O CAMPO É FINITO - E COM ELE UMA CIVILIZAÇÃO. ARTUR VAZ, EM "A ALMA TAMBÉM MORRE"


 O campo é finito – e com ele uma civilização. Artur Vaz interroga o que somos depois do mundo rural, em “A alma também morre” (Âncora, 2025)

1.Se o debate sobre o fim do campo, no dizer de Rui Laje[1] - contrariamente, por exemplo, a uma mais demorada revisitação do colonialismo português, emergente nos últimos anos, no nosso espaço público -, não conhecerá demasiados cultores entre nós, Artur Vaz, com o romance memorialísticoA alma também morre” (Âncora, 2025), toma parte na necessária conversação pública no dissecar de uma herança que não deixa de ser, em simultâneo e não menos importante, uma ponderação do que somos e do que queremos ser (enquanto portugueses necessariamente urbanos – ou semiurbanos[2]). Não é, apenas, de pretérito que aqui se cuida.

2.Autor de um conjunto de obras tendo por motivos o Alto Douro Vinhateiro e, em especial, o concelho de Santa Marta de Penaguião (que habita e de que foi edil), Artur Vaz revisita, desta feita, o Nordeste transmontano de que é originário – Pinelo, concelho de Vimioso, distrito de Bragança, lido pela paisagem, física e humana, de Milhano -, em livro “em memória de meu Pai”, Lázaro Augusto Vaz (1922-2011), personificado em Augusto. Que Augusto, personagem principal de “A alma também morre”, é o alter-ego de Lázaro Augusto Vaz denuncia-o não apenas o nome que permanece – e que a sensibilidade filológica, manifesta, do escritor/filho seguramente quis perene em “majestoso, venerável, imponente” com que identifica o progenitor -,mas, ainda, a idade (90 anos), o facto de ser filho único e de contar (com) bisnetos, os ofícios a que se ateve (ferreiro e lavrador), as actividades cívicas que corporizou (responsável por Confraria, Membro da Comissão da Fábrica da Igreja, Presidente de Junta), o vício da leitura a que deu vazão, a consideração social pela singularidade de uma figura admirada pelos seus concidadãos[3] em que coincidem, pois, personagem (literária) e personalidade (histórica). Ademais, podemos anotar como a narrativa decorre em 2011 (p.76), ano do passamento de Lázaro Augusto Vaz.
Que Pinelo se transmuta em Milhano registá-lo-emos, igualmente, consultando a Bibliografia oferecida, no final da obra, como tendo informado o enredo.
Conquanto uma biografia de lei, mesmo a que intentada sob a forma ficcional, seja aquela que consuma, no biografado, o iluminar de uma época – um tempo e um espaço – e, ademais, porventura, possa ser seiva em que o futuro (presente) possa haurir (é possível, mesmo, aprender com a história?, interrogar-se-á, classicamente, o historiador), “A alma também morre” não deixa por cumprir com o seu vasto repertório de um solo conhecido em cada planta e árvore de fruto, nos variegados utensílios que auxiliarão o chão a dar frutos, na descrição da farta bicharada que por ali cirandou, nos espíritos e modos de habitar o mundo por parte de mulheres e homens da aldeia, nos costumes quotidianos, nos ofícios e artes, nas relações familiares e de vizinhança, na partilha comunitária, na piedade popular, na gastronomia e nas feiras, nalgum cancioneiro, nos seus odores e fragâncias, cores, paisagens, na civilização em que se inscreveram e a que deram particular contorno, no interrogar das causas e consequências do abandono do(s) campo(s) (como ele era, porque e o que perdemos, se alguma coisa perdemos, quando perdemos o campo?); da equação de que possibilidades teria (tido), aquele, de uma sobrevivência outra (necessariamente, sob novas formas e em dimensões diversas das do passado); da indisputável e inelutável morte (do campo) que, neste livro, nunca se esconde ou mascara.
 
3. “A alma também morre” é composto por 5 partes, divididas em capítulos breves (num conjunto de 247 páginas e integrado na colecção Holograma, da Âncora). Cada um desta meia dezena de volumes, assinale-se, leva o nome de diferentes períodos do dia – Madrugada, Pela manhã, Meio-dia, À tarde, O crepúsculo – que nos dão a ver, na sua simples enunciação, as temporalidades do agricultor e artesão, do habitante do campo, no seu lhano roteiro e rotina. A primeira parte é composta por 10 capítulos; a segunda, acolhe 7 capítulos; a terceira, 5; o quarto volume, 5; o quinto, o mais breve, o do crepúsculo, momento do dia tão do agrado de Isabel, mulher de Augusto, 4. Se o filósofo e teólogo católico Tomás Halík sinaliza a tarde enquanto símbolo da maturidade[4] é, com efeito, em tal devir que Augusto se coloca face a face com alguns dos mais fundos dilemas existenciais que o permeiam – e que instigarão, por certo, todo o humano que não desista do radical questionamento de sentido e, assim, de honrar, com tal inquirição, o seu próprio húmus. O assinalar, por via da nomeação dos ditos volumes, do cíclico, de um dia e, nele, qual sinédoque, explicar todo um viver (“o ciclo penoso dos dias”, p.75) e, outrossim, apontar à brevidade da existência com a menção a um dia, nos seus diferentes matizes, podem ser elementos entrevistos naquela opção. Aos 90 anos, num gesto “intempestivo” – sair da actualidade, ganhar distância face aquela, para melhor compreender uma estação -, Augusto regressa, qual rescaldo de Verão, quando tudo ardeu, para um balanço do que foi Milhano, do que representou o campo.
 
4.O mote de Sófocles, na Antígona (e resistir é um recorrente verbo milhanês – por exemplo, p.121), plasmado na abertura de “A alma também morre” – agora tudo desapareceu. Quando vejo a alegria desertar dos homens, já não posso dizer que vivem; para mim são apenas mortos vivos – não deve reconhecer-se, somente, como espelho do melancólico estado de espírito final de um Augusto bruxuleante contemplando as ruínas de Milhano (abandonado), como, se observado e escutado atentamente, se afigura como um dos densos topos com que Augusto e, bem assim, o narrador omnisciente do relato brigantino indagam a condição humana (que permanece e pode, também, ser tomada de uma perspectiva individual) e uma época, a nossa, e o seu lidar (colectivo) com assuntos tão sérios como são a alegria e a diversão: “mesmo assim [tendo Augusto, à semelhança dos seus conterrâneos, que trabalhar da alvorada ao anoitecer, com contados momentos de interrupção, na Milhano de uma substancial parte século XX] e cumprindo-o religiosamente haveria sempre uma hora e muita disposição para descansos e alegrias. Tantas e mesmo tão variadas, que Augusto não compreendia, como agora tão pouco obrando, todos andassem numa agitação constante, sem tempo para procurar, ou simplesmente usufruir de um sóbrio, mas assumido divertimento” (p.109).
No longo diagnóstico da época que vivemos, Byung Chul-Han, em Do desaparecimento dos rituais (Relógio d’Água, 2020), retoma e desenvolve o ponto ensaiado em escritos seus precedentes e que, neste contexto, cremos pertinente evocar: o humano entregue a si mesmo, sem necessitar de outra chibata que não a promessa de um paraíso afluente caso se explore até ao tutano (o empresário de si próprio), não cessa de trabalhar, a ordem é produzir, e essa produção degrada a vida, não a levando suficientemente a sério para nela descortinar qualquer transcendência. O acumular, como ordem, relevará do medo da morte, e da procura de preservar, até ao limite, a vida nua. Vida degradada, também, ao observar-se cada paragem como descanso – para continuar a produzir, para trabalhar bastante no instante imediato a seguir -, não lobrigando aquela enquanto contemplação, fruição, fim em si mesmo, gozo, dom (“o descanso sabático não se segue à criação. Mas antes é apenas o que faz com que a criação seja completada. Sem ele, a criação está incompleta”). Augusto, que em nenhum momento aparenta frequentar redes sociais, não terá, já, ocasião de se adentrar no trabalho, performance, apuro da marca (em permanente actualização) que, não sem excepções é certo, (cada qual) ali, nas redes, (se) expõe sob o regime 24/7[5].
Sem o pauperismo, as dificuldades extremas, a míngua de condições de vida de antanho, na labuta e arduidades do campo (ainda que, e mesmo fisicamente, a nossa temporada produza específicas maleitas que conformam o corpo da terceira década de XXI debruçado ao PC e sentado em permanência), as horas de trabalho não cessam, porém, de crescer, nas sociedades hodiernas, com os avanços tecnológicos, não raramente, a não aproximarem, antes afastando - o digital exponenciando, em vez de mitigar, trabalhos e duração dos mesmos -, os sonhos de Keynes (de 15 horas de trabalho por semana, 3 por dia, por esta altura em que vivemos, suficiente, acreditava, para satisfazer o velho Adão em um momento em que a abundância económica dispensaria as canseiras de outrora)[6]. Em realidade, o digital é susceptível de gerar (na pessoa) uma sensação de saturação, entorpecimento dos sentidos, cansaço, mundo plano, fluir permanente que tentará o humano a maximizar-se, exponenciar-se sem limite (excepto o da própria exaustão), não logrando, portanto, alegria e diversão. Ademais, se há (houve) nos campos a filiação em um modo de vida milenar e um apego a forças e valores que se afastariam (dos) da modernidade, esta, como no-lo lembrará Maria Filomena Molder, para Baudelaire significará o nunca se estar bem em lugar algum, o spleen e a desalquilação, o tédio existencial, a indiferença, a tristeza como modo de negar a confiança – se é certo que é Séneca que terá cunhado a expressão taedium vitae, que a melancolia, bílis negra, nos chegam dos gregos antigos, do mesmo modo que a Idade Média conheceu a acédia monacal, adquiria, aquele torpor, para o poeta francês, uma especial intensidade na modernidade[7].
Amélia, bibliotecária, filha de Augusto, tendo participado em Congresso em Barcelona, queda-se, por uns dias, afastada de Milhano e do pai, ocupada em trabalhos atinentes aquela realização na Catalunha. Possivelmente, elaborando relatórios. A inexpugnável e ilimitada carga burocrática com que tantos, mesmo em profissões que se pretendem ou pretendiam (essencialmente) intelectuais, se encontram assoberbados induz ao maquinal, ao automatizado, à impossibilidade de contactar com a fímbria do nuclear, ao silenciamento do canto e do poético, à negação da recondução a um lugar de alegria. O inefável relatório vem a ser, ao fim e ao cabo, figura-metáfora de temporada na qual, para cada vez mais cidadãos, incluindo, por antonomásia, os professores universitários das Humanidades, não raramente precarizados, o melhor, mesmo enquanto labor, se encontra (e deseja) fora das oficinas, escritórios e gabinetes onde não podem ser, boa parte do dia, senão actores mecânicos[8]. Ou, como intuiu Jorge Gomes Miranda, em “Emoção Artificial”[9], os robôs somos nós.
Assinalarão outros, além disso, que a estagnação do elevador social, maxime em uma classe média que não vê medrar, tanto quanto soía, a sua dedicação a qualificar-se (em carreiras de gratificação mais rarefeita do que as expectativas) que o centramento e devoção ao trabalho conhece as fronteiras (da hora) do expediente e que, na recorrência do lúdico (compensatório) com que se confronta ou atém, uma menor aptidão à alegria do que quando aquele raro era (como sucedida no campo).
Augusto teimava, uma e outra vez, em recordar a importância, em liame que estabelecia, em paradoxo que viver implica, tantas vezes curtida nas dificuldades, da alegria alcançada pelos que partilharam, no mesmo lugar, décadas consigo – “e como mineiros experimentados sabiam, na ganga diversa dos dias e das suas muitas surpresas e desilusões, encontrar sempre o pequeno filão de uma alegria espremida até ao âmago em todos os seus cheiros, gozos e sabores” (p.110) -, exortando, inclusive, em um dos seus diálogos finais (o que não deixa de ser significativo sublinhado), no ocaso da existência, o seu amigo e cúmplice de Milhano, Alcino, a demandar e aferrar-se a ela (enquanto houver alegria, há vida; sem alegria, não se vive): “Por isso não deixes que maus momentos tomem conta dos teus dias. E nunca percas a alegria; sobretudo não te descuides em conquistá-la, qual colheita delicada, em cada hora que passa, pois se não o fizeres, a tua alma vai morrendo” (p.238).
Fernando Gil fala de 3 razões de ser da vida (que são três momentos de desenvolvimento e transmutação do agarrar-se à vida): a) descobrir que a vida é um bem (para F. Gil, trata-se de uma tautologia); b) aspirar a alguma coisa e sentir-se obrigado a outra coisa qualquer (conjunto de aspirações e obrigações que dão forma à vida); c) os direitos. A segunda e a terceira das razões são o desenvolvimento da primeira - que é a mais forte. Aqui, é preciso falar da felicidade e da alegria. Há em todo o desenvolvimento e aspiração, a reivindicação de um direito à procura da felicidade[10]. Felicidade a qual, ruminava, sem embargo, Augusto o humano não atingiria por completo: “como se uma infinda propensão a não atingir a felicidade definisse a própria essência da alma e vida humanas…” (p.166).
 
