O MESTRE QUE ESCOLHEU OS DISCÍPULOS E A ARGAMASSA DE FULIGEM PARA PINTAR OS PAPIROS (E ASSIM AS CARTAS DE PAULO)
O
MESTRE QUE ESCOLHEU OS DISCÍPULOS E A ARGAMASSA DE FULIGEM PARA PINTAR OS
PAPIROS (E ASSIM AS CARTAS DE PAULO)
1.Para
a escritora Lídia Jorge, o principal
legado que a catequese, e a Igreja de
Boliqueime, lhe trouxeram foi ter passado a ter a noção de que nunca está sozinha. Uma questão “muito substantiva,
central na minha vida foi [procurar saber] quem
é Cristo?”, uma inquietação que continua ainda hoje. Recuando à sua infância,
no diálogo com o bispo D. Alexandre
Palma, nas I Jornadas da Associação
Bíblica Portuguesa, que ocorreram a 7-8 de Novembro último, em Lisboa, no Centro Cultural Brotéria, recordou, nomeadamente,
que “a missa do galo era alguma coisa
fundamental, central na vida [pessoal/comunitária]. As velas [por exemplo] eram
impressionantes para uma criança”. Teve, no decorrer da sua meninice, a
ideia de roubar, do templo que
frequentava, o menino Jesus para que ele não viesse a ser o Cristo crucificado.
Ainda hoje se interroga nestes termos: “por que é que foi preciso a tortura Dele?”.
Neste contexto, D. Alexandre Palma vê em Cristo o “anti-Prometeu: não a opção humana de escalar os céus, mas a de descer
aos abismos”.
Relativamente
à fé no Deus de Jesus Cristo, Lídia Jorge afirma que “eu não tenho a porta fechada, não tenho uma resposta (…) Cristo foi alguém absolutamente
extraordinário, foi singular, que acabou por dizer palavras sobre a humanidade
que a salvam, e não encontro mensagem mais completa em nenhum filósofo, em
ninguém”. A narrativa cristã sobreviveu e, com ela, uma mensagem de resistência contra as anomalias
da vida. O respeito para com diferentes vivências de fé é, por si, amplamente
acolhido: “Quando se acredita em milagres [está a dizer-se
implicitamente] ‘eu não sou um animal’.
Todos os dias estou a ver na televisão dizerem que sabem que o mundo vem de uma
energia, etc, e que somos apenas um
animal”. Ora, a defesa do humano, a seu ver, não é particularmente conseguida,
a partir destes últimos postulados.
E
o que a fascina na humanidade de
Cristo, perguntam-lhe da plateia – em uma sessão que tem por título “Jesus, Filho de Deus. Verdade ou Blasfémia?”.
A premiada romancista responde colocando especial convicção/ênfase nas
palavras: “Fascina-me a coragem do
enfrentamento. Ele acreditou mesmo contra tudo, mesmo contra a morte, que tinha
uma verdade. E expô-la. E ficou como um exemplo para nós”.
No
Sábado (santo), prosseguiu a literata, aconteceu alguma coisa, deu-se um rasgão na História – e isso é
que os criadores procura(ra)m no abeirar dos Evangelhos. Hans Holbein, no século XV, com a sua representação do Cristo morto
– a qual, actualmente, passível de ser observada em Basileia – desestabilizou Dostoievsky, que disso deu conta em “O idiota”. Mas Lídia Jorge vê naquela
representação um modo de assumir a
humana dor e o suster da respiração antes da ressurreição (para a qual
mantém a porta aberta).
2. Em
matérias de exegese e interpretação histórico-crítica
sobre alguns elementos da Paixão e morte de Cristo, o P. Francisco Martins SJ, na sua alocução sob o signo “Blasfémia para os judeus? Sim…e não”
(da qual respigamos a reprodução da sugestão bibliográfica na imagem, em baixo),
sublinhou, acerca (do método) da crucificação (para colocar termo a uma vida),
que há quem fale em “terrorismo imperial”
e que uma coisa foram autoridades judaicas, e seu papel na condenação de Jesus,
e outra os judeus como um todo – “já não
estamos no tempo” em que essa grave identificação ocorria.
Por
seu turno, o P. César David – que
discorreu sob o mote “No princípio, era
a Cristologia: os hinos pré-paulinos e a filiação divina de Jesus” – fez notar
como reputadíssimos autores (entre os quais, John P. Meier, James Dunn
ou N.T. Wright) intuem que as cartas de Paulo preservam hinos e
credos primitivos que Paulo recebeu e incorporou nos seus escritos. Textos
que apresentam elementos de origem talvez litúrgica e com afirmações
cristológicas muito antigas e que representam indícios de uma fé
surpreendentemente bem elaborada que remontarão aos primeiros anos pós-Páscoa.
Assim, através de uma diversidade de critérios, atendo-se, especialmente a Flp
2,5B-11, 1Cor, 15, 3-7 e Rom, 3B-4, aqueles intérpretes encontram algo (conteúdos) que já estava formulado nas
comunidades - e que Paulo assume como seu. A este propósito, a curiosidade de
percebermos os concretos materiais a que Paulo recorreu para poder escrever as
suas epístolas: argamassa com fuligem
era, então, o recurso para a pintura dos
papiros (ou seja, normalmente não temos bem a noção de quanto custava a
Paulo, e/ou aos seus secretários,
escrever uma carta, fisicamente).
O P. João Alberto Correia, na comunicação “O Jesus sinótico: da pessoa única à visão plural”, assinalou que, ao tempo e lugar de Jesus, eram os discípulos a escolher o mestre, mas no caso de Cristo a situação inverte-se: foi o mestre a escolher os discípulos, em descontinuidade com a cultura judaica da época. Ao jeito dos pregadores populares do seu tempo, Jesus ensinava com ditos breves. Será a cruz a revelar a divindade de Jesus a todos – este “todos” representado na figura do centurião (“verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus”). No Evangelho de Marcos, o biblista destaca três elementos marcantes: paradoxalmente, quanto mais Jesus se revela, menos os discípulos o compreendem; a cruz como epifania do Filho de Deus; a exortação aos discípulos para seguirem o caminho do Mestre.
Pedro
Miranda

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