ABEL E CAIM - RELEITURA ETERNA
‘CAIM OU O PRIMEIRO HOMICÍDIO’
Esta tarde, na Capela da Casa de Mateus, e em co-produção com o Festival de Ópera de Óbidos, assistimos ao extraordinário e arrebatador concerto “Caim ou o primeiro homicídio”, com Oratória de Alessandro Scarlatti (1660–1725) a 6 vozes (excepcionais interpretações de Carlos Nogueira, Ana Rosa, Eduarda Melo, Helena Ressurreição, Alexandra Calado, Job Tomé), com libreto de Pietro Ottoboni (1667–1740), pela Orquestra Barroca de Mateus, com direção musical de António Carrilho
Nesta oportunidade de revisitação, com uma peça musical que António Carrilho considerou “uma obra-prima”, transposta para ópera muito recentemente (em França, em 2019), da história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), algumas notas outras de (re)leitura/interpretação:
1.Enquanto, numa família, o mais novo (no caso, Abel) já nasce irmão, o primogénito (no caso, Caim) tem de fazer um esforço para tornar-se irmão (Lukasz Popko);
2. “O par formado por Caim e Abel constitui sem sombra de dúvida o protótipo da rivalidade entre irmãos (…) Todo o homicídio tem origem num fratricídio” (Piero Stefani e Luciano Zapella);
3.Na leitura do biblista dominicano Lukasz Popko, “o personagem principal desta narrativa é Caim, não Abel. A forma como a história é narrada coloca-nos na sua posição e perspectiva. A Bíblia convida-nos a assumir o papel de Caim. Se ela vem desta fonte, de Deus, o seu propósito não é manipular ou fazer-nos sentir culpados. Ler a história pelos olhos de Caim deveria ser redentor ou talvez até mesmo uma experiência vivificante. No fundo, fugimos da Palavra de Deus pelos mesmos motivos que evitamos os outros seres humanos e a nós mesmos”;
4.Na mesma linha, o antigo Mestre da Ordem dos Dominicanos, autor premiado de vasta obra, Timothy Radcliffe, evoca o John Steinbeck de “A Leste do Paraíso” do seguinte modo: “sinto alguma simpatia pelo pobre Caim, cujo sacrifício foi rejeitado por Deus. Claro, ele está ferido! No romance ‘A Leste do Paraíso’, de John Steinbeck, um dos personagens afirma que esta é a história da Humanidade:
‘O maior terror que uma criança pode sentir é o de não ser amada, e a rejeição é o inferno que ela teme. Penso que todas as pessoas no mundo, em grande ou pequena medida, sentiram já a rejeição. Com a rejeição vem a raiva, e com a raiva algum tipo de crime como a vingança pela rejeição, e com o crime a culpa – e eis a história da Humanidade’
5.Apesar de Caim ter matado Abel (“o homem comete o primeiro crime, a terra estremece ao acolher o primeiro sangue e estremecerá infinitas vezes”, Aldo Cazzullo), nesta narrativa, e depois de advertências (sentenças que farão Caim consciencializar a sua culpa e reagir, finalmente, dizendo que o primeiro a encontrá-lo matá-lo-á, sendo certo que nas culturas antigas o fratricida devia pagar com a vida), “Deus respondeu: «Não! Se alguém matar Caim, será castigado sete vezes mais» [7, número da plenitude, da perfeição e aqui, também, como hipérbole]. E Deus marcou-o com um sinal, a fim de nunca ser morto por quem o viesse a encontrar. Caim afastou-se da presença de Deus e foi residir na terra de Nod («terra da errância»), a oriente do Éden”. A marca em Caim é, pois, um sinal de protecção: “De acordo com o Génesis, Caim prosperou, assentou e teve filhos. Deus protegeu o assassino e deu-lhe uma segunda oportunidade” (Lukasz Popko). Assim, um dos elementos centrais a tomar deste episódio é que “o seu pecado [de Caim] não o torna invisível. Estabeleceu-se na terra de Nod, porque Deus está de olho nele, e a sua história está aberta a surpresas. Ele não está condenado a ficar preso ao ciclo interminável de violência que fechou os olhos do Abel assassinado. Há bênçãos à sua espera. Sempre que nos sentimos fechados no silêncio, como se expulsos do olhar de Deus, o olhar amoroso de Deus recai ainda sobre nós, por muito que fujamos para longe” (Timothy Radcliffe);