5. Com grande expressão e extensão no tempo e no espaço, estão aí mudanças recentes, não acomodadas por instituições forjadas e formadas para uma outra era, que ameaçam tornar-se placas tectónicas em colisão (a tensão já se sente): desde o Neolítico, o humano lidara com a natureza, vivera a seu lado, estava no mundo; em larga escala, até meados do século XX, os humanos dedicaram-se à agricultura. Num ápice, este mundo, que estava ligado por mais de 10 mil anos, desaparece, (n)uma daquelas cisões determinantes na compreensão do - de um novo - humano (processo de hominescência, formação de um novo humano; "esta ruptura pode ser um acontecimento que ultrapassa, e de longe, a história vulgar"). A ida para as cidades, a tornar-se hegemónica, concentração até em megalópoles, um fenómeno igualmente novo ("o esgotamento brutal da população rural constitui uma das rupturas mais importantes e mais raras do século"), conduz a uma inaudita e inédita ignorância do mundo. Somos acosmistas - como que vinculados e praticantes de uma teoria filosófica que nega a realidade do mundo sensível. Sejam mais fisicistas, reclama Michel Serres[11]. Não podemos integrar o mundo, se não conhecemos, como hoje sucede, o mundo ("marinheiros e aviadores dirigem-se agora ao GPS, sem estrelas; os próprios astrónomos trabalham diante de um ecrã. Para saber o tempo que faz, já ninguém observa o céu, toda a gente vê a meteorologia na televisão. Acredita-se na bondade da natureza e na indulgência dos tigres"). Para a terra, para o mundo rural, para o campo vêm, agora, os ricos da cidade, com uma segunda casa.
De um mundo onde o patológico era a norma, a saúde passou a ser a regra; nunca a mobilidade, de pessoas, animais, mercadorias se imaginou chegar aos níveis actuais; a esperança média de vida, ainda há pouco mais de um século, na casa dos trinta (e algo), agora, nos países desenvolvidos do Ocidente, na casa dos oitenta (e a cada ano, ganhos de três a seis meses, em esperança média de vida, segundo os peritos). A dor, experiência geral e quotidiana, da qual derivavam também comportamentos e moral, ficou entre parêntesis com antálgicos, analgésicos e anestésicos. Os medium de então não serão, por consequência, os que experimentaremos por estes dias. E outras consequências gráficas: o alistamento voluntário em exército de quem sabia durar pouco vs quem tem uma esperança média de vida muito longa (face a um passado recente) e que vê a própria instituição (militar) com grande cepticismo. Os casais que eram para 15 ou 20 anos e que agora serão para bem mais décadas - ainda que, em rigor, nem a atracção pelo exército, nem o valor fidelidade tenha que estar resolvido ou medido com tais relógios.
E o mundo foi, impressivamente, ignorado a Ocidente. Mas o mundo rebela-se contra o esquema, inventado na Idade Média e desconhecido da Antiguidade, (dicotómico) sujeito-objecto. O senhor (o humano) recebe hoje reverberações, gritos esdrúxulos do escravo (mundo), com este a dominar ou submeter o dito senhor (clima, enxurradas, etc.) que o ignorava/desprezava/desconhecia (atente-se no esvaziamento dos peixes dos oceanos, principal alimento dos pobres). Em vez de cívicos, devemos ser cívitos, implicar a política numa relação a três, não já sujeito vs sujeito, ou sujeito vs sociedade, mas agora impondo-se o mundo numa equação a três que, a ser de disputa, a ser de vitória-derrota, implicará a destruição do humano.
E quem fala pelo mundo? Carecemos dos cientistas (Ciências da terra e da Vida), dos que conhecem, de há muito, o pulsar da terra e da vida; e no entanto, eles não poderão ser os novos aristocratas (e neste caso, tecnocratas), a nova classe que se impõe sobre os demais - sucedendo, historicamente, assim, na teorização de Michel Serres, a sacerdotes ("a religião geriu os homens"), militares ("pretendendo defendê-los [às populações], o exército governou-os e, frequentemente, escravizou-os") e economistas ("a economia começou a reger as suas vidas, por vezes implacavelmente"), as épocas de Júpiter, Marte e Quirino. Tais classes têm lugar, ainda que não em sentido impositivo e hegemónico (na cidade).
Poucas vezes o vocábulo “alma” é usado por Artur Vaz no seu mais recente livro, mas, quando aquele emerge na trama, assegura uma das chaves de leitura necessárias à dilucidação do título do mesmo (“A alma também morre”) e o de tema que atravessa toda a intriga, a saber, o significado do desaparecimento de uma civilização (a civilização do campo). O que civilização significa podemos retirá-lo de descrições/concretizações como as seguintes: “Criaram rebanhos de ovelhas, manadas de bovinos, burros e muares, porcos e galinhas; uns para complemento do pão, vestir e calçar de cada dia, outros auxiliares indispensáveis nos trabalhos e canseiras; todos, companheiros fiéis daquela vida esforçada. Desenvolveram e aperfeiçoaram muitas artes e ofícios complementares a uma economia de pastores e homens de terra: alfaiates, sapateiros, tosadores; boticários, sangradores e barbeiros; artesãos em cobre, barro e vime; artífices da pedra, da madeira e do ferro; entendidas em rezas e mezinhas; parteiras; fadas domésticas de mão cheia em fumeiros, cozinhados, enfeites e crochés; tecelãs de artística precisão e infindas horas em pacientes urdiduras, de linho ou lã. (…) Gente de saberes, valores, usanças, práticas e costumes únicos, transmitidos de geração em geração como um dever sagrado de continuidade (p.108); [Utensílios, alfaias agrícolas que, como o arado de pau, vêm, já, dos Sumérios, há três mil anos] Como ele, Augusto, também privados de alma, e, apesar de tão concretos, não passando de meros fantasmas sem qualquer utilidade ou serventia…(…) Com os campos abandonados e incultos, as árvores tristemente pensativas a definharem, os animais fugitivos, a aldeia solitária de inexistentes habitantes…toda uma civilização e economia, usanças e costumes, simples actos de cultura e diversão, nunca, por mais ninguém, em vidas e trabalhos, utilizados ou simplesmente usufruídos. (…). Por desleixo e incúria haviam sido destruídos ancestrais modos de fazer – fossem em cultivos da terra, domesticação de animais, fabricação de objectos e artefactos, costumes de organizar a vida, jeitos de manter práticas e tradições, ponderadas maneiras de refletindo, assumir responsabilidades e deveres…” (pp.234-236).
A alma de Augusto esvai-se simultaneamente à decrepitude de Milhano; além do casamento harmonioso, e em perpétuo namoro, com Isabel, há quase como que um segundo matrimónio de Augusto, uma identificação completa, uma certa osmose com Milhano, de sorte que se agigantam, Milhano e Augusto, como duas personagens maiores de “A alma também morre”: “perdido todo um mundo e desprezados os valores, crenças e práticas que foram sempre os seus, mortos ou perdidos os amigos de todas as horas…ele próprio estava para além do tempo” (p.236).
Se, em declinando ideologias ou mundividências que estruturaram e motivaram milhões de indivíduos, capazes, em casos bastantes, de por aquelas, no limite, se disponibilizarem a entregar a vida, se compreende o chão que lhes falta ou o abismo que se lhes assoma (em sobrevivendo aos grandes relatos entretanto caídos), assim Augusto, formado na civilização do campo, interrogando-se sobre porque continuar (depois do fim daquela)[12]. A paisagem física de Milhano – em ruínas – acompanha quer o quebranto do corpo, tão bem contado neste livro – “os ossos, enferrujados e sem carne, semelhavam velhas matracas; a vista sempre chorosa, perdendo-se em névoas e negruras; as pernas, pesadas como chumbo, a arrastarem-se num andar sonâmbulo; as mãos loucas, sempre a tremelicarem; o nariz, uma fonte ressumando frias e constantes humidades; a boca de dentes artificiais e paladares apoucados; o peito – os seus pulmões tão frágeis e doridos – num resfolegar que, em crescendo, se rebelava numa tosse aflita, preocupante, quase continuada; estômago, rins, e fígado, por dá cá aquela palha, a rebelarem-se em agudas pontadas e exigências de continuado desconforto, por vezes violência insuportável; enfim o coração, no seu débil batimento, a diluir-se mesmo no cansaço de, muito em breve, se quedar para sempre, exaurido e desistente” (pp.225-226) -, quer a penúria, em horas sombrias, da vontade de prosseguir (vida). Este enumerar de achaques, de todas as formas e feitios, que assaltam, muito frequentemente, o humano no seu declinar de vida tem o adicional mérito de reivindicar o corpo numa altura em que tantos, nos pós-humanismos, dele parecem querer evadir-se (as memórias digitais, como se fossem a própria pessoa, a “comunicarem” pós-mortem, nos Black Mirror[13]…; não temos, mas somos, também, corpo, o que é reclamado, em forte dimensão sensitiva que percorre a narrativa, em “A alma também morre”, recusando-se, por consequência, nela, o dualismo antropológico), da fidelidade à realidade, com o que de sofrimento é composta também e, ao lembrar-nos, em simultâneo, o sorriso salgado a lágrimas de um velho, o convocar da nossa condição trágico-cómica (há um certo lado, ao mesmo tempo, passível do hilariante e do profundamente doloroso no elenco, aliás não raro por parte, até, de quem dele padece, de enfermidades múltiplas), acompanhando a vida até ao seu último instante (o que não deixa, em todo o caso, de ser um canto à mesma). Na descrição, detalhada, das metástases de uma das doenças que cada vez mais prevalece em sociedades com esperança média de vida crescente, Alzheimer (de que padeceu Isabel), podemos, sem embargo, qual parábola, encontrar o próprio esquecimento, tantas vezes recalcado, do campo pelo (demais) país (o Alzheimer do país - face ao campo).
 
