'ANATOMIA DO ESTADO DO MUNDO'
Nicole
Gnesotto [NG]: Mas a verdadeira surpresa foi a aliança entre Donald Trump e os
multimilionários da tecnologia que estavam por detrás dele, e que eram
praticamente todos. É isso que distingue esta eleição da primeira, em 2016.
Quando foi eleito pela primeira vez, Trump era um homem quase só, eleito quase
por acaso. Da segunda vez, tratou-se de algo bem pensado, preparado desde há
muito por toda uma série de ideólogos,
é um conjunto muito heterogéneo, mas
todos estão convencidos de que a
democracia já não corresponde aos seus interesses. São essas pessoas que, a
meu ver, estão por detrás da vitória de Trump.
Manuel
Maria Carrilho [MMC]: Todos eles acusam a democracia de ser um
“empecilho” à liberdade, eles concebem a
liberdade e a democracia como incompatíveis, Peter Thiel afirma-o há muito, claramente.
NG: É
isso, Peter Thiel afirmou: “Não acredito
que a liberdade e a democracia sejam compatíveis.” (…). Existia nos Estados
Unidos um forte movimento contrarrevolucionário, por assim dizer, conduzido por
estes multimilionários da tecnologia. (…) A Heritage
Foundation, por exemplo, é há muito um dos think tanks mais à direita nos EUA, e tinha estabelecido um
programa de governo no qual Donald Trump
viria a inspirar-se amplamente depois de eleito. (…)
MMC:
Penso que as singularidades, as
idiossincrasias de Trump têm uma
função especificamente política, e sem dúvida também consequências políticas
(…) se tivermos em conta que hoje vivemos, globalmente, completamente imersos
numa sociedade do espetáculo.
NG:
Bom, o que eu não creio é que Trump
tenha um pensamento político coerente, nem uma visão do mundo consistente. Tem instintos, interesses financeiros muito
fortes, vive numa espécie de delirante embriaguez de poder. Mas por detrás dele encontra-se todo um sistema
reacionário, convencido de que, por um lado, a democracia já não convém aos
Estados Unidos e, por outro lado, de que é necessária uma liberdade económica,
de investimento e de inovação absolutamente total, apoiada na tecnologia e
acompanhada, se possível, da máxima supressão de controlo estatal. O que estas
pessoas querem é que o Estado, federal nos EUA, mas também na União Europeia,
na Europa, deixe de se intrometer nos seus negócios.
MMC:
Que o Estado fique nas suas mãos, mas não que deixe de existir, como por vezes
muito erradamente se diz. É da apropriação privada do Estado que, na verdade,
se trata (…)
NG: É verdade que todos os Presidentes dos EUA
sempre tiveram multimilionários por detrás de si, financiando as suas campanhas
e defendendo os seus pontos de vista. Sempre foi assim e é cada vez mais abertamente. Mas nada que se compare com o que se passa
agora, em que os multimilionários da tecnologia não criam uma tecnologia
destinada a produzir automóveis, computadores ou petróleo, criam uma tecnologia
destinada a modelar o cérebro dos utilizadores. Por outras palavras, é a
primeira vez que temos multimilionários com instrumentos nas mãos capazes de
modificar a sociedade. É nesse sentido que digo que as palavras que usamos já
não são adequadas: os acontecimentos ultrapassaram-nos de tal modo que a
ciência política não consegue encontrar os termos certos. Há, contudo, algo de fascista na abordagem
de todos estes multimilionários: a vontade de criar um homem novo, um homem
novo completamente descerebrado.
MMC:
Penso que se pode ver na vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de
novembro de 2024 uma consagração com duas facetas: por um lado, a do colapso do político como espaço de
deliberação assente no debate de ideias sobre a vida das pessoas, das suas
dificuldades, esperanças, etc. E, por outro lado, a do apogeu da política como espetáculo, num amplo espectro que pode ir do
entretenimento mais banal à exibição mais grotesca. E Trump incarnou esta dupla
e aparentemente paradoxal consagração.
NG:
durante o exercício da Presidência, passou a haver muito mais espetáculo do que
debate. Tem razão: o debate foi não só
afastado, mas condenado. Hoje, Trump não hesita em pedir a certas instituições
que despeçam este ou aquele jornalista, ou este ou aquele juiz, por não
corresponderem à sua visão do mundo. Está de tal modo contra o debate que
passou a defender a censura. Vimo-lo na sua atitude perante as universidades
e vemos o mesmo em relação a certos jornais. É um homem tomado por uma espécie
de loucura, por uma megalomania absolutamente desmedida. Falava-me há pouco desta
ideia, e creio que tem toda a razão: é
preciso oferecer todos os dias um espetáculo, como aconteceu em Roma. Os
romanos precisavam de pão e circo, Trump é, ele próprio, o circo, o espetáculo
quotidiano que oferece à plebe americana. E é assim que a conquista.
