O CAMPO É FINITO - E COM ELE UMA CIVILIZAÇÃO. ARTUR VAZ, EM "A ALMA TAMBÉM MORRE"
O campo é finito – e com ele uma civilização. Artur Vaz interroga o que somos depois do mundo rural, em “A alma também morre” (Âncora, 2025)
Conquanto uma biografia de lei, mesmo a que intentada sob a forma ficcional, seja aquela que consuma, no biografado, o iluminar de uma época – um tempo e um espaço – e, ademais, porventura, possa ser seiva em que o futuro (presente) possa haurir (é possível, mesmo, aprender com a história?, interrogar-se-á, classicamente, o historiador), “A alma também morre” não deixa por cumprir com o seu vasto repertório de um solo conhecido em cada planta e árvore de fruto, nos variegados utensílios que auxiliarão o chão a dar frutos, na descrição da farta bicharada que por ali cirandou, nos espíritos e modos de habitar o mundo por parte de mulheres e homens da aldeia, nos costumes quotidianos, nos ofícios e artes, nas relações familiares e de vizinhança, na partilha comunitária, na piedade popular, na gastronomia e nas feiras, nalgum cancioneiro, nos seus odores e fragâncias, cores, paisagens, na civilização em que se inscreveram e a que deram particular contorno, no interrogar das causas e consequências do abandono do(s) campo(s) (como ele era, porque e o que perdemos, se alguma coisa perdemos, quando perdemos o campo?); da equação de que possibilidades teria (tido), aquele, de uma sobrevivência outra (necessariamente, sob novas formas e em dimensões diversas das do passado); da indisputável e inelutável morte (do campo) que, neste livro, nunca se esconde ou mascara.
Sem o pauperismo, as dificuldades extremas, a míngua de condições de vida de antanho, na labuta e arduidades do campo (ainda que, e mesmo fisicamente, a nossa temporada produza específicas maleitas que conformam o corpo da terceira década de XXI debruçado ao PC e sentado em permanência), as horas de trabalho não cessam, porém, de crescer, nas sociedades hodiernas, com os avanços tecnológicos, não raramente, a não aproximarem, antes afastando - o digital exponenciando, em vez de mitigar, trabalhos e duração dos mesmos -, os sonhos de Keynes (de 15 horas de trabalho por semana, 3 por dia, por esta altura em que vivemos, suficiente, acreditava, para satisfazer o velho Adão em um momento em que a abundância económica dispensaria as canseiras de outrora)[6]. Em realidade, o digital é susceptível de gerar (na pessoa) uma sensação de saturação, entorpecimento dos sentidos, cansaço, mundo plano, fluir permanente que tentará o humano a maximizar-se, exponenciar-se sem limite (excepto o da própria exaustão), não logrando, portanto, alegria e diversão. Ademais, se há (houve) nos campos a filiação em um modo de vida milenar e um apego a forças e valores que se afastariam (dos) da modernidade, esta, como no-lo lembrará Maria Filomena Molder, para Baudelaire significará o nunca se estar bem em lugar algum, o spleen e a desalquilação, o tédio existencial, a indiferença, a tristeza como modo de negar a confiança – se é certo que é Séneca que terá cunhado a expressão taedium vitae, que a melancolia, bílis negra, nos chegam dos gregos antigos, do mesmo modo que a Idade Média conheceu a acédia monacal, adquiria, aquele torpor, para o poeta francês, uma especial intensidade na modernidade[7].
Amélia, bibliotecária, filha de Augusto, tendo participado em Congresso em Barcelona, queda-se, por uns dias, afastada de Milhano e do pai, ocupada em trabalhos atinentes aquela realização na Catalunha. Possivelmente, elaborando relatórios. A inexpugnável e ilimitada carga burocrática com que tantos, mesmo em profissões que se pretendem ou pretendiam (essencialmente) intelectuais, se encontram assoberbados induz ao maquinal, ao automatizado, à impossibilidade de contactar com a fímbria do nuclear, ao silenciamento do canto e do poético, à negação da recondução a um lugar de alegria. O inefável relatório vem a ser, ao fim e ao cabo, figura-metáfora de temporada na qual, para cada vez mais cidadãos, incluindo, por antonomásia, os professores universitários das Humanidades, não raramente precarizados, o melhor, mesmo enquanto labor, se encontra (e deseja) fora das oficinas, escritórios e gabinetes onde não podem ser, boa parte do dia, senão actores mecânicos[8]. Ou, como intuiu Jorge Gomes Miranda, em “Emoção Artificial”[9], os robôs somos nós.
Assinalarão outros, além disso, que a estagnação do elevador social, maxime em uma classe média que não vê medrar, tanto quanto soía, a sua dedicação a qualificar-se (em carreiras de gratificação mais rarefeita do que as expectativas) que o centramento e devoção ao trabalho conhece as fronteiras (da hora) do expediente e que, na recorrência do lúdico (compensatório) com que se confronta ou atém, uma menor aptidão à alegria do que quando aquele raro era (como sucedida no campo).
Augusto teimava, uma e outra vez, em recordar a importância, em liame que estabelecia, em paradoxo que viver implica, tantas vezes curtida nas dificuldades, da alegria alcançada pelos que partilharam, no mesmo lugar, décadas consigo – “e como mineiros experimentados sabiam, na ganga diversa dos dias e das suas muitas surpresas e desilusões, encontrar sempre o pequeno filão de uma alegria espremida até ao âmago em todos os seus cheiros, gozos e sabores” (p.110) -, exortando, inclusive, em um dos seus diálogos finais (o que não deixa de ser significativo sublinhado), no ocaso da existência, o seu amigo e cúmplice de Milhano, Alcino, a demandar e aferrar-se a ela (enquanto houver alegria, há vida; sem alegria, não se vive): “Por isso não deixes que maus momentos tomem conta dos teus dias. E nunca percas a alegria; sobretudo não te descuides em conquistá-la, qual colheita delicada, em cada hora que passa, pois se não o fizeres, a tua alma vai morrendo” (p.238).
Fernando Gil fala de 3 razões de ser da vida (que são três momentos de desenvolvimento e transmutação do agarrar-se à vida): a) descobrir que a vida é um bem (para F. Gil, trata-se de uma tautologia); b) aspirar a alguma coisa e sentir-se obrigado a outra coisa qualquer (conjunto de aspirações e obrigações que dão forma à vida); c) os direitos. A segunda e a terceira das razões são o desenvolvimento da primeira - que é a mais forte. Aqui, é preciso falar da felicidade e da alegria. Há em todo o desenvolvimento e aspiração, a reivindicação de um direito à procura da felicidade[10]. Felicidade a qual, ruminava, sem embargo, Augusto o humano não atingiria por completo: “como se uma infinda propensão a não atingir a felicidade definisse a própria essência da alma e vida humanas…” (p.166).
