão pelo registo, do bilhete de identidade às gravações sonoras até às cicatrizes do alfaiate, como observa, com toda a perspicácia, Luís Miguel Oliveira, no Público -, que o delegado de polícia/cacique Euclides, como a extrema-direita de um modo geral, nunca compreenderá (Euclides admirava o alfaiate alemão por julgar tratar-se de um antigo nazi). São pequenos grandes personagens e com rostos muitos diversos (porque as caras dos brasileiros são muito diferentes entre si e não se optou por uma estilização). Wagner Moura, que interpreta um académico que patenteia uma pequena descoberta que um ministro quer registar na empresa de que é accionista acabando por decidir fechar o centro de investigação público no Recife (por entre diálogos recheados de racismo para com a mulher de Armando e em que o tamanho do cabelo é visado – a tal mentalidade que não se foi embora de vez), em entrevista ao “Expresso” fala de um filme resistência, sim, mas estreado em um momento feliz, bem diverso do de há 10 anos, no qual os artistas, os intelectuais, muitos académicos, no Brasil, eram tratados como “inimigos do povo” (nome de peça de Ibsen que aquele representou recentemente e que virá ao CCB em Julho próximo). Armando faz tudo o que é certo/correcto e, precisamente por isso, irá pagar o preço com a perda da vida.

O filme, remetendo a 1977, quando Kléber Mendonça tinha 9 anos, não deixa, ainda, de desafiar o modo como as novas gerações pensam poder fazer investigação (académica/científica/jornalística) – há mais vida e mundo para além do Google, nem tudo está na internet -, e tem no tempo um dos grandes personagens: que memórias, o médico filho de Armando, guarda do pai? Nada ficou, mesmo, gravado nele? Quem está mais próximo de Armando: o filho, ou a jovem universitária que investigou a vida dele? O pai dedicado e o filho esquecido, o homem público empenhado e o funcionário pacato de uma repartição pública - nota Pedro Henrique Miranda, na Sábado. O modo como o filme expõe a desigualdade social, seja no nascimento do menino fruto da relação de um adolescente com a empregada doméstica – subtraído, pela parte rica da família, à sua mãe, de futuro -, seja na cena pungente do centro de identificação transformado em delegacia com a morte da criança de três anos de uma empregada doméstica, com a “senhora” a recusar ouvir ou receber a criada, outro dos pontos fortes de uma textura da qual a música e o Carnaval jamais poderiam ficar ausentes. Na síntese de José Vieira Mendes, um filme "político sem ser panfletário, sombrio sem ser pesado, e capaz de encontrar humor onde só deveria haver horror" (Visão).

[Kleber Mendonça pediu às salas que exibiam o filme para o volume estar elevado para a experiência do filme ser boa; na Polónia, a cena que passou "A escrava Isaura" foi seguida de um bruá; a questão da perda do cinema - nomeadamente, como uma grande experiência colectiva, num Recife hoje com 80 cinemas mas para poucas pessoas, em que podem estar 8 espectadores por sessão - enquanto perda da memória, política também, sublinhada pelo filme - que fala sobre medo e falta de memória como dois pilares de qualquer regime ditatorial]




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