NÉLSON RODRIGUES E A ARTE DA FRASE
A prova de
que não precisamos de subscrever boa parte de uma prosa para nela nos
deleitarmos, seguirmos a volúpia, exercício hedonista, escrita que nos prende e
contagia, encontra-se no volume de crónicas de Nélson Rodrigues,
agora finalmente publicado em Portugal - pouca coisa do autor havia chegado até
nós, apesar das referências quase míticas que o seu nome sempre rumorejava -,
selecção de Pedro Mexia, sob o título O homem fatal (Tinta
da China, 2016). Trata-se da "arte da frase", como escreve Abel
Barros Baptista, e de um humor soberano, seguro, fatal. Sem
condescendências, nem indolência. Vital. Por exemplo, sobre os inúmeros
feriados, pontes, momentos de ociosidade dos brasileiros, Nélson Rodrigues
sentencia, com a magnífica impenitência de quem assesta uma fatwa necessária,
caricatura que na hipérbole, junta crónica de costumes a uma reivindicação do
literário, o exagero necessário para criar distância e civilidade: "O
brasileiro é um feriado (...) Era uma terça-feira e - note-se
- o primeiro dia útil depois de sexta, sábado, domingo e segunda de Natal.
Imaginei que, exausto da própria ociosidade, o brasileiro estivesse, no
escritório, na oficina ou na pedreira, fazendo a sua pátria (...) E
eu já via, com olhos de imaginação, uma praia deserta, sem uma mísera alma ou
de calção ou de biquini. Todavia, quando dobro a avenida Atlântica, eis o que
vejo: do Forte de Copacabana ao Vigia, era só uma multidão que daria para lotar
várias vezes o maior Fla-Flu". Ou, no seu anti-comunismo, a pérola
forjada para retratar a cegueira dos seus compatriotas, face ao estalinismo:
"Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações
hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um
dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se
tornavam melífluos, como qualquer «travesti» do João Caetano ou do Teatro
República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um
amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com
as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o
Guia de «o Velho». E essa paixão era de um sublime ignóbil" (p.40).
Ou, ainda, na injusta, mazinha, pérfida ironia sobre D.
Hélder da Câmara que, segundo Rodrigues, olharia para o Céu apenas
para saber se deve sair à rua com guarda-chuva, numa crítica a uma teologia
política que, da sua perspectiva - a meu ver errada, sobre isso
escrevi uma tese, mas isso aqui não interessa -, ficava pela imanência, sem
remeter para a transcendência (então e a vida eterna?, perguntar-se-ia
ao bispo. Há fome no Nordeste, responderia). Apegado às formas mais
tradicionais de fé - "minha infância foi a época dos valores nítidos,
sim, dos valores precisos. Céu era Céu. Deus era Deus. O Diabo era o Diabo. Por
outro lado, o céu era a evidência do sobrenatural e, repito, por trás do azul
residia o sobrenatural. E, quando o sujeito olhava para o alto, um arroubo
subia de suas entranhas" (p.35) -, viu esta, a fé, tornar-se obsoleta,
uma extravagância, algo tão inactual como o espartilho da Belle Époque.
E, no entanto, muito esporadicamente, a missa de Domingo agarrava-o - "Ah,
quando entro na igreja, e vejo o sono dos círios nos altares, e o frêmito das
rezas, sinto angústias tremendas. Há em mim o despertar de velhas culpas e a
memória de não sei que abjecções", p.45 - levando-o a verberar os
padres progressistas: numa dessas histórias, agora mais hilariantes
do que irónicas, quase sempre intercaladas com outras narrativas no seu
interior, como parêntesis-matrioskas, dá conta de, numa das
eucaristias dominicais a que se juntara, ter ouvido o padre dizer que "criança não peca", sendo que, em
fechando o círculo da crónica, entremeada por boutades graciosas, lembra uma velha indignada com o cura que em
confissão lhe pergunta a idade: "60? Aos 60 ninguém peca".
Soma-se à gargalhada (que damos) a verdade antropológica que contem afiada: moral da história, sem
responsabilização, a pessoa não existe, e ela tem direito a reivindicar seu
pecado, quer dizer, perdão e graça; existiu quando obrou (mal), e essa
dignidade não podem roubar-lha ("Doeu-me que alguém visse na criança um
ser mínimo e tão amoral como um bichinho de avenca (...) E,
mexendo o café, tinha a sensação de que o sermão degradara a criança. Se é
verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha",
pp.45-46), ainda que a despeito de um bonzismo bem intencionado, a
criança imaculada que só existe no manto diáfano da fantasia: "Lembro-me
de coisas que eu fazia, aos oito, nove anos, e que me causaram lesões de
sentimentos ainda não cicatrizadas (...) [Ao dar uma estalada noutra
criança sua congénere] Fui varado por um sentimento de culpa que ainda
hoje, quase meio século depois, me persegue (...) Desejo notar
que a consciência infantil tem um dramatismo que nós, adultos, já perdemos".