E o mundo foi, impressivamente, ignorado a Ocidente. Mas o mundo rebela-se contra o esquema, inventado na Idade Média e desconhecido da Antiguidade, (dicotómico) sujeito-objecto. O senhor (o humano) recebe hoje reverberações, gritos esdrúxulos do escravo (mundo), com este a dominar ou submeter o dito senhor (clima, enxurradas, etc.) que o ignorava/desprezava/desconhecia (atente-se no esvaziamento dos peixes dos oceanos, principal alimento dos pobres). Em vez de cívicos, devemos ser cívitos, implicar a política numa relação a três, não já sujeito vs sujeito, ou sujeito vs sociedade, mas agora impondo-se o mundo numa equação a três que, a ser de disputa, a ser de vitória-derrota, implicará a destruição do humano.
E quem fala pelo mundo? Carecemos dos cientistas (Ciências da terra e da Vida), dos que conhecem, de há muito, o pulsar da terra e da vida; e no entanto, eles não poderão ser os novos aristocratas (e neste caso, tecnocratas), a nova classe que se impõe sobre os demais - sucedendo, historicamente, assim, na teorização de Michel Serres, a sacerdotes ("a religião geriu os homens"), militares ("pretendendo defendê-los [às populações], o exército governou-os e, frequentemente, escravizou-os") e economistas ("a economia começou a reger as suas vidas, por vezes implacavelmente"), as épocas de Júpiter, Marte e Quirino. Tais classes têm lugar, ainda que não em sentido impositivo e hegemónico (na cidade).
Poucas vezes o vocábulo “alma” é usado por Artur Vaz no seu mais recente livro, mas, quando aquele emerge na trama, assegura uma das chaves de leitura necessárias à dilucidação do título do mesmo (“A alma também morre”) e o de tema que atravessa toda a intriga, a saber, o significado do desaparecimento de uma civilização (a civilização do campo). O que civilização significa podemos retirá-lo de descrições/concretizações como as seguintes: “Criaram rebanhos de ovelhas, manadas de bovinos, burros e muares, porcos e galinhas; uns para complemento do pão, vestir e calçar de cada dia, outros auxiliares indispensáveis nos trabalhos e canseiras; todos, companheiros fiéis daquela vida esforçada. Desenvolveram e aperfeiçoaram muitas artes e ofícios complementares a uma economia de pastores e homens de terra: alfaiates, sapateiros, tosadores; boticários, sangradores e barbeiros; artesãos em cobre, barro e vime; artífices da pedra, da madeira e do ferro; entendidas em rezas e mezinhas; parteiras; fadas domésticas de mão cheia em fumeiros, cozinhados, enfeites e crochés; tecelãs de artística precisão e infindas horas em pacientes urdiduras, de linho ou lã. (…) Gente de saberes, valores, usanças, práticas e costumes únicos, transmitidos de geração em geração como um dever sagrado de continuidade (p.108); [Utensílios, alfaias agrícolas que, como o arado de pau, vêm, já, dos Sumérios, há três mil anos] Como ele, Augusto, também privados de alma, e, apesar de tão concretos, não passando de meros fantasmas sem qualquer utilidade ou serventia…(…) Com os campos abandonados e incultos, as árvores tristemente pensativas a definharem, os animais fugitivos, a aldeia solitária de inexistentes habitantes…toda uma civilização e economia, usanças e costumes, simples actos de cultura e diversão, nunca, por mais ninguém, em vidas e trabalhos, utilizados ou simplesmente usufruídos. (…). Por desleixo e incúria haviam sido destruídos ancestrais modos de fazer – fossem em cultivos da terra, domesticação de animais, fabricação de objectos e artefactos, costumes de organizar a vida, jeitos de manter práticas e tradições, ponderadas maneiras de refletindo, assumir responsabilidades e deveres…” (pp.234-236).
A alma de Augusto esvai-se simultaneamente à decrepitude de Milhano; além do casamento harmonioso, e em perpétuo namoro, com Isabel, há quase como que um segundo matrimónio de Augusto, uma identificação completa, uma certa osmose com Milhano, de sorte que se agigantam, Milhano e Augusto, como duas personagens maiores de “A alma também morre”: “perdido todo um mundo e desprezados os valores, crenças e práticas que foram sempre os seus, mortos ou perdidos os amigos de todas as horas…ele próprio estava para além do tempo” (p.236).
Se, em declinando ideologias ou mundividências que estruturaram e motivaram milhões de indivíduos, capazes, em casos bastantes, de por aquelas, no limite, se disponibilizarem a entregar a vida, se compreende o chão que lhes falta ou o abismo que se lhes assoma (em sobrevivendo aos grandes relatos entretanto caídos), assim Augusto, formado na civilização do campo, interrogando-se sobre porque continuar (depois do fim daquela)[12]. A paisagem física de Milhano – em ruínas – acompanha quer o quebranto do corpo, tão bem contado neste livro – “os ossos, enferrujados e sem carne, semelhavam velhas matracas; a vista sempre chorosa, perdendo-se em névoas e negruras; as pernas, pesadas como chumbo, a arrastarem-se num andar sonâmbulo; as mãos loucas, sempre a tremelicarem; o nariz, uma fonte ressumando frias e constantes humidades; a boca de dentes artificiais e paladares apoucados; o peito – os seus pulmões tão frágeis e doridos – num resfolegar que, em crescendo, se rebelava numa tosse aflita, preocupante, quase continuada; estômago, rins, e fígado, por dá cá aquela palha, a rebelarem-se em agudas pontadas e exigências de continuado desconforto, por vezes violência insuportável; enfim o coração, no seu débil batimento, a diluir-se mesmo no cansaço de, muito em breve, se quedar para sempre, exaurido e desistente” (pp.225-226) -, quer a penúria, em horas sombrias, da vontade de prosseguir (vida). Este enumerar de achaques, de todas as formas e feitios, que assaltam, muito frequentemente, o humano no seu declinar de vida tem o adicional mérito de reivindicar o corpo numa altura em que tantos, nos pós-humanismos, dele parecem querer evadir-se (as memórias digitais, como se fossem a própria pessoa, a “comunicarem” pós-mortem, nos Black Mirror[13]…; não temos, mas somos, também, corpo, o que é reclamado, em forte dimensão sensitiva que percorre a narrativa, em “A alma também morre”, recusando-se, por consequência, nela, o dualismo antropológico), da fidelidade à realidade, com o que de sofrimento é composta também e, ao lembrar-nos, em simultâneo, o sorriso salgado a lágrimas de um velho, o convocar da nossa condição trágico-cómica (há um certo lado, ao mesmo tempo, passível do hilariante e do profundamente doloroso no elenco, aliás não raro por parte, até, de quem dele padece, de enfermidades múltiplas), acompanhando a vida até ao seu último instante (o que não deixa, em todo o caso, de ser um canto à mesma). Na descrição, detalhada, das metástases de uma das doenças que cada vez mais prevalece em sociedades com esperança média de vida crescente, Alzheimer (de que padeceu Isabel), podemos, sem embargo, qual parábola, encontrar o próprio esquecimento, tantas vezes recalcado, do campo pelo (demais) país (o Alzheimer do país - face ao campo).
