Antes da mudança de política, a mudança de mentalidades – que demora bem mais (mas que acontece, com a coragem de peregrinos)

 

1.Para o historiador Rutger Bregman, em “Revolução Moral. As palestras Reith da BBC” (Bertrand, 2026), “o maior problema do mundo de hoje não são as alterações climáticas, pandemias futuras ou o colapso democrático. O problema é a quantidade de mentes brilhantes que estão a trabalhar em tudo menos nesses problemas”.

2.A que se dedicam, então, muitas das mentes mais brilhantes do nosso tempo (se não estão afiliadas às questões maiores que à humanidade se colocam nesta hora)? Estão empenhadas, por exemplo, em levar os seus semelhantes a clicar em (determinados) anúncios (publicitários) – “Nas famosas palavras de um prodígio matemático que acabou a trabalhar no Facebook: ‘As melhores mentes da minha geração estão a pensar em como fazer as pessoas clicarem em anúncios. É uma treta’” -; encontram-se adstritas ao famoso ‘Triângulo das Bermudas do talento’ – consultoria, finanças, direito comercial: “Todos os anos, milhares de adolescentes brilhantes escrevem belíssimos ensaios de candidatura [a universidades como Harvard ou Yale] sobre os problemas globais que desejam resolver. Alterações climáticas. Fome. Doenças. Alguns anos mais tarde, contudo, a maior parte foi canalizada para empresas como a McKinsey, a Goldman Sachs e a Kirkland & Ellis. Um amigo meu, que estudou em Oxford, chama-lhes o «Triângulo das Bermudas do Talento»: consultoria, finanças e direito comercial. Um buraco negro voraz que absorve tantos dos que são, supostamente, os nossos maiores talentos. Um abismo que triplicou de tamanho desde a década de 1980”.

3.Estabelecido que seja que o levar as pessoas a clicar em anúncios redunda em um desperdício de talento, cabe procurar perceber porque tal ocorre, o que motiva, pelo menos em um momento inicial, aquela inclinação e escolha de um jovem a caminho do mundo do trabalho – indagação a qual, aliás, talvez não seja tarefa demasiado árdua resolver: “Basta olhar para o American Freshman Survey, que acompanha as prioridades e aspirações dos alunos universitários de primeiro ano desde a década de 1960. Há meio século, quando se perguntava aos estudantes quais os seus objectivos de vida, 80% a 90% escolhiam ‘desenvolver uma filosofia de vida com sentido’. Apenas 50% davam prioridade a ‘ganhar mais dinheiro’. Hoje, esses números inverteram-se: 80% a 90% dizem que o que mais importa é ficar rico. Só metade continua a valorizar uma filosofia de vida com sentido”.

4.Conquanto o foco da análise se centre na mutação ocorrida (nas prioridades e aspirações dos alunos [norte-americanos], desde 1960 até aos nossos dias), facilmente se conclui, por tal decorrência, que estas últimas, tais como observadas nas décadas mais recentes (que são aquelas a que aqui nos atemos), não resultam da “natureza das coisas” (como não resultavam, também, evidentemente, até há cerca de meio século); antes, constituem-se como produto de uma específica cultura: “Isto não é a natureza humana; é a cultura humana. Esses miúdos não fazem mais do que espelhar o que lhes temos vindo a ensinar”. O que significa, sem qualquer surpresa, que “o que lhes temos vindo a ensinar”, nas décadas mais próximas, não é, propriamente, o empenho cívico-democrático, a participação na vida da polis e no contributo que possam dar para a resolução dos principais problemas nela presentes, mas, muitíssimo mais, na centralidade (quase exclusividade) do “ganhar mais dinheiro”.
Para que Rutger Bregman, nas Palestras Reith, da BBC, tivesse inteira razão, quando afirma que “o lapso [de muitos dos melhores talentos formados nas últimas décadas] não foi não terem consciência do seu privilégio, foi não terem usado o seu privilégio. Foi não contribuir genuinamente para a sociedade”, necessário seria – para lá da questão do possível matizar daquela conclusão – evidenciar que tais cidadãos representaram, claramente, outra ordem de razões, outra ordem de possibilidades, que viram claramente visto que, precisamente, as suas opções não eram da “natureza das coisas”, (que não eram como) o ar que se respira (porque o ar que respiravam era, efectivamente, esse).
 
