OS LIVROS, OS LIVROS

 

1.Se há método na loucura do precário arranjo, no aquietamento do volume mais recente, na biblioteca ilimitada do bibliófilo, à beira de derramar-se para a rua, já a solução de certo pragmatismo norte-americano repugna não apenas à devoção ao livro, e ao esmero romântico na conservação naquele colocada, como à própria civilidade. Conta Manuel Alberto Valente, em “O outro lado dos livros” (Quetzal, 2025), que não é inabitual entre os norte-americanos arrancar a um livro as páginas que se vão lendo, diminuindo, literalmente, o peso do mesmo e, bem assim, reduzindo as necessidades de espaço a que entregá-lo. Se sublinhar um tomo a tinta (de esferográfica) era, e bem, para Vasco Pulido Valente, uma falta de educação, imagine-se o que diria o historiador acerca de tão primitiva prática.

2.Em se acomodando o tempo, e múltiplos dos seus intérpretes, aos ditames da quantidade e do gosto duvidoso, sempre carente de agradar à turba, perdendo critério e autoridade, sabe bem ler, por contraponto, o gesto soberano do mítico editor italiano Giulio Einaudi: nas reuniões com os seus comités editoriais proibia que se falasse do público. Reconhecendo a questão como nó górdio do mundo editorial, Manuel Alberto Valente, décadas acometido à edição, na Asa e na Porto Editora, assinala: “quando os autores deixaram de ser o centro e esse centro foi ocupado pelo leitor, começou o declínio da edição literária”. Em um balanço de um percurso, o também poeta faz, até, neste âmbito, mea culpa: “Em vez de «guiar» o leitor, muitos editores deixaram-se guiar por ele, obedecendo às leis do mercado e esquecendo a função cultural que o acto de editar deveria ter. Não lavo as mãos, como Pilatos; embora resistindo, eu próprio fui muitas vezes cúmplice desse processo. Em determinado momento, cunhei a frase ‘é preciso publicar o que dá para poder publicar o que não dá’. Só que depois chegou a altura da pergunta fatal: «Mas se não dá, por que razão se publica?». Começou aí a agonia do editor «clássico», acabou aí a função cultural da edição”.
Este posicionamento face ao público está, aliás, na cultura hoje predominante, bem o sabemos, longe de circunscrever-se à dimensão literária. O filósofo político Daniel Innerarity tem assinalado, a meu ver com acerto, que a debilidade de muitos políticos não está tanto na alegada distância face ao povo, mas, bem mais, num excesso de proximidade. Para se estar à altura da exigência de um tempo é necessário, seguramente, um certo recuo e distância (face ao mesmo), ser capaz de remar o caminho da convicção - e não seguir, e não sem científica monitorização inclusive, o que, num dado instante, é mais popular. Os maiores foram (aqueles) capazes de configurar e não apenas ser eco de uma vozearia.

3.Manuel Alberto Valente, na reunião dada à estampa das suas crónicas no “Expresso” (publicadas entre 2021 e 2023), conta, a partir da experiência do seu ofício, curiosas aventuras e desventuras com/de personalidades do mundo literário. Sobretudo, a partir dos anos 80, altura em que não era raro em Portugal editoras publicarem autores e livros internacionais sem o conhecimento e o consentimento dos respectivos autores (e editoras originais). Na primeira visita a Portugal, John Le Carré encontra-se, no Jardim do Príncipe Real, num dos bancos que ficam debaixo do centenário cedro-do-buçaco, com Agostinho da Silva. E, ilustrando-se como, em diversas ocasiões, porosidades há entre biografia e obra literária, em 1989, em ‘A casa da Rússia’, Le Carré escreverá: “Era uma árvore enorme, pela sua sombra a mais procurada daquele jardim público perto do rio. Estive por várias vezes sob essa árvore, sentado ou não, admirando o nascer do Sol sobre o porto, com a gabardina cinzenta cheia de lágrimas de orvalho. Por vezes, durante o dia, pude ouvir, sem nada compreender, os discursos de um velho místico com rosto de santo que aí gosta de receber os seus discípulos. Discípulos de todas as idades. Chamam-lhe o Professor”.
Do ego forte ao reconhecimento de uma proximidade que falta ao salão, aproximações à pessoa do escritor: Eugénio de Andrade ofertando, a M.A. Valente, um bilhete, já utilizado, de eléctrico (cujo valor estaria em ter sido usado pelo ofertante…), Félix de Azua ficando, muito contente, no sofá-cama do editor, conversando em pijama e tomando o pequeno-almoço em conjunto com o núcleo familiar (daquele), grato por um calor e atenção que os protocolos habituais descuidam.