Nas suas poucas viagens, [Augusto] sempre gostara daquele sítio: à partida, para sentir logo a saudade de um último e demorado olhar; no regresso, para, resolvida a sua pressa ansiosa, se comprazer no satisfeito gozo de um primeiro relance ao céu e à terra dos seus dias” (p.242).
Se, durante muito tempo, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro ou Camões (com os seus “campos deleitosos”), ou, ainda, Eça de Queiroz, com sua Tormes romantizada, ressoaram um campo arcádico, bucólico, locus amoenus, colocando, nos seus escritos, homens e mulheres do campo a falar como “rústicos eloquentes, equipados de sensibilidade palaciana”[16], num campo assim tornado puramente artificial, fingido[17], que nada tinha que ver com o campo real, vivido (“o campo empírico foi sonegado às belas-letras”[18]), o qual apenas com Raul Brandão (“A aldeia que eu conheço é uma aldeia trágica. A Aldeia de Júlio Dinis nunca existiu”[19]) propenderá a principiar a revelar-se em romances e poemas, e se a exaltação do mundo rural, suas normas e vida habitual, o Estado Novo propagandeou como norma (“A ditadura exaltava a «beleza patriarcal» das aldeias, povoadas de rústicos obsequiosos e felizes, gratos por serem pobres, porque serem pobres significava que viviam investidos de autenticidade, bondade e harmonia, numa espécie de Éden agrícola. A pobreza e o trabalho penitencial aprimorava-lhes o carácter”[20]), já com os escritores neorrealistas os camponeses, em uma idealização sob outra espécie, emergem, com “qualidades sobre-humanas”, resistindo à opressão dos grandes latifundiários (nomeadamente, no Alentejo): “Mas, ao retratarem os proletários rurais como protagonistas de uma gesta sobre-humana, de uma epopeia telúrica, com o pathos de heróis cerealíferos, sujeitaram-nos a uma idealização de outro tipo”)[21]. De acordo com Rui Laje, autor da primeira antologia poética (do século XIII ao século XXI) sobre os campos (e de uma já considerável obra poética a eles dedicada), tornando (o irónico título) “Adeus, campos felizes” (Assírio e Alvim, 2025) referência incontornável na problematização (literária e política, sociológica, cultural) dos mesmos (e seu fim – e o país, que foi, em substancial parte, rural, nisso), e sem prejuízo do que, esparsamente, já seguia os reais interstícios da terra, seria, sobretudo, com um transmontano, nordestino e bragançano como Augusto, A.M. Pires Cabral que, em meados dos anos 70, o campo é restituído ao campo - finalmente, “entra em cena o rural quotidiano”[22].
Sempre que, na primeira pessoa, reproduzidos são diálogos em “A alma também morre”, observamos que as falas são próprias das vivências do campo – por exemplo, animais que invadiram propriedade alheia e reparo ou reprimenda consequente, por banda do proprietário, a quem os não os tenha contido como devia, tudo dito por palavras breves e simples -, com recurso a termos coloquiais típicos das nas nossas aldeias - “tio Manuel”, ilustremos – e o retrato dos bailes, romarias e seus prolongamentos descritos com notória verosimilhança; idem do patético dos excessos beatos, dos cochichos atribuídos tradicionalmente ao feminino (sobre o qual paira o patriarcal e um certo preconceito deste); da “divisão rígida do trabalho” com a mulher remetida ao doméstico; dos ritmos de sementeiras e colheitas, do almoço especial por uma festa, um feriado, um Domingo; de um crime passional que ocorre uma vez sem exemplo (em lugares onde, por regra, portanto, “não acontece nada”); mesmo a permanência, que neste livro ficcional não é rasurada, de traços antissemitas na nossa linguagem[23] (“poupava mais do que um judeu” (p.94); tendo-lhe ainda, como bom judeu, feito empréstimo de algum dinheiro” (p.193); “o pai de Isabel sorriu com os cálculos do Judeu, porque a casa e o logradouro valiam bem cinquenta ou sessenta mil escudos [e aquele oferecera apenas, por aqueles, 20 contos]” (p.195); da moral sexual prescrita e obedecida à Igreja (sexo só depois do casamento)…com as consabidas escapatórias; da Igreja como testemunha dos principais momentos da existência (nascimento, matrimónio, baptizados, funerais, bênção de dias, refrigério de momentos sombrios); do Seminário como lugar de empoderamento e uma saída para um possível trem de vida mais composto (da descendência), mesmo que não sintonizada, necessariamente, a vocação; da constatação de um campo habitado apenas ao fim de semana ou, então, no Verão por duas dúzias de emigrantes (até a emigração mudou e a terceira geração já não regressa, necessariamente, à terra) ou de um furtivo turista; da sucessiva desertificação do campo – Milhano contava com 524 habitantes em 1900, 630 em 1940, 374 em 1980, 185 em 2001 e 30 em 2011 – e seu envelhecimento (quase todos os seus habitantes tinham feito 70 anos – p.63); da reminiscência de certos provérbios populares (p.107) e canções, numa palavra, da ausência de empertigamento de salão.