6.Estabelecendo diálogo com a tradição e com um genesíaco “e este era o sexto dia debaixo do céu” (p.22; cf. Gn1, 24-26), o narrador de “A alma também morre” apresenta-nos, implicitamente, com tal evocação (subentendida), no dealbar do relato, o Éden de Augusto (Deus viu que tudo era bom – e não faltarão sulcos e animais não humanos para cuidar e fazer prosperar, na perspectiva augusta, e mau grado sabermos de climas adversos e de solos de fecundidade aquém em nosso território), Milhano. Assim no princípio – “apenas na concha limitada por tão bendito céu e pelos horizontes que o sustêm, os dias lhe concediam, como num ventre maternal, a placenta a protegê-lo no jeito de viver e no sonho de, com vontade, um pouco de alegria mesmo, resistir” (p.19) - como no fim da fábula: “[Milhano era] o único local onde encontrava ainda satisfação” (p.225), “a terra dos seus sonhos” (p.246).
Vivendo, praticamente sempre, do nascimento até à cova, em Milhano (“este tinha sido o seu único meio natural”, p.18; “daquele chão nunca tinha saído a não ser em breves viagens de pouca tardança”, p.26), Augusto, em se tendo esquecido de cumprir a promessa feita, em tempos, a Isabel (agora já desaparecida), mais pragmática ela, mais “ambicioso e sonhador” ele, de ali rezar as Trindades, solicita a sua filha, que o havia ido buscar no seu moderno automóvel, o regresso à aldeia natal, acabada de deixar; despede-se, então, o homem de 90 anos, em cena pungente, de certo recorte cinematográfico e de memorável capacidade de transmitir um (potencial universal) sentimento de amor a uma terra/localidade e de captar o mais fundo que a palavra “casa” encerra: “Espinha dorsal, artéria de irrigação do sangue, vida e movimento de todo o centro urbano, à Rua do Meio afluem não só as vielas e becos secundários, como no seu percurso, aqui e ali, se espraiam e definem largos e terreiros – o da Capela, da Fonte Velha, do Lodeiro, da Cruz – até, findo o seu característico empedrado, se perder como simples caminho rural, por entre os olivais de poente. Mas, coroa de glória no centro de toda a quadra, quem sobretudo merece prender aquele olhar de despedida é a igreja assente na murada plataforma do seu adro. Pela assumida elegância do campanário de dois sinos, solene e majestosa em granitos e pináculos trabalhados, desde sempre e por todos os motivos, o mais nobre e celebrado dos edifícios de Milhano.
Nas suas poucas viagens, [Augusto] sempre gostara daquele sítio: à partida, para sentir logo a saudade de um último e demorado olhar; no regresso, para, resolvida a sua pressa ansiosa, se comprazer no satisfeito gozo de um primeiro relance ao céu e à terra dos seus dias” (p.242).
Sem embargo, é justo e fundamental aqui afirmá-lo, se Milhano era o paraíso de Augusto, não é tomada ou descrita como tal pelo narrador - Milhano, o campo, visto, tanto quanto possível, objectivamente, não era (forma de vida que pudesse configurar ou figurar) o paraíso. Ali, vivia-se, aliás, o “ciclo penoso dos dias” (p.75), a “vida era dura e difícil” (p.77), uma agricultura arcaica impunha “penas e trabalhos” (p.145), as sementeiras e respectivas colheitas com grande dificuldade chegavam para alimentar todas as bocas (“nunca o sustento cumprido na perfeição”, p.73), a esperança média de vida beirava os 40 anos (p.155), as dificuldades de vestir e calçar muitas (p.37), as casas destituídas de conforto (p.65), a escolarização muito débil quando existia, o custoso trabalho assumido desde muito precoce idade[14] (“nasciam crianças como cogumelos depois das chuvas do Outono; mas muitas delas não passavam dos primeiros meses (…) [Mesmo os mais rijos] partiam vergados pelas febres, sezões e epidemias, sofrendo feridas não curadas, tétanos e cancros, debilitados por carências e trabalhos – pelas muitas gravidezes e partos sem assistência adequada, as mulheres”, p.155)…Se Artur Vaz dá voz ao pensar e sentir de Augusto (a voz do campo), e ao modo como este se enamora, fervorosamente, de Milhano, nunca o faz, contudo, como vimos de provar, para, utilizando uma expressão de Rui Laje na sua contundente crítica à idealização do campo (seja por alguns dos mais consagrados vultos da literatura portuguesa, seja, ainda, no ensaio político que, no que concerne a tal idealização, irmanou outros nomes marcantes, além-fronteiras, de diferentes e opostas ideologias, do liberal Tocqueville ao socialista Engels), expropriar aldeões, camponeses, agricultores “da sua carne sofrida”[15].
Se, durante muito tempo, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro ou Camões (com os seus “campos deleitosos”), ou, ainda, Eça de Queiroz, com sua Tormes romantizada, ressoaram um campo arcádico, bucólico, locus amoenus, colocando, nos seus escritos, homens e mulheres do campo a falar como “rústicos eloquentes, equipados de sensibilidade palaciana[16], num campo assim tornado puramente artificial, fingido[17], que nada tinha que ver com o campo real, vivido (“o campo empírico foi sonegado às belas-letras[18]), o qual apenas com Raul Brandão (“A aldeia que eu conheço é uma aldeia trágica. A Aldeia de Júlio Dinis nunca existiu[19]) propenderá a principiar a revelar-se em romances e poemas, e se a exaltação do mundo rural, suas normas e vida habitual, o Estado Novo propagandeou como norma (“A ditadura exaltava a «beleza patriarcal» das aldeias, povoadas de rústicos obsequiosos e felizes, gratos por serem pobres, porque serem pobres significava que viviam investidos de autenticidade, bondade e harmonia, numa espécie de Éden agrícola. A pobreza e o trabalho penitencial aprimorava-lhes o carácter[20]), já com os escritores neorrealistas os camponeses, em uma idealização sob outra espécie, emergem, com “qualidades sobre-humanas”, resistindo à opressão dos grandes latifundiários (nomeadamente, no Alentejo): “Mas, ao retratarem os proletários rurais como protagonistas de uma gesta sobre-humana, de uma epopeia telúrica, com o pathos de heróis cerealíferos, sujeitaram-nos a uma idealização de outro tipo”)[21]. De acordo com Rui Laje, autor da primeira antologia poética (do século XIII ao século XXI)  sobre os campos (e de uma já considerável obra poética a eles dedicada), tornando (o irónico título) “Adeus, campos felizes” (Assírio e Alvim, 2025) referência incontornável na problematização (literária e política, sociológica, cultural) dos mesmos (e seu fim – e o país, que foi, em substancial parte, rural, nisso), e sem prejuízo do que, esparsamente, já seguia os reais interstícios da terra, seria, sobretudo, com um transmontano, nordestino e bragançano como Augusto, A.M. Pires Cabral que, em meados dos anos 70, o campo é restituído ao campo - finalmente, “entra em cena o rural quotidiano[22].
Sempre que, na primeira pessoa, reproduzidos são diálogos em “A alma também morre”, observamos que as falas são próprias das vivências do campo – por exemplo, animais que invadiram propriedade alheia e reparo ou reprimenda consequente, por banda do proprietário, a quem os não os tenha contido como devia, tudo dito por palavras breves e simples -, com recurso a termos coloquiais típicos das nas nossas aldeias - “tio Manuel”, ilustremos – e o retrato dos bailes, romarias e seus prolongamentos descritos com notória verosimilhança; idem do patético dos excessos beatos, dos cochichos atribuídos tradicionalmente ao feminino (sobre o qual paira o patriarcal e um certo preconceito deste); da “divisão rígida do trabalho” com a mulher remetida ao doméstico; dos ritmos de sementeiras e colheitas, do almoço especial por uma festa, um feriado, um Domingo; de um crime passional que ocorre uma vez sem exemplo (em lugares onde, por regra, portanto, “não acontece nada”); mesmo a permanência, que neste livro ficcional não é rasurada, de traços antissemitas na nossa linguagem[23] (“poupava mais do que um judeu” (p.94); tendo-lhe ainda, como bom judeu, feito empréstimo de algum dinheiro” (p.193); “o pai de Isabel sorriu com os cálculos do Judeu, porque a casa e o logradouro valiam bem cinquenta ou sessenta mil escudos [e aquele oferecera apenas, por aqueles, 20 contos]” (p.195); da moral sexual prescrita e obedecida à Igreja (sexo só depois do casamento)…com as consabidas escapatórias; da Igreja como testemunha dos principais momentos da existência (nascimento, matrimónio, baptizados, funerais, bênção de dias, refrigério de momentos sombrios); do Seminário como lugar de empoderamento e uma saída para um possível trem de vida mais composto (da descendência), mesmo que não sintonizada, necessariamente, a vocação; da constatação de um campo habitado apenas ao fim de semana ou, então, no Verão por duas dúzias de emigrantes (até a emigração mudou e a terceira geração já não regressa, necessariamente, à terra) ou de um furtivo turista; da sucessiva desertificação do campo – Milhano contava com 524 habitantes em 1900, 630 em 1940, 374 em 1980, 185 em 2001 e 30 em 2011 – e seu envelhecimento (quase todos os seus habitantes tinham feito 70 anos – p.63); da reminiscência de certos provérbios populares (p.107) e canções, numa palavra, da ausência de empertigamento de salão.
É certo que em quem ama, de sobremaneira, o campo, como sucede com Augusto, embebido naquele, o flirt com uma certa deificação das figuras que o preenchem acontece – “os homens e mulheres do seu tempo, cismava Augusto, semelhavam ter consigo a nobreza altiva daqueles deuses e heróis em mármore esculpidos” (p.110) -, mas, em Milhano, diversamente do apontado a um enquadramento com o seu quê de esquemático/doutrinário a alguns autores neorrealistas, as qualidades “sobre-humanas” de seus habitantes não se forjam na miséria absoluta (nenhum natural de Milhano, pesem todos os constrangimentos, será pobre de pedir, dada a solidariedade comunitária obviar a que tal ocorra) ou em conflitos de classe – mesmo que diferenças entre estas, as classes sociais, existam e Augusto se firme Presidente de Junta, em tempos de corporativismo, como respeitado mediador entre elas: “ninguém como ele poderia assegurar campo neutro ao entendimento entre os grandes lavradores e a massa indiferenciada dos que ganhavam o pão de todos os dias, trabalhando sobretudo de assalariados” (p.69).
Enquanto para Rui Laje, na sua subjectividade e história de vida (a de quem passou inteiros verões no campo transmontano, durante a infância/juventude), houve “perda” e “luto” com o fim dos campos, “mas não lamento”[24], já de Augusto vem uma inequívoca acusação: o “eterno sono” dos campos, as ruínas de Milhano, a morte do mundo rural “é um crime”. Ora, uma das questões que talvez seja curial colocar a propósito do seminal ensaio de Rui Laje sobre o campo é esta: se para, se não homenagear, pelo menos, fazer jus à “carne sofrida” dos que habitaram o campo, necessário é desconstruir[25] o “campo deleitoso”, oferecido por (elevadas, mas fantasiosas) lentes e camadas literárias e ideológicas, não se correrá o risco de nele, no campo e na civilização que formou, e, ainda, nos que a habitaram, não se divisarem motivos, crenças, práticas que lhe poderiam sobrevir a benefício dos humanos? Poderão, por outro lado, estas, crenças, práticas, motivos ser completamente autonomizados dos campos (e sua civilização)? O que dizemos com campo é um enclave (físico e psicológico, modo de vida outro) – e, nessa concepção, vindo a desaparecer desde a década de 60, quando Jorge de Sena, em Elogio da vida monástica, descortina que “Hoje, não há mais mundo/de que uma pessoa possa retirar-se./O mundo se retirou de nós” – traduzido por um sistema de pauperismo e miséria, vidas de fome e morte prematura, insalubridade, sons de folclórico (hoje, substituídos por música “pimba”), fé tutelada pela Igreja, mas também mezinhas, famílias de extensa prole e o que hoje designamos, evidentemente, por trabalho infantil? Augusto acreditava que a (auto) contenção, a moderação, a austeridade mesmo – que, podendo advir de uma noção mais tradicional ou adquirir uma feição conservadora, hoje não deixa de ser reivindicada, ainda, por movimentos verdes, críticos de um desenfreado consumismo e desperdício, e do modo como estes (desvios), desde logo, desafiam os ecossistemas, o equilíbrio do planeta – eram virtudes que, ainda que sendo susceptíveis de se encontrarem em outras maneiras de viver, no campo se guindavam a uma segunda pele, mereciam vigência futura – entre a castidade, aquela colocada nas palavras, algo que o homem de 90 anos advogava urgente, serve, também, a crítica à logomaquia ou tagarelice praticada nos infindáveis canais, tubos ou plataformas contemporâneas. A terra - em si mesma e com o sentido de raízes/origens/elemento nuclear da identidade pessoal - e o trabalho vêm a ser valores centrais na pauta axiológica por que se rege Augusto – e que crê serem agora desprezados (“desprezo agora votado à terra e ao trabalho redentor”, p.76). Ora, em A rebelião das elites e a traição à democracia (Relógio d’Água, 2024), Christopher Lasch apontava, já, às elites que, em seu país, não se fincavam em suas comunidades e concidadãos, antes preferindo um cosmopolitismo desenraizado e sem compromisso com a sua pátria – em crítica que terá traços de, e virá a ser apropriada pelo movimento populista (se caracterizado, este, por uma interpretação da realidade assente numa oposição, maniqueísta, entre povo (puro) e elites (corrompidas), uma forma, aliás, de elitismo invertido). Observados, em diversas latitudes, resultados eleitorais sob a lente da geografia interna aos países, a antinomia rural/urbano[26] irromperá como um dos eixos de cisão política mais acentuados em nosso tempo (a dicotomia urbano/rural, quando tomada por desaparecida entre nós, aparenta, de algum modo, pelo menos nas interpretações dos quadros sócio-políticos emergentes, reverberar em diferentes paragens, sempre se notando que o campo, enquanto específica civilização com as características particulares que adquiriu em Portugal, se finou - a questão quanto à (im) pertinência actual do valor “terra” (na apropriação que Augusto faz do vocábulo/conceito) é a de, tomando, até, os estudos pós-eleitorais, em anos recentes, em Portugal do politólogo Pedro Magalhães [no qual o binómico rural/urbano é utilizado, como contendo uma pertinência de leitura do comportamento eleitoral dos cidadãos], o que/como fazer para que o que sobeja do antigo mundo rural não se sinta ignorado, esquecido, por reconhecer, e como representantes na polis, em seus modos de desempenhar os cargos e no lidar com as pessoas, e, muito particularmente, em suas políticas, tornem, aqueles, cidadãos verdadeiramente considerados. Quanto ao valor trabalho, mais presciente do que quanto às horas que trabalharíamos nos idos de 2000, parece ter sido Keynes, no ensaio neste excurso mencionado, Possibilidades económicas dos nossos netos, aludindo à possibilidade de existir uma abundância que em permitindo, de futuro (nosso presente), fazer com que não fosse necessário o trabalho (ou emprego), a maioria dos humanos (como os aristocratas do seu tempo, os quais lhe davam um lampejo do que aí viria), até atendendo a todo o seu caminhar histórico, não aguentaria tal quietude (neste sentido, se justifica o adjectivo “redentor” aposto a “trabalho”, por banda de Augusto; o trabalho, para a maioria dos humanos, redimiria a existência). Em tempo de (explosão da) Inteligência Artificial, e da amplíssima reconfiguração do mercado de trabalho que, com o prorromper daquela, advirá (segundo variados estudos e investigadores), muitos são os que temem tornar-se supérfluos, não apenas do ponto de vista da mera sobrevivência e do garantir do essencial – a taxação dos robôs, o Rendimento Básico Incondicional, a captação de receita para o Estado e a comunidade por via dos dados de que os detentores de redes sociais se apropriam, por exemplo, têm sido propostas políticas para procurar responder ou obviar, também, a essas adivinhadas dificuldades -, mas da realização própria, de um fazer de que não se abdica ou do qual não se lança mão (por só com aqueles se sentir ligado à vida). Em muitos casos, embora não necessariamente, tal significará uma vinculação, muito particular, da identidade pessoal ao trabalho, ou a um concreto trabalho tido como profissão, o que nem todos observam como uma inevitabilidade, na medida em que tal identidade é composta de diversos links que se constituem, ou poderiam constituir-se, como elementos que primam numa apresentação de si mesmo (e numa auto-compreensão de quem/como se é), ou relevar para efeitos do sopesar as atividades que delimitamos – e, nomeadamente, que actividades excluímos – como trabalho e que, potencialmente, importará redimensionar enquanto faina (até porque, já hoje, muitos são os trabalhos apontados como desnecessários, nada produzindo de real ou aportando à comunidade [“empregos de fazer de conta e nada produzir”, p.78], mas mantidos pelo que significam na reivindicação de ocupação profissional paga, em uma sociedade que não deixará de produzir um olhar de ordem moralizante a quem não o alcança; em perspectiva inversa, muitas actividades que constituem humano trabalho não são desse jeito compreendidas ou assumidas consensualmente, nomeadamente por não serem remuneradas -, mas apenas por isso, não deixando, contudo, de labor serem).
A estas qualidades do campo – reitera-se: noutros solos a poderem frutificar, mas naquela sociedade campesina inculcadas com arrimo - somar-se-ia a do compromisso – “assumir responsabilidades e deveres” -, arredio, em certas leituras do humano dos nossos dias, da legião desta centúria, como nunca se consumando, procurando, cada qual, ter todas as janelas abertas sem se cumprir em um limite.
A dicotomia conhecimento/sabedoria, estabelecida pelo narrador do mais recente livro de Artur Vaz, acometendo o segundo dos atributos a Augusto e o primeiro aos academicamente credenciados descendentes (e sendo que a segunda das qualidades, algo expressamente destacado pelo narrador, supera a primeira), pode ser interpretado quer como reverência ao pai (digamos, enquanto instituição), quer como homenagem à singular personalidade de Augusto (distinto dos demais concidadãos da sua comunidade, no olhar filial, ainda que o próprio ancião semelhando aqueles às mais longevas alturas), quer ao facto de este se poder constituir como o mais notável representante do campo (e, se assim for também, então a sabedoria como integrando aquele universo, até porque, mesmo que seja um acontecimento único na história, Augusto se forma em Milhano, e sem Milhano não é, mesmo que os de Milhano não sejam, necessariamente, (todos) sábios): “Conselheiro, pois. Porque, embora muito tenham estudado e aprendido, nenhum dos filhos tinha a sabedoria de vida, pelos longos anos, pelas muitas aflições e no constante reflectir consigo próprio, concedia. Tanto assim, honra lhes seja, quando algum se via em lance a exigir discernimento, ainda recorria ao velho pai. Para uma luz, uma ideia, um rumo a decidir…” (p.148).
 