MMC:
Vi um comício dele, durante o verão de 2024, em que, a certa altura, ele dizia
qualquer coisa como: “Dizem que me contradigo todo o tempo, que tanto digo uma coisa
como outra bem diferente, etc. Pois bem, o que eu faço é ‘to weave’, ora digo
uma coisa, depois insinuo outra, afasto-me, ando à volta do assunto, faço
pausas, misturo assuntos sem nexo, depois volto ao ponto inicial, mas dizendo
outras coisas... É esse, verdadeiramente, o meu talento político.”
NG
– To weave?
MMC
– Sim, é um verbo que pode significar ziguezaguear, vaguear, tecer, urdir...Creio
que de facto isso corresponde ao modo como Trump conseguiu anestesiar as
pessoas. É algo próximo daquilo a que chamo “impensar”, um impensar como
atividade, como verbo, não se trata de uma passividade, mas de uma atividade sui
generis, em que as pessoas se encontram sob o impacto, sob a pressão, de um
novo tipo de espetáculo que as atordoa. Foi a isso que o filósofo italiano
Andrea Colamedici chamou “hipnocracia”: um dispositivo que, mobilizando os
média, as redes sociais, as plataformas digitais, etc., faz convergir tudo isso
numa nova forma de poder. Eu subscrevo esta ideia, mais, penso que Trump foi o primeiro
hipnocrata...
NG:
Seja como for, penso que a sua aura, essa espécie de capacidade que possui, tem
diminuído com os seus fracassos. Porque, quando observamos a realidade,
fracassou em toda a parte: não conseguiu a Gronelândia, o Canadá resiste, no Irão
é um fracasso total. Em Gaza, que queria transformar numa Riviera, é mais do
que um fracasso: é uma tragédia abominável. E, na China, foi tratado como uma
criança. Tem, portanto, muitos fracassos no plano internacional, que têm
consequências nacionais...
(…)
NG: Desde 2021, aumentámos em 70% as despesas
militares, estamos agora nos 454 mil milhões de dólares em defesa para os
países da UE, à frente da China e da Rússia. (…) A globalização criou uma integração económica, comercial e financeira
máxima, mas também uma desintegração política máxima. (…) No plano político, Donald Trump faz avançar
uma sociedade autoritária. Nós continuamos inseridos na democracia liberal,
ainda que haja extrema-direita um pouco por toda a parte. Mas a cultura
política europeia é a democracia; a cultura política americana, hoje, é o
autoritarismo. (…) Por que razão as
classes médias votam em Trump, votam na AfD na Alemanha, votam em Marine Le Pen
em França e votam também, no seu país, num movimento de extrema-direita?
(…) desde a II Guerra Mundial,
[tínhamos] a impressão de viver melhor do que os pais e de assegurar aos filhos
um futuro melhor do que aquele que conhecera. E era verdade, mas isso inverteu-se.
MMC:
Trata-se de saber se não estaremos perante uma contradição, e uma contradição
cada vez mais evidente, entre a exigência de crescimento – de que se faz depender
a solução de quase todos os problemas… – e os limites desse mesmo crescimento,
bem evidentes nos últimos tempos em tudo o que se refere às alterações
climáticas...
NG: Fico sempre muito surpreendida quando
ouvimos as previsões de crescimento na Europa. A OCDE e as instituições europeias
fazem todos os anos previsões de crescimento e, hoje, toda a gente diz: “Meu
Deus, é dramático, o crescimento está nos 1,1%.” Em França, talvez nem
cheguemos lá; teremos 0,9% de crescimento. Como se esperássemos sempre
regressar aos valores de crescimento de 5% ou 6% dos anos 50, 60 do século
passado.
MMC: Sim, é surpreendente, ignora-se como isso
foi excecional, mais, que é algo certamente irrepetível, que se deveu à
convergência de fatores como o Plano
Marshall, a imensa reconstrução da Europa, a urbanização, a
industrialização, a emancipação feminina...Bom, com tudo isso e ao mesmo tempo,
está bem, assim foi possível chegar-se aos 5%, 6%...
NG:
Eu tenho realmente muita confiança no génio humano. Talvez os americanos ou os
chineses inventem alguma coisa que permita regular o aquecimento climático, ou
até fazê-lo diminuir, fazê-lo recuar. Mas para já somos obrigados a transformar
o nosso modo de produção, se quisermos conservar o planeta. E não fazemos nada.
MMC:
Este seria o meu último tópico, decorre naturalmente do anterior, tem a ver com
o hiato, a bifurcação entre aquilo que sabemos e aquilo em que acreditamos. É
como se vivêssemos em dois mundos, um que é alimentado pelo conhecimento, outro
pela sua negação, talvez porque disso viva o nosso conforto... e o nosso conformismo,
e talvez esteja aqui a razão da nossa inação.
Manuel
Maria Carrilho e Nicole Gnesotto, “Anatomia do estado do
mundo”, Debate, “Visão”, nº1752, 01-10-2026 a 07-10-2026, pp.54-62.
[Nicole Gnesotto é professora catedrática e vice-presidente do Instituto Jacques Delors. Foi chefe-adjunta do Centro de Análise e Previsão do MNE francês, entre 1987 e 1990, e também chefiou o Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, até 2007. Foi a primeira mulher a presidir o Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional de França e foi membro da Comissão do Livro Branco de Defesa, em 2013]
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