É certo que em quem ama, de sobremaneira, o campo, como sucede com Augusto, embebido naquele, o flirt com uma certa deificação das figuras que o preenchem acontece – “os homens e mulheres do seu tempo, cismava Augusto, semelhavam ter consigo a nobreza altiva daqueles deuses e heróis em mármore esculpidos” (p.110) -, mas, em Milhano, diversamente do apontado a um enquadramento com o seu quê de esquemático/doutrinário a alguns autores neorrealistas, as qualidades “sobre-humanas” de seus habitantes não se forjam na miséria absoluta (nenhum natural de Milhano, pesem todos os constrangimentos, será pobre de pedir, dada a solidariedade comunitária obviar a que tal ocorra) ou em conflitos de classe – mesmo que diferenças entre estas, as classes sociais, existam e Augusto se firme Presidente de Junta, em tempos de corporativismo, como respeitado mediador entre elas: “ninguém como ele poderia assegurar campo neutro ao entendimento entre os grandes lavradores e a massa indiferenciada dos que ganhavam o pão de todos os dias, trabalhando sobretudo de assalariados” (p.69).
Enquanto para Rui Laje, na sua subjectividade e história de vida (a de quem passou inteiros verões no campo transmontano, durante a infância/juventude), houve “perda” e “luto” com o fim dos campos, “mas não lamento”[24], já de Augusto vem uma inequívoca acusação: o “eterno sono” dos campos, as ruínas de Milhano, a morte do mundo rural “é um crime”. Ora, uma das questões que talvez seja curial colocar a propósito do seminal ensaio de Rui Laje sobre o campo é esta: se para, se não homenagear, pelo menos, fazer jus à “carne sofrida” dos que habitaram o campo, necessário é desconstruir[25] o “campo deleitoso”, oferecido por (elevadas, mas fantasiosas) lentes e camadas literárias e ideológicas, não se correrá o risco de nele, no campo e na civilização que formou, e, ainda, nos que a habitaram, não se divisarem motivos, crenças, práticas que lhe poderiam sobrevir a benefício dos humanos? Poderão, por outro lado, estas, crenças, práticas, motivos ser completamente autonomizados dos campos (e sua civilização)? O que dizemos com campo é um enclave (físico e psicológico, modo de vida outro) – e, nessa concepção, vindo a desaparecer desde a década de 60, quando Jorge de Sena, em Elogio da vida monástica, descortina que “Hoje, não há mais mundo/de que uma pessoa possa retirar-se./O mundo se retirou de nós” – traduzido por um sistema de pauperismo e miséria, vidas de fome e morte prematura, insalubridade, sons de folclórico (hoje, substituídos por música “pimba”), fé tutelada pela Igreja, mas também mezinhas, famílias de extensa prole e o que hoje designamos, evidentemente, por trabalho infantil? Augusto acreditava que a (auto) contenção, a moderação, a austeridade mesmo – que, podendo advir de uma noção mais tradicional ou adquirir uma feição conservadora, hoje não deixa de ser reivindicada, ainda, por movimentos verdes, críticos de um desenfreado consumismo e desperdício, e do modo como estes (desvios), desde logo, desafiam os ecossistemas, o equilíbrio do planeta – eram virtudes que, ainda que sendo susceptíveis de se encontrarem em outras maneiras de viver, no campo se guindavam a uma segunda pele, mereciam vigência futura – entre a castidade, aquela colocada nas palavras, algo que o homem de 90 anos advogava urgente, serve, também, a crítica à logomaquia ou tagarelice praticada nos infindáveis canais, tubos ou plataformas contemporâneas. A terra - em si mesma e com o sentido de raízes/origens/elemento nuclear da identidade pessoal - e o trabalho vêm a ser valores centrais na pauta axiológica por que se rege Augusto – e que crê serem agora desprezados (“desprezo agora votado à terra e ao trabalho redentor”, p.76). Ora, em A rebelião das elites e a traição à democracia (Relógio d’Água, 2024), Christopher Lasch apontava, já, às elites que, em seu país, não se fincavam em suas comunidades e concidadãos, antes preferindo um cosmopolitismo desenraizado e sem compromisso com a sua pátria – em crítica que terá traços de, e virá a ser apropriada pelo movimento populista (se caracterizado, este, por uma interpretação da realidade assente numa oposição, maniqueísta, entre povo (puro) e elites (corrompidas), uma forma, aliás, de elitismo invertido). Observados, em diversas latitudes, resultados eleitorais sob a lente da geografia interna aos países, a antinomia rural/urbano[26] irromperá como um dos eixos de cisão política mais acentuados em nosso tempo (a dicotomia urbano/rural, quando tomada por desaparecida entre nós, aparenta, de algum modo, pelo menos nas interpretações dos quadros sócio-políticos emergentes, reverberar em diferentes paragens, sempre se notando que o campo, enquanto específica civilização com as características particulares que adquiriu em Portugal, se finou - a questão quanto à (im) pertinência actual do valor “terra” (na apropriação que Augusto faz do vocábulo/conceito) é a de, tomando, até, os estudos pós-eleitorais, em anos recentes, em Portugal do politólogo Pedro Magalhães [no qual o binómico rural/urbano é utilizado, como contendo uma pertinência de leitura do comportamento eleitoral dos cidadãos], o que/como fazer para que o que sobeja do antigo mundo rural não se sinta ignorado, esquecido, por reconhecer, e como representantes na polis, em seus modos de desempenhar os cargos e no lidar com as pessoas, e, muito particularmente, em suas políticas, tornem, aqueles, cidadãos verdadeiramente considerados. Quanto ao valor trabalho, mais presciente do que quanto às horas que trabalharíamos nos idos de 2000, parece ter sido Keynes, no ensaio neste excurso mencionado, Possibilidades económicas dos nossos netos, aludindo à possibilidade de existir uma abundância que em permitindo, de futuro (nosso presente), fazer com que não fosse necessário o trabalho (ou emprego), a maioria dos humanos (como os aristocratas do seu tempo, os quais lhe davam um lampejo do que aí viria), até atendendo a todo o seu caminhar histórico, não aguentaria tal quietude (neste sentido, se justifica o adjectivo “redentor” aposto a “trabalho”, por banda de Augusto; o trabalho, para a maioria dos humanos, redimiria a existência). Em tempo de (explosão da) Inteligência Artificial, e da amplíssima reconfiguração do mercado de trabalho que, com o prorromper daquela, advirá (segundo variados estudos e investigadores), muitos são os que temem tornar-se supérfluos, não apenas do ponto de vista da mera sobrevivência e do garantir do essencial – a taxação dos robôs, o Rendimento Básico Incondicional, a captação de receita para o Estado e a comunidade por via dos dados de que os detentores de redes sociais se apropriam, por exemplo, têm sido propostas políticas para procurar responder ou obviar, também, a essas adivinhadas dificuldades -, mas da realização própria, de um fazer de que não se abdica ou do qual não se lança mão (por só com aqueles se sentir ligado à vida). Em muitos casos, embora não necessariamente, tal significará uma vinculação, muito particular, da identidade pessoal ao trabalho, ou a um concreto trabalho tido como profissão, o que nem todos observam como uma inevitabilidade, na medida em que tal identidade é composta de diversos links que se constituem, ou poderiam constituir-se, como elementos que primam numa apresentação de si mesmo (e numa auto-compreensão de quem/como se é), ou relevar para efeitos do sopesar as atividades que delimitamos – e, nomeadamente, que actividades excluímos – como trabalho e que, potencialmente, importará redimensionar enquanto faina (até porque, já hoje, muitos são os trabalhos apontados como desnecessários, nada produzindo de real ou aportando à comunidade [“empregos de fazer de conta e nada produzir”, p.78], mas mantidos pelo que significam na reivindicação de ocupação profissional paga, em uma sociedade que não deixará de produzir um olhar de ordem moralizante a quem não o alcança; em perspectiva inversa, muitas actividades que constituem humano trabalho não são desse jeito compreendidas ou assumidas consensualmente, nomeadamente por não serem remuneradas -, mas apenas por isso, não deixando, contudo, de labor serem).