7.Ainda quanto ao diálogo com a tradição e, em particular, no que concerne à revisitação do grande código da cultura ocidental, parece-nos ser possível notar um certo (divertido) jogo com o leitor, introduzido pelo autor, conhecido apreciador da literatura bíblica, suas diversas traduções, nuances, interpretações quando coloca Augusto a rezar o Pai-Nosso, recorrendo, em certo período desta oração cristã, à expressão “perdoa-nos as nossas dívidas, como nós perdoamos…” (p.183) a qual, sendo interpretação literal do grego (original), presente no Novo Testamento, no Evangelho de Mateus (Mt 6, 9-13), foi mantida por traduções protestantes (como a de João Ferreira de Almeida[27]) ou, outras, que se pretenderam de extracção crítico-histórica e literária (como, na última década, no nosso país, a de Frederico Lourenço[28]), mas não adoptada e perpetuada pela tradição católica (celebrações litúrgicas e comunitárias – e suas declinações em ambientes domésticos) e seu Catecismo (“perdoai-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos…”)[29], traditio em que o Presidente da Junta de Milhano se encontrava inserido (tornando-a, por essa via, menos provável, mesmo que naturalmente não impossível, quanto à sua verosimilhança histórica - diversa, esta, naturalmente, da do gizado jogo literário e do modo como este pode informar e/ou desconcertar, deliberadamente, o leitor menos familiarizado com as candentes questões da exegese). Augusto que, destaque-se, longe das visões mais moralizantes acerca da relação com Deus, aceitava, em si, a existência de um certo lusco-fusco – e da manutenção, do diálogo, nunca finado, com Deus [talvez também por isso grafado com minúscula e maiúscula em diferentes períodos textuais de A alma também morre, quando parecendo corresponder, em casos semelhantes, à menção ao exterior fundamento do sujeito] em todo o caso -, aquilo que, no distinguido Quero que tu sejas! (Paulinas, 2016), Halík analisou como, muitas vezes, artificial divisão/insuficiente ou errada conceptualização/distinção crentes/não crentes[30], antes registando a convivência, simultânea, em diferentes períodos ou momentos (de vida), de/na mesma pessoa, de um crente e de um não crente: “para ser franco, nas suas relações com o Além, Augusto passava por viver com dúvidas, inquietudes e tão poucas certezas. Tendo dias em que a existência de um Ente Supremo e realidades divinas lhe pareciam evidentes perante o assombro e beleza de paisagens, plantas, flores e animais; vendo a insondável e desmedida amplitude de um universo infinito; simplesmente refletindo na imaginativa capacidade de criação do próprio pensamento humano…momentos aconteciam em que uma tal clareza se desvanecia para ficar sozinho com os medos e fantasmas de incredulidades nunca resolvidos” (p.184), bem como se recolhe, por esta ocasião, uma crítica que Augusto, no seu contínuo matutar - que, no caso, ecoa um apontamento de índole nietzschiana - assaca ao cristianismo (tal como o vê encarnado em muitos dos seus próximos): “Tanto mais que a religião – a sua, pois das outras pouco conhecimento tinha e menos ainda cuidava – lhe parecia sobretudo preocupada em sublinhar as dificuldades e agruras da existência. De tanto dizer de remorsos, pecado, sofrimento, expiação, os arautos da mensagem sagrada quase haviam esquecido a paz de espírito, o prazer, a alegria a serem conseguidos, mesmo quando penosos os dias e as circunstâncias de cada um. E os próprios crentes lhe semelhavam sempre mais assumidos em tempo de tristeza, doença, morte, ou sabida precisão” (p.184).
Vindo de se assinalar o humorado do jogo literário por via da tradução bíblica escolhida para compor o quadro de uma prece, podem compulsar-se momentos outros de ironia – “[em carta enviada, do Uruguai, à sua família, tias de Augusto] mendigando muitas notícias da aldeia e de todos os mais próximos. Que, em Montevideu, para elas, nada de importante se passava” (p.32); “pensava mesmo não ter o Criador de todas as coisas dedicado a este mundo e ao bicho homem o tempo e a atenção necessários; porque haviam saído toscos, imperfeitos e dissonantes como tudo” (p.166) – ou hiperbólicos com comparação/metáfora – “bebendo vinho como corgos” (p.29) -, ou a descrição de certos momentos de desejos e entrega dos corpos como que introduzindo ou acendendo, cum grano salis, um sorriso no leitor – o qual guardará imagens como, a propósito da rememoração do que fora Milhano, por parte de Augusto, “lembranças como se fossem sementes” (e principiámos, de resto, por dizer que o exercício deste romance memorialístico podia, no que tange a sopesar o país que foi, em muito, rural[31], lançar, justamente, sementes de futuro).
Retomando o ponto do diálogo mantido, em “A alma também morre”, com a tradição, mas agora no que se refere à tradição literária portuguesa, ao ler este romance memorialístico ocorre-nos poder a obra filiar-se em uma linhagem à qual pertencem obras como as de um Aquilino Ribeiro. E em um dos âmbitos em que tal sucede, somos com José Pacheco Pereira[32] no dizer que, em época de um tão postiço quanto patético, sem horror ao ridículo, patrioteirismo de vão de escada (ou de tik tok) que, como gosma, se cola ao ódio, respeito pela pátria é, para lá do escrupuloso cumprimento das obrigações fiscais com a comunidade, cuidar da língua. Ora, a plêiade de palavras resgatadas ao esquecimento, ostracismo ou ignorância – se os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem, a amplificação desta significa aceder a mais vastos horizontes e, entre eles, subir até ao campo – é um dos aturados e muito valiosos trabalhos de Artur Vaz em “A alma também morre”, desafiando-se o leitor a ser capaz de (re)descobrir palavras como “calfe”, “canada”, “decrua”, “escrínio”, “fenanco”, “romanisco” ou “vima” – ofertando, de resto, o autor, sabendo-nos órfãos do campo, um Glossário a condizer. Falar o campo, trazer até nós o campo, é falar, também, o seu particular dialecto.
 
