DE REGRESSO À UNIVERSIDADE
1.Eça de Queiroz entrou para Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1861, após o exame de admissão, no qual o domínio do francês pareceu requisito único, evocado, assim, pelo próprio, em O Francesismo: “E foi tudo óptimo, recitei o meu Racine, tão nobremente como se Luís XIV fosse lente, apanhei o meu nemine e, à tarde, uma tarde quente de Agosto, comi com delícia a minha travessa de arroz-doce na estalagem do Paço do Conde”. Ao futuro bacharel seria atribuído o número 124, o que significava que se sentaria nos bancos de trás durante as aulas: “ali, mais do que se seguir as aulas, jogavam-se as cartas, conversava-se, liam-se os jornais. O Direito pouco o interessava, os lentes menos ainda” (Maria Filomena Mónica, A Universidade, Relógio d’Água, 2026, p.36). Tímido, leitor compulsivo (“devorou, numa sofreguidão confusa, Balzac, Nerval, Hugo, Proudhon, Heine”), vagamente místico até então, metido a casa, Eça faria poucos amigos nos primeiros anos de faculdade. Seria a participação em um grupo de teatro académico a soltá-lo, pretendido romântico, ainda que nem as longas noites de fartas ceias, mulheres, guitarradas – da frequência do bordel da Lola, às “doses monumentais de sardinhas engorgitadas”, madrugada dentro, na taberna das tias Camelas – o tenham feito evocar com complacência esses tempos coimbrões (de pequenos almoços levados à cama). O descaso dos lentes (o desprezo para com os estudantes), os exames marcados 48 horas com antecedência para os quais bastaria estar atento às orais prévias (para se memorizar as perguntas/respostas fundamentais), a revolta com o reitor Basílio por retomar o Regulamento pombalino que impunha aos estudantes meia preta a subir acima dos joelhos, proibição de estar fora de casa depois do toque da Cabra, batina a usar aberta por trás, abotoada pelas costas e cozida adiante, com uma ordem de pequenos botões, talvez, mais do que tudo, a recusa da sebenta copiada aos manuais franceses que implicava atenção à aula apenas por parte do sebenteiro [“eu nem fazia sequer a ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha a ser isso da sebenta; mas, industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava sebenteiro o que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou comentar os que vinham dos outros – ou, então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos”, Trindade Coelho, Auto-Biographia e Cartas, 1910] e, sobretudo, instituição máxima, essa, a da sebenta, que depunha contra o espírito crítico, mereceram a pouco suave sova na corrosiva pena do mestre, criador do obtuso Zagalo (em O conde de Abranhos, lá onde a prosápia e arrogância dos bacharéis face aos fruticas era escarnecida na esclarecida ironia queiroziana): “Têm alguns espíritos ávidos de inovação, ainda que no fundo sinceramente afeiçoados aos princípios conservadores, sustentado que o sistema da sebenta (…) é antiquado. Eu considero, porém, a sebenta como a mais admirável disciplina para espíritos moços. O estudante, habituando-se, durante cinco anos, a decorar todas as noites, palavra por palavra, parágrafos que há quarenta anos permanecem imutáveis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o hábito salutar de aceitar sem discussão e com obediência as ideias preconcebidas, os princípios adoptados, os dogmas provados, as instituições reconhecidas (…) Se se acostuma a mocidade a não receber nenhuma ideia dos seus mestres sem verificar se é exacta, corre-se o perigo de a ver, mais tarde, não aceitar nenhuma instituição do seu país sem se certificar que é justa”.
2.George Steiner foi um defensor do elitismo, no sentido de se aspirar ao melhor presente na cultura, aceder ao qual dava muito trabalho, porque o que é excelente é dificílimo. A ideia de que a democracia tem uma dimensão aristocrática (órgãos não eleitos, nomeadamente) e que essa é fundamental para o bom funcionamento da mesma - Tribunal de Contas, Conselho de Finanças Públicas, etc. – é um postulado defendido por Daniel Innerarity[1].