A estas qualidades do campo – reitera-se: noutros solos a poderem frutificar, mas naquela sociedade campesina inculcadas com arrimo - somar-se-ia a do compromisso – “assumir responsabilidades e deveres” -, arredio, em certas leituras do humano dos nossos dias, da legião desta centúria, como nunca se consumando, procurando, cada qual, ter todas as janelas abertas sem se cumprir em um limite.
A dicotomia conhecimento/sabedoria, estabelecida pelo narrador do mais recente livro de Artur Vaz, acometendo o segundo dos atributos a Augusto e o primeiro aos academicamente credenciados descendentes (e sendo que a segunda das qualidades, algo expressamente destacado pelo narrador, supera a primeira), pode ser interpretado quer como reverência ao pai (digamos, enquanto instituição), quer como homenagem à singular personalidade de Augusto (distinto dos demais concidadãos da sua comunidade, no olhar filial, ainda que o próprio ancião semelhando aqueles às mais longevas alturas), quer ao facto de este se poder constituir como o mais notável representante do campo (e, se assim for também, então a sabedoria como integrando aquele universo, até porque, mesmo que seja um acontecimento único na história, Augusto se forma em Milhano, e sem Milhano não é, mesmo que os de Milhano não sejam, necessariamente, (todos) sábios): “Conselheiro, pois. Porque, embora muito tenham estudado e aprendido, nenhum dos filhos tinha a sabedoria de vida, pelos longos anos, pelas muitas aflições e no constante reflectir consigo próprio, concedia. Tanto assim, honra lhes seja, quando algum se via em lance a exigir discernimento, ainda recorria ao velho pai. Para uma luz, uma ideia, um rumo a decidir…” (p.148).
Retomando o ponto do diálogo mantido, em “A alma também morre”, com a tradição, mas agora no que se refere à tradição literária portuguesa, ao ler este romance memorialístico ocorre-nos poder a obra filiar-se em uma linhagem à qual pertencem obras como as de um Aquilino Ribeiro. E em um dos âmbitos em que tal sucede, somos com José Pacheco Pereira[32] no dizer que, em época de um tão postiço quanto patético, sem horror ao ridículo, patrioteirismo de vão de escada (ou de tik tok) que, como gosma, se cola ao ódio, respeito pela pátria é, para lá do escrupuloso cumprimento das obrigações fiscais com a comunidade, cuidar da língua. Ora, a plêiade de palavras resgatadas ao esquecimento, ostracismo ou ignorância – se os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem, a amplificação desta significa aceder a mais vastos horizontes e, entre eles, subir até ao campo – é um dos aturados e muito valiosos trabalhos de Artur Vaz em “A alma também morre”, desafiando-se o leitor a ser capaz de (re)descobrir palavras como “calfe”, “canada”, “decrua”, “escrínio”, “fenanco”, “romanisco” ou “vima” – ofertando, de resto, o autor, sabendo-nos órfãos do campo, um Glossário a condizer. Falar o campo, trazer até nós o campo, é falar, também, o seu particular dialecto.
Na digressão que decidiu empreender por uma (quimérica) salvação do campo, Augusto reformaria a propriedade, “dando-lhe dimensão e estrutura”; “represaria” para conseguir água suficiente para “cultivos de alguma intensidade”, trataria de “colmeias, conseguindo mel de comprovada excelência”; nos chãos mais férteis procuraria a produção de legumes, frutos e hortícolas; buscaria práticas para que a caça sobrevivesse e fosse capaz de se reproduzir em quantidade; novos soutos de castanheiros surgiriam; modernos olivais pelas planuras mais temperadas integrariam a nova paisagem; sobreiros, carrascos e carvalhos nas zonas mais inóspitas…
No balanceamento entre, de uma banda, a coesão social, entreajuda, solidariedade garantida por mas também imposta (obrigada a prover) a todos, primado da comunidade, fidelidade/obediência ao grupo (que se seguia, de resto, à obediência paterna de Augusto, arrancado à cama na alvorada, ainda infante, para começar a aprender um ofício, ou de irmãos mais velhos de seu pai que impunham a condição primogénita para coagir quem era mais novo) e, por outro lado, um (eventual) não obrigar quem, em rigor, foi objecto de decisões em que não participou; respeito, sem mais, pela decisão de cada um; generosidade sem condições para todos, derivada, pura e simplesmente, do facto de serem membros da comunidade, o modo de viver de Milhano pendia para os valores que conformavam o indivíduo ao acatar da decisão dos chefes de família, primando o colectivo (ou o entendido como bem comum) sobre o individual, se quisermos.
Em um tempo, como o nosso, em que o tema das prestações sociais não contributivas, em que ideias como as de um Rendimento Básico Incondicional são colocadas sobre a mesa, muitos tendem a impugnar, no debate público, aquelas soluções, em nome do argumento da reciprocidade (quem recebe, tem que dar algo em troca, consideram, divergindo, assim, da ideia de o facto de se ser pessoa e cidadão de um país justificar, de per se, o recebimento de uma prestação sem condição obrigante de qualquer espécie). Se usássemos de anacronismo – em realidade, não sabemos que Milhano existiria em 2026, altura de mudanças imensas, de toda a ordem, educativas, culturais, económicas, sociais, tecnológicas, políticas, em grande medida tempo de edificação do Estado Social, face ao final da década de 50 do século passado em que os modos de vida de pensar as relações políticas e entre indivíduo e comunidade, e que discernimento das grandes questões do nosso tempo faria – arriscar-se-ia que Milhano propendia à ideia de reciprocidade (embora, reforce-se, sem um determinante constructo, completamente imberbe à data da existência do Conselho de Aldeia, como o do Estado Social, a “Comunidade [local] de Bem-Estar Social” fosse, evidentemente, o único recurso para quem se encontrava em pior situação, tornando a possibilidade de facultativa ser a colaboração mútua, no campo, um provável caminho mais direto para uma mais comum miséria). Do mesmo modo, Augusto, pelos motivos indicados no ponto precedente, tenderia a subscrever as críticas, hoje recorrentes na esfera pública, à falta de acompanhamento, por Bruxelas, dos dinheiros – por descaso, nem sempre, tornados reprodutivos – enviados a países europeus como Portugal e ao “vicio” (de não produzir) que alguns daqueles envelopes financeiros geraram[37].