4.Enquanto, em 1994, Manuel Alberto Valente dizia, em entrevista ao suplemento literário do “Público”, que as tiragens andavam, então, pelos 3000 livros em obras de ficção e 2500 quando se tratava de livros de não-ficção, hoje, regista, as tiragens, com excepções, são bem inferiores (1000/1500 exemplares). O autor recorda, nesta colectânea, um estudo, promovido, conjuntamente, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, segundo o qual, em 2021, 61% dos portugueses não leram um único livro – diferentemente, por exemplo, do verificado em Espanha (38%) e em França (apenas 8% haviam declarado não ter lido qualquer livro naquele ano). Neste contexto são diretamente questionadas/interpeladas diferentes instituições – da família à escola, do deixar de ler em voz alta às crianças, ao deslumbramento tecnológico – e o que daqui resulta quanto ao mundo interior, ao mundo espiritual que cada um (e o país como um todo) habita(m) (ou deixam de habitar). Se, actualmente, a preocupação, por exemplo, com o que se ingere, na alimentação, ou com o treino em ginásio alcança legião (embora nunca suficiente, segundo os estudiosos da matéria, pese estes últimos centros estarem lotados, em permanência, e a sua multiplicação exponencial), já o cuidado com o cultivo do espírito adquire manifesto desdém.

5.Outro dos traços de época, na sua avidez omnívora, passa por não permitir o aturado ruminar e elaborar acerca de um ponto que seja. No caso dos livros, regista Manuel Alberto Valente, um editor é confrontado, de manhã, com um email, remetendo-o a um livro cuja leitura e decisão sobre a publicação por banda da editora – antes que as concorrentes venham a apoderar-se do título e, quiçá, da rarefeita galinha dos ovos de ouro – é para a tarde desse dia. Sendo certo que crer-se que um editor leu todos os livros que publicou não passa de puerilidade (aquela leitura integral é um mito). Qualificação a qual não se ajusta à objectiva factualidade de tradutores, ao longo de anos, serem mal pagos, o que levou uns quantos a colocarem “notas a propósito de tudo, para acrescentar uns patacos”: “num determinado romance em que aparecia a palavra Paris, [o tradutor] não se coibiu de colocar uma extensa nota, dizendo que Paris era a capital de França, tinha uma área de X quilómetros quadrados e uma população de não sei quantos milhões”. Bastante comedido, porém, este último, quando comparado com um seu (pretenso) congénere: “Quando a tradução ficou pronta, deparámo-nos, porém, com um facto insólito: o trabalho tinha praticamente o dobro das páginas do original francês. (…) Numa passagem em que Chamoiseau escrevia, num francês perfeitamente normal, qualquer coisa como «fulano ia a sair de casa quando escorregou e caiu», o tradutor escrevia: «Quando fulano, apressado, ia a sair de casa escorregou e, dando duas voltas no ar quente da manhã, estatelou-se ao comprido no empedrado ainda molhado pela chuva da noite anterior»”.

Boa semana.

Pedro Miranda

P.S.: Em “O outro lado dos livros”, além do génio duro de Torga, Manuel Alberto Valente refere o médico, vilarealense de adopção, Jorge Ginja, a forte amizade deste com Mário Viegas, e as bobines gravadas com o exímio diseur a dar voz aos poemas selecionados pelo homem da medicina (e da cultura) a caminho de África, ao tempo da guerra colonial.



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