IRÃO E JORNALISMO DE GUERRA


De acordo com Ricardo Alexandre, jornalista há décadas, na antena1 (companhia dominical com José Cutileiro), TSF e SicNotícias, devotado às questões de política internacional, autor, entre outros, de “Tudo sobre o Irão” (Ideias de Ler, 2026), ao fim da tarde deste Domingo, no “Entre quem lê”, em Vila Real, o do regime iraniano transfigurou-se desde o início da guerra, nos seguintes termos:

1.Alteração das cadeias de comando: não é, já, uma elite teocrática, mas muito mais uma elite técnica e nacionalista que se encontra à frente dos destinos iranianos;

2.Deu-se uma profunda descentralização das tomadas de decisão – agora realizadas, muito, em âmbitos regionais;

3.Foram nomeadas equipas de engenharia, alocadas a todo o território, para responder, de modo imediato, à danificação de estruturas cruciais do país.

A forma de preparar a defesa do país alterou-se também, o controlo do estreito de Ormuz e ataques a interesses estratégicos e militares de outros países da região do Golfo procuraram condicionar a relação daqueles com os EUA. Nos primeiros dias da ofensiva norte-americana e israelita, houve muitos iranianos que saíram às varandas e olhavam os ataques aos serviços secretos, prisões tenebrosas do regime iraniano e objectivos militares como potencialmente benignas, mas a destruição de infra-estruturas civis, como escolas, e a morte precoce de mais de mil iranianos (entre os quais, crianças em escola) logo mudou o lado mais esperançado dos cidadãos daquele país.

Com a recente venda, dos EUA a Israel, de 40 mil bombas, de 1 tonelada cada, Ricardo Alexandre, que esteve duas vezes no Irão, em 2005 e 2015, e que para o livro que já estava pronto no momento em que eclodiu o novo conflito (um livro para o qual entrevistou vários iranianos a viver no Irão, iranianos a viver em Portugal, especialistas que viveram muitos anos e conhecem muito bem o Irão, peritos de política internacional…com a limitação de, desta vez, não ter conseguido estar no terreno; as novas tecnologias permitem que mesmo à distância se consiga conversar com cidadãos de outros países, mas sem colocar os pés no terreno o que sucede é que vemos permanentemente as mesmas imagens em diferentes canais, o que significa que uma cadeia de televisão ou agência já configurou um contexto, uma interpretação, um modo de ler um conflito), vê com grande cepticismo a ideia de que a paz esteja próxima, mesmo após as eleições intercalares de Novembro, nos EUA.

4.No diálogo com o jornalista Miguel Carvalho, que moderou uma sessão com cerca de meia centena de cidadãos na plateia, Ricardo Alexandre evocou memórias da cobertura de guerras e de períodos eleitorais, em diferentes países, ao longo dos seus 36 anos como jornalista (nos quais visitou 36 países). Se, depois da crise pós-2008, o envio de jornalistas a cobrir, in loco, a realidade pelo mundo, em Portugal, como quem lê jornais bem sabe, ficou muito rarefeita (a guerra de agressão à Ucrânia, por ser em solo europeu, com uma CNN Portugal que mobilizará grandes recursos e que, depois de um arranque com audiências prometedoras, havia vindo a decair na fidelidade do telespectador, teve um efeito de “arrastamento” das demais concorrentes, num raro momento de mobilização de jornalistas portugueses para o exterior na última década e meia), o auge inverso aconteceu em meados da década de 1990. Em 1996, em Sarajevo encontravam-se mais de 20 jornalistas portugueses face a 4 ou 5 espanhóis. O facto de estarem, então, no terreno, militares portugueses pela primeira vez desde as guerras de África terá justificado a aposta dos diferentes media nacionais, destacou o também professor universitário de jornalismo. Ricardo Alexandre estaria 7 meses na Bósnia, com casa arrendada e automóvel alugado em permanência.

Foram tempos – sempre com mais meios no “público” do que no “privado” (as grandes cadeias de televisão mundial, em qualquer caso, têm recursos, inclusive, para contratar segurança privada “local”) – em que era possível cobrir umas eleições no Montenegro (600 mil habitantes) ou um conflito de uma milícia separatista na Sérvia (“ninguém vai para uma guerra com uma arma apontada à cabeça” por um diretor; os jornalistas que vão, fazem-no por livre vontade). Aquele que foi diretor-adjunto na antena1 e na TSF, licenciado em Sociologia e com doutoramento em Ciência Política, entrevistaria Rodovan Karadzic quando sobre este impendia, já, um conjunto de acusações por violação dos direitos humanos e estava proibido de aparecer no espaço público.

[curiosidade local: o pai de Ricardo Alexandre era natural da (nossa) Vila Nova (Folhadela) e aos 14 anos, em virtude de um clima “opressor” em casa, foi para o Porto. Na noite anterior à sessão deste Domingo à tarde, com a lupa de sociólogo e enquanto “observador participante”, munido de um sorriso, Ricardo Alexandre sentou-se no Pioledo a ver jovens a divertirem-se por entre “shots, baldes de cerveja e música intragável, como os jovens por todo o mundo”]



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