Diversamente, tomar-se-ia como mais progressista ou esperançoso o asseverar, a jeito de confissão, existencial/política, por parte do narrador omnisciente, que os que melhor vida e mais assisados, face aquilo que os tempos vieram a evidenciar requerer-se para uma mais plena cidadania e melhoramento de condições materiais, se revelaram, em Milhano, foram “não necessariamente os mais ricos, sempre os mais ousados e sonhadores” (p.145) – em particular, os que proporcionaram, quando tal estava longe de ser o óbvio ululante, longeva escolarização e qualificações aos seus, prosperando a família aos mais diversos níveis (económico, social, cultural).
Em uma hipotética aldeia gaulesa ressurecta – quer dizer, o campo, sob novas capas, de volta [de novo, o que dizemos, quando dizemos campo?] -, no final do seu ensaio, Rui Laje apenas retoricamente coloca a hipótese de, fora das efabulações românticas, existir um razoável conjunto de cidadãos, em Portugal, que queira instalar-se num (futuro) reino de troca, fora do Estado e do mercado, em que um acervo de bens e serviços postos em comum. Ainda assim, no limite, e ainda que, com enorme cepticismo e como académica possibilidade, não deixa de, muito vagamente, aludir a insondáveis e putativos recomeços – claro que a Agricultura[38], hoje praticada, em termos percentuais, por muito poucos, na União Europeia é, ainda, susceptível de concitar recursos europeus imensos na PAC (Política Agrícola Comum); todavia, e voltando ao estudo de caso português, a quando da melhoria económica no campo – pelos apoios sociais entretanto criados, pelos enormes desenvolvimentos tecnológicos que vieram a ter condizente reflexo no mundo rural e na agricultura – o que passámos a ter foi “uma agricultura sem agricultores” (pesem excepções, como as de Covas do Barroso, Património Agrícola Mundial, com seus fornos comunitários, com o uso tradicional dos terrenos, a criação de gado, a água aviada pelo sistema de levadas, reuniões e votações na Casa do Povo)[39].
Augusto encontrava-se, efetivamente, desconcertado com uma agitação sem bússola por parte dos seus semelhantes, dispersos por inúmeras paragens, no rescaldo e cinzas do campo: “Nos velhos tempos a vida era dura e difícil, exigente de energias e esforços inauditos, mas sempre balizada num quadro de princípios por todos aceites de geração em geração (…). Agora parecia todos terem perdido o rumo, não sabendo bem o que fazer” (p.77). Ou, como o filósofo diria, antes sabíamos o caminho à custa da liberdade (o casal não devia separar-se, por exemplo); hoje, somos livres (podemos separar-nos), à custa de não saber o caminho. Segundo o Lipovetsky de A sociedade da decepção – diversamente do de A era do vazio[42] – isto não se faz sem muito recurso a ansiolíticos e fármacos quejandos. Rui Laje continua em busca do sagrado, agora nos conceitos, grávidos de poesia, como “buracos negros”, da Física[43], enquanto László Krasznahorkai lhe chama Beleza (“Penso que, no fundo, perdemos apenas a palavra para isso (…) que (…) sentimos como uma presença. Durante milhares de anos procurámos uma figura, um conceito, uma linguagem capaz de nomear aquilo que pressentíamos. Mais tarde, chegámos à ideia de Deus único. (…) O pensamento moderno afastou-se dessa noção. Só que, ao afastar-se, não encontrou nada capaz de ocupar o seu lugar. E esse é o verdadeiro problema. Enquanto existir um único ser humano sobre a Terra, continuará a existir esse lugar sobre a Terra, continuará a existir esse lugar vazio. O cristianismo chama-lhe Deus. O Islão chama-lhe Deus. As restantes religiões dão-lhe outros nomes. Mas o lugar permanece. O ser humano nunca conseguirá viver apenas da realidade experimental, apenas daquilo que pode medir ou demonstrar. Há dentro de nós um espaço reservado para aquilo que ultrapassa a experiência. A questão é apenas esta: como lhe chamamos? (…) Hoje, se tiver que dar um nome ao transcendente, dou-lhe este: beleza”)[44].
No remanso de Milhano, no letargo gostoso que os seus 90 anos prodigalizavam, Augusto sente nas memórias o derradeiro calor de um resto de um universo que, depois de morto – e só o que, efectivamente, morre pode ressuscitar -, sobrevém no mimo e na resistência que lhe dedicou/edificou (no refrão paulino [1Cor, 13: 4-7], o amor é suporte de tudo – e não é fácil ficar-lhe indiferente).
Pedro
Miranda
[1]
Laje, Rui, “Adeus, Campos
Felizes”, Assírio e Alvim, 2025. Cf. In Vaz Pinto, Diogo, O cativeiro sem grades. Outra conversa com
Rui Laje: https://www.youtube.com/watch?v=6UdzUuDdXG4&t=4094s, consultado a 20 de Julho de 2026.
[2]
A distinção cidade-campo, como Álvaro Domingues tem documentado, finou-se, nas lojas do cidadão presentes nas aldeias,
nos serviços de saúde prestados aos
idosos em casa nas localidades distantes dos grandes centros, no antigo campo transformado em recreio de fim de
semana de citadinos, no barulho ensandecido de motos de água e, até, pasme-se,
de sons de tiros que, à falta de pessoas, são instalados nas terras para
afugentar os pássaros e troam de minuto a minuto. Cf. Domingues, Álvaro, “Rua da Estrada”, Dafne, 2009. Pontuando o que vimos de dizer, Rui Laje, in Câmara
Municipal do Porto, Terrivelmente
teimo em adorar a liberdade: Rui Laje, https://www.youtube.com/watch?v=PepRlj1pJvU, consultado a 21 de Julho de 2026.
