RELICÁRIO
Teatro Nacional de São João repleto, na noite de ontem, para assistir à ópera-bufa "Relicário Perpétuo" - inserida, ainda, na celebração dos 500 anos de Camões - com música de Luís Tinoco, direcção musical de Joana Carneiro, libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas.
"É um dos problemas que o 'Relicário' põe: o que é que se pretende? Que Camões faça parte do Relicário ou do Cânone? Provavelmente, é uma simplificação, mas Cânone soa a regra viva, Relicário, a devoção retórica. O Cânone devia significar que Camões está vivo porque é lido e não porque está morto e ressequido, visitado em romagem de saudade. Se está vivo, não há saudade nenhuma" (Luísa Costa Gomes)
"A partitura é também um Relicário de soluções e de articulações musicais. Se eu estivesse a fazer uma peça puramente instrumental, sem qualquer texto associado ou elemento teatral extramusical, não iria talvez pegar em algumas relíquias que transportei para esta partitura: do flamenco a Vicente Lusitano, Damião de Góis, vilancicos anónimos, samba do Brasil, música tradicional portuguesa, folclore...(...) Estamos a falar de uma coisa que não é ópera pura: é ópera-teatro, ou teatro-ópera" (Luís Tinoco)
"A valorização da palavra é fundamental, até pelos termos que já não se usam, ou que usas de forma humorística, as línguas inventadas ou misturadas" (Nuno Carinhas)
Da Cena II: "É o presente que fabrica o passado?"
Da Cena V: "O que terá valor no futuro? Ou guardamos apenas o que tem valor para nós no presente, deixando às gerações futuras o poder de o inumar?"
"Uma ópera plurilíngue, onde se podem ouvir vários idiomas inusitados, desde o papiamentu, língua hoje falada nas Antilhas holandesas, e que tem o português na base, ao negrillo, ainda mais surpreendente pela sua origem.

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