Para mim, num século em que o rosto adquiriu, nos contornos que a filosofia
conseguiu imprimir-lhe, uma forma manifestandi do Outro,
cujo significado só poderia ser um não matarás (dignidade
absoluta), e talvez porque na sensibilidade por certo permeada por essas
leituras, sempre este me assomou como intocável de facto, e o pudor impedia
torná-lo objecto de bofetadas, foi muito curioso e interessante encontrar esta
reflexão enxertada na crónica vinda de perpassar: "Dar na cara. Não sei
se nos outros povos e nos outros idiomas a bofetada tem a mesma transcendência.
Mas, para o brasileiro, a bofetada é sagrada. Criei-me ouvindo o adulto dizer:
«Se alguém me der na cara, eu mato, mato!"». De aí o seu
estremecimento décadas depois de violar o compromisso sagrado de uma interdição
alçada a imperativo.
Sem politicamente correctos, procurando o nu, o cru, a verdade sobre si, Nélson Rodrigues dá conta, em outra intensa crónica, da humilhação na escola: todos os dias, leva uma banana, que não sabia ser tão magro manjar ("No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo", p.24) Dia após dia, é a gemada na sandes do colega, escorregando-lhe pelo queixo abaixo, que o derrota - mas outros há que levam goiabada e bife. Já com mulher, adulto, pede a sandwich com ovo à empregada, nunca mais esquece. Tal como a exposição à frente dos colegas, a professora a chamar e a colocá-lo de frente para o quadro, depois face a face com os colegas ("Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela [a professora]: - «Vira, vira! Fica de frente!». estou cara a cara com os outros"), por fim identificado com as lêndeas detectadas no seu cabelo («Não disse?» Vira-se para a classe: - «Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!». Levou-me para a sala da directora: - «Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!». A directora, de óculos, papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili"). Sente-se, palpa-se, o ambiente e o sentimento de quem alguma vez foi sujeito a semelhantes suplícios - que cheira mal, que deve afastar-se dos outros meninos («Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nélson». As meninas me olhavam, e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública"); compreende-se melhor esta condição, a literatura pode iluminar - mesmo que a redenção da ternura fraterna (ou a irmandade na desgraça), um tesouro manejado com tanta descrição e parcimónia, se abeire também: "E, de repente, vem uma pretinha lá da minha aula. Pára diante de mim, ri para mim. Olha para um lado, para outro e para trás. Estávamos sós, maravilhosamente sós. Seu riso não tem os dentes da frente. Diz baixinho: - «Eu também tenho piolhos, lêndeas»" (p.30).
Fome fome aconteceu entre 1930-1935, para Nélson Rodrigues. O lado dickensiano, como o próprio assinala (e Pedro Mexia, na Introdução, corrobora) está, pois, bem presente, sendo que as memórias desses cinco anos estão em carne viva. A cada passo, em alguma boutique, Rodrigues pede um copo de água, por obséquio. E, nesse interim, "não estava bebendo, estava comendo água" (p.34). Se o cronista, ao referir que "o sujeito que não come não se revolta (...) Fui a menos indignada das fomes. Eu me sentia inteiramente desfibrado", pode dizer-se que quem se revolta alguma coisa tem na barriga, interpretação a contrario é susceptível, igualmente, de lobrigar-se: não fora a fome, e revoltas outras emergiriam. Mas a coisa não é apenas política: "se me aparecesse a Ava Gardner, de Salomé, eu continuaria incomovível. Durante esses cinco anos, não namorei. Fui incapaz de um sentimento forte. A fome esvaziou-me; e eu me sentia oco, sem entranhas, como um autopsiado". Um retrato cruel de quem, em certo momento, foi remetido para a margem e sabe que "certos pundonores, certos brios, exigem um salário e as três refeições" (p.34). De igual modo, no mesmo texto em que é implacável com Sartre, e relatando uma visita deste ao Brasil, atribui-lhe razão quando pergunta: "então e os negros?". Bem podemos, de novo o dedo na ferida, falar em democracia racial que à pergunta onde estão os negros? não sabemos responder. Sim, Rodrigues o moralista, considera o prefaciador, o reaccionário por vezes, alguém que denuncia a esquerda, mas sem demasiadas preocupações ideológicas. Talvez porque, a escanção da frase, regressamos ao início, seja o desígnio que o determina fundamentalmente, controvertido posicionamento acerca da relação com a arte, a relação artista-mundo, ele que era um declarado admirador de João Guimarães Rosa: "Obsedado como um Flaubert, estava mais interessado na cadência de uma nova frase do que em todo o Vietnã" (p.28). E ainda há muitas crónicas por ler.
