FOLHADELA
"Fui autorizado e mudei-me para Vila Real para preparar as eleições [constituintes, de 1975]. Foi uma aprendizagem fabulosa porque conheci todas aquelas aldeias (...) e numa dessas vezes fui a uma escola primária numa aldeia, Folhadela, onde a minha mãe tinha vivido quando era criança. A escola não tinha luz eléctrica, estavam lá umas senhoras de idade com uns xailes pretos - a imagem cinematográfica italiana perfeita dos anos 1920 e 1930. Entrei, fui cumprimentando as pessoas, e quando passei junto das duas senhoras ouço uma dizer: 'Podemos votar neste, que é filho da Céuzinha'. A frase ficou para sempre na minha cabeça, pois era o melhor resumo de um programa político e da situação portuguesa de então. (...) Para minha 'honra', [na Constituinte] ainda cheguei a votar no hemiciclo um dos artigos que mais barulho deu, o que interditava total e definitivamente a pena de morte. Em Portugal, há a convicção de que fora abolida no século XIX, mdepois restaurada e novamente abolida, mas nunca fora anulada integralmente. Isto é, a pena de morte para soldados traidores e desertores em campo de batalha mantinha-se na lei. Foi um dia que nunca esqueci."
António Barreto, in "António Barreto. Do meu ponto de vista" (Contraponto, 2026), livro de João Céu e Silva, fruto de 25 conversas, realizadas com Barreto, entre Junho de 2025 e Fevereiro de 2026, p.79.
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