OS LIVROS, OS LIVROS
1.Se
há método na loucura do precário arranjo, no aquietamento do volume mais
recente, na biblioteca ilimitada do bibliófilo, à beira de derramar-se para a
rua, já a solução de certo pragmatismo norte-americano repugna não apenas à devoção
ao livro, e ao esmero romântico na conservação naquele colocada, como à própria
civilidade. Conta Manuel Alberto Valente,
em “O outro lado dos livros” (Quetzal,
2025), que não é inabitual entre os
norte-americanos arrancar a um livro as páginas que se vão lendo,
diminuindo, literalmente, o peso do mesmo e, bem assim, reduzindo as
necessidades de espaço a que entregá-lo. Se sublinhar um tomo a tinta (de
esferográfica) era, e bem, para Vasco
Pulido Valente, uma falta de educação, imagine-se o que diria o historiador
acerca de tão primitiva prática.
3.Manuel Alberto Valente, na reunião dada à estampa das suas crónicas no “Expresso” (publicadas entre 2021 e 2023), conta, a partir da experiência do seu ofício, curiosas aventuras e desventuras com/de personalidades do mundo literário. Sobretudo, a partir dos anos 80, altura em que não era raro em Portugal editoras publicarem autores e livros internacionais sem o conhecimento e o consentimento dos respectivos autores (e editoras originais). Na primeira visita a Portugal, John Le Carré encontra-se, no Jardim do Príncipe Real, num dos bancos que ficam debaixo do centenário cedro-do-buçaco, com Agostinho da Silva. E, ilustrando-se como, em diversas ocasiões, porosidades há entre biografia e obra literária, em 1989, em ‘A casa da Rússia’, Le Carré escreverá: “Era uma árvore enorme, pela sua sombra a mais procurada daquele jardim público perto do rio. Estive por várias vezes sob essa árvore, sentado ou não, admirando o nascer do Sol sobre o porto, com a gabardina cinzenta cheia de lágrimas de orvalho. Por vezes, durante o dia, pude ouvir, sem nada compreender, os discursos de um velho místico com rosto de santo que aí gosta de receber os seus discípulos. Discípulos de todas as idades. Chamam-lhe o Professor”.
4.Enquanto, em 1994, Manuel Alberto Valente dizia, em entrevista ao suplemento literário do “Público”, que as tiragens andavam, então, pelos 3000 livros em obras de ficção e 2500 quando se tratava de livros de não-ficção, hoje, regista, as tiragens, com excepções, são bem inferiores (1000/1500 exemplares). O autor recorda, nesta colectânea, um estudo, promovido, conjuntamente, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, segundo o qual, em 2021, 61% dos portugueses não leram um único livro – diferentemente, por exemplo, do verificado em Espanha (38%) e em França (apenas 8% haviam declarado não ter lido qualquer livro naquele ano). Neste contexto são diretamente questionadas/interpeladas diferentes instituições – da família à escola, do deixar de ler em voz alta às crianças, ao deslumbramento tecnológico – e o que daqui resulta quanto ao mundo interior, ao mundo espiritual que cada um (e o país como um todo) habita(m) (ou deixam de habitar). Se, actualmente, a preocupação, por exemplo, com o que se ingere, na alimentação, ou com o treino em ginásio alcança legião (embora nunca suficiente, segundo os estudiosos da matéria, pese estes últimos centros estarem lotados, em permanência, e a sua multiplicação exponencial), já o cuidado com o cultivo do espírito adquire manifesto desdém.
5.Outro dos traços de época, na sua avidez omnívora, passa por não permitir o aturado ruminar e elaborar acerca de um ponto que seja. No caso dos livros, regista Manuel Alberto Valente, um editor é confrontado, de manhã, com um email, remetendo-o a um livro cuja leitura e decisão sobre a publicação por banda da editora – antes que as concorrentes venham a apoderar-se do título e, quiçá, da rarefeita galinha dos ovos de ouro – é para a tarde desse dia. Sendo certo que crer-se que um editor leu todos os livros que publicou não passa de puerilidade (aquela leitura integral é um mito). Qualificação a qual não se ajusta à objectiva factualidade de tradutores, ao longo de anos, serem mal pagos, o que levou uns quantos a colocarem “notas a propósito de tudo, para acrescentar uns patacos”: “num determinado romance em que aparecia a palavra Paris, [o tradutor] não se coibiu de colocar uma extensa nota, dizendo que Paris era a capital de França, tinha uma área de X quilómetros quadrados e uma população de não sei quantos milhões”. Bastante comedido, porém, este último, quando comparado com um seu (pretenso) congénere: “Quando a tradução ficou pronta, deparámo-nos, porém, com um facto insólito: o trabalho tinha praticamente o dobro das páginas do original francês. (…) Numa passagem em que Chamoiseau escrevia, num francês perfeitamente normal, qualquer coisa como «fulano ia a sair de casa quando escorregou e caiu», o tradutor escrevia: «Quando fulano, apressado, ia a sair de casa escorregou e, dando duas voltas no ar quente da manhã, estatelou-se ao comprido no empedrado ainda molhado pela chuva da noite anterior»”.
Boa semana.
Pedro Miranda
P.S.: Em “O outro lado dos livros”, além do génio duro de Torga, Manuel Alberto Valente refere o médico, vilarealense de adopção, Jorge Ginja, a forte amizade deste com Mário Viegas, e as bobines gravadas com o exímio diseur a dar voz aos poemas selecionados pelo homem da medicina (e da cultura) a caminho de África, ao tempo da guerra colonial.
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