8.Se o fim dos campos foi “um crime”, como para Augusto o foi, então não surpreende que se procurem causas e réus do mesmo. E Augusto procurou-os – mesmo que o narrador referencie que “Augusto nunca havia entendido com acerto quais teriam sido as causas fundamentais daquele irreversível percurso a caminho do abandono (…) [nomeadamente, por via da saída dos campos dos que se viram compelidos a arribar a outras terras] vergados pela miséria e dificuldades de vida, a maioria; atrás do sonho e da aventura, uns poucos”, p.120)[33]. Quanto às razões e motivos do definhamento de Milhano, Augusto julga que “a primeira e mais nefasta” foi a “ganância” (p.76); depois, a falta de “apego às coisas e amor à terra mãe[34] (p.121); os poderes públicos, as organizações da sociedade e da economia, os próprios cidadãos, com seu descaso, por actos e omissões, haviam levado ao desprezo pelo campo e seu jeito de ser (p.122); em um exercício de auto-crítica, aquele que foi 12 anos Presidente de Junta, reconhecia, por seu turno, o minifúndio (transmontano), o individualismo no retalhar da(s) propriedade(s), a ausência, por tal proceder, de produtividade suficiente, numa altura em que a subsistência não chegava, já, para acenar, sedutoramente, com a aldeia (a falta de conselho de técnicos, engenheiros, ministros, sábios mil, relativamente ao problema da partição de terras, transtornava, também, o autarca por tal ter contribuído para o “suicídio coletivo” (p.123) do campo – e é que “ninguém se suicida sozinho” como ensinam estudiosos da doença mental. Nem, inversamente, o suicídio deixa de ter repercussões colectivas – desde logo, ser pessoa remete à rede de relações com os outros -, uma das mais evidentes, a da desertificação dos campos, o passar a germinar, com a ausência, em centenas de aldeias portuguesas, de vivalma, um combustível que, de sobremaneira, devém em ignição dos sucessivamente mais clamorosos e destruidores incêndios[35].
Entre os pecados que conduziram os campos ao seu termo, o transvio de recursos europeus de finalidades adequadas ao/no campo vem a ter o seu lugar: “florestação de terrenos”, “abuso de espécies fora do usual na zona”; ausência de diversificação destas; chico-espertice dos que receberam cheques da Europa plantando, mas logo abandonando à sua sorte, ao longo do tempo, o que plantaram, condenando as árvores ou frutos à ruína.
Na digressão que decidiu empreender por uma (quimérica) salvação do campo, Augusto reformaria a propriedade, “dando-lhe dimensão e estrutura”; “represaria” para conseguir água suficiente para “cultivos de alguma intensidade”, trataria de “colmeias, conseguindo mel de comprovada excelência”; nos chãos mais férteis procuraria a produção de legumes, frutos e hortícolas; buscaria práticas para que a caça sobrevivesse e fosse capaz de se reproduzir em quantidade; novos soutos de castanheiros surgiriam; modernos olivais pelas planuras mais temperadas integrariam a nova paisagem; sobreiros, carrascos e carvalhos nas zonas mais inóspitas…
 