No último ano, em Portugal, debateu-se, de novo, com intensidade, no espaço público, a questão das regras atinentes ao ingresso no ensino superior (no embate pós-pandemia e das alterações de normas nesse período gizadas[5]), do papel e da importância dos exames nacionais do Ensino Secundário, do número mínimo de tais provas requerido para o acesso à Universidade, da relação destas com o número de candidatos que nela (não) ingressa(ra)m, do futuro destes últimos (cidadãos), mas também de que profissionais futuros estaremos a falar (se não empoderados o bastante, no final do décimo segundo ano de escolaridade, para alcançarem uma nota suficiente em reduzido número de provas nacionais) e, no limite, do país que se deseja[6]. Maria Filomena Mónica, que se auto-compreende como vinda da esquerda do espectro ideológico critica, neste âmbito, uma “ideologia” que entenda, para fins de combate às desigualdades sociais, como positiva a perspectiva de que “a noção de elite ia desaparecer” e, bem assim, a ideia de que a escola “apenas deveria transmitir conhecimentos úteis. O saber puro, o deleite da descoberta, o prazer da experimentação deixaram de ter cabimento (…) substituídos (…) por outros «saberes», que vão de «choques tecnológicos» a «competências linguísticas»”. Sem tergiversar, Filomena Mónica, doutorada em Sociologia por Oxford, entende, diversamente daqueles constructos (desaparecimento da noção de elites e orientação exclusiva para um trabalho como marcas no/do ensino superior, nomeadamente), que a Universidade, pela sua natureza, “é uma instituição que deve ser frequentada pela aristocracia intelectual, que tem como vocação a universalidade e que deve adoptar como critério a exigência”.
Na universalidade vinda de exigir (na vocação de universalidade da universidade), descortinamos, também, um elitismo para todos (uma “cultura elitista para todos”, Antoine Vitez), o que supõe, ademais, e previamente à entrada na universidade e após esta, uma densa acção social escolar, uma, tão extensa quanto possível, massa crítica tutorial proporcionada ao longo do percurso académico dos alunos (“tive sorte com os meus mestres. Conseguiram persuadir-me de que, na melhor das suas formas, a relação mestre-aluno é uma alegoria do amor desinteressado”, George Steiner[7]], pela Escola/Estado (com toda a comunidade, sociedade civil e fundações ou empresas, também a envolver-se nesta procura de dar resposta máxima possível), a demanda de uma sensível atenção à diversificação da oferta (curricular), um cuidar de diferentes talentos, de vocações e de acolhimento pedagógico extremamente exigentes (particularmente) em época de rarefacção de docentes[8].
Porque crê essencial voltar ao básico, a académica e avó recorda aos mais jovens que “mesmo no caso de terem médias altas no 12º ano, não vão necessariamente para Medicina, Direito ou Gestão, as opções que, tendo em conta uma real ou hipotética empregabilidade, os paizinhos apreciam. Depois, relembro-lhes que uma Universidade não serve apenas, nem sobretudo, para formar os indivíduos robóticos que os políticos julgam necessários ao funcionamento da Economia. Uma boa Universidade destina-se sobretudo a ensinar a pensar. Isto, sim, é imprescindível. Os jovens não devem encarar a Universidade como um comboio. Se tiverem escolhido um curso cujos carris conduzam a um trabalho que não seja do seu agrado, devem voltar para trás. Na vida, há muitos caminhos” e lembra a conferência de J.K Rowling aos alunos de Harvard (Uma vida muito boa: os benefícios do fracasso e a importância da imaginação, disponível no youtube), em 2008, na qual a romancista referiu como ultrapassou os desejos dos pais, que eram pobres: “compreensivelmente, estes andavam preocupados com o futuro da filha, tendo procurado convencê-la de que, em vez de Humanidades, escolhesse um curso com maior empregabilidade. Mal sabiam que, ao resistir ao seu apelo, ela se iria tornar milionária”.
Em Oxford, onde os alunos se dividem não por disciplinas, mas por Colleges a (também) licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa aprenderia, no refeitório, com uma colega “o que era um acelerador de partículas”, enquanto outra menina “me contou como andava a analisar a reprodução de certas aves e um outro aluno me confidenciou que o maior escritor russo era Turguenev. Não há modo de explicar quanto isto contribuiu para a minha cultura geral”, embora nada se comparasse à conversa que manteve com o seu supervisor (“desde a Grécia Antiga que se tem discutido qual a melhor forma de ensinar. Fizeram-se centenas de experiências para afinal se chegar à conclusão de que seria através do diálogo. O mestre desafia o aluno, corrige-o quando este diz asneiras e louva-o quando este é capaz de elaborar um argumento inteligente. É isto que, sob a designação de tutorials, as grandes universidades mantêm”), Alan Ryan (este que, aliás, lutou para que o doutoramento, em vez do bacharelato, fosse uma possibilidade para Filomena Mónica e que uma voz própria, e não apenas um resumo de ideias alheias, assomasse na então discente).