Ademais, o smartphone faz com que a fuga mundi sempre seja uma
impossibilidade. Hoje, em Portugal viver-se-á uma condição “pós-traumática” do
campo, com a antiga distinção cidade-campo
a ser preterida pelo corte interior/litoral.
Vivemos numa altura da “cidade genérica”, como lhe chamou o arquitecto Rem
Koolhaas. Hoje por hoje, até “o cultivo de terra é agora uma prática digital”.
O campo já não se sabe bem o que é, “cenário de experimentações genéticas e
agrícolas, com ‘parques’ de ruralidade conservada ou produzida para vender a
urbanos nostálgicos” (Guerreiro, António, “Belos são os campos…”, in Ípsilon, Público, 06-03-2026, p.30).
[3]
Para um retrato de Lázaro
Augusto Vaz por Artur Vaz leia-se a publicação que na sua página deixou em
homenagem ao pai: https://www.facebook.com/profile/61583357044058/search/?q=Pai&locale=pt_PT, consultado a 20 de Julho de 2026.
[4]
Cf. Halík, Tomás, “A tarde do
cristianismo”, Paulinas, 2022.
[5]
Crary, Jonathan, “24/7”, Antígona, 2025. Para uma leitura desta
obra, https://desinflacionar.blogspot.com/2022/09/a-impertinencia-do-sono.html. Sobre “A sociedade do cansaço”, de
Byung Chul-Han, https://desinflacionar.blogspot.com/2022/07/a-sociedade-do-cansaco.html.
[6]
Keynes, John Maynard,
“Possibilidades económicas dos nossos netos”, in Ensaios sobre Persuasão, Nova Iorque: W.W.Norton & Cia., 1963,
pp. 358-373. Vide https://www.geocities.ws/luso_america/KeynesPO.pdf, consultado a 10 de Fevereiro de
2026.
[7]
Cf. Molder, Maria Filomena, “Não
te esqueças de viver! Com Maria Filomena Molder -“Ó cousas tão vãs, tão
mudaves, / Qual é tal coração qu’e”, in https://vimeo.com/154872999, conferência na Culturgest proferida a 8 de Fevereiro de 2016. Vide, da mesma autora, “Três Conferências. Primeira - Lança o teu
pão sobre as águas (sobre o qohélet/ecclesiastes)”, Edições do Saguão, 2021.
[8]
Zafra, Remedios, “El informe.
Trabajo intelectual e tristeza burocrática”, Anagrama, 2024. O livro da
escritora e filósofa Remedios Zafra venceu o Prémio Nacional de Ensayo [de Espanha] 2025.
[9]
Miranda, Jorge Gomes, “Emoção
Artificial”, Gradiva, 2023.
[10]
Molder, Maria Filomena, o.c.
[11]
Serres, Michel, “Tempo de
crises”, Guerra e Paz, 2019.
[12]
Aqui, apesar da falta de
motivação ou vontade de continuar a viver aludida por Augusto nunca é
explicitado, nem caberia na mundividência daquele, a questão do suicídio;
todavia, e em realidade, o problema do suicídio na senectude, em Portugal, é
drama candente: https://journals.openedition.org/sociologico/12267. Concomitante a ele, a solidão,
doenças incuráveis graves, depressão, abandono.
[13]
Vide primeiro episódio, segunda temporada,
da série Black Mirror, intitulado “Be
Right back” [Volto já]. O autor de Black Mirror é Charlie Brooker.
[14]
Laje, Rui, “Adeus, campos
felizes. Do campo ideal e do campo real na poesia portuguesa”, in “Adeus,
campos felizes”, Assírio e Alvim,
2025, p.619: “a pobreza infantil campesina é praticamente inexistente na nossa
literatura”.
[15] Ibidem,
p.584.
[16]
Ibidem.
[17]
A écloga ou a pastorela
foram específicas formas literárias
que resultaram da sublimação do campo.
[18]
Ibidem, p.583.
[19]
Apud. Rui Laje, o.c., p.592.
[20]
Ibidem, p.590.
[21]
Ibidem, p.590. Rui Laje, in Câmara Municipal
do Porto, Terrivelmente teimo em adorar a
liberdade: Rui Laje, https://www.youtube.com/watch?v=PepRlj1pJvU,
consultado a 21 de Julho de 2026.
[22]
Ibidem, p.625.
[23]
Em “Desvio de memória”, Glaciar, 2025, Pedro Paixão inventaria
um conjunto de expressões que permanecem na linguagem popular portuguesa ao
longo dos tempos enquanto estereótipos e traços de antissemitismo: “fazer
judiarias”, “menino rabino”, “semítico” (ou o uso não descritivo, mas adjectivo
pejorativo do próprio termo “judeu”), cf. Pedro Paixão, o.c., p.139.
[24]
Pires Cabral, A.M., “Terra
Mater”, in Rui laje, “Adeus, campos
felizes”, pp.487-488: “Ainda se vê, olhando daqui/deste lugar retalhado de
ventos,/a terra mater./Já é só um resíduo de alvoroço,/mas, caramba, ainda
dói,/ainda emociona./E ainda chama/com a voz que lhe ficou -/apelo quase mudo,
moribundo./ Como que responde às frequentes/retóricas a puxar ao sentimento/com
que saudei outrora./Pois bem: terra mater, esquece tudo/quanto te disse em
tempos imaturos./Eram tudo versos de má qualidade./Sei hoje, ao cabo da
balbúrdia oca/de todas estas décadas perdidas,/que só com a chave do silêncio
posso/abrir ainda uma porta no teu corpo de azeite/e penetrar em ti como num
templo”.
[25]
Parece não ser fácil desbastar a
longa fronda de um campo literariamente construído, cujas ressonâncias ecoam
direta ou indiretamente, e entrar com os olhos puros, e não contaminados, para o observar tal quale.
[26]
A antinomia cidade-campo tem origem, há cerca de 2000 anos, na diatribe contra
o homem das cidades no final do canto II,
das Geórgicas, de Virgílio. Cf. Rui
Laje, “Adeus, Campos felizes”, Assírio e
Alvim, 2025, p.606.
[27]
Vide, Versão revista e corrigida, e
relativamente ao Evangelho de Mateus, Sociedade
Bíblica de Portugal: https://www.biblia.pt/biblia/ARC/MAT.6, consultada a 20 de Julho de 2026.
[28]
Vide Lourenço, Frederico, Edição Bilíngue,
grego e português, “Os quatro Evangelhos”, Quetzal,
2024.