9.Menção à parte, num livro que, com recurso a analepses e prolepses intercala episódios, acontecimentos, pequenas histórias da aldeia com longas digressões de Augusto, justifica o capítulo (9, volume Madrugada) que, em “A alma também morre”, de Artur Vaz, antigo Governador-Civil do distrito de Vila Real e ex-Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, é dedicado à dimensão mais estritamente política. É que Milhano surge, surpreendentemente, em meados do século XX, em pleno Estado Novo, como um forte, um bastião, um último reduto liberal (político) – em uma autarcia que, em rigor, se evade à tutela de reis, bispos, condes, ministros e outros senhores (p.68). Ainda que muita imperfeita (sem decisões tomadas pela universalidade dos habitantes, muito menos integrando o feminino), a vida democrática local contemplava o Conselho da Aldeia (com cariz outro de horizontalidade do que aquele que associamos às Casas do Povo), onde todos os chefes de família se pronunciavam e deliberavam quanto aos caminhos a seguir por Milhano, contrastando com o modus faciendi do país. É certo que a eleição de Augusto, decidida por amigo médico afeto ao regime, é uma farsa – que decorre em 1958 e faz, evidentemente, pendant com as presidenciais a que Humberto Delgado se candidatou – no retrato histórico que o investigador nos deixa, a ocupação, de habitantes de Milhano, durante alguns anos, como mineiros, em minas de Volfrâmio, durante a segunda guerra mundial, em período de considerável rentabilidade para alguns, na venda aos diversos contendores daquele conflito bélico, sobressai. Mas o novel autarca não apenas conhece as regras da terra que são, no fundo, indiferentes a tais obscuridades (por sanadas, de futuro, pelas decisões comunais), como, de imediato, afirma que a legitimidade que terá, ou não terá, advirá não propriamente da dimensão formal (com que foi alçado ao posto de comando), mas da dimensão material do exercício – do modo como, afinal, em seus mandatos, a vida, as condições de existência dos seus cidadãos, relacionadas com o que um poder público pudesse alcançar, melhorassem – e ver-se-á que tal, a melhoria substancial das condições de vida, vem, mesmo, a ser uma realidade. Audacioso experimento, este, o de uma política proto-democrática, em Milhano, não só porque, como se vem de dizer, se vivia em ditadura no país, mas também porque, estruturalmente e para lá do regime político acabado de mencionar, “o campo português foi anti-liberal[36].
Dito o que se percebe que a ancianidade é, em Milhano, um posto – a palavra de um ancião contava particularmente, como que rompendo o igualitarismo cidadão indiferente à idade, na hora da decisão – e que um ethos comunitarista (que desafia e contraria o liberalismo, em especial contendo uma dada concepção de bem, não se ficando pelo procedimental/justo) se impõe com toda a sua força. Se a benevolência e respeito pela dignidade da pessoa são muito vincados em registos como o de nunca, naquela aldeia, alguém ter sido “denunciado ou proscrito” (por opositor ao regime – p.67) ou, ainda, o facto de se ter em conta, na distribuição dos trabalhos a realizar por todos, “os interesses ou capacidades de cada um” (p.71), qualquer decisão tomada (pelo avançado, democraticamente, para a época) Conselho de Aldeia, porém - e nomeadamente em obrigando, este, em dado dia, a trabalho, por todos, para a comunidade -, não transige com opções individuais que não encarreirem pelo decidido pelos representantes das famílias: “e ai de quem não comparecesse ao dia de trabalho combinado para cuidar do património que não sendo de ninguém, todos tinham direito a usufruir; sobretudo obrigação de bem guardar e manter. Não havia multas, muito menos qualquer sevícia a quem faltasse; mas seria ponto assente fossem os relapsos tidos como párias, indignos de receber ajuda solidária” (p.70).
No balanceamento entre, de uma banda, a coesão social, entreajuda, solidariedade garantida por mas também imposta (obrigada a prover) a todos, primado da comunidade, fidelidade/obediência ao grupo (que se seguia, de resto, à obediência paterna de Augusto, arrancado à cama na alvorada, ainda infante, para começar a aprender um ofício, ou de irmãos mais velhos de seu pai que impunham a condição primogénita para coagir quem era mais novo) e, por outro lado, um (eventual) não obrigar quem, em rigor, foi objecto de decisões em que não participou; respeito, sem mais, pela decisão de cada um; generosidade sem condições para todos, derivada, pura e simplesmente, do facto de serem membros da comunidade, o modo de viver de Milhano pendia para os valores que conformavam o indivíduo ao acatar da decisão dos chefes de família, primando o colectivo (ou o entendido como bem comum) sobre o individual, se quisermos.
Em um tempo, como o nosso, em que o tema das prestações sociais não contributivas, em que ideias como as de um Rendimento Básico Incondicional são colocadas sobre a mesa, muitos tendem a impugnar, no debate público, aquelas soluções, em nome do argumento da reciprocidade (quem recebe, tem que dar algo em troca, consideram, divergindo, assim, da ideia de o facto de se ser pessoa e cidadão de um país justificar, de per se, o recebimento de uma prestação sem condição obrigante de qualquer espécie). Se usássemos de anacronismo – em realidade, não sabemos que Milhano existiria em 2026, altura de mudanças imensas, de toda a ordem, educativas, culturais, económicas, sociais, tecnológicas, políticas, em grande medida tempo de edificação do Estado Social, face ao final da década de 50 do século passado em que os modos de vida de pensar as relações políticas e entre indivíduo e comunidade, e que discernimento das grandes questões do nosso tempo faria – arriscar-se-ia que Milhano propendia à ideia de reciprocidade (embora, reforce-se, sem um determinante constructo, completamente imberbe à data da existência do Conselho de Aldeia, como o do Estado Social, a “Comunidade [local] de Bem-Estar Social” fosse, evidentemente, o único recurso para quem se encontrava em pior situação, tornando a possibilidade de facultativa ser a colaboração mútua, no campo, um provável caminho mais direto para uma mais comum miséria). Do mesmo modo, Augusto, pelos motivos indicados no ponto precedente, tenderia a subscrever as críticas, hoje recorrentes na esfera pública, à falta de acompanhamento, por Bruxelas, dos dinheiros – por descaso, nem sempre, tornados reprodutivos – enviados a países europeus como Portugal e ao “vicio” (de não produzir) que alguns daqueles envelopes financeiros geraram[37].
Diversamente, tomar-se-ia como mais progressista ou esperançoso o asseverar, a jeito de confissão, existencial/política, por parte do narrador omnisciente, que os que melhor vida e mais assisados, face aquilo que os tempos vieram a evidenciar requerer-se para uma mais plena cidadania e melhoramento de condições materiais, se revelaram, em Milhano, foram “não necessariamente os mais ricos, sempre os mais ousados e sonhadores” (p.145) – em particular, os que proporcionaram, quando tal estava longe de ser o óbvio ululante, longeva escolarização e qualificações aos seus, prosperando a família aos mais diversos níveis (económico, social, cultural).
Em uma hipotética aldeia gaulesa ressurecta – quer dizer, o campo, sob novas capas, de volta [de novo, o que dizemos, quando dizemos campo?] -, no final do seu ensaio, Rui Laje apenas retoricamente coloca a hipótese de, fora das efabulações românticas, existir um razoável conjunto de cidadãos, em Portugal, que queira instalar-se num (futuro) reino de troca, fora do Estado e do mercado, em que um acervo de bens e serviços postos em comum. Ainda assim, no limite, e ainda que, com enorme cepticismo e como académica possibilidade, não deixa de, muito vagamente, aludir a insondáveis e putativos recomeços – claro que a Agricultura[38], hoje praticada, em termos percentuais, por muito poucos, na União Europeia é, ainda, susceptível de concitar recursos europeus imensos na PAC (Política Agrícola Comum); todavia, e voltando ao estudo de caso português, a quando da melhoria económica no campo – pelos apoios sociais entretanto criados, pelos enormes desenvolvimentos tecnológicos que vieram a ter condizente reflexo no mundo rural e na agricultura – o que passámos a ter foi “uma agricultura sem agricultores” (pesem excepções, como as de Covas do Barroso, Património Agrícola Mundial, com seus fornos  comunitários, com o uso tradicional dos terrenos, a criação de gado, a água aviada pelo sistema de levadas, reuniões e votações na Casa do Povo)[39].
 