De que Coimbra se lembrarão, de que peças de teatro, de que filmes, de
que exposições, de que concertos e de que conferências, de que diálogos
e debates com colegas se recordarão –
o currículo outro do curso -, numa
palavra, que curiosidade – que
chama/gosto pelo saber terá sido neles alimentado? - terão os futuros alunos da
universidade portuguesa nas próximas décadas?[14]
Pedro Miranda
Texto publicado na revista “Pensar(es)”,
nº31, Junho 2026, do Agrupamento de Escolas
Dr. João de Araújo Correia
[1]
Innerarity,
Daniel, A política em tempos de indignação, Dom Quixote, 2016. Mutatis
mutandis, em certo
modo de analogia, atentemos, no âmbito da escola no seio das sociedades abertas em que nos situamos e, bem assim, da necessidade de instituições que, nelas, nos
proporcionem experiências fechadas na
observação do perito em Educação e doutor em Filosofia, Gregório Luri: “Todos sabemos que nós, pessoas do século XXI,
seríamos incapazes de viver numa sociedade
fechada. Afogar-nos-íamos. (…) Mas,
de uma maneira ou de outra, ansiamos algo da antiga consistência e
estabilidade. Por isso criamos instâncias dentro da sociedade aberta que nos
protejam da melancolia inerente ao fluxo permanente de todas as coisas.
Precisamos de espaços que preservem a possibilidade de experiências fechadas” (Luri, Gregório, Prohibido
repetir, Rosamerón, Madrid, 2024, p.23). A família, a amizade, a escola seriam três dessas instituições. Em realidade, “ainda que vivamos em sociedades abertas, continuamos a levar connosco
uma necessidade de enraizamento e sentido. Não se trata de um luxo nem de
um capricho, mas de um imperativo existencial; por isso, não podemos renunciar
a refúgios de estabilidade (ainda que seja provisória) que nos deem a ilusão de
um lugar, de uma fidelidade, de uma permanência, de uma previsibilidade”. As necessidades existenciais superam as
biológicas, sustenta o ensaísta (alguns diriam que tal é afirmado a partir
de uma época, e de zona do globo, em que as necessidades biológicas se
encontram, para a maioria, por norma, relativamente satisfeitas). Uma antiga escola, ou uma escola à antiga, com todos os vícios e problemas inerentes à
impossibilidade, prática, de questionamento (e a coerção a uma obediência cega)
inculcava, na perspectiva de Luri, nos que a integravam, a ideia de pertença -
da escola, de professores e alunos, comunidade educativa e seus conteúdos e
métodos - a uma ordem superior. A escola do século XIX, com a sua ideia de progresso, de escolarização, cultura
era uma escola optimista. A do século XXI, que já separa instrução de educação com naturalidade, o que nem sempre sucedeu em termos
históricos (pense-se nas diretivas
aos professores para que fossem um
exemplo para toda a comunidade, abstendo-se de frequentar tabernas ou, mesmo,
cafés, ou o continuum
professores-pais no que se pretendia para o jovem em formação, não isento, em
dadas épocas históricas, de significar, também, diga-se, com não pouca
frequência, momentos de injustas duplas penalizações para o educando), parece destituída de auto-confiança (nos currículos,
na didática…),
desesperançada (do conseguimento que
o ensino alcance, não estando, desde
logo, claro de que ideia de humano parte, e que objectivo máximo prossegue),
de expectativas quanto ao que o humano é capaz (inerente ao inevitável
pluralismo das nossas sociedades, expectativas
menos elevadas para poder haver consensos – já não o reclamar ou aspirar a um
conjunto de patamares que se traduziriam no tactear a beleza, a verdade e o bem.
George Steiner diria que em sociedades
apartadas do Totalmente Outro a vara de medir, e a tentativa de chegar ao
sublime, ficam claramente prejudicadas) e isso transmite-se a quem a
frequenta, nota Luri. Daí que “os que
dizem que a escola não evoluiu ou são muito jovens, ou são desmemoriados”.