5.A um traçar de um panorama global que aparenta ser sombrio, o ensaísta responde, contudo, com igual dose de esperança: movimentos que mudaram o curso da história para lugares (por vezes, verdadeiramente solares) foram iniciados, e para eles foram fulcrais, muito poucos indivíduos, os quais, contudo, tinham o fogo: visão clara (convicção, coerência), estratégia estável e persistência incansável (“nunca duvidem de que um pequeno grupo de cidadãos reflectidos e empenhados pode mudar o mundo. Na verdade, ele nunca mudou de outra forma”, Margaret Mead). Foi assim com os doze membros (entre os quais William Wilberforce ou Thomas Clarkson, herdeiro, um, formado em Cambridge, outro, em ambos os casos decidindo, ultima ratio, dedicar-se a causas nobres), na transição do século XVIII para o século XIX, “bando de renegados, quakers, evangélicos” quando a virtude não estava de moda, fundadores da Sociedade Britânica para a Abolição do Comércio de Escravos – absolutamente determinante para o fim da escravatura; foi assim, também, com a Sociedade Fabiana – que, composta por poucos elementos como Frank Podemore, de Oxford, e Edward Pease, quaker, no último quarto do século XIX, defendeu umas então impensáveis 8 horas de trabalho diárias, impostos progressivos, educação pública, almoços grátis nas escolas, algo que, a prazo, criado o poderoso espírito da social-democracia, veio a constituir o cerne do Estado-Providência moderno -, foi, assim, ainda, com os auto-denominados “neoliberais” (como Friedrich Hayek ou Milton Friedman), pequeno grupo de intelectuais que se reuniu, na aldeia suíça de Mont Pèlerin, a 10 de Abril de 1947, para criar no espaço público uma agenda baseada na ideia de interesse próprio, redução do papel do Estado e mercantilização de todos os sectores (da educação à saúde) e que se veio a tornar, até sofrer uma grande erosão de credibilidade a partir de 2008 e da Grande Recessão, o “novo normal” [1979-2008] (“Durante algum tempo, o neoliberalismo pareceu funcionar: a inflação foi controlada, o crescimento regressou, e as bolsas de valores dispararam. Porém, com o passar das décadas, o custo tornou-se patente: comunidades esvaziadas, desigualdade em crescimento acelerado, crises financeiras e devastação ecológica. Hoje, a ideologia reinante desde a década de 1980 até à pandemia já não é capaz de inspirar. Está intelectualmente exausta, moralmente falida e é politicamente tóxica. Porém, o seu fantasma continua a pairar, assombrando as nossas instituições e limitando a nossa imaginação”).
 
6.Eis, portanto, um momento-charneira: o da necessidade (e do vazio por ocupar), de criar, sem medos, elites, e boas elites, ou, nas palavras do palestrante, de forjar “contra-elites” – “Também precisamos de uma nova elite. Não falo de uma elite de nascimento, riqueza ou credenciais patetas, mas uma elite de impacto positivo em grande escala. Estou a falar de uma elite que se arrisque a agir. Falo de pessoas que usem o que têm – o seu capital humano, financeiro ou cultural – para fazer uma grande diferença (…) Não é uma questão de esquerda contra direita. É de seriedade versus preguiça, determinação versus apatia” -, de voltar a objectivos que parecem recobertos de candura pelo deserto real que ignora qualquer valor (“Precisamos de reavivar uma ideia antiga e quase risível no panorama actual, a ideia de que a finalidade do poder é fazer o bem”), de introduzir idealismo a um sistema completamente desequilibrado pelas insustentáveis doses de cinismo, ego, discussão meramente táctica e pessoalizada e uma turbamulta cavalgando decibéis e escândalos: “Por todo o mundo, as pessoas estão sedentas de mudança, de grandes narrativas, de uma direcção. Mas em vez do renascimento da esperança, vemos o renascimento do medo”. Cabe recuperar finalidades, visão, ideias de bem comum, programas que lhe dêem corpo e vida: “As mentes mais brilhantes não desperdiçam o tempo a aperfeiçoar PowerPoints na McKinsey, mas a construir ligações ferroviárias de alta velocidade ou a encontrar curas para grupos inteiros de doenças. Imaginem os lucros gigantescos da IA – uma tecnologia com raízes em décadas de investigação financiada pelo governo – canalizados para um fundo nacional que pague um dividendo mensal a cada cidadão”.
 
Boa semana.



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