6. “Adquiri [gerei] um homem com a ajuda do Senhor”, exalta Eva. Ora, “o nome de Abel é um programa completo, posto que ‘hevel’ significa «vapor», «fumo»: em relação a Caim, Abel evapora, esvai-se. Aos olhos da mãe, Caim (‘qayn’) é uma «aquisição», ao passo que Abel é um «sopro de vento», destinado a dissolver-se” (Stefani e Zapella);
7.Diferentemente, atendendo à etimologia dos nomes em causa, o grande pensador judeu Jonathan Sacks: remetendo Caim a «posse» e «propriedade», até o seu sacrifício remeta a essa ideia – ofereço a Deus o que é «meu», enquanto um dos sinónimos de ‘hevel’ é «respiração» e Abel, ao pó regressando, oferece a Deus o que é de Deus – e, embora negando ser o guarda ou guardião de Abel, Caim toma posse da vida daquele [cf. Stefani e Zapella]. Lukasz Popko faz notar que a ideia de “propriedade”, de “possuir” é mais de Eva relativamente a Caim (é Eva que lhe dá o nome Qayn) e tal noção (de posse) não é bom início para qualquer relacionamento (relação);
8.Neste contexto, ainda, Caim revelaria a tentação da humanidade de se apropriar de outros seres vivos que respiram, pertencem a Deus e até mesmo de se apossar de outros seres humanos, “desde a opressão do cônjuge, a violência doméstica, à escravização de povos inteiros. Isto continua hoje, do tráfico de mulheres e crianças para exploração sexual, às fábricas que produzem tantas das nossas roupas. Eis como as pessoas são silenciadas. As vozes daqueles que são reduzidos a propriedade não são ouvidas. No espírito de Caim, tudo pode ser adquirido no mercado” (Radcliffe). De resto, é bem conhecida, cremos, a ressonância (colectiva) da pergunta de Deus a Abel: “onde está o teu irmão?”: “esta pergunta é-nos feita, quando entramos num período de profunda instabilidade política e ecológica, com crescente violência, natural e política, com milhões de migrantes fugindo da guerra e da pobreza, morrendo em terra e nos nossos mares. Será que nós, como Caim, nos recusaremos a ouvir as suas vozes?”;
9.[“Abel foi pastor, Caim, lavrador. Ao fim de algum tempo, Caim apresentou a Deus uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu primogénitos do seu rebanho e as suas gorduras. Deus olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta”] “O falhado agrado de Deus em relação à oferta de Caim, à primeira vista incompreensível e arbitrário, parece ser um memorando ético que devia impelir Caim a desvincular-se da relação fusionista com a mãe para se abrir à alteridade da fraternidade. Posto que Caim não admite que alguém aprecie o seu irmão mais do que ele se sente estimado, é impelido por Deus a sair da própria condição de pessoa incapaz de aceitar que o irmão – um claro limite ao seu desejo de omnipotência – possa ser amado (…) A pedagogia divina não é feita de asserções, mas de perguntas, uma pedagogia dialógica cujo intento é impelir Caim a sair da sua autorreferencialidade e a transformar um imprinting familiar limitativo em oportunidades de crescimento (“podes ter a cabeça erguida”). Ele é convidado a renascer, isto é, a rever as suas relações, em primeiro lugar consigo mesmo, e consequentemente com o irmão. Caim não é vítima, como poderia parecer, de uma injustiça divina (ter preferido Abel), mas da sua incapacidade em aceder a um novo e mais maduro «si mesmo». Matando o irmão, mata a humanidade fora dele e a própria humanidade interior” (Stefani e Zapella);
10.E não podia tudo ter ficado resolvido caso tivesse havido diálogo, conversa e não silêncio? É dessa forma que Radcliffe interpreta a interpelação, não propriamente um pedido de informação mas um desbloqueador de conversação, de Deus a Caim: “Porque estás zangado e de rosto abatido?” Para o conferencista, “toda a violência do mundo, do primeiro assassínio ao lançamento das bombas atómicas, até hoje, brota do silêncio mortal, da recusa de conversa”;