[2]
Bobbio,
Norberto, Direita e Esquerda – razões e significados
de uma distinção política, Presença, 1995.
[3]
Almeida,
Onésimo Teotónio,
“Humanidades. Nem só das STEM vive o Homem (e muito menos a Universidade)”,
Conferência de abertura de um colóquio sobre Línguas e Humanidades na
Universidade Lusófona em 5 de Maio de 2025, reproduzida, de forma abreviada, na
LER, nº176, Outono e Inverno de
2025-2026, pp.36-44.
[4]
Kronman,
Anthony T., Los nuevos conservadores, Sekotia,
Almuzara, Córdoba, 2025, p.21.
[5]
Sobre estas, o investigador em
Educação Paulo Freitas interroga: os
alunos que acederam à Universidade sob as regras existentes ao tempo da
pandemia Covid19, “tiveram sucesso no ensino superior? Não é
só entrar, é com que aprendizagem se entra e, depois, se se é capaz de terminar
ou não. É possível combinar quantidade e qualidade, mas isso é um trabalho de
longo prazo, porque significa que temos de formar melhor. Se quisermos sucesso
no final do Secundário, esse é um trabalho que começa muito antes”, Público, 20-04-2026, p.4.
[6]
“A alternativa que os países enfrentam [para serem bem-sucedidos] face
ao futuro é [possuírem massa crítica de] conhecimento ou [deterem e explorarem
eficazmente] recursos naturais”, Luri,
Gregório, Prohibido repetir,
Rosamerón, 2024, p. 160. Em visita à Colômbia, em 2022, Gregório Luri, que crê
que é possível elevar o nível de aprendizagem dos alunos (mormente, no seu
país), foi desafiado pelo professor do Ensino Secundário, em Cúcuta, Jorge Enrique Ramirez, para ir falar
aos seus alunos acerca de Sócrates.
Tendo obtido do seu interlocutor a resposta pretendida, Ramirez fez, contudo, a
seguinte advertência final: “Esqueci-me
de lhe dizer o mais importante: por favor, respeite os nossos alunos, não lhes
coloque as coisas demasiado fáceis”. Para um dos referentes em âmbito educativo
– e em um pensamento que sustenta a validade de muitos dos métodos tradicionais
no ensino com uma inovação moderada e testada/fundamentada/reflexiva/provada -
em Espanha, Luri, a conclusão é a de que “o
excessivamente fácil impede que o escolar desfrute das conquistas do seu
esforço”. Outro exemplo dado pelo perito em Educação, no sentido de elevar
as pessoas-alunos-cidadãos-técnicos, e do esforço nisso, é o daqueles professores que ensinam alunos com
problemas oncológicos e aos quais, não raramente, se diagnostica não muito
tempo de vida, e que, sem prejuízo de conhecerem tal realidade e no completo
respeito do aluno, se centram, integralmente, na sua tarefa/missão de
transmitir conhecimento com o maior rigor possível, para isso como que se
abstraindo de um tratamento emocional mais paternalista ou condescendente (para com o discente). No que ao país
que se deseja diz respeito, definitivamente, o bom domínio da língua, quer no
que concerne à oralidade, quer no que diz respeito à escrita (nesta última, não
somente plasmamos o que pensamos, como ela nos ajuda a saber que coisa é essa o
que valoramos acerca de uma dada problemática sobre a qual nos debruçamos), o conhecimento como requisito para um
pensamento crítico que reconheça, refute e rejeite o primarismo que pretenda
permear, e enlamear, todo o espaço público, a afirmação, concomitante, de um
modo civilizado e amável de habitar a cidade afiguram-se-nos como elementos
fundamentais. Daí que quando Luri critica programas
ou referentes escolares, em
diferentes países (o autor refere expressamente os casos de Espanha e Estados
Unidos), que atentam nos bons livros (procurando equivaler publicações de
densidade demasiado exígua aos mesmos), ou no correcto e variegado uso da
língua materna, como elementos classistas não possamos deixar de subscrever a
sua invectiva contra tal demagogia (“nos
EUA, por exemplo, o National Council of
Teachers of English sustentou que a correcção linguística era imoral,
porque impunha os usos linguísticos de uma classe social a outra. A própria
ideia de correcção linguística seria uma imposição classista”, p.188). A
qual se vê confirmada por aquilo que, entre outros, Alberto Manguel tinha assinalado: outrora, a pessoa tinha vergonha de não ter lido certos livros, obras
de referência; hoje, não só tal não sucede como há, inclusive, uma afirmação
vigorosa e auto-satisfeita do não ter lido. Na síntese de Gregório Luri, “gostem ou não, a ignorância não vale o
mesmo do que o saber” (p.123).