10.Milhano deriva, etimologicamente, da sua alvorada aos mil anos após Cristo – como sustenta Augusto -, ou é denominação que repousa, em última instância, em uma ave que habitava por aquele território e, que por esse motivo, crismou a aldeia – como defendia Amélia (que, sendo bibliotecária, depois do pai ter sido ferreiro e lavrador, enfileirou, pois, na mobilidade social ascendente da geração que sucedeu, na família, a Augusto)? Não se sabe, mas a mera enunciação, nestes termos, do problema, dá a ver a passagem de uma sociedade voltada ao divino a uma outra secularizada (autossuficiente na pretensão científica).
Michel Serres viu, precocemente, que o fim da agricultura como a praticámos durante milénios “abalou a nossa relação com o mundo, com a família, com as religiões e com o ambiente[40]. Seria, nomeadamente, o cristianismo uma realidade ribeirinha, em dificuldades na anomia social das megalópoles?[41]
Augusto encontrava-se, efetivamente, desconcertado com uma agitação sem bússola por parte dos seus semelhantes, dispersos por inúmeras paragens, no rescaldo e cinzas do campo: “Nos velhos tempos a vida era dura e difícil, exigente de energias e esforços inauditos, mas sempre balizada num quadro de princípios por todos aceites de geração em geração (…). Agora parecia todos terem perdido o rumo, não sabendo bem o que fazer” (p.77). Ou, como o filósofo diria, antes sabíamos o caminho à custa da liberdade (o casal não devia separar-se, por exemplo); hoje, somos livres (podemos separar-nos), à custa de não saber o caminho. Segundo o Lipovetsky de A sociedade da decepção – diversamente do de A era do vazio[42] – isto não se faz sem muito recurso a ansiolíticos e fármacos quejandos. Rui Laje continua em busca do sagrado, agora nos conceitos, grávidos de poesia, como “buracos negros”, da Física[43], enquanto László Krasznahorkai lhe chama Beleza (“Penso que, no fundo, perdemos apenas a palavra para isso (…) que (…) sentimos como uma presença. Durante milhares de anos procurámos uma figura, um conceito, uma linguagem capaz de nomear aquilo que pressentíamos. Mais tarde, chegámos à ideia de Deus único. (…) O pensamento moderno afastou-se dessa noção. Só que, ao afastar-se, não encontrou nada capaz de ocupar o seu lugar. E esse é o verdadeiro problema. Enquanto existir um único ser humano sobre a Terra, continuará a existir esse lugar sobre a Terra, continuará a existir esse lugar vazio. O cristianismo chama-lhe Deus. O Islão chama-lhe Deus. As restantes religiões dão-lhe outros nomes. Mas o lugar permanece. O ser humano nunca conseguirá viver apenas da realidade experimental, apenas daquilo que pode medir ou demonstrar. Há dentro de nós um espaço reservado para aquilo que ultrapassa a experiência. A questão é apenas esta: como lhe chamamos? (…) Hoje, se tiver que dar um nome ao transcendente, dou-lhe este: beleza”)[44].
No remanso de Milhano, no letargo gostoso que os seus 90 anos prodigalizavam, Augusto sente nas memórias o derradeiro calor de um resto de um universo que, depois de morto – e só o que, efectivamente, morre pode ressuscitar -, sobrevém no mimo e na resistência que lhe dedicou/edificou (no refrão paulino [1Cor, 13: 4-7], o amor é suporte de tudo – e não é fácil ficar-lhe indiferente).
 

 

Pedro Miranda

 

 



[1] Laje, Rui, “Adeus, Campos Felizes”, Assírio e Alvim, 2025. Cf. In Vaz Pinto, Diogo, O cativeiro sem grades. Outra conversa com Rui Laje: https://www.youtube.com/watch?v=6UdzUuDdXG4&t=4094s, consultado a 20 de Julho de 2026.

[2] A distinção cidade-campo, como Álvaro Domingues tem documentado, finou-se, nas lojas do cidadão presentes nas aldeias, nos serviços de saúde prestados aos idosos em casa nas localidades distantes dos grandes centros, no antigo campo transformado em recreio de fim de semana de citadinos, no barulho ensandecido de motos de água e, até, pasme-se, de sons de tiros que, à falta de pessoas, são instalados nas terras para afugentar os pássaros e troam de minuto a minuto. Cf. Domingues, Álvaro, “Rua da Estrada”, Dafne, 2009. Pontuando o que vimos de dizer, Rui Laje, in Câmara Municipal do Porto, Terrivelmente teimo em adorar a liberdade: Rui Laje, https://www.youtube.com/watch?v=PepRlj1pJvU, consultado a 21 de Julho de 2026. Ademais, o smartphone faz com que a fuga mundi sempre seja uma impossibilidade. Hoje, em Portugal viver-se-á uma condição “pós-traumática” do campo, com a antiga distinção cidade-campo a ser preterida pelo corte interior/litoral. Vivemos numa altura da “cidade genérica”, como lhe chamou o arquitecto Rem Koolhaas. Hoje por hoje, até “o cultivo de terra é agora uma prática digital”. O campo já não se sabe bem o que é, “cenário de experimentações genéticas e agrícolas, com ‘parques’ de ruralidade conservada ou produzida para vender a urbanos nostálgicos” (Guerreiro, António, “Belos são os campos…”, in Ípsilon, Público, 06-03-2026, p.30).

[3] Para um retrato de Lázaro Augusto Vaz por Artur Vaz leia-se a publicação que na sua página deixou em homenagem ao pai: https://www.facebook.com/profile/61583357044058/search/?q=Pai&locale=pt_PT, consultado a 20 de Julho de 2026.

[4] Cf. Halík, Tomás, “A tarde do cristianismo”, Paulinas, 2022.

[5] Crary, Jonathan, “24/7”, Antígona, 2025. Para uma leitura desta obra, https://desinflacionar.blogspot.com/2022/09/a-impertinencia-do-sono.html. Sobre “A sociedade do cansaço”, de Byung Chul-Han, https://desinflacionar.blogspot.com/2022/07/a-sociedade-do-cansaco.html.

[6] Keynes, John Maynard, “Possibilidades económicas dos nossos netos”, in Ensaios sobre Persuasão, Nova Iorque: W.W.Norton & Cia., 1963, pp. 358-373. Vide https://www.geocities.ws/luso_america/KeynesPO.pdf, consultado a 10 de Fevereiro de 2026.

[7] Cf. Molder, Maria Filomena, “Não te esqueças de viver! Com Maria Filomena Molder -“Ó cousas tão vãs, tão mudaves,/Qual é tal coração que”, in https://vimeo.com/154872999, conferência na Culturgest proferida a 8 de Fevereiro de 2016. Vide, da mesma autora, “Três Conferências. Primeira - Lança o teu pão sobre as águas (sobre o qohélet/ecclesiastes)”, Edições do Saguão, 2021.

[8] Zafra, Remedios, “El informe. Trabajo intelectual e tristeza burocrática”, Anagrama, 2024. O livro da escritora e filósofa Remedios Zafra venceu o Prémio Nacional de Ensayo [de Espanha] 2025.

[9] Miranda, Jorge Gomes, “Emoção Artificial”, Gradiva, 2023.

[10] Molder, Maria Filomena, o.c.

[11] Serres, Michel, “Tempo de crises”, Guerra e Paz, 2019.