[29]
Vide, Catecismo
da Igreja Católica, parágrafos
2838-2856.
[30]
Oferecendo, neste contexto, o
seu testemunho, o escritor e ensaísta Rutger Bregman assinala: “Para ser
sincero, há muito que perdi o interesse em debates sobre crença versus descrença. E também perdi a
certeza do meu ateísmo juvenil. Sim, o teísmo continua a parecer-me improvável.
Mas o que antes parecia uma certeza deu lugar a um tipo de agnosticismo mais
profundo, que não é indiferença, mas antes admiração perante tudo o que não
sabemos, não podemos saber e talvez nem precisemos de saber”, in “Revolução Moral”, Bertrand, 2026, p.83.
[31]
Em 1950, a percentagem da
população ativa portuguesa empenhada no cultivo da terra era de 44%. Daí que o
campo tivesse chegado aos arrabaldes de Lisboa, espaço, este, os arrabaldes,
que poderia constituir esse nó górdio da dita indistinção – em muitas estradas
para o campo, na paisagem cortante com o que a precedia, também, a juntar aos
elementos anteriormente mencionados e que são apontados como tornando
impossível a clara fronteira de mundos – e dos quais no poema Arredores, de Nuno Júdice, se dá conta,
pois que houve um “tempo em que havia quintas e hortas em Lisboa” e “…nas
traseiras do meu prédio, onde as mulheres/das hortas vendiam leite e queijo
fresco, às escondidas”, embora, “Hoje, já não sei onde se escondem essas
mulheres,/nem há quintas e hortas em Lisboa”, in Rui Laje, “Campos Felizes”, pp.516-517.
[32]
Cf. Pereira, José Pacheco, “O
desprezo da pátria por via do desprezo da língua”, Público, 01-11-2025.
[33]
Pires Cabral, Rui, “Vila Real”, in Rui Laje, “Adeus Campos Felizes”,
p.541: “Às vezes era doloroso viver atrás/das montanhas, pressentíamos a
distância do mundo como uma/faca/e usávamos o mesmo gume para dividir entre
nós/as enormes tardes de domingo”.
[34]
Cabral, António, “Aqui, o
homem”, in Rui Laje, “Adeus, Campos
felizes”, p.427: “Montes de pedra dura,/gólgotas/onde os geios são
escadas!/Venham ver como sobe o desespero/e a esperança, de mãos dadas (…) Nem
Baco nem meio Baco!:/Aqui é o homem/que nada há que não suporte/mas suporta e
persiste./Aqui é o homem até à morte”.
[35]
Os incêndios são motivo de
ansiedade, pelo menos, desde o século XVI, altura em que António Ferreira, na
sua Écloga IX, põe na boca de um
pastor: “vês o mundo que vai? Vês que fogo arde/por tanto campo lá, por tanta
serra,/que a nossa cá ameaça?”, apud.
Rui Laje, o.c., p.618.
[36]
Rui Laje, o.c., p.586.
[37]
“A vulnerabilidade do argumento
[da ‘maldição dos recursos’, incluindo, neles, os fundos europeus, como vício que faz amolecer e corroer a base
económica e institucional, tese defendida por Nuno Palma, em ‘O vício dos
fundos europeus’, D. Quixote, 2026]
está, porém, no seu contrafactual – a sugestão de que a economia portuguesa
teria crescido, ou convergido, mais sem fundos europeus (…) Não há evidência de que a abolição da
política de coesão seja passível de desmantelamento sem com isso pôr em causa
os alicerces da União Europeia”, Arroja, Ricardo, “Estamos presos aos fundos
europeus”, Público, 17-08-2026, p.7.
[38]
Jared Diamond escreveu, em 1987,
um desafiador ensaio no qual colocava em causa a perspectiva da agricultura
como um progresso face à anterior sociedade de caçadores-recolectores
(considerando, esta, a agricultura, “o pior erro na história humana”. Pelo
contrário, ao nível da igualdade social e entre sexos, ou, mesmo, quanto à
riqueza e diversidade da dieta alimentar, bem como relativamente às horas de
ócio, a humanidade ficou a perder. Cf. Diamond, Jared, «The Worst Mistake in
the History of Human Race”, Discover
Magazine (maio de 1987), consultada, aqui - https://web.cs.ucdavis.edu/~rogaway/classes/188/materials/Diamond-TheWorstMistakeInTheHistoryOfTheHumanRace.pdf -, a 08-08-2026.
[39]
Ruela, Rosa, “Barroso. A luta
por um modo de vida”, in Visão,
nº1744, 06-08 a 12-08-2026, pp.26-37.
[40]
Apud. Rui Laje, o.c., 637.
[41]
Cf. Clemente, Manuel, “Portugal e os
portugueses”, Assírio e Alvim, 2009.
[42]
Lipovetsky, Gilles, “A sociedade
da decepção”, Edições 70, 2012 e “A
era do vazio”, Relógio d’Água, 1989.
[43]
“Mas eu, que fui feito para
pensar/e não compreender,/adoeço de imaginar enxames de galáxias,/planetas
vagabundos e quasares,/negros buracos comedores de luz,/cometas
peregrinos,/estrelas de neutrões coalescentes,/acúmulos de gás
interestelar,/luas cravejadas de crateras,/escórias da cintura de
Kuiper,/astros banidos da nuvem de Ort,/raios gama, energia sombra,/matéria
negra, vento solar./Eu pasmo de quem não conhece/esse pasmo inicial,/nem adoece
de pensar/o que não se vê”, in Laje,
Rui, “Subsídios para uma poética da ciência”, in “Física espiritual. Antologia pessoal”, Assírio e Alvim, 2026, pp.26-27. Nesta inclusão da ciência e, em
especial, da Física na poesia, Rui Lage considera-se irmanado com António
Gedeão, Vitorino Nemésio ou Manuel António Pina, entendendo este como um
potencial caminho a continuar a desbravar no seio da poesia portuguesa,
conquanto entre os poetas anglo-saxónico há décadas que recolhe acolhimento.
Neste contexto, vale a pena, também, observar da pertinência das palavras de
George Steiner, crítico, o qual, destacava que sem o conhecimento dos frutos do
acquis científico não haveria humano
culto – cf. Ordine, Nuccio, “George Steiner: el huésped incómodo”, Acantilado, 2023.
[44]
Krasznahorkai, László, “Se tiver
de dar um nome ao transcendente, dou-lhe este: beleza”, entrevista concedida a
Isabel Lucas, Ípsilon, Público, 10-07-2026, pp.6-7.
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