[7]
cf. Ordine, Nuccio, George
Steiner, o hóspede incómodo, Acantilado,
2023, p.22.
[8]
Não podemos, com honestidade
intelectual, deixar de ponderar, em simultâneo com este ideal, com Gregório
Luri, o abeirar da distância que pode existir entre aquele e a concreta
situação face a uma exigência imensa que daqui decorre: “em números redondos, em
Espanha há 760000 docentes (…) Equivocar-nos-íamos
gravemente se desenhássemos as nossas leis educativos pensando só [nos 10% mais
capacitados] (…) Não devemos aspirar a mais qualidade entre os professores
do que a que podiam garantir 650 mil árbitros de futebol (…) O que aconteceria se exigíssemos a esses
árbitros que tratassem cada jogador
de uma maneira diferente, diferenciando a arbitragem, segundo as condições
cognitivas, sociais e emotivas dos jogadores. A única falha desta analogia é
que aos professores pagamos-lhes menos e exigimos-lhes mais. Exigimos-lhes que
tratem cada criança de acordo com as suas necessidades e níveis, que
experimentem com elas novas metodologias (que, como tudo o que é novo,
envelhecem muito rapidamente), que sejam também os seus terapeutas para atender
à sua educação emocional, que preparem as aulas, que avaliem, se reúnam com os
pais, participem nas reuniões da escola, trabalhem em equipa, assistam a
formações, atendam as suas turmas, vigiem os passeios e o pátio, substituam os
seus companheiros ausentes…E que não se fiem do único que poderia ajudá-los a
baixar as suas tarefas, um bom livro de texto. Queremos que elaborem os seus
próprios materiais”. Luri, o.c., pp.151-152. Se, em função da importância
ontológica da educação, e da centralidade desta no pensamento de Luri, se
poderia questionar da analogia com o árbitro de futebol, do ponto de vista do
que é o investimento emocional/afectivo e económico/financeiro colocado no
futebol profissional, na Ibéria, bem como da constatação de qualificações
académicas crescentes entre árbitros de futebol não há-de achar-se isenta de
pertinência a comparação, não sem recurso a alguma ironia pelo autor, é certo,
realizada.
[9]
Almeida, Onésimo Teotónio, o.c., p.36-44.
[10]
“Acho que esta alteração [passagem, nesta legislatura, da
obrigatoriedade de dois exames nacionais, com nota mínima de 9,5, por parte dos
alunos que pretendam ingressar num curso no Ensino Superior, à possibilidade de
cada instituição do Ensino Superior exigir apenas uma prova de ingresso] foi feita com metade da história
[exclusivamente com base nos números de colocados] porque temos este ponto de tensão: a queda dos candidatos é um problema
porque há instituições que, sem eles, perdem financiamento e recursos, mas, por
outro lado, queremos ser exigentes nas aprendizagens
de quem entra no ensino superior”, Paulo
Freitas, investigador em matéria de Educação, Público, 20-04-2026, p.4.
[11]
“Observo uma tendência nos países ricos para a mercantilização da
educação. Os estudantes convertem-se em consumidores e os professores em
provedores de serviços”, Andreas
Schleicher, diretor de Educação da OCDE,
citado por Gregório Luri, o.c.,
p.101.
[12]
Na proposta de Luri, a memorização, durante todo o período
formativo do indivíduo, deve adquirir centralidade (como se compreenderá
atentando no irónico título do seu livro que aqui vimos sublinhando, “Prohibido
repetir”): só sabemos aquilo de que nos
lembramos (Frei Luís de Granada).
A memória teve em Platão, Shakespeare ou Pascal lídimos defensores e se evocarmos os sobreviventes de campos de concentração e extermínio que
afiançaram ter sobrevivido graças a versos sabidos de cor – como Primo Levi relativamente aos escritos
por Dante, enlace entre memória e
arte na sobrevivência da pessoa – teremos uma noção plena da relevância
daquela. Saber de cor os nomes dos rios de Espanha não relevaria, somente, para
o conhecimento destes (talvez mais tarde olvidados), mas para a exercitação da
memória, ela mesma, e para uma cultura de esforço (uma lógica de promoção das virtudes, mais do que do emocional). Um dia que o Google ou outros
motores de busca deixassem de
funcionar veríamos quanto carecíamos, e devíamos treinar, a memória.