[12] Aqui, apesar da falta de motivação ou vontade de continuar a viver aludida por Augusto nunca é explicitado, nem caberia na mundividência daquele, a questão do suicídio; todavia, e em realidade, o problema do suicídio na senectude, em Portugal, é drama candente: https://journals.openedition.org/sociologico/12267. Concomitante a ele, a solidão, doenças incuráveis graves, depressão, abandono.

[13] Vide primeiro episódio, segunda temporada, da série Black Mirror, intitulado “Be Right back” [Volto já]. O autor de Black Mirror é Charlie Brooker.

[14] Laje, Rui, “Adeus, campos felizes. Do campo ideal e do campo real na poesia portuguesa”, in “Adeus, campos felizes”, Assírio e Alvim, 2025, p.619: “a pobreza infantil campesina é praticamente inexistente na nossa literatura”.

[15] Ibidem, p.584.

[16] Ibidem.

[17] A écloga ou a pastorela foram específicas formas literárias que resultaram da sublimação do campo.

[18] Ibidem, p.583.

[19] Apud. Rui Laje, o.c., p.592.

[20] Ibidem, p.590.

[21] Ibidem, p.590. Rui Laje, in Câmara Municipal do Porto, Terrivelmente teimo em adorar a liberdade: Rui Laje, https://www.youtube.com/watch?v=PepRlj1pJvU,

consultado a 21 de Julho de 2026.

[22] Ibidem, p.625.

[23] Em “Desvio de memória”, Glaciar, 2025, Pedro Paixão inventaria um conjunto de expressões que permanecem na linguagem popular portuguesa ao longo dos tempos enquanto estereótipos e traços de antissemitismo: “fazer judiarias”, “menino rabino”, “semítico” (ou o uso não descritivo, mas adjectivo pejorativo do próprio termo “judeu”), cf. Pedro Paixão, o.c., p.139.

[24] Pires Cabral, A.M., “Terra Mater”, in Rui laje, “Adeus, campos felizes”, pp.487-488: “Ainda se vê, olhando daqui/deste lugar retalhado de ventos,/a terra mater./Já é só um resíduo de alvoroço,/mas, caramba, ainda dói,/ainda emociona./E ainda chama/com a voz que lhe ficou -/apelo quase mudo, moribundo./ Como que responde às frequentes/retóricas a puxar ao sentimento/com que saudei outrora./Pois bem: terra mater, esquece tudo/quanto te disse em tempos imaturos./Eram tudo versos de má qualidade./Sei hoje, ao cabo da balbúrdia oca/de todas estas décadas perdidas,/que só com a chave do silêncio posso/abrir ainda uma porta no teu corpo de azeite/e penetrar em ti como num templo”.

[25] Parece não ser fácil desbastar a longa fronda de um campo literariamente construído, cujas ressonâncias ecoam direta ou indiretamente, e entrar com os olhos puros, e não contaminados, para o observar tal quale.

[26] A antinomia cidade-campo tem origem, há cerca de 2000 anos, na diatribe contra o homem das cidades no final do canto II, das Geórgicas, de Virgílio. Cf. Rui Laje, “Adeus, Campos felizes”, Assírio e Alvim, 2025, p.606.

[27] Vide, Versão revista e corrigida, e relativamente ao Evangelho de Mateus, Sociedade Bíblica de Portugal: https://www.biblia.pt/biblia/ARC/MAT.6, consultada a 20 de Julho de 2026.

[28] Vide Lourenço, Frederico, Edição Bilíngue, grego e português, “Os quatro Evangelhos”, Quetzal, 2024.

[29] Vide, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2838-2856.

[30] Oferecendo, neste contexto, o seu testemunho, o escritor e ensaísta Rutger Bregman assinala: “Para ser sincero, há muito que perdi o interesse em debates sobre crença versus descrença. E também perdi a certeza do meu ateísmo juvenil. Sim, o teísmo continua a parecer-me improvável. Mas o que antes parecia uma certeza deu lugar a um tipo de agnosticismo mais profundo, que não é indiferença, mas antes admiração perante tudo o que não sabemos, não podemos saber e talvez nem precisemos de saber”, in “Revolução Moral”, Bertrand, 2026, p.83.

[31] Em 1950, a percentagem da população ativa portuguesa empenhada no cultivo da terra era de 44%. Daí que o campo tivesse chegado aos arrabaldes de Lisboa, espaço, este, os arrabaldes, que poderia constituir esse nó górdio da dita indistinção – em muitas estradas para o campo, na paisagem cortante com o que a precedia, também, a juntar aos elementos anteriormente mencionados e que são apontados como tornando impossível a clara fronteira de mundos – e dos quais no poema Arredores, de Nuno Júdice, se dá conta, pois que houve um “tempo em que havia quintas e hortas em Lisboa” e “…nas traseiras do meu prédio, onde as mulheres/das hortas vendiam leite e queijo fresco, às escondidas”, embora, “Hoje, já não sei onde se escondem essas mulheres,/nem há quintas e hortas em Lisboa”, in Rui Laje, “Campos Felizes”, pp.516-517.

[32] Cf. Pereira, José Pacheco, “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua”, Público, 01-11-2025.

[33] Pires Cabral, Rui, “Vila Real”, in Rui Laje, “Adeus Campos Felizes”, p.541: “Às vezes era doloroso viver atrás/das montanhas, pressentíamos a distância do mundo como uma/faca/e usávamos o mesmo gume para dividir entre nós/as enormes tardes de domingo”.

[34] Cabral, António, “Aqui, o homem”, in Rui Laje, “Adeus, Campos felizes”, p.427: “Montes de pedra dura,/gólgotas/onde os geios são escadas!/Venham ver como sobe o desespero/e a esperança, de mãos dadas (…) Nem Baco nem meio Baco!:/Aqui é o homem/que nada há que não suporte/mas suporta e persiste./Aqui é o homem até à morte”.

[35] Os incêndios são motivo de ansiedade, pelo menos, desde o século XVI, altura em que António Ferreira, na sua Écloga IX, põe na boca de um pastor: “vês o mundo que vai? Vês que fogo arde/por tanto campo lá, por tanta serra,/que a nossa cá ameaça?”, apud. Rui Laje, o.c., p.618.

[36] Rui Laje, o.c., p.586.

[37] “A vulnerabilidade do argumento [da ‘maldição dos recursos’, incluindo, neles, os fundos europeus, como vício que faz amolecer e corroer a base económica e institucional, tese defendida por Nuno Palma, em ‘O vício dos fundos europeus’, D. Quixote, 2026] está, porém, no seu contrafactual – a sugestão de que a economia portuguesa teria crescido, ou convergido, mais sem fundos europeus (…)  Não há evidência de que a abolição da política de coesão seja passível de desmantelamento sem com isso pôr em causa os alicerces da União Europeia”, Arroja, Ricardo, “Estamos presos aos fundos europeus”, Público, 17-08-2026, p.7.

[38] Jared Diamond escreveu, em 1987, um desafiador ensaio no qual colocava em causa a perspectiva da agricultura como um progresso face à anterior sociedade de caçadores-recolectores (considerando, esta, a agricultura, “o pior erro na história humana”. Pelo contrário, ao nível da igualdade social e entre sexos, ou, mesmo, quanto à riqueza e diversidade da dieta alimentar, bem como relativamente às horas de ócio, a humanidade ficou a perder. Cf. Diamond, Jared, «The Worst Mistake in the History of Human Race”, Discover Magazine (maio de 1987), consultada, aqui - https://web.cs.ucdavis.edu/~rogaway/classes/188/materials/Diamond-TheWorstMistakeInTheHistoryOfTheHumanRace.pdf -, a 08-08-2026.

[39] Ruela, Rosa, “Barroso. A luta por um modo de vida”, in Visão, nº1744, 06-08 a 12-08-2026, pp.26-37.

[40] Apud. Rui Laje, o.c., 637.

[41] Cf. Clemente, Manuel, “Portugal e os portugueses”, Assírio e Alvim, 2009.

[42] Lipovetsky, Gilles, “A sociedade da decepção”, Edições 70, 2012 e “A era do vazio”, Relógio d’Água, 1989.

[43] “Mas eu, que fui feito para pensar/e não compreender,/adoeço de imaginar enxames de galáxias,/planetas vagabundos e quasares,/negros buracos comedores de luz,/cometas peregrinos,/estrelas de neutrões coalescentes,/acúmulos de gás interestelar,/luas cravejadas de crateras,/escórias da cintura de Kuiper,/astros banidos da nuvem de Ort,/raios gama, energia sombra,/matéria negra, vento solar./Eu pasmo de quem não conhece/esse pasmo inicial,/nem adoece de pensar/o que não se vê”, in Laje, Rui, “Subsídios para uma poética da ciência”, in “Física espiritual. Antologia pessoal”, Assírio e Alvim, 2026, pp.26-27. Nesta inclusão da ciência e, em especial, da Física na poesia, Rui Lage considera-se irmanado com António Gedeão, Vitorino Nemésio ou Manuel António Pina, entendendo este como um potencial caminho a continuar a desbravar no seio da poesia portuguesa, conquanto entre os poetas anglo-saxónico há décadas que recolhe acolhimento. Neste contexto, vale a pena, também, observar da pertinência das palavras de George Steiner, crítico, o qual, destacava que sem o conhecimento dos frutos do acquis científico não haveria humano culto – cf. Ordine, Nuccio, “George Steiner: el huésped incómodo”, Acantilado, 2023.

[44] Krasznahorkai, László, “Se tiver de dar um nome ao transcendente, dou-lhe este: beleza”, entrevista concedida a Isabel Lucas, Ípsilon, Público, 10-07-2026, pp.6-7.




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