Sem politicamente correctos, procurando o nu, o cru, a verdade sobre si, Nélson Rodrigues dá conta, em outra intensa crónica, da humilhação na escola: todos os dias, leva uma banana, que não sabia ser tão magro manjar ("No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo", p.24) Dia após dia, é a gemada na sandes do colega, escorregando-lhe pelo queixo abaixo, que o derrota - mas outros há que levam goiabada e bife. Já com mulher, adulto, pede a sandwich com ovo à empregada, nunca mais esquece. Tal como a exposição à frente dos colegas, a professora a chamar e a colocá-lo de frente para o quadro, depois face a face com os colegas ("Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela [a professora]: - «Vira, vira! Fica de frente!». estou cara a cara com os outros"), por fim identificado com as lêndeas detectadas no seu cabelo («Não disse?» Vira-se para a classe: - «Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!». Levou-me para a sala da directora: - «Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!». A directora, de óculos, papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili"). Sente-se, palpa-se, o ambiente e o sentimento de quem alguma vez foi sujeito a semelhantes suplícios - que cheira mal, que deve afastar-se dos outros meninos («Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nélson». As meninas me olhavam, e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública"); compreende-se melhor esta condição, a literatura pode iluminar - mesmo que a redenção da ternura fraterna (ou a irmandade na desgraça), um tesouro manejado com tanta descrição e parcimónia, se abeire também: "E, de repente, vem uma pretinha lá da minha aula. Pára diante de mim, ri para mim. Olha para um lado, para outro e para trás. Estávamos sós, maravilhosamente sós. Seu riso não tem os dentes da frente. Diz baixinho: - «Eu também tenho piolhos, lêndeas»" (p.30).
Fome fome aconteceu entre 1930-1935, para Nélson Rodrigues. O lado dickensiano, como o próprio assinala (e Pedro Mexia, na Introdução, corrobora) está, pois, bem presente, sendo que as memórias desses cinco anos estão em carne viva. A cada passo, em alguma boutique, Rodrigues pede um copo de água, por obséquio. E, nesse interim, "não estava bebendo, estava comendo água" (p.34). Se o cronista, ao referir que "o sujeito que não come não se revolta (...) Fui a menos indignada das fomes. Eu me sentia inteiramente desfibrado", pode dizer-se que quem se revolta alguma coisa tem na barriga, interpretação a contrario é susceptível, igualmente, de lobrigar-se: não fora a fome, e revoltas outras emergiriam. Mas a coisa não é apenas política: "se me aparecesse a Ava Gardner, de Salomé, eu continuaria incomovível. Durante esses cinco anos, não namorei. Fui incapaz de um sentimento forte. A fome esvaziou-me; e eu me sentia oco, sem entranhas, como um autopsiado". Um retrato cruel de quem, em certo momento, foi remetido para a margem e sabe que "certos pundonores, certos brios, exigem um salário e as três refeições" (p.34). De igual modo, no mesmo texto em que é implacável com Sartre, e relatando uma visita deste ao Brasil, atribui-lhe razão quando pergunta: "então e os negros?". Bem podemos, de novo o dedo na ferida, falar em democracia racial que à pergunta onde estão os negros? não sabemos responder. Sim, Rodrigues o moralista, considera o prefaciador, o reaccionário por vezes, alguém que denuncia a esquerda, mas sem demasiadas preocupações ideológicas. Talvez porque, a escanção da frase, regressamos ao início, seja o desígnio que o determina fundamentalmente, controvertido posicionamento acerca da relação com a arte, a relação artista-mundo, ele que era um declarado admirador de João Guimarães Rosa: "Obsedado como um Flaubert, estava mais interessado na cadência de uma nova frase do que em todo o Vietnã" (p.28). E ainda há muitas crónicas por ler.
Pedro Miranda
[crónica de
2016, na universidadefm]
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