[13]
Ordine, Nuccio, o.c., pp.21-22.
[14] Ao longo do percurso escolar dos
alunos, Gregório Luri salienta a importância da passagem do 3º para o 4º ano – do aprender a ler, para o aprender, lendo. Olhando à
experiência internacional, o perito em Educação
sublinha como 80% dos alunos
sul-coreanos têm explicações desde a primária,
aulas particulares de que dispõem 90% dos alunos japoneses, de acordo com
um relatório da The Economist. Neste
contexto, Luri entende que a perda de
aulas – em favor de outras atividades
-, bem como a eliminação dos TPC – levada a cabo, por exemplo, na
Polónia de Donald Tusk – é um luxo a
que só os que podem proporcionar aulas-extra/explicações aos seus filhos se podem
dar, penalizando, por conseguinte, os pobres. O mesmo se diga relativamente à
complacência com a indisciplina em
sala de aula e as consequências para a (não) aprendizagem que dela poderá advir
(especialmente prejudicial para quem não possa, posteriormente, substituir
essas aulas). Um ensino explícito, com
permanente interacção entre professor e aluno, e não um aluno a aprender por si e o professor como mero acompanhante ou facilitador, na abordagem deste investigador é crucial em idades
precoces e em alunos que não possuem uma considerável bagem vocabular/semântica
como ponto de partida familiar/na escala social. Não só não está tudo na internet como, nesta, se encontra um mar caótico de informações, mas não um
conjunto ordenado e sistematizado de
conhecimentos. Apesar da defesa de métodos mais inovadores no ensino hoje se encontrar difundida – a gamificação recuará a Erasmo -, Luri observa, todavia, como “os papers
e as patentes são cada vez menos
disruptivos”. Ademais, alerta para que espaços abertos, utilizados agora na
aprendizagem, tendem a dispersar a concentração e que a estabilidade e a rotina
merecem consideração. A noção de que 65%
dos trabalhos que as crianças de hoje irão desempenhar, como homens e mulheres
amanhã, não existem encontra-se “desacreditada” e até o “aprender a aprender”,
a existência de ideias originais e diferentes (é necessário conhecer as
precedentes) precisa de conhecimentos prévios (que o autor
antepõe a competências). Pode dar-se, ainda, o caso de a melhores
classificações não corresponderem mais e melhores conhecimentos. Sobre a
hoje muito questionada perda de atenção,
o ensaísta interroga se é exatamente desta que se trata ou se estamos,
fundamentalmente, perante uma perda de atenção em particular: a atenção
escolar. Quanto ao objectivo de uma educação humanista, esta devia
passar pela manutenção do mistério
que somos para nós mesmos, como Santo Agostinho já afirmava há mais de 1500
anos: “Santo Agostinho admirava-se do
mistério que ele era para si próprio. Não acabava de entender tudo o que era.
Sentia que a sua alma não tinha capacidade suficiente para abarcar todo o seu
ser. De certa forma, estava, à vez, fora de si mesma e em si mesma. Tudo isto
que a ele o enchia de admiração e surpresa, acontece connosco também, mas não
costumamos deter-nos para acolher as nossas penumbras como um valor. Somos um
enigma para nós mesmos e aí reside parte da nossa grandeza, porque graças a
isso temos uma biografia. Cada vez tenho mais claro que um dos fins de uma
educação humanista é preservar o mistério que, no fundo, somos. Enquanto o
conseguirmos seremos diferentes das máquinas”.
De Luri, não subscreveria, entre outras, as alusões ao
que considera consensuais referentes em Educação em Portugal (o que não é
exatamente o caso) e identifico-me, no domínio da inteligência, pensamento e
conhecimentos disciplinares com o que escreve Edgar Morin: “A inteligência e o pensamento estão, eles
próprios, em crise (…) no domínio dos conhecimentos disciplinares separados
arbitrariamente e cuja associação permitiria tratar os problemas fundamentais e
globais com um pensamento complexo” (Edgar Morin, “Lições da História”, Crítica, 2025, p.101).


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