11.Curiosa e paradoxalmente, no texto do Génesis podemos ler que “Entretanto, Caim falou a Abel, seu irmão…”: “[ou seja] o facto dramático de não se registar qualquer troca de palavras entre Caim e Abel. Ou, melhor ainda, para o facto de haver algo como uma não-conversa, uma página rasgada. Marquei esta frase incomum com reticências. Esperaríamos algo, depois da frase «e Caim disse a Abel, seu irmão, -…» Até o antigo tradutor grego se sentiu compelido a preencher essa lacuna com algumas palavras e muitas traduções contemporâneas fazem o mesmo. Caim parece dizer alguma coisa, mas eram não-palavras, era uma não-conversa. Algo pior do que uma mentira, algo que acabou por matar o seu irmão… (…) Isto dilacera-me, porque me apercebo de que existem alguns diálogos impossíveis que preciso de ter, algumas conversas que eu daria tudo para ter” (Lukasz Popko);
12.Ainda sobre a marca na fronte de Caim feita por Deus: “Rashi, um intelectual judeu da Idade Média, faz uma exegese muito interessante da marca. A gramática hebraica permite-nos ler o versículo 15 simplesmente como «Ele colocou YHWH em Caim, como um sinal». O que significa simplesmente que Deus colocou o seu nome divino em Caim. Rashi interpreta precisamente «um sinal» como as letras do nome Divino, o Tetragrama. Não creio que Rashi conhecesse o Apocalipse cristão, mas é precisamente isso que Apocalipse 22,4 nos promete! «E vê-lo-ão face a face, e hão de trazer gravado nas suas frontes o nome do Cordeiro»” [Lukasz Popko];
13.Em várias traduções desta narrativa bíblica – sendo que os conflitos entre irmãos são tão frequentes nas Escrituras que “se pode falar de um autêntico género literário” (Stefani e Zapella) e em que “é frequente Deus preferir os filhos mais novos aos mais velhos; acontecerá também com Jacob, José e David” (Aldo Cazullo) – podemos, a dado passo, ler: “a voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim”. Ora, Stefani e Zapella sublinham que “no texto hebraico, a forma está no plural («os sangues»), quase a sugerir que o homicídio de um homem equivale à matança de todos os seus descendentes”;
14.Enquanto Abel foi pastor, Caim foi agricultor: “Os conflitos entre pastores e agricultores são tão antigos como as primeiras aldeias, e continuam ainda em África. Os antigos rabinos tinham a mesma intuição preservada na compilação das suas homilias” (Popko). E será que poderemos encontrar nesta narrativa “uma justificação para os sacrifícios de animais no Templo?” (Radcliffe).
15. Evocada em diferentes obras de arte, da música à literatura, passando pelas artes plásticas, a narrativa do ‘primeiro homicídio’ é rememorada não sem desolação pela pena de Salvatore Quasímodo face às atrocidades da Segunda Guerra Mundial:
Homem do meu tempo…ainda matas
Como sempre, como matavam os pais, como matavam
Os animais que se viram pela primeira vez.
E este sangue tem o cheiro do dia
Em que um irmão disse a outro irmão:
«Vamos ao campo». E esse eco frio e tenaz
Chegou até ti, dentro do teu dia.
Esquecei, filhos, as nuvens de sangue
Que sobem da terra, esquecei os pais:
As suas tumbas afundam-se nas cinzas,
Os pássaros negros e o vento encobrem-lhes o coração.
16. “Na Idade Média, pensava-se que Caim tivesse sido exilado na Lua e que as manchas lunares – até Dante o escreve – seriam o reflexo de um feixe de espinhos atados às suas costas” (Aldo Cazzullo)
17.A Associação italiana que luta contra a pena de morte, numa justa referência à marca de Deus sobre a fronte de Caim, chama-se Nessuno Tocchi Caino [“Que Ninguém Toque Caim”]
A partir de “Perguntas de Deus, perguntas a Deus”, de Timothy Radcliffe e Lukasz Popko (Paulinas, 2024), “Ler a Bíblia em 100 episódios”, de Piero Stefani e Luciano Zapella (Paulus, 2016) e “O Deus dos nossos pais”, de Aldo Cazzullo (Presença, 2025)



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